Por Edição MMA Brasil | 07/08/2021 15:35

Com o enorme imbróglio contratual com o campeão linear Francis Ngannou que envolveu até mesmo seu empresário em um conflito com o UFC, a organização decidiu seguir por outro caminho e trazer o cinturão interino para a categoria numa decisão contestada. Por isso, o UFC 265, que será realizado no Toyota Center em Houston, Texas (EUA), será protagonizado por um duelo que definirá o novo campeão da divisão dos pesados.

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Um dos lutadores mais carismáticos dos últimos anos no MMA, Derrick Lewis está longe de ser um primor técnico, mas ganhou a oportunidade de disputar o cinturão interino da categoria com méritos. Do outro lado do octógono, o francês Ciryl Gane representa o exato oposto do adversário americano: pouco carisma, muita técnica. Um dos nomes mais badalados nos últimos meses na categoria, Gane derrotou bons oponentes com atuações seguras e ganhou a chance de se tornar campeão.

A luta coprincipal do UFC 265 traz um duelo entre dois brasileiros que pode definir muita coisa na categoria dos galos. Novo frequentador da divisão, o ex-campeão dos penas José Aldo tenta somar sua segunda vitória no peso perante ao compatriota Pedro Munhoz, que tenta, enfim, provar que merece uma futura oportunidade pelo cinturão de até 61kg.

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Por fim, mais um representante brasileiro protagoniza um interessante duelo no card principal do UFC 265. Vivendo o auge de sua carreira, Vicente Luque chega com a missão de despachar o momento de Michael Chiesa, num confronto entre dois meios-médios que almejam o topo da categoria.

O UFC 265 será realizado neste sábado e terá transmissão exclusiva do Canal Combate no Brasil. O card preliminar está previsto para começar às 19:00h, enquanto o card principal deve começar às 22:00h pelo horário oficial de Brasília.

Peso pesado: 2# Derrick Lewis (EUA) vs. 3# Ciryl Gane (FRA)

Por Gustavo Lima

Derrick Lewis (25-7, 1 NC no MMA, 16-5 no UFC) vem em uma grande sequência de quatro vitórias e voltará a pisar no cage do UFC olhando para o cinturão, depois da derrota sofrida contra Daniel Cormier em novembro de 2018. O direito de uma nova chance pela coroa da divisão foi clamado após vencer com louvor Curtis Blaydes via nocaute no último mês de fevereiro, em luta cujo prêmio era virtualmente o posto de “number one contender”.

Tudo bem que dessa vez o cinturão é interino (resultado do impasse nas negociações entre o UFC e Francis Ngannou), porém o “Black Beast” tem ao seu lado a motivação de ter pela frente um oponente mais vencível que o monstruoso DC. Em uma divisão que já é naturalmente escassa de talento e ainda passa por dias difíceis – com Stipe e Ngannou insatisfeitos, Jon Jones em um eterno vai não vai, inúmeros outros sendo desgastados pela idade -, essa é, talvez, a chance de ouro que Lewis tem para dizer que sentou no trono, ainda que com um enorme asterisco na frente.

Do outro lado estará Cyril Gané (9-0 MMA, 6-0 UFC), talvez o maior prospecto a explodir nos pesos pesados desde Ngannou e que, hoje, já é indiscutivelmente realidade. Se eu disse no parágrafo anterior que o francês é mais “vencível” que DC foi para Lewis, o americano também não passa nem perto de ter vida fácil neste final de semana.
Gané é um dos raros sujeitos a despontarem na categoria até 120kg ao redor do globo com todas as caixinhas de seu formulário marcadas nas características que constituem um atleta de ponta de MMA. Um peso pesado natural graças a sua altura, envergadura e biotipo, Cyril também é atlético, inteligente, relativamente ágil e forjado como um atleta moderno da luta mista, possuindo boas noções de todos os aspectos do jogo (só este último ponto já é suficiente para colocá-lo em vantagem contra uma parcela esmagadora da divisão).

Em suas últimas lutas, o francês desbancou outros dois nomes que poderiam eventualmente estar disputando esse posto de candidato a título no cenário que se criou: Alexander Volkov e Jairzinho Rozenstruik. Gané leva muita vantagem na maioria dos casamentos por seu tamanho e sua polivalência, mas não é absolutamente fora de série em nada. Esses dois duelos supracitados ilustram isso bem, visto que o grandalhão russo ofereceu um duelo muito mais parelho a Cyril que Jairzinho, o menor e pior lutador dentre os dois.

Ao colocar frente a frente o estilo de ambos os lutadores que irão colidir no evento principal do sábado, alguns detalhes interessantes aparecem nas entrelinhas. Creio que, à primeira vista, a impressão é de que Gané é disparado o melhor striker por um abismo, mas, na prática, seu jogo de luta em pé possui algumas falhas grandes que acabam escondidas por sua envergadura e velocidade. Apesar de jabear bem, muitas vezes Cyril se expõe disparando a mão da frente como setup pra absolutamente nada. O in-fight aparenta induzir o francês a erros de movimentação e baixadas de guarda bisonhas, o que é um verdadeiro pote de ouro nas mãos de Lewis.

Todavia, Derrick não é exímio trocador e muito menos é capaz de imprimir pressão. O mais óbvio aqui é esperar que Gané tente manter o controle da distância de forma segura, minando pouco a pouco o oponente. Lewis também não tem nenhum pudor em “sentar e esperar”, enfeiar a luta, ouvir vaias e levar carco do árbitro central, então é bem possível vislumbrar um cenário onde esse chove não molha aconteça. Nesta circunstância, a vantagem é – em tese – do europeu.

Ciryl Gane vs Derrick Lewis odds - BestFightOdds

O grappling é uma carta na manga de Gané que pode virar completamente a mesa a favor do francês, visto que a diferença de qualidade técnica no chão é bem grande. Lewis chamou a atenção tempos atrás por dizer que sua estratégia ao ser derrubado é “apenas se levantar”, mas creio que com um oponente desses, não vai ser tão simples como foi em outras situações. Por outro lado, imagino que Cyril pensará duas vezes ao adotar uma estratégia que implique em se aproximar tanto de Lewis (especialmente pela maneira como vimos ele fazer isso em algumas lutas passadas e como ele se expõe). Ponderando todos estes fatores, creio que Gané é o favorito, mas essa margem de favoritismo pode ser destroçada pelas poderosas mãos do subestimado Derrick Lewis.

Peso galo: 5# José Aldo (BRA) vs. 9# Pedro Munhoz (BRA)

Por Israel Silveira

Vindo de sua primeira vitória na divisão dos galos, José Aldo Júnior (29-7 no MMA, 11-6 no UFC) já provou que pode ser competitivo com os melhores da divisão. Muitos franziram a testa com a decisão do brasileiro em descer dos penas para os galos, já que no auge de sua carreira, Aldo chegou a ser cogitado em lutas no peso leve e sempre foi considerado um peso pena forte. No entanto, o “Campeão do Rio” teve atuações muito justas em suas três lutas até aqui, apesar das duas derrotas na nova divisão.

Aldo deu bastante trabalho para Petr Yan durante três rounds e foi derrotado por apertadíssima margem por Marlon Moraes. Contra Marlon Vera, Aldo fez ótima luta em pé e teve experiência o suficiente para amarrar o equatoriano no terceiro round, mas essa luta até aqui é exceção. A tônica das performances do brasileiro até aqui tem sido o gás que piorou, com Aldo conseguir ser o Aldo de total violência de antigamente por dois rounds e depois diminuindo muito o ritmo e tomando decisões ruins. Essa abordagem vem sendo o suficiente para manter o brasileiro próximo do topo da divisão e mantém o respeito a seu nome dentro da organização.

Pedro Munhoz (19-5 no MMA, 9-5 no UFC) vem em boa posição na divisão dos galos, apesar de se encontrar em uma estranha situação. O brasileiro veio do seu melhor momento na carreira vencendo nomes como Rob Font e Cody Garbrandt, mas aparentemente encontrou seu teto ao ser derrotado pelo atual campeão Aljamain Sterling e ter sido derrotado por curta margem por Frankie Edgar. Munhoz vem de vitória e uma boa performance contra Jimmie Rivera, mostrando que pode servir como bom porteiro para o top 5 da divisão, mas o brasileiro claramente ainda busca uma disputa de cinturão.

Munhoz tem uma abordagem muito clara para seus combates: pressão. O brasileiro tem ótimo gás e muito queixo, os quais ele utiliza para impor ritmo forte nos seus combates e eventualmente fazer seus adversários sucumbirem. Aliado a isso, ele lança tudo com extrema potência, o que significa que qualquer golpe busca arrancar a cabeça do adversário. Munhoz também é faixa preta de jiu-jítsu sob Rubens Cobrinha e tem um dos melhores botes em guilhotina de todo UFC. O jogo dele por vezes pode ser previsível, já que ele lança o mesmo overhand de direita repetidas vezes e sua movimentação não é de elite, mas até agora ele foi o suficiente para mantê-lo próximo ao topo da divisão.

Jose Aldo vs Pedro Munhoz odds - BestFightOdds

Esse é um excelente confronto entre brasileiros. Aldo ainda possui um dos melhores jogos de Muay Thai e Boxe da divisão e a estratégia de Munhoz que envolve pressionar não importando o que venha do outro lado pode acabar de maneira trágica, já que Aldo evoluiu para um bom contragolpeador. Aldo precisa de espaço para seu jogo e seu gás está pior a cada dia, mas durante os dois primeiros rounds a potência e a precisão ainda estão lá.

Se a luta se estender, Pedro Munhoz tem tudo para vencer Aldo de forma convincente. No entanto a performance suspeita em pé contra Aljamain Sterling mostra que o jogo de Munhoz pode ser facilmente mapeado. A aposta, portanto, vai para Aldo via nocaute antes do terceiro round.

Peso meio-médio: 6# Vicente Luque (EUA) vs. 5# Michael Chiesa (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Vicente “The Silent Assassin” Luque (20-7 no MMA; 13-3 no UFC), outrora um mero lutador de ação que não prometia muito além de lutas violentas, tornou-se um dos lutadores mais consistentes e um postulante real ao título da dificílima categoria até 77kg. O brasileiro competiu no TUF ATT x Blackzilians, foi eliminado por Hayder Hassan e perdeu na Finale para Michael Graves. Porém, após isso, acumulou 13 vitórias no UFC, perdendo apenas para Leon Edwards e Stephen “Wonderboy” Thompson, ambos por decisão. Ao longo do caminho, ele conquistou oito nocautes e cinco finalizações – a última sobre o ex-campeão Tyron Woodley.

O chileno-americano-brasileiro é um dos lutadores mais divertidos e amados pelos fãs no UFC, já que sempre entrega lutas animadas, com demonstrações de seu queixo indestrutível e poder de nocaute acima da média, além do jiu-jitsu mortal. Suas principais armas são, sem dúvida, os triângulos de mão e os ganchos de esquerda, mas ele tem adicionado cada vez mais ferramentas ao jogo, já bastante completo. Seus principais momentos são trocando no pocket, em que ele tem talento para encontrar o queixo dos adversários no meio da troca de golpes. Quando sente o cheiro de sangue, Luque é um finalizador nato, raramente dando espaço para que se recuperem. O estilo “joga e deixa jogar” o deixa exposto para os movimentos ofensivos dos adversários, o que faz com que passe por maus momentos em quase todas as suas lutas. A defesa de quedas também não é das melhores, mas é compensada pelo jiu-jitsu dinâmico e ofensivo.

Michael “Maverick” Chiesa (18-4 no MMA; 11-4 no UFC) também é oriundo do TUF – ainda que, diferente de Luque, tenha vencido o programa – e, com muito esforço, mudou o patamar da carreira, que pouco prometia. Nos leves, onde ficou a maior parte de sua carreira, intercalou vitórias impressionantes com derrotas feias, tendo superado Al Iaquinta, Francisco Masssaranduba, Jim Miller e Beneil Dariush, até que um par de derrotas por finalização para Kevin Lee e Anthony Pettis incentivaram a subida para a categoria até 77kg. Ali, Chiesa venceu quatro em sequência, dominando Rafael dos Anjos e Neil Magny, mais recentemente.

O jogo do Maverick, no entanto, não poderia ser mais diferente do de Luque. Seu estilo é previsível e com poucas nuances, apesar de muito eficiente. Michael vai usar sua trocação destrambelhada para chegar ao clinch, usar o body lock para derrubar, ground and pound para passar a guarda, chegar às costas e apertar o pescoço no mata-leão – coisa que ele faz como poucos. Seu principal problema, a falta de capacidade atlética, foi atenuada com a mudança de categoria, o que permite um jogo de pressão mais constante, principalmente no chão, por cima.

Michael Chiesa vs Vicente Luque odds - BestFightOdds

O desfecho dessa luta depende, basicamente, da capacidade de Luque de se livrar das quedas e da pressão por cima do americano. Dado o histórico de ambos, é muito provável que Chiesa consiga a queda e passe a guarda em algum momento – inclusive, estou ansioso pelos scrambles no chão nesse combate. Porém, em pé, Chiesa é muito – muito mesmo – acertável, o que costuma ser um problema contra um nocauteador/finalizador como Vicente. Não à toa, três das quatro derrotas do Maverick foram por finalização -a outra, uma interrupção médica contra Joe Lauzon (!) -, enquanto apenas uma das vitórias do “Assassino Silencioso” não foi pela via rápida.

Luque precisa se manter em pé por tempo suficiente para encontrar o queixo do oponente e, após isso, ele deve encaixar um de seus estrangulamentos patenteados. Do contrário, Chiesa deve enrolá-lo com seu jogo de clinch e quedas, mas deve ter dificuldade para finalizar o brasileiro, que treina diariamente com Gilbert Durinho. Ambos cenários são igualmente prováveis, mas, para não ficar em cima do muro, vamos de Vicente Luque por finalização no terceiro round, por brabo choke após um knockdown com gancho de esquerda interceptando uma aproximação de Chiesa.

Foto: UFC/Divulgação/Twitter