Por Matheus Costa | 19/06/2021 03:02

Depois do grandioso UFC 263, o UFC retorna ao seu habitat natural em Las Vegas, Nevada (EUA) para realizar mais um evento. Trata-se do UFC Vegas 29, sediado no UFC Apex e com um card de qualidade no formato fight night.

Na luta principal da noite, o folclórico Zumbi Coreano retorna ao octógono do UFC para um confronto bastante interessante pela categoria dos penas. Seu adversário será Dan Ige, um porradeiro de respeito que vem construindo seu nome na excelente divisão de até 66kg.

Já pela luta coprincipal da noite, o veteraníssimo Aleksei Oleinik tenta manter seu emprego na maior organização de MMA do mundo e afastar a má fase contra o jovem Sergey Spivak, que mira o ranking dos pesos pesados e chega em busca de anotar sua terceira vitória consecutiva.

Mais duas lutas chamam atenção ao longo do card. Em duelo de pegadores na categoria dos meios-médios, o brasileiro Dhiego Lima encara o veterano Matt Brown em uma luta que promete ação durante os três rounds. Além disso, o equatoriano Marlon Vera encara Davey Grant pela divisão dos galos em um confronto promissor.

O UFC Vegas 29 será realizado neste sábado (20) e tem início previsto com o card preliminar às 17h, enquanto o card principal tem início previsto às 20h pelo horário de Brasília. O evento contará com transmissão exclusiva no Brasil pelo Canal Combate.

Peso pena: #8 Dan Ige (EUA) vs. #4 Chan Sung Jung (COR)

Por Matheus Costa

Dan Ige (15-3 no MMA, 7-2 no UFC) é um daqueles clássicos lutadores que desembarcam no UFC sem qualquer expectativa de que possa se tornar algo relevante na maior organização do mundo, mas acaba sendo um prospecto que passa despercebido e se torna uma realidade em pouco tempo. Oriundo do Contender Series em 2017, o “50k” precisou de apenas três anos para adentrar ao top 10 da categoria dos penas e somar diversas vitórias de respeito ao seu currículo.

Forjado nos tatames do wrestling, Ige, que também atua como empresário fora do octógono, o lutador da Xtreme Couture foi evoluindo aos poucos em todas as áreas do jogo. Na luta em pé, descobriu que possui um poder de respeito. Canhoto esperto, Dan se destaca por criar ângulos diferentes na hora de atacar seus adversários, sempre com volume acentuado de golpes e com um jogo de pernas de se destacar, seja para golpear ou para ajudar na movimentação. Sua defesa não é excelente, mas sua inteligência dentro do octógono compensa.

Num esporte repleto de apelidos completamente diferente e curiosos, chegou a hora de falar do homem que possui um dos melhores e mais realistas de todos. O sul-coreano Chan Sung Jung (16-6 no MMA, 6-3 no UFC), também conhecido popularmente como Zumbi Coreano, é um dos lutadores mais raçudos, selvagens e intensos que o MMA já viu nos últimos anos. Infelizmente, ele se afastou do MMA por cerca de quatro anos por ser obrigado a cumprir serviços militares no país justamente quando ele parecia estar em seu auge físico e técnico. Não importa: ele ainda é um dos melhores lutadores de uma das melhores categorias de peso do UFC.

O Zumbi Coreano é um lutador bastante ativo desde o soar do gongo. Isto é, você sempre deve esperar muito volume, muita intensidade e muita pressão por parte do sul-coreano, que sempre introduz um ritmo alucinante e não faz a menor questão de guardar qualquer resquício de energia. Mas isso não quer dizer que Sung Jung seja um lutador bruto e sem refino – MUITO PELO CONTRÁRIO. O Sul-coreano é um lutador técnico e polido em praticamente todas as áreas. O grande problema é a dose extasiante de amor pela violência, que acabou lhe prejudicando em alguns momentos de sua carreira, como o épico nocaute sofrido para Yair Rodriguez no último segundo de uma luta de cinco rounds em que ele estava vencendo, mas decidiu partir para cima do mexicano igual um louco.

Chan Sung Jung vs Dan Ige odds - BestFightOdds

Temos em mãos uma luta que deve render ótimos momentos e talvez seja uma das melhores do ano de 2021 para o fã de MMA. Dois lutadores bem agressivos, com ótima qualidade na trocação e um senso de agressividade que garante o entretenimento sem deixar dúvidas. Acho que o diferencial do confronto, no entanto, será a luta agarrada de Ige, que pode usar o jogo de quedas para descer a lenha no sul-coreano e usar seu excelente controle de posição. Por isso, a aposta fica para o triunfo do norte-americano por decisão.

Peso pesado: #15 Aleksei Oleinik (RUS) vs. Sergey Spivak (MDV)

Por Idonaldo Filho

Um dos mais veteranos atletas não só do UFC, mas do mundo, o russo Aleksei Oleinik (59-15 no MMA, 8-6 no UFC) segue firme e forte no líder do mercado, independentemente dos desempenhos pífios recentes. Em seu último combate, o Boa Constrictor foi derrotado de forma rápida pelo ascendente Chris Daukaus, sendo nocauteado ainda no primeiro assalto. Antes do duelo contra Daukaus, foi o nocauteador Derrick Lewis a derrotar brutalmente Aleksei que, prestes a completar 44 anos, está nitidamente já nas últimas.

O jogo de Oleinik é um dos mais conhecidos do UFC. Em pé, espere mata-cobras para todos os lados, com ínfima taxa de acerto, mas se por algum milagre a mão entrar, o poder de nocaute é significativo. O sambo é razoável, não tem muito físico mais para poder derrubar os oponentes e, além de ser um pesado pequeno, o condicionamento não permite tanta isometria mais. Indo para o chão, aí sim o russo está em casa, sendo um dos mais traiçoeiros atletas do UFC, com muita habilidade principalmente com o ezequiel, especialidade da casa, mas também conseguindo estrangulamentos grossos como neck crancks e mata-leões de posições pouco ortodoxas. Já citada a pouca habilidade em pé de Oleinik, igualmente há uma deficiência defensiva e, a absorção de golpes não está em dia mais.

Sergei Spivak (12-2 no MMA, 3-2 no UFC) foi destacado pelo MMA Brasil como um atleta para ficar de olho no futuro, e considerando a pouca idade para a divisão (26 anos), tem muito tempo ainda para evolução. Seu início no UFC foi turbulento, atropelado por um ranqueado em Walt Harris, mas aplicando um vareio no hypado Tai Tuivasa. Quando subiu o nível novamente, mostrou que ainda não está pronto, sendo anulado por Marcin Tybura, mas logo acumulou boas vitórias contra Carlos Boi e Jared Vanderaa.

Ainda que seja pouco atlético e careça de explosão, Spivak é um lutador com recursos. Em pé, não inspira muita confiança, mostrando um jab eficiente, alguns chutes baixos, mas se acuando bastante quando atacado. A luta agarrada é onde tem mais recurso, mostrando eficiência no clinch, controlando bem o adversário, golpeando rente a grade e, oferecendo risco com quedas plásticas do sambo. No solo, Spivak mantêm controle do oponente e ameaça com o ground and pound, tendo também finalizações grosseiras similares a de seu adversário, que dificilmente surtirão efeito. No final das contas, é um lutador mais novo e mais moderno que Oleinik, mas que ainda é um pouco verde e pode cair em armadilhas.

Aleksei Oliynyk vs Serghei Spivac odds - BestFightOdds

Oleinik não inspira NENHUMA confiança mais. Todos sabemos que é um craque no jiu-jítsu, mas anda difícil chegar lá, principalmente diante de sua nítida fragilidade e da dificuldade em quedar, dado o péssimo condicionamento e a diferença de tamanho. Acredito que Spivak conseguirá levar a luta para a grade, amassar Oleinik e, conseguir um nocaute tardio sobre o que sobrar do cansado russo na metade final da peleja.

Peso galo: #15 Marlon Vera (COL) vs. Davey Grant (ING)

Por Israel Silveira

Um dos atletas mais divertidos de se assistir na divisão dos galos, Marlon Vera (16-7-1 no MMA, 10-6 no UFC) se firmou na divisão, apesar de claramente ter encontrado seu teto. Oriundo do TUF América Latina, Vera chegou ao UFC como um grappler que gostava de se arriscar em pé, mas eventualmente evoluiu para um kickboxer sólido, tendo recentemente derrotado o hypado Sean O’Malley utilizando low kicks que eventualmente fizeram O’Malley sucumbir. Essa vitória garantiu para Vera a chance de lutar contra José Aldo e Vera teve boa performance, mas acabou derrotado em uma decisão apertada.

Vera evoluiu bastante em sua defesa de queda que já o deixou na mão contra o próprio Davey Grant em 2016. Na verdade o equatoriano foi colocado de costas para o chão em 9 de suas 16 lutas do UFC, mas vem melhorando neste quesito, estando perfeito nas últimas 4 lutas. Ele traz também bom arsenal de low kicks e bastante potência na mão esquerda, além de ótimo queixo. Seu principal ponto fraco até aqui vem sendo sua tomada de decisão, tomando como exemplo a última luta, ele tomou a questionável decisão de puxar José Aldo para a guarda no último round.

Davey Grant (13-4 no MMA, 4-3 no UFC) a exemplo de Marlon Vera, tem como agressividade a sua marca registrada. O inglês se firmou no UFC em 2016, mas vive o melhor momento da carreira, estando invicto nas últimas três lutas mesmo sendo zebra nas três. Ele vem de derrotar o ótimo prospecto Jonathan Martinez em excelente luta onde Martinez era claramente o melhor striker, mas acabou sucumbindo às pesadas mãos de Grant.

Grant, a exemplo de Marlon Vera, também chegou ao UFC como grappler, mas vem de nocautear dois adversários que na teoria eram melhores strikers que ele. Um adepto do lay and pray, Grant não hesita em ficar um round inteiro por cima se conseguir a queda. Ele vem se arriscando cada vez maias em pé e colhendo bons frutos, mas sua defesa é bastante vazada e seus ataques previsíveis, já que ele tenta repetidas vezes conectar o mesmo overhand de direita.

Davey Grant vs Marlon Vera odds - BestFightOdds

Esta é uma luta onde Marlon Vera tem a faca e o queijo na mão para a vitória: sua defesa de quedas evoluiu muito e ele é o melhor striker do confronto. Seu queixo também deve ser capaz de aguentar os melhores golpes de Grant. Caso Vera consiga manter a luta em pé ele deverá ser capaz de controlar o inglês na distância e eventualmente sair vitorioso por decisão.

Peso meio-médio: Dhiego Lima (BRA) vs. Matt Brown (EUA)

Por Gustavo Lima

Dhiego Lima (15-8 MMA, 4-6 UFC) é um daqueles atletas presentes no plantel do UFC cujas expectativas residem numa zona completamente neutra. Situação que curiosamente parece afetar uma parcela considerável da divisão até 77kg da organização. Vice-campeão de 2 TUFs e ex-campeão do Titan FC, o goiano de 31 anos é um bom lutador, mas possui algumas limitações que nunca foram corrigidas ao longo da carreira. Nessa idade e já com uma carreira relativamente longa, muitos questionamentos são feitos sobre o que ainda resta para o brasileiro na companhia.

Nesta segunda passagem pelo UFC, Lima ostenta cartel 3-3, com vitórias sobre nomes que se encontram ali na “nota seis pra passar de ano” com muita dificuldade. Duas delas por decisão dividida (Luke Jumeau e Court McGee). Estes embates mostram muito claramente o teto do brasileiro, que apesar de fazer de tudo num nível decente, não é excelente em nenhum aspecto de seu jogo. Problemas defensivos (na trocação e nas quedas) e a já conhecida baixa capacidade de absorção entram na equação para eclipsar ainda mais as qualidades que Dhiego possui.

Matt Brown (22-18 MMA, 15-12 UFC) tem um histórico bacana na organização e já foi um nome interessante no meio-médio, mas hoje também ocupa posição nebulosa na mesma twilight zone (rs) da categoria, flertando ocasionalmente com um sentimento de “o que eu ainda estou fazendo aqui?”. Aos quarenta anos de idade, o “Imortal” tem feito jus à alcunha ao seguir competindo na principal organização de MMA do planeta, mas a competitividade de outrora já parece ter morrido há algum tempo.

Desde que retornou da aposentadoria (algo bem sintomático para lutadores de MMA nessa fase da carreira), Brown soma cartel de 1-2. Sua vitória foi sobre Ben Saunders (outro residente assíduo do purgatório dos 77kg) e as derrotas para Carlos Condit (preciso nem falar) e Miguel Baeza, num combate onde Matt demonstrou alguma competitividade no primeiro assalto, mas acabou nocauteado. O UFC parece estar bem confortável em casar combates que se encontram nessa situação, o que eu acho justo de certa forma, tendo em vista a capacidade de produção que estes atletas possuem na atualidade. Este combate, entretanto, tem muita cara de luta valendo a manutenção do emprego.

Com absolutamente todas as ressalvas feitas até aqui, tecnicamente a impressão que dá é que Brown ainda tem de onde tirar recursos para sair de braços erguidos contra atletas de um certo nível, ainda que mais jovens e inteiros. A parte interessante desse duelo é justamente essa pulga atrás da orelha: será que Dhiego Lima consegue segurar o ímpeto dos flashes daquele antigo Matt Brown que apareceram nas duas últimas vezes que o estadunidense pisou no cage?

Dhiego Lima vs Matt Brown odds - BestFightOdds

Brown não é um sujeito lá tão fácil de ser derrubado e também não é presa tão fácil no chão. Matt é fisicamente forte e ainda parece se garantir no volume e no punch. Contra Dhiego, a soma de todos esses fatores tem cheiro de problema. Lima bate forte, mas dá muitos espaços em seu boxe e costuma ter dificuldades para achar a distância, sendo surpreendido por oponentes de nível inferior. A rota de colisão está traçada e, que pesem as mãos pesadas e a versatilidade do brasileiro, não acho que ele consiga apagar o que resta da chama do Imortal quando a porta do cage fechar. Minhas fichas vão em Matt Brown.