Wladimir Klitschko: O adeus do campeão diferente

Por Alexandre Matos | 04/08/2017

Não há mais Klitschkos por aí. Três anos e meio depois de Vitali Klitschko se aposentar do boxe para se dedicar à vida política, chegou a vez do caçula Wladimir Klitschko pendurar as luvas. O ucraniano anunciou a decisão nesta quinta-feira, 3 de agosto, surpreendendo quem aguardava ansiosamente por uma revanche contra Anthony Joshua.

O momento de decidir parar é simbólico e mostra como Wlad é um lutador diferente. Ao invés de faturar horrores na revanche do duelo que levou 90 mil torcedores ao estádio de Wembley e tentar aquela que seria a maior vitória de sua carreira, Klitschko sai de cena derrotado duas vezes seguidas. E sai maior do que nunca. Porque ele é diferente.

Quando se fala da aposentadoria de um superastro, é comum lembrar as grandes conquistas, as grandes vitórias. Ao contrário do que acontece com praticamente todos os grandes ícones esportivos, Wladimir tem em derrotas os seus momentos marcantes. Porque ele é diferente.

Wlad perdeu apenas cinco das 69 lutas profissionais que disputou. Em três delas estavam em jogo um ou mais cinturões mundiais. Na primeira, um título Internacional. Na outra, o posto de campeão linear. Apenas na última, ele não era favorito. Nas três primeiras, o favoritismo era imenso e as derrotas foram duras.

Fisicamente falando, Wladimir era notável. Um gigante de 1,99m de altura, 2,06m de envergadura e estrutura muscular impecável mesmo aos 41 anos. A mobilidade e o condicionamento eram compatíveis com os de alguém bem menor. E foi justamente isso que lhe custou os nocautes para Ross Puritty, em 1998, e Lamon Brewster, em 2004. Klitschko estranhamente cansou demais e acabou vitimado.

Freddie Roach:

“Wladimir bate muito forte, mais forte que (Mike) Tyson. Certa vez, ele correu 12 tiros de 800 metros, cada um abaixo de três minutos, com um minuto de descanso entre cada tiro. Eu cronometrei todos e todos ficaram abaixo de três minutos. Nunca vi um peso pesado fazer algo sequer perto daquilo. Ele treina muito duro. Conseguir fazer aquilo, um cara de 115 quilos… uau. Ele é um dos melhores atletas que eu já treinei.”

A derrota para Corrie Sanders, em 2003, expôs a maior crítica que Wladimir teve que lidar durante toda a sua carreira: a que ele não conseguia encaixar golpes, que não tinha “coração de lutador”. Certa vez, o treinador Vladimir Zolotarev fez uma comparação entre os irmãos dizendo que “Vitali era como pedra, duro de moldar e duro de quebrar; Wladimir era como argila, fácil de moldar e fácil de quebrar”. Nem mesmo superar os três knockdowns aplicados por Samuel Peter, talvez o mais violento peso pesado de sua era, para vencer uma decisão por larga margem, ajudou a limpar a barra de Klitschko. Como aquela espécie de “Doríforo do boxe” podia ser tão vulnerável?

Durante todo o seu reinado, Wladimir foi ainda criticado por mais dois motivos: não enfrentou nenhum lutador da elite histórica e mantinha um estilo um tanto robótico de lutar. Sobre o primeiro caso, ele não teve culpa de a categoria mais nobre do esporte ter passado por uma grave entressafra. Wladimir até tentou enfrentar Lennox Lewis no seu primeiro reinado, mas quem conseguiu a luta foi Vitali.

Sobre o estilo robótico, a derrota para Tyson Fury poderia ter sido um golpe bem mais duro do que perder cinco cinturões de uma só vez. A atuação modorrenta de Klitschko aumentou a percepção em muita gente de que ele era um lutador chato. Eram raros os que acreditavam que Wladimir, aos 40 anos, ainda tinha algo a mostrar.

A atuação ruim contra Tyson Fury parecia ser uma melancólica despedida do boxe para Wladimir Klitschko

A atuação ruim contra Tyson Fury parecia ser uma melancólica despedida do boxe para Wladimir Klitschko

Wladimir surpreendeu quando resolveu desafiar os cinturões de Anthony Joshua depois de um ano e meio parado. Joshua, 14 anos mais jovem, é o principal representante de uma geração ansiada por recuperar o prestígio dos pesos pesados no boxe. Pela primeira vez, Klitschko seria azarão numa disputa de cinturão.

O que aconteceu naquela mágica noite de 29 de abril de 2017, no mítico estádio de Wembley, virou história. Wlad e Joshua entregaram a melhor luta do ano até agora. O veterano ganhou os corações dos críticos com uma atuação feroz, corajosa, que quase mandou o jovem fenômeno a nocaute. Ele perdeu – como não? – e saiu maior ainda. Como se fosse possível sair maior do que ele já era.

 

My HEART is at PEACE as I pass the torch to @anthony_joshua the next generation. Good luck little bro, I’m proud of you!

Uma publicação compartilhada por Wladimir Klitschko (@klitschko_official) em

Klitschko sai de cena com um histórico invejável. Campeão olímpico em 1996. Segundo maior reinado da história dos pesados (9 anos, 7 meses e 7 dias) e segundo que mais defendeu o cinturão da categoria consecutivamente (23). Peso pesado que mais disputou lutas por cinturão mundial (29) e que mais venceu oponentes invictos (12). Mais de US$ 100 milhões arrecadados apenas em bolsas. Mas não foi só pela dicotomia dos recordes e derrotas que fazem de Wladimir Klitschko um cara diferente. Ele também o foi fora dos ringues.

Num esporte conhecido por atrair gente com poucas chances de ascensão na vida, Wlad e seu irmão Vitali nunca precisaram do boxe para ter uma vida boa. Eles são fluentes em ucraniano, russo, alemão e inglês. São PhD em Ciência do Esporte pela Universidade de Kiev. Wladimir é professor-adjunto de um curso de mestrado da famosa Universidade de St. Gallen, na Suíça. Ele e Vitali lutaram juntos, no front, nas ruas, nos protestos contra o governo ucraniano, movimento que conduziu Vitali à prefeitura da capital Kiev. Os irmãos usam suas reputações e recursos para ajudar projetos da UNESCO no Brasil, Romênia, Namíbia, destinando milhões para ajudar crianças necessitadas. Em 2012, Wlad leiloou sua medalha de ouro olímpica e destinou o milhão de dólares arrecadado para projetos sociais na Ucrânia.

Os irmãos Vitali e Wladimir Klitschko apoiam a UNESCO desde 2002 e foram nomeados embaixadores da organização em 2006

Os irmãos Vitali e Wladimir Klitschko apoiam a UNESCO desde 2002 e foram nomeados embaixadores da organização em 2006

“Esta medalha trouxe sucesso para Vitali e para mim. Ela se tornou a base do nosso sucesso profissional e a chave que abriu muitas portas para nós. Nosso sonho se tornou realidade. E graças aos fundos que foram pagos por esta medalha pelo benfeitor, nós também vamos ajudar os sonhos de centenas de milhares de crianças ucranianas. Em nome dessas crianças, de seus pais e professores, agradeço pelo bem-estar das pessoas.”

Feliz do esporte que tem um ídolo gigante como Wladimir Klitschko dentro e fora dos ringues. Apesar das derrotas.