WEC 53 Henderson vs Pettis: Análise do card principal

Se um roteirista de cinema americano escrevesse um roteiro assim para o final do WEC, seria tachado de exagerado. O evento das lutas espetaculares não poderia ter chegado ao final de outro modo se não com mais um evento espetacular. Começou com Kamal Shalorus vencendo Bart Palaszewski numa luta movimentada, com ambos chegando ao final exaustos. Passou por Donald Cerrone aplicando uma justíssima guilhotina em Chris Horodecki. Mas as duas lutas que valiam os cinturões do WEC foram históricas. Com seu caos organizado que enlouquece os adversários, Dominick Cruz venceu Scott Jorgensen e tornou-se o primeiro campeão dos galos da história do UFC. Mas o canto do cisne veio na luta que deve levar o prêmio de melhor do ano. Anthony Pettis não só venceu Ben Henderson num duelo equilibradíssimo e empolgante, mas tomou-lhe o cinturão e conquistou o posto de próximo desafiante dos leves do UFC. Ainda fez isso tudo fechando com a manobra mais genial da história do MMA, que por pouco não lhe rendeu um nocaute digno dos filmes de Jet Li.

Anthony Pettis (EUA) venceu Benson Henderson (EUA) por decisão unânime (48-47, 49-46, 48-47)

Se algum filme de kung fu mostrasse um chute desses, nego ia dizer que era caozada de chinês. A genialidade de Anthony Pettis rendeu mais um belo capítulo de um esporte sensacional.

Até ontem o elbow uppercut aplicado por Anderson Silva em Tony Fryklund no Cage Rage 16 era considerado o movimento de striking mais espetacular da história do MMA. O Aranha foi deposto pelo garoto que mais uma vez honrou o apelido. Numa luta equilibradíssima e cheia de variações, “Showtime” Pettis aplicou o chute mais espetacular de todos os tempos, que decidiu o duelo.

Henderson protagonizou a luta do ano de 2009 com Donald Cerrone. Deve repetir em 2010 com Pettis. O agora ex-campeão começou muito bem, aproveitando-se também de um começo claudicante do desafiante. Mostrando superioridade física, Ben venceu o primeiro round do modo óbvio, usando seu wrestling para anular uma possível desvantagem na trocação com um garoto destemido e versátil. Conseguiu duas quedas e apertou o desafiante contra a grade, saindo vitorioso por 10-9.

A primeira virada veio a seguir. Parecendo começar a se sentir melhor na luta, Pettis voltou pressionando e aproveitou bem um descuido de Henderson para aplicar uma queda. Mas o que ficou marcado mesmo a partir deste momento foram os poderosos chutes baixos atacando a perna dianteira de Ben. Conseguiu uma queda no terceiro que lhe valeu fechar o triângulo com as pernas nas costas do campeão. Henderson conseguiu se levantar com Anthony mochilado e assim ficou por mais de dois minutos. Ben se defendia de um mata-leão prendendo a mão direita de Pettis, que martelava o tronco do oponente com a outra mão. Vencendo dois rounds seguidos, o Showtime virava a luta para 29-28.

E quando a gente achava que Pettis tinha tomado conta da luta, tome de reviravolta. Pettis seguia empolgado e tentou uma guilhotina. Henderson se safou e conseguiu reverter o quadro. Passou para as costas e travou um mata-leão que parecia encaixadíssimo. Mostrando muita raça, Pettis arranca o braço do campeão na marra e evita o estrangulamento. Uma trocação equilibrada se sucedeu até que Anthony pegou uma guilhotina e puxou para a guarda, mas Ben posturou e impediu o movimento final. Luta empatada em 38 na minha contagem.

Luta equilibrada só poderia ter um quinto round equilibrado. Pensei comigo mesmo: “sorte desses juízes barbeiros que vão poder marcar qualquer resultado e vai ficar tudo certo”. Faltando pouco menos de um minuto para o final, Anthony tirou um coelho da cartola com o movimento épico que resolveu a parada: correu em direção à grade, pulou, pegou impulso na tela com o pé direito e acertou um chutaço em cheio no meio do rosto de Henderson, que vinha de encontro. Talvez meio pelo impacto, meio pelo susto, o campeão caiu reto em knockdown. Pettis partiu para o ground and pound, prendeu um braço de Ben e martelou com a outra mão, mas o campeão mostrou que é duro e sobreviveu até a buzina fechar a lendária luta. Anthony Pettis era o novo (e último) campeão do WEC e ficava na primeira posição da fila pelo cinturão do UFC. A luta rendeu o bônus de 10 mil dólares aos dois guerreiros. A mendigaria justificou a fusão com o UFC, pois duelos desta magnitude não podem ser premiados com tão pouco.

Na entrevista depois da luta, obviamente muito feliz, o garoto de 23 anos deixou meio mundo assustado com o que ainda pode vir pela frente:

“Eu treino aquilo o tempo todo. Tenho mais uns 10 daqueles chutes para quando eu chegar no UFC. Como você gostaria que terminasse o WEC?”

Frank Edgar ou Gray Maynard que se cuide…

Dominick Cruz (EUA) venceu Scott Jorgensen (EUA) por decisão unânime (50-45, 50-45, 50-45)

O homem que tinha muito a perder no WEC 53 ganhou tudo e mais um pouco. Dominick Cruz entrou no octógono correndo o risco de perder seu cinturão do UFC e nem ver o do UFC, que seria dado pela primeira vez a um peso galo. Mas saiu dali com os dois títulos e o nome marcado na lista dos 10 melhores peso-por-peso da atualidade.

Scott Jorgensen é um lutador duríssimo, talentoso, raçudo e merecedor do posto de desafiante. Mas quem o viu apenas ontem deve ter pensado que se tratava de um lutadorzinho de várzea. Dominick foi outro que fez jus ao apelido. Com a mesma incrível movimentação que já tinha enlouquecido Brian Bowles e Joseph Benavidez, Dominick “Dominator” Cruz tirou Jorgensen para nada. Quedava facilmente como Georges St-Pierre. Movia-se, atacava e contra-atacava com a fluidez e eficiência de Lyoto Machida. E fez isso por 25 minutos, no mesmo ritmo alucinado. Era impossível Scott vencê-lo assim. Aliás, será dificílimo para qualquer peso galo tomar-lhe o cinturão.

Cruz parece um ser quântico: é impossível determinar sua posição real num determinado instante. Ele treina dez rounds seguidos contra oponentes diferentes para moldar seu caos organizado dentro de um condicionamento físico exemplar. Lutar cinco contra uma mesma pessoa torna-se algo fácil. Mesmo tendo vencido claramente os quatro rounds anteriores, nos 20 segundos finais ele ainda apertou o ritmo, como se precisasse de um nocaute salvador.

O que o agora campeão dos galos do UFC faz no octógono é até difícil de descrever. Movimenta-se como se estivesse bêbado ou mareado, vai e volta, muda de direção o tempo inteiro, mistura socos e chutes, muitos deles simultâneos. Quando o oponente pensa que entendeu a distância, Dominick encurta e aplica joelhadas, para depois se afastar novamente socando. Mistura isso tudo com quedas aplicadas tão facilmente que nos dá a impressão de estar vendo St-Pierre lutando. É quase um balé de tão bem sincronizado. Já no primeiro round o olho de Scott começou a fechar e Cruz começou a vencer. O estilo meio doido, com a guarda um pouco aberta, acaba rendendo alguns golpes contra o rosto do campeão. Mais uma vez ele acaba a luta também machucado, mas tendo dominado todos os 25 minutos. Eu fico de cara com nego que ainda vaia um espetáculo deste porte.

Agora especula-se que Cruz dividirá com Urijah Faber o posto de técnicos da próxima edição do reality The Ultimate Fighter. Nada mais justo. Além de se tratar de dois excelentes atletas que farão uma luta valendo cinturão, Faber foi o responsável pela única derrota do cartel profissional de Cruz. Após o combate o próprio campeão pediu que esta seja a sua primeira defesa no UFC:

“As pessoas não acreditam em mim. Esta foi minha quarta luta valendo título e a terceira seguida que eu venço. Acho que vocês podem confiar em mim. (…) O futuro nos reserva uma série de defesas de título. Toda vez que estou aqui, estou lutando por um novo cinturão e tento manter isso em mente do começo ao fim. Estou pronto para lutar contra Urijah. Vamos fazer isso.”

Donald Cerrone (EUA) venceu Chris Horodecki (CAN) por submissão (2:43, R2)

O antigo desafiante Donald Cerrone mostrou algumas virtudes, principalmente a paciência, para finalizar o canadense Chris Horodecki, partindo com moral para o UFC.

Mais alto, com maior envergadura, Cerrone usou bem os jabs e chutes baixos para manter o oponente e seu poder de nocaute afastados. O Cowboy conseguiu uma queda no começo. Chris se safou, mas novamente foi quedado. Cerrone tentou uma chave de braço sem sucesso. A buzina marcou 10-9 para o americano.

Donald continuou mostrando superioridade no chão no segundo. Logo no começo quedou e deixou o oponente de costas para o chão. Tentou uma omoplata, passou para um triângulo, mas não teve êxito. Em vez de desistir e partir para outra, Cerrone mostrou tranquilidade, ajustou a posição ainda mais e fechou o triângulo novamente. Cowboy ainda ficou mais de um minuto e meio com a posição encaixada, até que Horodecki não aguentou mais e sucumbiu.

O fato engraçado da luta foi quando o treinador de Chris, Shawn Tompkins, pediu ao seu pupilo que levasse a luta para o chão no intervalo do primeiro para o segundo round, mesmo depois de ter visto Cerrone dominá-lo ali. Tompkins já havia dado instrução semelhante ao pedir que Mark Coleman trocasse em pé com Randy Couture. Shawn realmente é do ramo…

Kamal Shalorus (IRN) venceu Bart Palaszewski (POL) por decisão dividida (30-27, 30-27, 28-29)