Por Matheus Costa | 15/05/2021 09:57

Chegou o grande dia em que o UFC pode ganhar mais um campeão brasileiro. O UFC 262, que será realizado neste sábado (15) no Toyota Center em Houston, Texas (EUA), terá a presença do público em carga total para assistir o evento em uma noite especial.

Na luta principal da noite, o brasileiro Charles do Bronx retorna ao octógono para disputar o cinturão vago da categoria dos leves pela primeira vez em sua carreira. Ele irá enfrentar o americano Michael Chandler, ex-campeão dos leves no Bellator e que chegou ao UFC fazendo barulho, garantindo uma disputa de cinturão com apenas uma luta na organização.

Pela mesma categoria, Tony Ferguson tenta se recuperar na carreira e provar que ainda pertence ao topo da divisão. Ele irá enfrentar o experiente Beneil Dariush, que vive grande fase e tenta uma nova investida no top 10 da divisão.

Cinturão peso leve: #3 Charles do Bronx (BRA) vs. #4 Michael Chandler (EUA)

Charles Oliveira (30-8 no MMA, 18-8-1 no UFC), ou como é mais conhecido, Charles do Bronx, está na melhor fase disparadamente da carreira. Com 31 anos, o atleta já está há séculos no UFC e já fez de tudo um pouco, mas quem imaginava nesta altura do campeonato que, o peso pena que não batia o peso, viraria um concorrente claro ao posto de campeão dos leves? Essa inesperada ascensão de Charles se deu com muito empenho e excelentes desempenhos, os dois últimos contra atletas da elite, em Kevin Lee e especialmente, Tony Ferguson, que levou uma surra do brasileiro que surpreendeu o mundo do esporte.

Pupilo de longa data da Chute Boxe Dhiego Lima e da Macaco Gold Team, Charles é um ás do jiu-jítsu e não atoa detém o recorde de mais submissões no UFC, ultrapassando o lendário Royce Gracie. No chão a sua variedade impressiona, tanto quanto a habilidade de encaixar estrangulamentos. Defensivamente nunca foi uma fortaleza no chão, mas sempre extremamente competente e um dos faixas pretas mais perigosos do líder do mercado. A trocação por muito tempo sofria com uma defesa esburacada e a fragilidade física, que atrapalhavam um pouco, porém a evolução de Charles é gritante, com um <em>muay thai</em> poderoso e que cada vez mais mostra técnica. O wrestling sempre foi bastante subestimado, e é de bom nível, embora dificilmente vá ser eficiente contra o oponente deste sábado.

Um dos maiores lutadores da história do Bellator, o estadunidense Michael Chandler (22-5 no MMA, 1-0 no Bellator) encerrou recentemente a parceria com o evento de Scott Coker, assinando pelo UFC em um sonho de muitos fãs do esporte, que aguardavam com ansiedade por bastante tempo a entrada do astro dos leves na elite do MMA. Sempre houveram muitas dúvidas, tanto quanto ao estado de “pureza” de seus exames, mas também sobre uma possibilidade de Chandler já estar entrando na decadência. A estreia não poderia ter sido melhor para calar os críticos – ainda que não seja um parâmetro tão alto. Encarando o violento Dan Hooker, Michael viu o amedrontado oponente acuado na grade e tratou de infligir um grande nocaute, assegurando a chance de se tornar desafiante do título vago por Khabib Nurmagomedov.

É fato que o wrestler da D1 da NCAA já está com 35 anos e que, foi nocauteado brutalmente pelo excelente Patricio Pitbull, mas não dá para negar que o momento é de empolgação e que esta é a maior luta da carreira do “Iron”, que já teve batalhas árduas nas costas em seu passado pelo Bellator. Muito forte e atlético, Chandler se movimenta bem, possuí wrestling de elite e conta com um poderoso <em>overhand</em>, utilizando bem o boxe acrescido do elevado poder de nocaute, não importando qual seja, já tendo definido combates de forma avassaladora tanto com a canhota quanto a destra. Mas, como já mencionado, a qualquer momento a idade e as guerras podem vir a cobrar no físico.

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Uma disputa de cinturão totalmente inesperada. Quem apostasse cinco anos atrás que um Charles do Bronx chutado do peso pena por um esquelético Anthony Pettis e o campeão e principal nome do Bellator se enfrentariam pelo título do UFC, seria taxado de lunático. Mas aqui estamos e a expectativa é a melhor possível para um grande duelo.

Em pé é sempre importante lembrar do poder de nocaute de Chandler, mas Charles é mais longilíneo e tem tudo para dominar o combate na longa distância. No chão, acredito que só aconteceria por iniciativa de Chandler, que é o melhor wrestler e tem centro de gravidade baixo, mas Do Bronx não cansa de nos surpreender. Sem muita convicção, acho que o título virá para o Brasil, com um nocaute de Charles lá pelo terceiro assalto, após controle em pé.

Peso leve: #5 Tony Ferguson (EUA) vs. #9 Beneil Dariush (IRÃ)

Um dos lutadores mais “zicados” da história, Tony Ferguson (25-5 no MMA, 15-3 no UFC) aparente finalmente ter chegado a um declínio. Conhecido por sua resistência a golpes, gás e poder de recuperação, “El Cucuy” vem de ser estrategicamente demolido por Justin Gaethje, uma luta em que o atropelo foi tão grande que muitos cogitaram que Ferguson nunca mais seria o mesmo. Após a derrota, Ferguson deu de frente com o novo contender da divisão, Charles do Bronx, Charles Oliveira tirou Ferguson pra nada utilizando um grappling de alto nível, incluindo uma quase finalização via chave de braço nos segundos finais do primeiro round que tirou qualquer oportunidade de Ferguson reagir. Foi uma grande queda de um lutador que ficou de 2013 a 2019 invicto e nunca teve a chance de disputar o cinturão por conta de bizarras circustâncias.

A pergunta que fica é: Ferguson realmente entrou em declínio ou apenas pegou dois casamentos muito ruins? É plausível dizer que mesmo em todos os anos em que Ferguson esteve invicto “El Cucuy” sempre tomou algum atraso em suas lutas, incluindo combates duros contra Abel Trujillo, Lando Vanatta, Kevin Lee, Anthony Pettis e Donald Cerrone. Ferguson com 37 anos certamente pode estar começando a sentir todo o dano acumulado em sua carreira. Por outro lado, Gaethje teve um gameplan perfeito contra Ferguson e sua potência foi demais para Ferguson aguentar. Já Charles Do Bronx expôs uma fragilidade do jogo do americano que poucos conheciam: defesa de quedas ineficiente. Em diversas situações em sua carreira Ferguson permitiu a queda para fazer scrambles eficientes ou tentar botes a partir da guarda, mas contra um dos melhores lutadores de jiu-jitsu da história do UFC, Ferguson foi presa fácil no chão. Agora ele enfrenta um lutador que teoricamente é páreo mais fácil: Beneil Dariush.

Beneil Dariush (20-4-1 no MMA, 14-4-1 no UFC) é mais um dos bons lutadores da Kings MMA que finalmente vai chegando próximo de uma disputa de cinturão. Vindo em ótima sequência de seis vitórias incluindo nomes importantes como Drew Dober, Drakkar Klose e Carlos Diego Ferreira. Dariush se estabeleceu como um dos lutadores mais completos da divisão dos leves. O canhoto iraniano tem um ótimo background em jiu-jitsu (faixa preta sob Romulo Barral), tendo várias medalhas em No Gi. Além disso, Dariush desenvolveu um excelente Muay Thai e possui muito poder na mão esquerda, nocauteando James Vick, Drakkar Klose e Scott Holtzman com socos.

Dariush tem poucas brechas em seu jogo, sendo as principais a sua agressividade que muitas vezes o deixa exposto a potentes contragolpes e seu gás que não é dos melhores. O iraniano foi destruído por uma joelhada de Edson Barboza e já morreu no gás contra Evan Dunham e Michael Chiesa. No entanto, em suas últimas lutas ele vem tendo uma abordagem mais estratégica e utiliza seu wrestling sempre que precisa descansar.

São lutadores em fases diferentes da carreira: Bariush em ascensão e Ferguson em queda livre. Mesmo Ferguson vindo de dois atropelos, ele ainda deve ser considerado lutador top da divisão e na verdade essa é uma luta que ele possui ótimas chances. Dariush tem bom wrestling e se conseguir colocar Ferguson de costas para o chão tem tudo para conseguir controlá-lo da mesma maneira que Charles Do Bronx fez. No entanto em pé Ferguson tem simplesmente muito mais armas.

Caso consiga defender as quedas, Ferguson deverá ser capaz de levar esse combate via decisão, levando em consideração que Dariush normalmente cansa quando é pressionado e o combate se estende. O outro cenário é de Dariush conseguindo as quedas desde o começo e controlando a luta do início ao fim. Desses dois, o cenário mais plausível me parece o primeiro. A aposta é Tony Ferguson via decisão unânime.