Roy Jones Jr – a lenda que está sendo tratada apenas como o adversário de Tyson

Por Pedro Carneiro | 25/11/2020 17:45

No próximo sábado, 28, teremos o retorno de dois lendários boxeadores aos ringues – o campeão dos pesados Mike Tyson e o campeão dos médios, supermédios, meio-pesados e pesados, Roy Jones Jr. Apesar do alto calibre entre os envolvidos, os holofotes no Brasil estão em Tyson, pois além de lutador, “Iron Mike” também é uma celebridade de alcance mundial. No entanto, para que todos os interessados na luta-exibição conheçam o multicampeão, o MMA Brasil apresenta quem foi Roy Jones Jr.

A origem

Jones nasceu em 1969, com o boxe correndo em suas veias. O pai, além de um veterano da Guerra do Vietnã, foi boxeador profissional na década de 70. Logo, se enveredar para o pugilismo foi um processo natural para o jovem nascido na Flórida. Ademais, o pai era treinador em uma academia de boxe para crianças e a partir dali, Roy mostrou que possuía um grande talento vencendo o Golden Gloves duas vezes (1986, 1987) e conquistando a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1988, quando perdeu o título em um combate bastante controverso. O americano encerrou a sua carreira amadora com um cartel de 121-13.

A estreia como profissional foi no ano seguinte, com uma vitória por nocaute contra Ricky Randall no segundo assalto. A partir de então foram 21 vitórias consecutivas, com 20 nocautes.
Veio então a oportunidade de disputar o título vago da IBF (Federação Internacional de Boxe) do peso médio contra Bernard Hopkins…

O auge

É muito provável que alguém que não acompanha boxe não conheça quem foi Bernard Hopkins e não tenha ideia do desafio que era dividir um ringue para trocar socos com o vândalo, mas estamos falando de um campeão por duas categorias diferentes, com 20 defesas de cinturão na categoria dos médios (1994-2005) e o único lutador do peso que unificou todos os cinturões das 4 organizações de boxe em um esporte que está ai desde o final do século XIX. No momento, Jones tinha 24 anos de idade e Hopkins 28, com um cartel de 22 vitórias e uma derrota na estreia como profissional.

Então, em maio de 1993, os dois se enfrentaram e, apesar de ter quebrado a mão direita durante a preparação para luta, Roy venceu a peleja em uma decisão unanime apertada. Você pode conferir o combate aqui:

Depois da conquista do título, foram 4 defesas bem sucedidas em apenas um ano, até que Roy Jones Jr. decidir subir de categoria. A fórmula do sucesso do campeão é que “O Capitão Gancho” fez jus ao apelido pela capacidade de usar ganchos sucessivos com enorme força, além de conseguir escondê-los como poucos na nobre arte, sem a necessidade de começar as sequências com um jab. Soma-se a isso um jogo de pernas extremamente veloz e a capacidade de gerar potência com ambas as mãos. Mas se fossemos destacar onde Roy Jones Jr. está entre os melhores da história, seria a coordenação motora surreal e a capacidade única de entrar e sair na distância dos adversários atingindo e não sendo atingido.

O primeiro desafio na categoria supermédio foi direto pelo cinturão e contra uma lenda que é também conhecida pelos fãs de MMA – James Toney. No ano de 1994, Toney já era um lutador consagrado e permanecia invicto após 46 lutas. O campeão supermédio era um boxeador mestre no shoulder roll (sim, a técnica defensiva que usa os ombros, novamente popularizada por Floyd Mayweather), habilidade aprendida diretamente com o mítico Bill Miller, famoso por ter esculpido o estilo defensivo de Ezzard Charles. Roy chocou o mundo ao usar o seu jogo de pernas para passear pelo ringue acertando os seus ganchos de modo tão veloz que impediam os contragolpes característicos de Toney. Roy Jones Jr. venceu pela decisão unânime e se tornou campeão da segunda categoria na carreira.

Após 5 defesas na nova categoria, incluindo a vitória contra a lenda Vinny Pazienza, onde se tornou o primeiro pugilista da história a vencer um round sem ser atingido pelo adversário, Jones subiu de categoria mais uma vez, para disputar o título interino dos meio-pesados contra Mike McCallum. Roy venceu com um triplo 120-107 e com o abandono do cinturão do campeão da categoria – que migrou para o peso cruzador – se tornou o campeão linear da categoria. Na primeira defesa de título veio a primeira derrota, em uma desclassificação contra Montell Griffin, devidamente vingada menos de seis meses depois com um nocaute no primeiro round.

Seis anos e 12 vitórias depois, o Capitão Gancho aceitou disputar o cinturão peso pesado da WBA (Associação Mundial de Boxe) contra John Ruiz, o primeiro campeão latino da história da categoria e que vinha de vitória recente sobre ninguém mais que Evander Holyfield. Apesar de uma diferença de 15 quilos, Jones se tornou o primeiro peso médio a conquistar o cinturão dos pesados e o segundo na história a conseguir o título da categoria na luta de estreia no peso.

O declínio

Contudo, a sua maior glória também foi o motivo da derrocada. O ganho de peso para a luta com Ruiz trouxe consequências para Roy que apresentava visível perda física. Além disso, a idade trouxe a diminuição da velocidade e dos reflexos que eram os grandes trunfos do multicampeão. Mesmo com os empecilhos criados pelo tempo, Roy Jones Junior ainda foi duas vezes campeão na categoria meio-pesado, campeão do peso cruzador da IBO (Organização Internacional de Boxe) e fez lutas relevantes contra Antonio Tarver (1 vitória e 2 derrotas pelo título meio-pesado), Félix Trinidad (vitória), Joe Calzaghe (derrota), Jeff Lacy (vitória) e a revanche contra Bernard Hopkins (derrota). O pugilista encerrou a sua brilhante carreira em 2018 com 66 vitórias, 9 derrotas, 47 nocautes e quase 30 anos dedicados ao boxe, até receber o convite de enfrentar “Iron Mike” no próximo sábado.

Legado

Roy Jones Jr. não tem a fama e o fascínio de Mike Tyson, mas ainda assim é um dos maiores boxeadores da história do esporte. Não só mais talentoso que Tyson, também seria considerado favorito caso os dois tivessem se digladiado no auge. Evidentemente, o seu sucesso fora dos ringues não é comparável ao do rival, mas Roy também é bastante famoso nos Estados Unidos, tendo inclusive participado de filmes como o Advogado do Diabo, Matrix e recentemente Creed II e ter uma carreira como cantor de hip hop.

Agora que o fã de lutas sabe que o evento de sábado colocara não apenas uma lenda no ringue, mas duas, responda aqui na caixinha de comentários qual a sua expectativa para a luta.