Por Edição MMA Brasil | 07/05/2021 12:45

card do UFC Vegas 26 sofreu bastante e perdeu lutas bem importantes, como o duelo principal entre TJ Dillashaw Cory Sandhagen. No entanto, o evento ainda oferece ao fã de MMA uma boa oportunidade de passar o sábado a noite assistindo lutas bem decentes.

Na luta principal da noite, a brasileira Marina Rodriguez chega a sua primeira luta principal na maior organização de MMA por obra do destino. Agora, a peso palha terá pela frente a experiente Michelle Waterson, ex-campeã do Invicta FC e que ainda tenta provar que pode competir com as melhores da divisão.

card principal também oferece duas grandes lutas. Nos meios-médios, o experiente Neil Magny tenta frear a ascensão de Geoff Neal na divisão de até 77kg. Enquanto isso, nos leves, o brasileiro Diego Ferreira mede forças contra o wrestler de calibre Gregor Gillespie.

O UFC Vegas 26 será realizado neste sábado (8) no UFC Apex em Las Vegas, Nevada (EUA). Com transmissão exclusiva do Canal Combate, o evento tem início previsto para 18:15h com o card preliminar, enquanto o card principal deve começar às 21:15h pelo horário oficial de Brasília.

Peso palha: #6 Marina Rodriguez (BRA) vs. #9 Michelle Waterson (EUA)

Por Gustavo Lima

A gaúcha Marina Rodriguez (13-1-2 MMA, 3-1-2 UFC) tem se aventurado contra bons nomes do peso palha desde que chegou na maior organização de MMA do mundo, em 2018. Com resultados e desempenhos majoritariamente positivos, chegou a hora da atual sexta colocada da divisão matar no peito a responsa de encabeçar um evento e se preparar para possivelmente guerrear por 25 minutos.

Após calar a boca do relator em sua última aparição no octógono, ocasião em que demonstrou grande evolução no grappling e estratégia impecável para vencer a ascendente Amanda Ribas, Rodriguez também mostrou que está em seu auge técnico e com uma curva de crescimento mais acentuada que o comum, especialmente para uma atleta já na casa dos trinta anos. Se o jogo de luta em pé tem sido virtualmente irretocável desde que Marina chegou ao UFC, com um muay thai eficiente e dominante, é o aperfeiçoamento de seu desempenho na luta agarrada que chamou a atenção em sua última aparição.

Na outra ponta da jaula estará Michelle Waterson (18-8 MMA, 6-4 UFC), carismática e conhecida striker que está bem perto de completar 15 anos nas artes marciais mistas. A “Karate Hottie” é nome constante no top 15 da categoria e apesar dos números não tão favoráveis, a combatente da Jackson Wink só foi parada por atletas de ponta (Rose, Tecia, Joanna e Esparza). Importante ressaltar que, em situação atípica para ambas as partes, o duelo de sábado ocorrerá na categoria até 58kg.

Waterson vem, inclusive, de uma vitória em luta principal contra Angela Hill no último mês de setembro. Cautelosa, calma e estratégica, Michelle não abre mão de suas vantagens para sair com a vitória debaixo do braço, fazendo bom uso de sua base de caratê, golpes desferidos da longa distância e os tradicionais chutes laterais com o selo Jackson MMA de qualidade. Esse estilo burocrático pode encher um pouco a paciência de quem está do outro lado da telinha, mas dependendo da oponente, diferentes desdobramentos podem tornar o combate interessante.

Quando colocamos frente a frente o jogo de MMA de ambas as competidoras, temos um contraste bacana. Marina usualmente busca a aproximação, fazendo bom uso de seu muay thai de maneira mais ortodoxa ao buscar o pocket e o clinch (e tem evoluído a ponto de depender menos disso em seus últimos combates). Waterson provavelmente construirá sua estratégia ao redor das características citadas no parágrafo anterior, pontuando pouco a pouco e procurando brechas para conectar bons golpes e – porque não? – levar a luta pro chão.

O ponto aqui é justamente a altíssima qualidade do striking de Marina Rodriguez, dotado de agressividade, precisão e volume. Até aqui, a brasileira passou no teste com louvor em todas as vezes que teve sua trocação colocada a prova, derrotando inclusive a mesma Tecia Torres que brecou sua oponente deste sábado. Se não fossem as grapplers de ofício que cruzaram seu caminho, a lutadora, que hoje treina em Florianópolis, teria um cartel ainda mais verde no UFC.

Marina Rodriguez vs Michelle Waterson odds - BestFightOdds

Em cima desses dados, entra também a diferença considerável de tamanho (e há de se especular força, dada a diferente faixa de peso onde será realizada a luta). Waterson não é a maior e nem a mais esguia peso-palha da organização, tendo encontrado algumas adversidades contra atletas maiores e que dificultavam a impressão de seu jogo, ainda que tecnicamente inferiores (Courtney Casey e Angela Hill, por exemplo). Marina tem quase 1,70m, mais alta e com distância de ataque maior. Isso pode acabar dificultando a manutenção de distância por parte de Waterson, especialmente com o decorrer dos rounds.

Isso me faz acreditar, como supracitado, que Michelle irá eventualmente adotar o grappling como estratégia para pontuar e/ou escapar de situações desfavoráveis em pé. Tendo em vista a melhora que vimos em Marina nos últimos tempos e o fato de que a perícia de Waterson na luta de chão não é tão notável e assustadora assim, acredito que o saldo geral aponta para uma vantagem da brasileira. Meu palpite é em Rodriguez, com alguma chance considerável ainda de conceber a Michelle sua primeira derrota por TKO competindo em alto nível.

Peso meio-médio: #9 Neil Magny (EUA) vs. #10 Geoff Neal (EUA)

Por Idonaldo Filho

Nono colocado do ranking dos meios-médios, Neil Magny (24-8 no MMA, 17-7 no UFC) é conhecido por ser um operário do MMA, atuando com muita frequência e sempre se mantendo entre os principais atletas da divisão. Muito subestimado, Magny conta com nomes de alta relevância em seu cartel, como Johnny Hendricks, Robbie Lawler, Carlos Condit e Kelvin Gastelum. Atualmente, vem de derrota, ao perder para o ascendente Michael Chiesa em janeiro.

Um lutador com grande envergadura, os mais de dois metros de braço que Magny possuí cada vez mais vem sendo bem utilizados, com evolução nítida nesse aspecto, mostrando eficiência no jab. Seu wrestling é a principal ferramenta, com habilidade no grappling e, tendo um clinch forte, bom dirty boxing e com quedas bem aplicadas. É preciso destacar o condicionamento cardiorrespiratório, dificilmente cansando nos combates. Por outro lado, Magny também se deixa ser pressionado em alguns momentos, quando não deveria. O chão é mediano, mesmo que tenha perdido nesta área para dois dos melhores jiu-jitsu da divisão. Também mostra dificuldade defendendo chutes baixos. Tem tudo para se manter sempre ranqueado, pois é um lutador hábil em tudo que o esporte pede.

Revelado pelo Dana White’s Contender Series e atleta da Fortis MMA, Geoff Neal (13-3 no MMA, 5-1 no UFC) também vem de derrota, sendo superado pelo excelente Stephen Thompson na trocação. Neal se mantinha invicto anteriormente, mas mostrou que há um teto. Porém, o texano sempre traz bastante entretenimento para o octógono, com seu bom poder de nocaute e realizando vários combates empolgantes.

Bastante agressivo, Geoff anda sempre para a frente buscando arrancar a cabeça de seu alvo. No striking, Neal tem interessante volume de golpes, habilidade no boxe e um chute alto perigoso. Por ser tão agressivo, vez ou outra Neal acaba também sendo atingido, como  Thompson mostrou. O wrestling não é muito utilizado ofensivamente, porém é uma opção existente para Geoff, uma vez que possuí um ground and pound que define combates. Enfrentando Magny, a atenção deve ir para a defesa de quedas e na aplicação de chutes baixos, considerando essa deficiência do oponente.

Geoffrey Neal vs Neil Magny odds - BestFightOdds

Neal é nocauteador e atlético, mas Magny sempre arranja um jeito de deixar os duelos apertados. Experiente, Neil enfrentou de tudo que o UFC poderia oferecer e, acredito que conseguirá vencer o combate com uma luta arrastada, mantendo a distância e contendo os avanços de Neal, levando-o para o clinch sempre que puder para cozinhar a luta, tentando quedas ocasionalmente.

Peso leve: Diego Ferreira (BRA) vs. Gregor Gillespie (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Diego Ferreira é um dos melhores lutadores brasileiros sem grife dentro do UFC, promissor e com talento, apesar de ser pouco conhecido e celebrado. O manaura não teve moleza na maior organização do mundo. Após estreiar com duas boas vitórias, foi pareado com Beneil Dariush e Dustin Poirier – dois dos melhores pesos leve do esporte – em sequência. Após se recuperar superando o bom Olivier Aubin-Mercier, foi suspenso por dois anos por doping.

O intervalo forçado renovou a carreira de CDF, que emendou uma excelente sequência de cinco lutas na volta, coroada com uma finalização sobre o ex-campeão Anthony Pettis. Na última luta, foi parado mais uma vez por Beneil Dariush, em luta apertada que acabou por decisão dividida. 

Com origem no jiu-jitsu, o faixa preta tem suas maiores habilidades na luta agarrada, mas vem desenvolvendo o jogo em pé para acompanhar. Seus maiores destaques são as mãos pesadas – ainda que não muito técnicas – e o talento nos scrambles, com grande facilidade para chegar às costas e encaixar finalizações. Isso, em partes, mitiga a falta de habilidade no wrestling, que apesar de acima da média, é fraco para a categoria povoada por daguestanis e All-americans. 

Falando em All-americans, o maior representante deles entre os leves é Gregor GIllespie, que chegou ao posto quatro vezes, além de ter sido campeão nacional e campeão estadual duas vezes no wrestling. 

Quando digo que Carlos Diego não tem moleza, não estou brincando. Gillespie é provavelmente o melhor wrestler da categoria e um dos melhores da organização – pelo menos no papel. Em seu último ano no esporte, competindo na 1a divisão da NCAA, ele obteve uma porcentagem de vitórias de 93%, incluindo um triunfo sobre um tal de Michael Chandler. 

Gillespie estreou no UFC em 2016, superando Glaico França por decisão. Em seguida, suplantou cinco adversários em sequência – todos por interrupção em apresentações dominantes – e começava a flertar com o topo da divisão mais disputada do MMA. Então, em 2019, foi casado com Kevin Lee e acabou sendo vítima de um dos nocautes mais brutais daquele ano, que acabou afastando-o do esporte por quase dois anos, provocando uma breve aposentadoria. 

Como esperado, Gregor tem entradas de double e single legs praticamente perfeitas, com habilidade incrível para finalizar as quedas, mesmo quando o oponente tenta defender. Seu jogo por cima é sufocante e incessante, com ground and pound potente e tentativas de finalização constantes, que o tornam um dos melhores lutadores do UFC jogando por cima. O boxe também evoluiu muito, e o americano conta com mãos pesadas e boa trocação no pocket, apesar de não ser dos mais técnicos. A má notícia para os oponentes é que, além da força descomunal, Gillespie tem gás infinito, o que permite que ele pressione sem parar, minando a resistência dos oponentes que acabam soterrados pelo volume de quedas e do jogo por cima. 

Diego Ferreira vs Gregor Gillespie odds - BestFightOdds

Repito: quando afirmei que Carlos Diego nunca teve moleza, eu não estava brincando. O brasileiro tem uma tarefa extremamente ingrata no sábado – a de recepcionar Gillespie na volta de sua “aposentadoria”. O casamento, no entanto, é muito intrigante. Ambos têm mãos pesadas e gostam de trocar sopapos em pé, o que pode nos oferecer bons momentos na trocação. Porém, é no chão que a coisa fica ainda mais interessante. Não há dúvidas de que o americano tem capacidade física e técnica para derrubar e dominar por cima. Mas CDF é excelente em criar scrambles e já lidou muito bem com wrestlers como Rustam Khabilov. Adicione-se ainda o fato de Gillespie estar parado e, possivelmente, desmotivado e as chances de Ferreira achar um pescoço ou encaixar uma mão pesada aumentam consideravelmente. 

Minha previsão, no entanto, será conservadora: aposto em Gillespie utilizando o seu arroz e feijão para encurtar, fazer força no clinch, derrubar, avançar posições e pontuar com ground and pound conquistando uma vitória na decisão. Um triunfo do brasileiro, porém, também não seria surpresa.