Por Alexandre Matos | 14/04/2013 02:09

O potencial ótimo evento acabou confirmando as expectativas. Desde a primeira preliminar até o combate principal, o TUF 17 Finale, que atraiu 5.549 fãs ao Mandalay Bay Events Center, foi repleto de grandes lutas, com direito a vitórias maiúsculas e uma grande zebra na final do reality show. A renda do evento foi de 569 mil dólares.

Na principal luta da noite, Urijah Faber deu mais uma mostra que há uma enorme distância que divide o top 3 dos galos ao resto da categoria. Ele dominou o amigo e ex-parceiro de treino Scott Jorgensen e o pegou num mata-leão no quarto round.

Imediatamente antes, o mais jovem participante da história do TUF deu mais uma mostra de seu enorme coração. Lutando com inteligência, Kelvin Gastelum conseguiu neutralizar o gigante poder de nocaute de Uriah Hall e conduziu o combate de modo que o jamaicano não tivesse muito espaço para agir. Um excesso de confiança de Uriah no começo da luta colaborou para que o cheque de cem mil dólares e o contrato ficassem com Kelvin.

A segunda luta feminina da história do UFC foi um dos melhores combates do ano de 2013 até o momento. Cat Zingano entrou chorando, começou nervosa, mas se soltou e aplicou um violento nocaute em Miesha Tate no terceiro round. Como consequência, ela ganhou o posto de técnica rival de Ronda Rousey no TUF 18 e vai disputar o cinturão da categoria em seguida. As meninas embolsaram 50 mil dólares cada pelo bônus de melhor luta da noite.

Nos dois duelos que abriram o card principal, polêmica e passeio no chão. O havaiano Travis Browne conquistou um importante nocaute sobre o brasileiro Gabriel Napão, mas lançou diversas cotoveladas ilegais no processo. Browne recebeu o bônus de nocaute da noite. Antes, Bubba McDaniel não tomou conhecimento de Gilbert Smith e o pegou num triângulo no terceiro round.

Pelo card preliminar, a chave americana de Daniel Piñeda sobre Justin Lawrence rendeu a submissão da noite ao vencedor.

Urijah Faber (EUA) venceu Scott Jorgensen (EUA) por submissão com mata-leão (3:16, R4)

Amigos, amigos. Negócios à parte. Faber e Jorgensen saíram na mão, a despeito do passado próximo que fez com que Urijah iniciasse o oponente de ontem no MMA.

Na hora do combate, mais uma vez ficou claro que Faber parece não ter adversários entre os pesos galos que não ostentam cinturão. O primeiro round foi travado quase todo como uma competição de submission. E inteiramente dominado por Urijah. O California Kid derrubou, deu giro, evoluiu em posições, tentou sua temida guilhotina. Tivesse sido mais agressivo no jiu-jítsu ou contundente nos momentos em que aplicou socos e cotoveladas, Faber sairia com um 10-8.

Jorgensen melhorou no segundo round. Conseguiu diminuir a pressão das quedas de Faber, foi bem nos momentos de clinch e chegou até a derrubar o oponente. Ainda assim o California Kid dominou a troca de golpes e aplicou uma queda, controlando Scott no solo. No terceiro round, Jorgensen conseguiu manter o combate em pé por quase todo o tempo e foi capaz de igualar as ações na troca de golpes. Como o equilíbrio da parcial foi grande, provavelmente o double-leg nos segundos finais tenha dado a vantagem a Faber.

O ritmo caiu bem no quarto round. A troca de golpes foi cheia de parcimônia, mas Faber soube capitalizar uma brecha que encontrou. Lembrado o lutador dominante dos velhos tempos, explodiu numa queda e rapidamente transicionou para as costas de Jorgensen. Aí foi só ter calma para encaixar o mata-leão e se tornar a primeira pessoa a vencer duas lutas no UFC em 2013.

Kelvin Gastelum (EUA) venceu Uriah Hall (JAM) por decisão dividida (29-28, 28-29, 29-28)

Uma vitória para consolidar uma bela história. Azarão, o mais jovem competidor da história do TUF teve um passado difícil e lidou com muitas desconfianças. Contra o mais violento participante que o reality já viu, Gastelum reafirmou seu coração de lutador e mostrou um sólido plano de jogo.

O garoto fez Uriah recuar. Com a guarda alta, não teve medo de avançar e aproveitar a situação que o rival baixou os braços na grade. Kelvin grudou Hall no clinch e diminuiu a quase zero o devastador poder de nocaute do oponente. Ainda nos momentos em que o combate se passou na troca de golpes, foi Gastelum quem acertou os melhores, chegando até a balançar o jamaicano. O jovem aplicou também um belo double-leg, caiu de guarda passada e pressionou no ground and pound por quase dois minutos. Quando a buzina encerrou o round, vencido por Gastelum por 10-9, um fato ficou claro: acontecesse o que acontecesse a partir dali, Kelvin já conseguira seu respeito e já era vencedor.

No segundo round foi a vez Gastelum mostrar quem tem coração. Hall tomou uma postura mais agressiva e passou a variar os ataques, mas Kelvin logo tratou de levar a luta para o solo novamente. Uriah mostrou que não é apenas um kickboxer ao raspar o adversário e voltar com a ação para a troca de golpes. Ali, o jamaicano acertou o americano com alguns violentos ataques, mas Gastelum suportou e travou o clinch. Uriah conseguiu derrubar e cair por cima. Inteligentemente, Kelvin anulou os espaços e não foi alvejado no ground and pound. Hall levantou e aplicou um lindo suplê, mas não deu sequência e acabou preso no clinch. O dirty boxing de ambos foi pouco efetivo e a buzina soou. O 10-9 de Hall empatou o combate.

As ações começaram tímidas no terceiro round, mas foi só passar o primeiro minuto para Gastelum derrubar e Hall reverter. O jamaicano atacou com um forte ground and pound, mas o menino se safou. Kelvin passou a ficar mais receoso em avançar. Em contrapartida, Uriah baixava a guarda, dando a impressão que achava que nocautearia a qualquer momento. Gastelum conseguiu derrubar, atacou no ground and pound, mas recebeu fogo de volta de Uriah. O round terminou com uma brecha para apontar 10-9 para qualquer um ou até um 10-10 que forçaria o round de desempate.

Na contagem oficial, Adalaide Byrd e Junichiro Kamijo deram o primeiro e o terceiro rounds para Gastelum. Já Sal D’Amato marcou o segundo e o terceiro para Hall. Na minha contagem extra-oficial, um 10-10 seria justo ao analisar quantidade e contundência de golpes (vantagem de Hall), quedas (vantagem de Gastelum), passagens de guarda (vantagem de Gastelum) e reversões (vantagem de Hall).

Catherine Zingano (EUA) venceu Miesha Tate (EUA) por nocaute técnico (2:55, R3)

Se havia alguma dúvida sobre a capacidade das mulheres no MMA, Tate e Zingano trataram de dissipar com uma guerra repleta de técnica, contundência e coração. Como resultado, uma das melhores lutas de 2013, uma das melhores da história do MMA feminino e fãs aplaudindo de pé.

O combate foi disputado em alta intensidade. Zingano entrou no octógono chorando muito. Com três segundos, Tate grudou. Com mais dois, derrubou. Em seguida, tentou uma guilhotina em pé. Zingano se defendeu e saiu no mesmo ataque. Tate se safou, as lutadoras trocaram pedradas e a ex-campeã do Strikeforce derrubou, caindo de guarda passada. Cat raspou e também caiu de guarda passada. Tate se levantou, as duas voltaram às sapatadas e quase Zingano foi a knockdown. Esta também acertou golpes contundentes, forçando a oponente a derrubar novamente. Tate caiu sobre a meia guarda de Zingano, aplicou alguns socos e cotoveladas sem perder a posição, vencendo assim o round por 10-9.

Foi começar o segundo round e Zingano imediatamente voou numa joelhada. Sinal que a ação continuaria intensa. Tate tratou logo de derrubar e cair por cima. Bateu, montou, saiu para uma chave de braço, passou a guarda. Quando tentou pegar as costas, Miesha levou uma raspagem sensacional, mas tentou atacar uma chave de perna e uma de calcanhar. Cat manteve a compostura, saiu da posição ruim, quase passou a guarda e aplicou um forte ataque no ground and pound. Apesar do mau final, Tate abriu 20-18.

Atrás no placar, Cat tinha que decidir o combate. Foi ela quem tomou a iniciativa para derrubar. Pressionou por cima, bateu, estourou o nariz de Tate, passou a guarda. O ataque no ground and pound ficou intenso. E aí entrou a principal diferença técnica entre as duas. Zingano aproveitou a situação de controle e usou o movimento que Miesha fez para se levantar para encaixar o thai clinch. Várias joelhadas violentas foram disparadas. Uma cotovelada que explodiu no meio do rosto fez Tate cair. A árbitra Kim Winslow não teve dúvidas e interrompeu o combate.

Com a vitória, Cat conseguiu vários prêmios. Primeiro, dividiu com a oponente o bônus de melhor luta da noite, com toda a justiça. De quebra, ficou com a vaga de técnica rival de Ronda Rousey no já aguardadíssimo TUF 18. Para completar, foi anunciada como a próxima desafiante da campeã.

Não poderia haver uma estreia melhor.

Travis Browne (EUA) venceu Gabriel Gonzaga (BRA) por nocaute técnico (1:11, R1)

Polêmica à vista!

Quando você enfrenta um oponente que muito provavelmente vai querer levá-lo ao chão, não é muito interessante começar lançando um chute alto sem finta, sem golpes iniciais. Corre o risco de ter o chute bloqueado e ser derrubado ou, na melhor das hipóteses, ficar no clinch em situação de prejuízo.

Assim Browne começou o combate. Ao bloquear o chute, Napão tentou um single-leg. Não conseguiu, mas ficou em posição de vantagem no clinch. Os lutadores trocaram uma joelhada no corpo e fizeram muita força isométrica, Napão tentando derrubar, Browne tentando se manter de pé. Foi quando o havaiano disparou uma saraivada de violentas cotoveladas que fizeram o brasileiro cair nocauteado.

Aí entra a polêmica. Pelas imagens, tanto pela câmera por trás de Browne, que mostra as pernas de Napão cedendo, quanto por trás do brasileiro, que mostra onde os golpes acertaram o alvo, é possível dizer que Napão apagou na terceira cotovelada. As duas primeiras não foram ilegais e pegaram em uma parte crítica da cabeça, a região da têmpora, que causa nocaute mesmo. Ou seja, as duas primeiras, como foram aplicadas por um peso pesado forte, poderiam ter aberto caminho para o nocaute.

A questão neste ponto foi o momento em que o árbitro central Chris Tognoni achou que a luta acabou. A câmera mostra que ele estava longe e que, por isso, demoraria a chegar para interromper. Por este motivo, Napão acabou recebendo mais golpes que o necessário – como acontece em praticamente todo evento que há nocaute técnico, diga-se.

Voltando à questão da licitude dos golpes, se o terceiro foi ilegal, o árbitro deveria ter declarado no contest, pois o brasileiro foi incapaz de voltar por conta de um golpe ilegal não intencional (como aconteceu com Iuri Marajó-Pedro Nobre). Se o terceiro foi legal e Napão apagou ali, nocaute. Eu acho que esta segunda hipótese é aceita, mas não acho errado quem pensa que a terceira cotovelada foi ilegal. Em tempo: a partir da quarta cotovelada, esta inclusive, todas foram ilegais e poderiam ter sido evitadas se o árbitro estivesse mais próximo da ação.

Para completar, o velho papo pacheco que Napão foi prejudicado por ser brasileiro. Se você pensa assim, nem precisa expor para mim, porque eu desprezo este tipo de pensamento. Até mesmo porque Vitor Belfort foi beneficiado por lances parecidos nas vitórias sobre Rich Franklin e Yoshihiro Akiyama.

Para completar II: dar o bônus de nocaute da noite para Browne foi tosco, sem entrar no mérito da legalidade da situação. O UFC privilegiou um nocaute obtido na base da “grosseria” (cotoveladas em geral são assim) em detrimento de um lance técnico, o nocaute de Clint Hester (quando a cotovelada é aplicada com técnica, não com grosseria).

Robert McDaniel (EUA) venceu Gilbert Smith (EUA) por submissão com triângulo (2:49, R3)