Por Pedro Carneiro | 01/08/2021 18:21

Devido a realização dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, um debate antigo foi acendido novamente durante esta semana devido a uma matéria do jornalista Roberto Dias, na Folha de São Paulo. O tema traz o questionamento se é recomendável que o público assista e exalte os esportes de combate, destacando principalmente o boxe e o MMA. Mas afinal, seriam as lutas um esporte como qualquer outro ou uma ode à violência?

As Olimpíadas de 2020, o crescimento da popularidade do UFC e o sucesso de diversos atletas brasileiros no mundo da luta tem gerado controvérsia quanto aos benefícios da prática e se o público deveria ou não assistir as lutas. É comum encontrarmos jornalistas dizendo que o esporte de combate é um incentivo à violência, rinha humana, promoção da violência, dentre muitas outras críticas com adjetivos pejorativos e preconceituosos. Todavia, antes de chegarmos a uma conclusão sobre o que ocorre em um esporte de combate, é necessário entender como funciona uma luta e quais são os riscos reais da pratica da modalidade.

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Luta é esporte?

O primeiro questionamento a se fazer é esse: o boxe e o MMA se inserem no conceito de esporte? Bem, sabemos que as competições de luta são uma das práticas mais antigas do ser humano. Existem registros de competições esportivas de lutas desde 3000 a.C em cavernas arcadianas, de 2000 a.C no Egito e no ano de 708 a.C.

A luta livre foi adicionada aos Jogos Olímpicos da Antiguidade. A modalidade já existia há muito mais tempo, mas a competição passou a ser estimulada e a ideia de se tornar campeão olímpico virou algo desejável por atletas em todo o planeta. Com isso, os lutadores passaram a treinar desde a infância e o incentivo para o desenvolvimento dos competidores passou a vir do Estado. Mas ser antigo não significa que se inclua no conceito de esporte.

Então vamos recorrer ao dicionário para nos expor o conceito de esporte:

Prática metódica, individual ou coletiva, de jogo ou qualquer atividade que demande exercício físico e destreza, manutenção do condicionamento corporal e da saúde e/ou competição; desporte, desporto.

Esporte é uma atividade física sujeita a determinados regulamentos e que geralmente visa a competição entre praticantes. Para ser esporte tem de haver envolvimento de habilidades e capacidades motoras, regras instituídas por uma confederação regente e competitividade entre opostos.

Usando o segundo conceito apresentado, esporte é qualquer tipo de prática de atividade física que visa uma competição e é regulamentada por uma confederação. Ou seja: é uma prática de atividade que tem regras fixas, é subordinada a algum órgão oficial, é uma atividade competitiva e o atleta está em busca de algo maior que simplesmente a prática de exercício físico. E é por esse motivo que atividades como automobilismo, hipismo e até mesmo xadrez são consideradas esporte. O engano é que nós associamos a ideia de esporte a qualquer prática de atividade física, o que não é verdade. Quando você joga futebol na praia, joga frescobol ou faz uma caminhada no fim da tarde, você não está praticando esporte, você está praticando atividade física. A atividade física é qualquer prática com o corpo que vise o bem-estar e/ou a saúde. A atividade física visa o bem estar e/ou saúde enquanto a prática esportiva visa a competição.

As lutas são consideradas um esporte porque se enquadram no conceito de esporte. É uma prática de atividade física, é uma competição com regras fixas e é regulamentada por uma comissão atlética. No caso do esporte mais novo, o MMA, existem as “Regras Unificadas do MMA”, que nada mais é do que um conjunto de regras estabelecidas que foram sancionadas pelo conjunto dos trabalhos feitos pelas comissões atléticas de New Jersey, Califórnia e Nevada em 2000. O MMA é uma atividade legalizada, regulamentada e fiscalizada, fruto de um intenso trabalho executado em virtude da pressão de políticos americanos, que tentavam banir o MMA nos Estados Unidos já que era uma prática considerada demasiadamente violenta.

No ano de 2005 a Comissão Atlética da Califórnia sancionou o MMA oficialmente, sofrendo algumas alterações em 2009. A partir do momento que o MMA foi sancionado na Califórnia, várias outras comissões atléticas de outros estados dos Estados Unidos passaram a adotar esse conjunto de regras. A partir daí, o MMA passou a ser uma atividade legalizada, regulamentada e fiscalizada nos EUA e pôde ser vista finalmente como um esporte. Essas regras podem ser encontradas aqui neste link.

Isso não significa que em outros locais não possa haver excessos, descuidos ou toda a sorte de contravenções às regras unificadas ou as regras das demais modalidades. Esse tipo de conduta ocorre, porém esses casos não representam o esporte, assim como brigas de rua não representam, e da mesma maneira que rachas em um autódromo não representam os esportes de corrida automotiva. Ou seja, lutas e consequências como lesões, acidentes e demais complicações que não sigam as regras unificadas não são um exemplo válido que sirva como crítica ao esporte. Tudo isso não é um seguro de que não podem ocorrer acidentes, lesões graves a até mesmo mortes em uma luta. Existem estudos que mostram os riscos da prática, casos onde os atletas recebem golpes desnecessários ou fazem um corte de peso indevido, contudo as regras e a fiscalização já existentes servem justamente para minimizar esses riscos. Da mesma maneira, não existe uma segurança de que atletas possam vir a morrer em jogos de futebol ou em corridas de Fórmula 1, fatos estes que já ocorreram, inclusive.

Deiveson Figueiredo ergue Brandon Moreno após ser derrotado e perder o cinturão para o mexicano no UFC 263 (Foto: UFC/Divulgação/Twitter)

“O boxe e o MMA podem até ser um esporte, mas são violentos.”

Outro argumento usado é que as lutas são um esporte violento. Antes de mais nada, vamos recorrer ao conceito de violência:

Ação ou efeito de empregar força física ou intimidação moral contra alguém.
Qualquer força empegada contra a vontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa.
Constrangimento, físico ou moral, exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontade de outrem; coação.

Para que pudéssemos considerar as lutas um esporte violento, deveria haver necessariamente um desses fatores incluídos: intimidação, coação, força empregada CONTRA A VONTADE, LIBERDADE ou RESISTÊNCIA de uma pessoa. Ora, o que ocorre em uma luta não se enquadra em nenhum desses fatores. É um profissional que pratica algum tipo de arte marcial por boa parte de sua vida e é experimentado em cada tipo de situação que acontece em cima do ringue. Além disso, ele assina um contrato onde se responsabiliza pelos riscos que corre quando luta, onde afirma que está fazendo aquilo por livre e espontânea vontade e é submetido a uma bateria de exames antes e depois de uma luta. Inclusive, diversos atletas já foram impedidos de lutar antes de combates, seja por lesões ou doenças pré-existentes ou até por problemas médicos durante ou devido ao corte de peso.

Também é apontada a quantidade de lesões graves e o risco de vida que o lutador se submete. Casos como o da fratura de Anderson Silva, o “galo” de Mark Hominick ou qualquer luta onde ocorram sangramentos são constantemente alardeados pelos críticos dos combates. Um estudo feito pela Universidade de Medicina Johns Hopkins, entre 2002 e 2007, revelou que a média de lesões em um evento de MMA é de 23,6%. De 635 combates acompanhados, 300 lutadores saíram lesionados de um total de 1.270 atletas. Dentre as lesões dos atletas envolvidos, as mais comuns foram lacerações, cortes, contusões nos braços, punhos ou mãos. Já as concussões e demais lesões severas representam um total de 3% das lesões ocorridas em lutas de MMA. Em um total de 1.000 lutas, a taxa de concussões graves foi de 15,4%. Não ocorreu nenhuma morte ou lesão critica em qualquer uma das lutas regulamentadas durante o período do estudo. Além disso, fatores como a idade e categoria de peso não aumentaram estatisticamente a probabilidade das lesões.

Contra a tese de que lutas são esportes violentos, ao olharmos esses números, podemos fazer um comparativo com outros modalidades. Na NFL, principal liga de futebol americano dos EUA, um jogador profissional sofre entre 1.000 e 1.500 colisões com outros jogadores ao longo de uma única temporada, e algumas dessas colisões com um impacto maior que 20G ou mais, força equivalente à de ser atropelado por um carro a 55 km/h.

Outro argumento é que o número de lesões não é uma característica exclusiva dos esportes de combate. Sobre esta linha de pensamento, sequer é necessário usar exemplos de modalidades de alto impacto como o futebol americano ou o rugbi, o caso das líderes de torcida já é suficiente. De acordo com o National Center for Catastrophic Sports Injury Research, ser uma cheerleader é a prática esportiva que provoca o maior número de contusões sérias em mulheres nos Estados Unidos. O números revelam que 66% das lesões permanentes provocadas durante a prática de esportes acontecem em mulheres que são ou que participam de competições entre líderes de torcida. Nas universidades americanas, esse percentual supera os 70%. A pesquisa informa ainda que as praticantes que seguram e absorvem o impacto das companheiras arremessadas para cima sofrem mais lesões. O número de casos em 1980 era de 5 mil, e passou para mais de 26 mil em 2007. Ou seja, de acordo com os números, ser uma cheerleader é mais perigoso do que ser um lutador. Além disso, o boxe e MMA possuem uma taxa de lesões graves menor do que de esportes como futebol, o basquete e até mesmo o vôlei, que é um esporte que não possui contato físico com o adversário.

Logo, para quem acha que luta não é esporte, é no mínimo razoável que essa mesma pessoa não considere o futebol, o basquete, o vôlei, e o futebol americano um esporte. E jamais e em nenhuma possibilidade chegue perto de uma líder de torcida.

Os dois primeiros pontos, os de que se apegam a questão da violência e dos instintos, partem do princípio que o esporte de combate é violento. Como já foi abordado, um esporte onde há o desejo de ambos os atletas se enfrentarem não pode ser considerado violento, seria uma contradição de termos. O que passa desapercebido é que associar o MMA a violência está associado a um preconceito contra o esporte. É mais fácil rotular o esporte como violência, rinha humana do que buscar compreender o que se passa e todos os detalhes de uma luta.

Com toda certeza não é um esporte simples, do ponto de vista técnico, e assim como os leigos categorizam o futebol como “22 homens correndo atrás de uma bola”, o MMA é visto como violência gratuita. Um outro detalhe, é que é comum qualquer prática ser rotulada negativamente baseada unicamente no gosto pessoal de quem faz a crítica. Por fim, o argumento de que o a luta destrói o corpo. Quanto a isso, o boxe, o MMA e as demais modalidades olímpicas são esportes regulados e regidos por regras, onde atletas de tamanho e habilidade semelhantes se enfrentam em uma competição. Se formos seguir essa lógica, todos os outros esportes que podem lesionar o corpo deveriam ser proibidos também.

Todos esses argumentos servem para demonstrar que as lutas, assim como qualquer outro esporte, são um entretenimento. E o entretenimento se limita no uso da liberdade individual. Inclusive, o mais fantástico na televisão é que nela existe um botão mágico chamado “liga/desliga”.

Fotos: UFC/Divulgação/Twitter