Por Alexandre Matos | 09/08/2020 16:26

Adivinha, dotô, quem tá de volta na praça?

Aliás, o que passa na cabeça de uma pessoa para voltar com as resenhas depois de um evento mequetrefe como este UFC Vegas 6. Aliás, que nome mequetrefe, este. Mas eu imaginava que teriam alguns assuntos interessantes para abordar, por mais que isso seja um pensamento quase fúnebre. Fora isso, preciso recuperar o ritmo de jogo para semana que vem.

O centro de convenções do UFC em Las Vegas viu um evento liderado por um combate que não acrescenta nada para ninguém. Viu também a consolidação da putrefação física de um importante ex-campeão. Pelo menos fomos presenteados com interrupções bem legais e uma ou outra disputa animada.

Pq fas iso?

Eu não faço a menor ideia do motivo que fez Mick Maynard casar o duelo entre Derrick Lewis e Alexei Oleinik, dois lutadores que ocupam posições no ranking que mostram o quão lamentável é o peso pesado.

Na verdade, eu faço ideia, sim.

Basicamente havia dois meios para este combate terminar: por nocaute de Lewis ou submissão a favor de Oleinik. Qualquer outro resultado seria fruto de algum aborto da natureza. Decisão também era possível, porém seria drástico para a qualidade do evento. Ficamos então com as duas possibilidades maiores. E o que teria mais chance de acontecer?

Vocês tinham alguma dúvida que Oleinik poderia sair igual um louco, se embolar com Lewis e aplicar um ezequiel em pé num cara que deve achar que Ezequiel é o nome do segurança clandestino do UFC Apex? E, nessa abordagem tresloucada do russo, enquanto ele soltava aquele mata-jararaca (visualizou a cena?), Lewis viria com uma mãozada no queixo e faria o bravo veterano acordar com a lanterninha do médico no olho? Pois bem, eu materializei isso na minha mente e passei os dias da semana no aguardo.

Obviamente o combate iniciou e os dois foram trocar amenidades no centro do octógono. Naquele ponto geográfico, era um convite para o desastre para Oleinik. Eis que, após um chute alto risos e algumas bordoadas, o combate descambou para o clinch na grade, levado por… LEWIS! Como não?

De tanto insistir em trocar posição de grappling contra um grappler, o americano conseguiu o intento de chegar ao solo. Ele até caiu por cima, em condições de se levantar e atrair Oleinik para a troca de golpes. Porém, Lewis preferiu trabalhar o ground and pound e, claro, acabou capturado por uma gravata de porteiro.

Aleksei Oleinik aplicando uma gravata em Derrick Lewis (Foto: UFC/Divulgação)

Aleksei Oleinik aplicando uma gravata em Derrick Lewis (Foto: UFC/Divulgação)

Na entrevista após o combate, Lewis, com sua conhecida honestidade, disse que não entendeu como Oleinik o capturou naquele momento. Pior é que ele NÃO FAZIA A MÍNIMA IDEIA MESMO de como aquilo aconteceu. Talvez Derrick saiba que exista por aí um negócio chamado jiu-jítsu, mas ele acredita nisso quase tanto eu na cloroquina como profilaxia da COVID-19.

Como Alexei deixa claro seus 43 anos e mais de 70 lutas profissionais de MMA, Derrick se safou da pressão na mais pura grosseria. No intervalo, viu seu adversário deitado, com as pernas pro ar, esperando a ambulância do SAMU. Lewis tinha que voltar para decidir a parada, mas sabia que nem precisava de muito esforço, já que o russo estava na beira do precipício físico.

Knockdown, ground and pound, fim de papo em 21 segundos. Lewis venceu e vai a lugar algum. Oleinik perdeu e vai a lugar algum. Pelo menos o evento acabou antes de uma da madruga.

Réquiem para um campeão

O duelo coprincipal da sexta empreitada do UFC em sua casa era também de possibilidades claras. A luta poderia terminar com um passeio de Chris Weidman no solo ou com um nocaute brutal de Omari Akhmedov. Ainda que as chances eram maiores para o americano, ao russo era necessário basicamente encostar no rival, tamanho o estado de decomposição que o organismo do ex-campeão dos médios apresenta.

Chris Weidman venceu Omari Akhmedov no UFC Vegas 6

Chris Weidman venceu Omari Akhmedov no UFC Vegas 6 (Foto: UFC/Divulgação)

A diferença técnica entre Weidman e Akhmedov, assim como a capacidade de variação tática, são enormes a favor do americano. Porém, o corpo de Chris está tão sofrido que sua limitação física equipara por baixo seus compromissos. Como Akhmedov tem parcos recursos, mas muita força, um golpe que entrasse limpo no combalido queixo de Weidman daria contornos finais ao duelo.

Sendo justo com o ex-campeão, acho até que ele aguentou mais pancada do que eu esperava. Por outro lado, ele está tão decrépito que perdeu a explosão das quedas, tornando-as previsíveis. Não tem mais força para variar as abordagens e encontra muita dificuldade de completar o serviço quando finalmente chega ao corpo a corpo. O que seria muito simples para Weidman completar há alguns anos, hoje necessita de um esforço hercúleo do lutador.

Essa dificuldade física de Weidman fez Akhmedov parecer ter um sistema defensivo sólido, o que não é verdade, especialmente o wrestling. Mas o russo vendeu caro as quedas e, surpreendentemente, ainda conseguiu aplicar as suas, o que também seria inimaginável uns anos atrás. Omari acertou bons golpes e botou Weidman para baixo no segundo assalto, fazendo todos acreditarem que o cenário de todos os reveses de Chris se repetiria: começa vencendo e cai de produção até ser derrotado.

Por sorte de Weidman, Akhmedov é um lutador tecnicamente limitado e atleticamente idem. O russo voltou morto para o terceiro e não mais conseguiu evitar as quedas. Levou o esperado passeio no chão. Só que Weidman está tão acabado que não teve forças para finalizar o combate. Chegou na montada e encaixou um katagatame com imensa facilidade. Porém, não avançou na posição talvez por medo de perdê-lá e, muito cansado, ter que voltar a trocar socos em pé. Aí, sim, provavelmente bastaria um.

No fim, Weidman, veio com o papo de “o campeão voltou”, parecendo o Vanderlei Luxemburgo. Para, né? Akhmedov é o teto desse Weidman que já virou o fio. E o teto é baixo.

Resenha MMA Brasil: UFC Vegas 6 – Outros destaques

– O evento repleto de decisões duvidosas teve mais um caso na finalização de Darren Stewart, que aproveitou um convite de Maki Pitolo para apertar uma guilhotina.

Yana Kunitskaya passou 120% do tempo travando Julija Stoliarenko no clinch. Até mesmo quando a luta não estava no clinch, ela estava. Socorro.

– Três belos nocautes se destacaram em meio a duelos de pouco entretenimento. Beneil Dariush acertou uma antebraçada rodada na cabeça de Scott Holtzman e forçou o UFC a colocá-lo contra competição mais digna. Já Kevin Holland disparou um direto maravilhoso, daqueles de manual, no meio da cara de Joaquin Buckley – nocaute clássico. Fim parecido teve Wellington Turman, único brasileiro em ação, que caiu fedendo depois que um gancho de Andrew Sanchez se chocou com sua têmpora.

– Uma das apostas mais arriscadas do projeto Top 10 do Futuro, o canadense Gavin Tucker conseguiu sua terceira vitória em quatro aparições no octógono mais famoso do mundo. Ele pegou Justin Jaynes, o popular “Guitar Hero”, num mata-leão após a melhor luta do evento – na minha opinião, pois o UFC não bonificou nenhum combate, preferindo espalhar os prêmios para os desempenhos de Tucker, Holland, Stewart e Sanchez.

FOTO: UFC/Divulgação