Por Alexandre Matos | 29/07/2013

Os campeões mundiais Eder Jofre, Acelino Popó, Miguel de Oliveira e Valdemir Sertão, além dos medalhistas olímpicos Servílio de Oliveira, Adriana Araújo, Esquiva e Yamaguchi Falcão protagonizaram os melhores momentos da história do boxe brasileiro. Mas a nobre arte nacional conheceu alguns ídolos que não alcançaram a glória, mas até hoje moram nos corações de muitos fãs. Um deles é o pernambucano Luciano “Todo Duro” Torres.

Nascido em 1º de julho de 1965, Todo Duro é um representante típico do esporte brasileiro. Pobre, analfabeto, viu no boxe a chance de mudar de vida (“minha filha de onze anos me ajuda a ler e entender contratos”). Muitas vezes treinava e lutava com fome (“só com a barriga cheia de água”), mas com uma raça que ele acreditava que o levaria longe. Este panorama criou um boxeador não tão talentoso, mas muito aguerrido, com instinto matador à flor da pele, que acabou arrebatando hordas de fãs, principalmente em seu Pernambuco natal, na década de 1990.

“Fora do ringue eu sou um cara tão tranquilo. Mas quando eu entro ali dentro do ringue, eu não sei… eu sei que é eu, né? (sic) Mas meu esprito (sic), meu santo, fica tão violento que eu entro que nem uma fera pra estraçaiá (sic) dentro do ringue”.

Todo Duro promove o documentário ao lado de sua filha Luana e da repórter Taciana Antunes (Foto: Trocandofigurinhas.net)

Todo Duro promove o documentário ao lado de sua filha Luana e da repórter Taciana Antunes (Foto: Trocandofigurinhas.net)

É sobre esta figura ímpar que fala o documentário “Vou Estraçaiá”, de 2011 (que eu só conheci hoje graças a meu camarada tocantinense Danilo Lima), dirigido por Tiago Leitão, da Opara Filmes. A obra é sensacional, mas não por se tratar de um candidato ao Oscar. A produção não tem efeitos rebuscados, tem uma narrativa simples. Mas os produtores deram ênfase no que era necessário: em Todo Duro e seu infindável repertório de frases sensacionais, de uma sinceridade comovente. Como esta:

“Quando a gente já tá treinando direto e quando leva um murro, a gente vê disco voador, vê avião, vê tudo. (…) Um murro que é muito ruim é o que você leva no ouvido. Óia (sic), você passa uns dez dias com um interfone dentro do ouvido: ‘Tiuí, tiuí’, apitando. Fica apitando direto, eu não sei o que é isso. Você já tomou murro no ouvido? Não queira levar não porque é ruim, viu? Que negócio ruim da gota!”

Boa parte da carreira de Todo Duro transcorreu contra oponentes de retrospectos duvidosos, como inclusive é comum no boxe brasileiro. Mas o pernambucano pode se gabar de ter enfrentado dois dos grandes nomes do boxe mundial dos últimos 20 anos. Em 1997, ele recebeu uma aula e uma coça do então jovem galês Joe Calzaghe, que acabou se tornando o maior supermédio da história. Luciano foi nocauteado no terceiro assalto e Calzaghe conquistou seu primeiro título mundial na luta seguinte. Já em 2004, depois de ter se aposentado e voltado, Luciano voltou a beijar a lona, desta vez no round inicial, contra o panamenho Guillermo Jones, atual campeão mundial dos cruzadores pela AMB.

Apesar dos dois oponentes do primeiro escalão, Todo Duro ficou famoso mesmo foi pela rivalidade com o baiano Reginaldo Holyfield(*). O trash talking era tão intenso (e engraçado) que deixaria Chael Sonnen embaraçado. Os lutadores se enfrentaram sete vezes, quatro vezes no ringue e três fora. Em eventos promocionais de seus combates, Reginaldo e Luciano trocaram tapas e socos no estúdio da TV Globo Nordeste, da TV Aratu (SBT Bahia) e na coletiva de imprensa antes do terceiro duelo.

“Quando eu bato num baiano, eu bato nele com gosto. Quando bato no Holyfield, é como se eu tivesse batendo na Bahia todinha. (…) O melhor que tinha lá na Bahia era o Holyfield e eu acabei com ele. Na Bahia não tem mais lutador. Tem um tal de Dinotauro (sic) lá. Dinotauro que eu conheço é um bicho que tem dois chifre (sic) assim. Se Dinotauro serrar os chifre (sic), ele apanha também.”

(*) Reginaldo Holyfield é um caso à parte na história do boxe brasileiro e que merece um artigo próprio no MMA Brasil. Mais talentoso que Todo Duro, foi campeão sul-americano e latino dos supermédios. Quando bateu o arquirrival pela terceira vez, Reginaldo se empolgou tanto que disse que massacraria até mesmo um americano que começava a despontar. O nome? Um tal de Roy Jones Jr.