Por Edição MMA Brasil | 09/07/2021 16:39

As trilogias estão se tornando cada vez mais raras no MMA, principalmente no UFC. Quando envolve dois lutadores de altíssimo nível, a chance disso acontecer é menor ainda. Por isso, o UFC 264 é um evento especial, não por apenas sua luta principal, mas por trazer diversas lutas interessantes ao longo de todo o card.

Na luta principal da noite, Dustin PoirierConor McGregor se reencontram pela terceira vez em suas respectivas carreiras para colocar um ponto final nessa trajetória intensa entre os dois. No primeiro duelo, em 2013, o irlandês confirmou sua ascensão meteórica e nocauteou o americano no primeiro round. Sete anos depois, os momentos mudaram e o “Diamond” mostrou mais uma vez pertencer ao topo da categoria dos leves ao nocautear o “Notorious”.

A luta coprincipal também chama bastante atenção pela categoria dos meios-médios. O brasileiro Gilbert Durinho, que busca uma nova oportunidade de disputar o cinturão da divisão, enfrenta outro nome experiente em Stephen Thompson, que já teve duas chances de conquistar o cinturão e quer mais uma.

card também traz lutas interessantes. Nos penas, o especialista em luta agarrada Ryan Hall retorna ao octógono para um intrigante duelo contra Ilia Topuria, enquanto a brasileira Jennifer Maia encara Jessica Eye em confronto entre ex-desafiantes do cinturão dos moscas.

O UFC 264 será realizado neste sábado (10) diretamente da T-Mobile Arena em Las Vegas, Nevada, Estados Unidos. O card preliminar do evento está previsto para começar às 19:00h, enquanto o card principal deve começar às 23:00h pelo horário oficial de Brasília. O evento terá transmissão exclusiva do Canal Combate no Brasil.

Peso leve: 1# Dustin Poirier (EUA) vs. #5 Conor McGregor (IRL)

Por Rodrigo Rojas

Dustin Poirier (26-6 no MMA, 18-5 no UFC) tem uma das carreiras mais bonitas do MMA. O americano superou uma infância difícil e uma trajetória cheia de altos e baixos para se tornar um dos melhores lutadores do mundo. Seu cartel é dos mais impressionantes da categoria, com vitórias sobre Max Holloway, Eddie Alvarez, Anthony Pettis, Justin Gaethje, Dan Hooker e, mais recentemente, Conor McGregor. Em 2019, o Diamante conquistou a coroação de sua carreira, faturando o cinturão interino dos leves ao superar Holloway em uma revanche. No UFC 257, a vitória na revanche contra McGregor fez com que mudasse de patamar, se tornando uma grande estrela – pelo menos entre os fãs hardcore.

Apesar da origem no jiu-jitsu e do bom wrestling desenvolvido na ATT, Poirier brilha na trocação. Seu boxe está entre os mais efetivos do esporte, recheado de longas combinações de socos potentes e imprevisíveis, complementado por golpes de toda sorte e em todos os níveis, não discriminando entre carimbar o rosto e o corpo dos oponentes, que acabam soterrados pelo volume e potência do Diamante. O jogo completo ainda permite que Dustin lute estrategicamente quando julga necessário, ainda que não seja essa sua primeira opção, implementando quedas pontuais e chutes nas pernas – como mostrou no UFC 257.

Poirier é um lutador favorito dos fãs e não à toa. O residente de Lafayette tem tendência a entrar em batalhas sanguinárias e tem capacidade mental e física de aguentar adversidade, com o condicionamento físico como destaque. Essa tendência, no entanto, pode deixá-lo em maus lençóis contra bons contragolpeadores.

O “Notório” Conor McGregor (21-5 no MMA, 9-3 no UFC) dispensa apresentações. Primeiro campeão de duas categorias simultaneamente, maior vendedor da história do esporte, o único a convencer Dana White a fazer “cross promoting” e, por isso, o único lutador de MMA a se aventurar no boxe no mais alto nível. Não à toa, o irlandês é a maior estrela da história do esporte.

O que muitos esquecem, no entanto, é que McGregor acompanha o sucesso midiático com atuações brilhantes dentro do octógono. A base de caratê – que foi abandonada no UFC 257 – abre espaço para um boxe impressionante, com precisão e timing excelentes e, acima de tudo, a mão esquerda mais pesada da categoria. A movimentação é bastante efetiva, principalmente quando marcha para frente, forçando seus oponentes a golpeá-lo para acertar o contragolpe, além de ser utilizada para cortar ângulos e encurralar os adversários – isso quando Conor está focado. Conor também usa chutes em todos os níveis e dos mais variados, mas sempre com a intenção de acertar seu direto de esquerda mortífero.

O grappling de McGregor é pouco respeitado, mas tem bom nível tanto ofensiva quando defensivamente, ainda que seja seu ponto fraco na parte técnica. O maior calcanhar de Aquiles do irlandês, no entanto, é o condicionamento cardiorrespiratório, já que sua capacidade aeróbica costuma arrefecer conforme a luta transcorre. As dúvidas sobre seu foco e motivação no esporte também são constantes, dado o sucesso de Conor fora do octógono do UFC.

Na prévia da primeira revanche entre os dois, escrevi que muita coisa havia mudado desde o primeiro encontro entre McGregor e Poirier em 2014. Desta vez, do UFC 257 para hoje, pouca coisa mudou. Dustin mostrou que evoluiu muito desde o UFC 178, enquanto McGregor é, essencialmente, o mesmo lutador. Ainda acho que o irlandês tem capacidade técnica para superar o Diamante, desde que esteja focado, bem treinado e tenha uma estratégia adequada. O casamento de estilos favorece o Notório, mas Poirier é, de longe, o lutador mais versátil, e provou que sabe implementar o jogo perfeito para contornar a mortífera mão esquerda de Conor. O resultado do confronto se resume, basicamente, a quem tiver a melhor preparação e o plano de vôo mais adequado.

Conor McGregor vs Dustin Poirier odds - BestFightOdds

Desta vez, no entanto, McGregor parece estar novamente focado no MMA, com sangue nos olhos para vencer a trilogia, e não pensando em lutar boxe contra Manny Pacquiao. Por isso, sem nenhuma convicção, aposto em Conor McGregor vencendo através de um jogo mais justo e polido, voltando à base de caratê para evitar os chutes baixos e buscando encurralar o adversário rumo a um nocaute no segundo round. Não se surpreenda, no entanto, se Dustin novamente utilizar seu arsenal mais vasto para dominar o adversário, conseguindo nova interrupção sobre um Conor já desgastado.

Peso meio-médio: 4# Stephen Thompson (EUA) vs. 2# Gilbert Durinho (BRA)

Por Israel Silveira

Com vida nova na divisão, Stephen “Wonderboy” Thompson (16-4-1 no MMA, 11-4-1 no UFC), mesmo aos 38 anos de idade, ainda pretende fazer mais uma corrida pelo título dos meios-médios. Wonderboy certamente teve alguns tropeços em sua caminhada dentro do UFC após seus dois title-shots contra Tyron Woodley, incluindo uma decisão contestadíssima enfrentando Darren Till e um surpreendente nocaute sofrido contra Anthony Pettis, em luta que Thompson vinha dominando por completo.

Tido por muitos como o melhor striker da divisão e, talvez, do UFC, desde que surgiu no evento em 2012, Thompson tem no currículo nomes como Robert Whittaker, Jake Ellenberger, Johnny Hendricks, Rory MacDonald e Jorge Masvidal, tendo tirado para absolutamente nada a maioria destes. Faixa preta de karate e kickboxing, Thompson dá verdadeiras aulas em pé, confundindo adversários com sua falsa distâncias, passos laterais e fintas, além de trazer sempre contragolpes precisos que fazem qualquer oponente pensar duas vezes antes de lançar qualquer golpe. Seu calcanhar de Aquiles desde sua chegada ao UFC tem sido sua absorção de golpes, que já o traiu em diversas ocasiões. Além disso, Thompson, por vezes, é muito passivo em sua abordagem, algo que poderia ser resumido em muita movimentação e pouco golpe, o que faz com que muitos o considerem um “ciscador”. Contudo, em suas duas últimas apresentações, Wonderboy vem estrategicamente demolindo seus oponentes, mostrando que o americano ainda tem gasolina no tanque.

Gilbert “Durinho” Burns (19-4 no MMA, 12-4 no UFC) vai tentar juntar os cacos da sua recente derrota contra o campeão Kamaru Usman. O brasileiro fez um primeiro round competitivo, mas, eventualmente, sucumbiu ao volume e potência superior do nigeriano, acabando nocauteado. Antes da sua derrota para o campeão, Durinho vinha em excelente sequência de sete vitórias, incluindo um verdadeiro atropelo sobre Tyron Woodley e nocaute sobre Demian Maia.

Conhecido por ser um ás do jiu-jitsu, três vezes campeão mundial, Durinho evoluiu para um lutador bem mais completo sob a tutela de Henri Hooft, adicionando cada vez mais elementos do kickboxing a sua trocação: low kicks, bons cruzados e mata-cobras. Além disso, Burns é um dos poucos craques em jiu-jitsu no UFC que traz também um jogo com bons fundamentos de wrestling, tanto ofensivo quanto defensivo. Há algumas dúvidas sobre o “coração” de Durinho e sua capacidade de suportar momentos ruins e acabar se encolhendo, que foi o que aconteceu contra Dan Hooker e Usman. Essa é uma luta em que Durinho provavelmente sofrerá muitos golpes, então seu coração certamente será testado.

Gilbert Burns vs Stephen Thompson odds - BestFightOdds

Por mais que seja uma luta entre dois lutadores muito bem ranqueados na divisão até 77 kg, não é um confronto equilibrado no papel. Wonderboy tem uma trocação quase à prova de falhas e é um lutador muito difícil de derrubar. De suas 16 lutas no UFC, Thompson só foi colocado para baixo em três, sendo duas delas contra Tyron Woodley, nas quais Thompson prontamente se colocou de pé. Durinho estará em desvantagem de envergadura e sua melhor chance será colocar o americano para baixo e o finalizar o quanto antes. No entanto, o prognóstico mais claro da luta é que Wonderboy controle Durinho durante todos os rounds programados e vença uma decisão unânime sem muitos sustos.

Peso pena: Ryan Hall (EUA) vs. Ilia Topuria (ALE)

Por Idonaldo Filho

Um dos principais atletas oriundos do jiu-jítsu no UFC, o faixa preta Ryan Hall (8-1 no MMA, 4-0 no UFC) chegou a ficar ranqueado em certo tempo, mas sua carreira invicta no UFC se dá através diversos períodos de inatividade, que minam qualquer tipo de empolgação dos fãs. Em sua maior vitória na carreira – em termos de competitividade – derrotou Darren Elkins, na decisão, em uma luta enfadonha. Antes disso, foi colocado para enfrentar os veteraníssimos BJ Penn e Gray Maynard, o lendário ex-campeão caiu numa chave de calcanhar, enquanto Maynard foi derrotado em um confronto de golpes no ar.

Especialista na arte suave, Ryan Hall, que não conta com um wrestling de nível, aposta insistentemente nos imanari rolls, tentando catar as pernas dos adversários para obter finalizações, tendo muita facilidade para encaixar chaves de calcanhar. Em pé, insiste bastante com chutes, a grande maioria que não leva muito risco, mas são soltados em alto volume para incomodar o adversário e mostrar que está ativo no combate. Aos 36 anos, sem muita expectativa de crescimento e com um estilo pouco empolgante e com teto claro, a tendência é que o conto de fadas do estadunidense acabe muito em breve.

Nascido na Alemanha, mas já tendo representado tanto Espanha quanto Geórgia, Ilia Topuria (10-0 no MMA,  2-0 no UFC) é um cidadão do mundo. Com carreira regional sendo feita predominantemente no continente europeu, Topuria se tornou campeão do peso galo no Cage Warriors, sendo depois contratado pelo Brave CF e se destacando com interrupções no primeiro assalto, chamando a atenção do UFC. O prospecto até então vem se apresentando em alto nível no octógono,  tendo nocauteado Damon Jackson em seu último combate.

Um tanquinho de guerra, Topuria é voraz e traz bastante entretenimento quando está dentro do cage. Versátil, Ilia é faixa preta de jiu-jítsu e tem passado na luta greco-romana. Em pé, o georgiano bate que nem um caminhão e, traz um elemento interessante e incomum, que é o constante ataque direcionado ao corpo do oponente, focando em muitos momentos o tronco em suas sequências. Mostrou também seu repertório no grappling, ao derrubar Youseff Zalal em algumas oportunidades, conseguindo boas transições, derrubando rente a grade e também no centro do octógono, em reflexo a movimentação do adversário. Temos que valorizar a gana por achar estrangulamentos, como mata-leões, darces e guilhotinas.

Ilia Topuria vs Ryan Hall odds - BestFightOdds

Essa luta foi feita para alavancar Topuria. Hall é tosco em pé e, não possuí condições de levar o combate ao solo. Topuria pode muito bem escolher onde o combate acontecerá. A aposta segura é que Ilia mantenha a peleja na trocação e aplique uma surra no estadunidense, que deve ser nocauteado ainda na primeira parcial.

Peso mosca: #4 Jennifer Maia (BRA) vs. #7 Jessica Eye (EUA)

Por Gustavo Lima

Jennifer Maia (18-7-1 MMA, 3-3 UFC) tem se consolidado na parte de cima do ranking, conforme a rasa divisão feminina até 58kg começa a tomar forma no UFC. Ex-desafiante ao cinturão da imparável Valentina Shevchenko, a curitibana tem se mostrado uma atleta cada vez mais madura, polindo seu jogo e mostrando não só um uso mais eficiente e versátil de seu muay thai, mas também de seu jiu-jitsu (a finalização sobre JoJo Calderwood no primeiro round foi o que credenciou a brasileira a desafiar a campeã).

Com derrotas para nomes considerados de ponta na divisão, a ex-campeã do Invicta provou que merece estar competindo entre as melhores dessa categoria no UFC e chama a atenção justamente por seguir evoluindo e lapidando seu jogo, mesmo já tendo uma carreira bem longa. Maia tem 32 anos e ainda possui tempo para continuar crescendo e amadurecendo, se estabelecendo com um dos nomes de ponta durante um iminente processo de renovação da categoria.

Já Jéssica Eye (15-9, 1 NC no MMA, 5-8, 1 NC no UFC) vem de uma situação um pouco diferente. Após a inauguração da divisão das moscas no UFC, a estadunidense pareceu ter se encontrado, deixando pra trás uma longa sequência de derrotas e problemas pessoais. Três vitórias consecutivas (com desempenhos não tão chamativos) a levaram ao posto de desafiante da categoria, sem sucesso. Desde então, Eye ostenta retrospecto de 1-2, mas sempre deixando uma pulga atrás da orelha sobre qual o lugar ocupado por ela na organização.

“Evil Eye” é em essência uma trocadora. A atleta é dona de um kickboxing bem consistente, mas, mesmo assim, não se encontra num nível de superioridade tremenda contra outras lutadoras mais completas. Jessica também tem um nível coeso de luta agarrada como recurso na sua caixa de ferramentas, apresentando boa defesa de quedas e jogo de wrestling + BJJ utilizável contra atletas que possuem vulnerabilidade nesse aspecto.

Jessica costuma ser subestimada por adotar uma postura diversas vezes burocrática durante seus combates. A abordagem mais conservadora, algumas vezes ficando na longa distância e executando poucas ações ofensivas é muito mais “feia” que tecnicamente pobre, algo que deve ser pesado ao analisar seu jogo. Eye também se adapta bem, mudando de rota e aumentando o volume de golpes quando necessário.

Dito isso, é importante salientar que as limitações técnicas de Eye costumam ficar bem mais acentuadas ao confrontar uma oponente boa de striking por conta destes detalhes. Joanne Calderwood, por exemplo, disparou golpes de todas as maneiras possíveis e conseguiu uma margem absurda de ofensas conectadas. Nesse cenário, eu acredito que, a depender da abordagem adotada, Jennifer Maia deva levar vantagem por conta de todos os aspectos que envolvem seu jogo de luta em pé: maior intensidade, força, bom clinch, movimentação, etc.

Essa me parece uma ocasião em que Eye recorreria a luta agarrada, especialmente se o caldo começar a engrossar logo no início. Em tese, o caminho das pedras para Jennifer Maia seria cair pra trocação na curta distância, o que favoreceria ainda mais essa mudança de estratégia de Jessica, caso necessário. A capacidade de transitar entre os diferentes aspectos do jogo e fazer bom uso de todos eles poderá ser crucial neste duelo.

Jennifer Maia vs Jessica Eye odds - BestFightOdds

Maia me soa favorita aqui, pois é a lutadora mais técnica e com maior perícia em seu estilo de origem. Jessica deve tentar deixar a luta feia, se mantendo na longa distância e aproveitando sua envergadura para conectar mais e se expor o mínimo possível. A brasileira deve causar disrupção nesse cenário, pois tem em tese alguns recursos a serem explorados – inclusive, buscando a queda e fazendo o uso do jiu-jitsu não só como mecanismo de defesa no chão. Meu palpite vai em Jennifer, numa luta que pode ser muito parelha e melhor do que muitos esperam.

Foto: UFC/Divulgação