WEC, viável ou desperdício?

Por Alexandre Matos | 17/06/2009 19:00

A discussão começou com a possível luta entre o campeão dos penas do WEC, Mike Brown (foto ao lado), e o brasileiro que vem causando sensação no evento depois de cinco nocautes em cinco lutas, José Aldo. Até mesmo o antigo dono do cinturão e derrotado duas vezes por Brown, Urijah Faber, disse que Aldo merece uma chance pelo título e que ele seria um grande oponente para o campeão. Mas nem tudo é simples assim. Aldo é companheiro de treinos de Wagnney Fabiano na Nova União. Os empresários querem ver Wagnney lutando pelo cinturão antes, até porque Aldo tem apenas 22 anos e muito tempo de carreira ainda, por este motivo poderia esperar um pouco mais do que o companheiro. Cogitaram ainda a infeliz ideia de Aldo descer de categoria e desafiar o supercampeão Miguel Torres. Mas a discussão aqui não será sobre o próximo adversário de MTB ou de Zé Aldo. O assunto é mais amplo.

A maioria sabe que a empresa que detém os direitos sobre o WEC é a Zuffa, LLC. A empresa dos irmãos Lorenzo e Frank Fertitta, cujo presidente é Dana White, também é dona do UFC. Para não concorrer com seu evento principal, a Zuffa acabou com as categorias maiores do WEC, incorporou alguns lutadores no UFC e demitiu o resto. Encheu o evento principal de lutadores meia-boca como Chael Sonnen, Steve Cantwell e Carlos Condit, por exemplo, deixando desempregado atletas do porte de Paulão Filho. A partir de então o WEC passou a ser um evento apenas para as categorias de peso menores: os galos (bantamweight), os penas (featherweight) e os leves (lightweight). Como as duas primeiras não existem no UFC, tudo certo até aí. O negócio começa a ficar estranho entre os leves. Esta categoria no WEC é claramente tratada pela Zuffa como uma espécie de segunda divisão do UFC, onde reina em aparente tranquilidade o havaiano BJ Penn. Sendo mais claro, a Zuffa vende dois produtos concorrentes.

A diferença de valorização é nítida. Enquanto Wanderlei Silva e Rich Franklin embolsaram cada um 60 mil dólares por terem feito a melhor luta da noite no UFC 99, Mike Brown e Urijah Faber, pelo mesmo motivo, levaram apenas 10 mil dólares no último WEC 41, apesar de terem protagonizado uma real candidata a melhor luta do ano de 2009 – e muito melhor do que a luta entre a ex-estrela do PRIDE e o ex-campeão dos médios do UFC. Falando em premiação, o campeão Mike Brown levou oficialmente para casa 35 mil dólares, entre bolsa e bônus, pouco mais da metade do bônus de melhor luta, nocaute ou finalização da noite do UFC. Já falei aqui algumas vezes que acho BJ um campeão pouco testado para a fama que tem. Apenas entre os contratados da Zuffa, eu gostaria de vê-lo em ação contra Brown, Faber, Aldo, Torres ou Fabiano. E tenho certeza que todos estes gostariam de ter uma chance de lutar no UFC, por bolsas muito mais volumosas e maior chance de reconhecimento.

Sim, reconhecimento. Urijah Faber é um lutador extremamente popular no estado natal, que ele carrega no apelido de California Kid. Com visual de surfista da região, é um atleta que tem tudo para angariar simpatizantes e fazer sucesso no mundo publicitário, se tiver a imagem bem trabalhada. Mike Thomas Brown é um lutador completo como poucos no mundo, chegou e tomou de assalto a divisão dos penas do WEC. Já Miguel Angel Torres (foto ao lado) é listado no top-5 peso por peso de todo mundo há quase dois anos, tem apenas uma derrota em 37 lutas, mesmo assim por decisão e mesmo assim já vingada, com uma finalização dois anos depois. Qualquer um dos três seria ídolo reconhecido (e com inteira justiça) em todo o mundo entre os fãs do MMA – como são atualmente Georges St-Pierre, Anderson Silva ou Fedor Emelianenko – se estivessem no UFC, em eventos transmitidos ao vivo para diversos países, com programas como o UFC Countdown e o All Access mostrando suas vidas, seus treinamentos, seus problemas de pessoas comuns, aproximando-os ainda mais do público. Brown, Torres ou Faber poderiam segurar um card principal do UFC sem nenhum problema para audiência e venda de pay-per-view, muito pelo contrário. Torres, por exemplo, tem entrada fortíssima na comunidade latina nos EUA, que forma um poderoso mercado consumidor naquele país e Faber, como dito anteriormente, é bastante querido no estado mais rico dos EUA.

Então a minha pergunta é: por que a Zuffa insiste com dois eventos e não funde tudo sob a marca do UFC? Oficialmente o evento principal passaria a contar com todas as categorias de peso normatizadas pelas Regras Unificadas de Conduta do Mixed Martial Arts, os prospectos descobertos pelo WEC fortaleceriam os UFC Fight Night e as atuais estrelas do evento menor fortaleceriam cards preliminares e principais no UFC. Muitos deles inclusive fariam o combate principal de um evento. A luta principal do WEC 41 seria facilmente um evento principal muito melhor e mais atrativo do que foram Quinton Jackson x Keith Jardine (UFC 96), Diego Sanchez x Joe Stevenson (UFC 95) e Dan Henderson x Rich Franklin (UFC 93), apenas para ficar em acontecimentos recentes. Imaginem se a Zuffa tivesse juntado os eventos das duas últimas semanas (WEC 41 e UFC 99) num card único? Teríamos José Aldo x Cub Swanson, Cheick Kongo x Cain Velasquez, Mirko Cro Cop x Mustapha al-Turk, Wanderlei Silva x Rich Franklin e, fechando o card principal, a disputa do cinturão dos penas entre Mike Brown e Urijah Faber. Muito melhor do que a escalação chinfrim do UFC 99, não?

Hoje em dia ver uma edição do UFC Fight Night é teste para paciência. Para achar um prospecto bom precisamos ver um monte de lutador mediano (para usar um termo ameno), que mal conseguem vaga em undercards. Com a união dos eventos teríamos UFNs com gente como Joe Benavidez, Takeya Mizugaki, Dominick Cruz, Seth Dikun ou Josh Grispi, todos eles lutadores talentosos do WEC. Ainda seria possível escalar ex-campeões do UFC como Jens Pulver. Ou seja, o nível ficaria melhor. E lutadores como Donald Cerrone, Jamie Varner e Brian Bowles fortaleceriam muito os cards preliminares e até alguns principais do UFC.


Não sou economista, não entendo muito de finanças e a Zuffa não é uma entidade filantrópica, ela visa o lucro. Sou apenas um fã do esporte ávido por vê-lo evoluir cada vez mais, com vontade de ver boas lutas, bons lutadores em ação. Deve ter algum motivo para os irmãos Fertitta manterem os dois eventos e nos privar de tudo o que foi exposto aqui, mas eu desconheço. Se alguém souber responder, compartilhe a ideia com a gente.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.