Wrestler de 6 anos que nasceu sem as duas pernas tem ajuda de captação de recursos de Chris Weidman

Por Alexandre Matos | 02/06/2014 18:00

O esporte e suas maravilhosas histórias.

Estava eu navegando no Instagram antes de dormir, como faço em quase todas as noites, quando vi uma foto de Chris Weidman que chamou minha atenção. Nela, o campeão dos médios do UFC segura um garotinho no colo. Seus dizeres na legenda eram:

“Meu novo melhor amigo Isaiah Bird é tão influente e inspirador com 6 anos de idade. Não consigo imaginar o que seu futuro reserva! Obrigado a todos que vieram e doaram. A captação de recursos não poderia ter ido melhor e vai ajudar Isaiah e sua família mais do que vocês possam imaginar.”

Ok, mais um campeão fazendo boa ação. Isso realmente não é incomum em esporte algum e o MMA não é diferente. O menino Isaiah deve ter dificuldades financeiras e ganhou um padrinho importante, pensei eu. Mas foi só dar uma olhada mais atenta na foto para ver que o problema do jovem Pássaro não se resume à falta de grana.

Isaiah Bird, que por pouco não é xará da junção dos mitos do basquete Isiah Thomas e Larry Bird, não tem pernas. Nenhuma das duas. Ele nasceu sem. Ele compete no wrestling assim mesmo. Contra meninos sem deficiência. E, segundo o coach Mike Riordan, colunista especialista em wrestling do Bloody Elbow, é um dos melhores de Nova York na faixa etária. Além das dificuldades físicas que a vida lhe impôs, Isaiah ainda luta contra uma dura realidade financeira – ele mora num abrigo para sem-tetos com a mãe, Bernadette Hopton, e o irmãozinho de 2 anos.

“Ele não tem ideia do que acontece em sua vida”, disse Miguel Rodriguez, técnico de wrestling do menino na Long Beach Wrestling Gladiators, uma equipe de ponta para crianças e adolescentes em Long Island, onde mora Weidman. “Ele é um garoto feliz, que não sabe que não tem uma cama, que não tem uma TV”.

Weidman soube de Bird ao vê-lo num programa no canal News 12, onde ele começa dizendo que, apesar de não ter pernas, é “um gladiador” que pode “bater nas pessoas agarrando suas pernas e os derrubando”. Emocionado, o homem que destronou Anderson Silva juntou seus amigos e companheiros de equipe Al Iaquinta, Gian Villante, Aljamain Sterling e Eddie Gordon, todos também lutadores do UFC, além do próprio Isaiah, para arrecadar fundos para que os Birds possam morar em um apartamento próprio.

O cartaz do The Isaiah Bird No Excuses Fundraiser Event

O cartaz do The Isaiah Bird No Excuses Fundraiser Event

O evento armado pelos lutadores aconteceu neste domingo, 1º de junho, na academia de Weidman. Começando com doações de US$5, os interessados participariam de uma palestra do campeão, de uma sessão de Perguntas e Respostas com todos os lutadores, além de seminários técnicos de wrestling infantil e juvenil. De acordo com Rodriguez, a ideia é mudar a família para o novo lar até o fim de junho.

O técnico é companheiro inseparável de Isaiah na escola. Ele usa a psicologia para incentivar o menino, apaixonado pelo wrestling. “Ele só pensa e fala em wrestling. Então eu digo que se ele for bem em matemática, vai treinar wrestling. Se for bem em leitura, vai participar de competições”. E o moleque deve estar indo bem nos estudos, visto que ele acabou em terceiro no New York Kid Wrestling Championships e em sexto numa competição de nível nacional chamada War at the Shore.

“Eu soube que ele é um amor de criança e que treina duro, que está vencendo lutas”, disse Weidman ao site do jornal Newsday. “Ele é um pequeno fodão”. Rodriguez completa: “Ele é o garoto mais feliz e mais positivo que eu já conheci na minha vida. Aos meus olhos, ele não é diferente de nenhum outro garoto”.

Isaiah Bird em ação no tapete de wrestling contra um menino sem deficiência (Foto: Miguel Rodriguez)

Isaiah Bird em ação no tapete de wrestling contra um menino sem deficiência (Foto: Miguel Rodriguez)

Caso Bird venha a ter uma carreira de sucesso no wrestling, ele não será o primeiro nestas condições. O peso leve do WSOF Nick Newell está invicto no MMA, vai lutar pelo cinturão da organização e conquistou mais de 300 vitórias nos tapetes de wrestling nos ensinos médio e superior. Nick Ackerman, da Simpson College, venceu a Divisão III da NCAA em 2001, quando dividiu o Hodge Trophy com o lendário ex-campeão olímpico Cael Sanderson, mesmo sendo amputado de nascimento das duas pernas abaixo do joelho.

Há também o incrível caso de Anthony Robles, que nasceu sem uma perna e foi três vezes All-American da Divisão I da NCAA, conquistando o título invicto em 2011, lutando pela prestigiosa Arizona State University, por onde também passou Cain Velasquez. Robles conseguiu compensar a deficiência com uma incrível força na pegada, desenvolvida pelo uso de moletas, e pelo equilíbrio em seu centro de gravidade. No ano seguinte ao título, Robles lançou o livro “Unstoppable – From Underdog to Undefeated: How I Became a Champion” (“Imparável – De Azarão a Invicto: Como eu me tornei um campeão”). Formado em comunicação, ele tem patrocínio da Nike, apesar de já ter encerrado a carreira, e dá palestras motivacionais pelo país.