Uma análise das competições do wrestling nos Jogos Olímpicos Rio 2016

Enquanto a maior wrestler de todos os tempos sofria uma derrota histórica, três jovens fenômenos deram o pontapé inicial em carreiras que podem se tornar lendárias no wrestling.

Por Alexandre Matos

O wrestling movimentou a última semana dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. De 14 a 16 de agosto, os melhores do estilo greco-romano estiveram em ação. Nos dias 17 e 18, as mulheres tomaram conta dos tapetes na Arena Carioca 2. Fechando a programação, de 19 a 21 foi a vez do estilo livre masculino.

No total, 72 medalhas foram distribuídas para 27 países. Como de costume, a Rússia liderou o quadro com quatro medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze. O Japão, rebocado pelo seu Dream Team feminino, ficou em segundo com as mesmas quatro de ouro e outras três de prata. Cuba (dois ouros e uma prata) e Estados Unidos (dois ouros e um bronze) fecharam o pódio. O Azerbaijão igualou o número de medalhas dos vizinhos russos, mas não levou nenhum título e terminou em 11º lugar com três pratas e seis bronzes. Apesar de algumas boas atuações, nenhum atleta do Time Brasil passou das quartas de final.

As competições renderam alguns momentos memoráveis, com a solidificação de lendas, a derrota incrível da até então melhor de todos os tempos e jovens fenômenos despontando, além da tradicional demonstração de superação e até histórias lamentáveis.

Feminino rendeu as melhores histórias com o tetra de Kaori Icho e a queda de Saori Yoshida

Kaori-Icho-Rio-2016

Seja pela equipe ou por desempenhos individuais, a seleção feminina japonesa deu show no Rio de Janeiro. Das seis categorias em disputa, as nipônicas conquistaram quatro ouros e uma prata. De quebra, Kaori Icho se tornou a primeira mulher tetracampeã olímpica numa modalidade individual na história. Contando também com homens, apenas Icho e os americanos Michael Phelps (200m medley, 2004–2016), Carl Lewis (salto em distância) e Al Oerter (lançamento de disco) conquistaram quatro medalhas de ouro olímpicas em provas individuais.

A wrestler mais dominante dos Jogos foi a japonesa Risako Kawai, na categoria até 63 quilos. Em quatro lutas, ela só concedeu ponto em uma, quando bateu Anastasija Grigorjeva por 8-2 nas quartas. De resto, enfileirou 5-0 na estreia, 10-0 na semifinal e 6-0 na decisão contra a bielorrussa Maryia Mamashuk, atual campeã europeia.

A única prata japonesa feminina causou um assombro que lembrou a derrota do lendário Aleksandr Karelin na final dos Jogos de Sydney, em 2000. Saori Yoshida caminhava para se tornar a maior wrestler de todos os tempos, homem ou mulher, mirando o tetra no Rio. Porém, a nipônica, que tem absurdos 13 títulos mundiais, foi batida na final por Helen Maroulis, a primeira americana a conquistar um ouro olímpico no wrestling.

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Greco-romano insere Mijaín López na galeria dos imortais

Icho não foi a única que entrou para o panteão dos imortais nos Jogos Olímpicos de 2016. O estilo greco-romano coroou mais um tricampeão olímpico quando Mijaín López venceu a categoria dos pesados sem conceder um único ponto sequer, inclusive na final contra o turco Rıza Kayaalp, que já havia vencido o cubano na final dos Mundiais de 2011 e 2015. López se juntou aos Aleksandr Karelin (greco) e Medved (livre), além do também russo Buvaisar Saitiev, como os únicos tricampeões olímpicos no wrestling.

As competições de greco trouxeram ainda o momento mais tenso dos Jogos. O russo Roman Vlasov vencia a semifinal da categoria até 75 quilos contra o croata Božo Starčević por 6-0 quando levou uma queda no final do primeiro round. Vlasov teria perdido por encostamento se não fosse por um detalhe: a guilhotina aplicada pelo croata é proibida no greco-romano. Vlasov acabou apagando, mas recuperou a consciência segundos depois, voltou para o segundo round, bateu Starčević e se classificou para a final, ocasião em que superou o dinamarquês Mark Madsen por 5-1.

Aos 25 anos, Vlasov conquistou o bicampeonato olímpico, juntando com os bis nos campeonatos Mundial e Europeu. Ele é treinado pelo lendário russo Viktor Kuznetsov, que foi técnico de Karelin, desde os 6 anos de idade.

O momento tenso em que Roman Vlasov apaga contra Božo Starčević

O momento tenso em que Roman Vlasov apaga contra Božo Starčević

Estilo livre consolida os dois wrestlers mais dominantes da modalidade

Por Elias Freire

Nos três dias de estilo livre, três campeões olímpicos de 2012 não conseguiram subir no lugar mais alto do pódio pela segunda vez, três novos campeões foram coroados com menos de 21 anos e três títulos de nível mundial foram conquistados pela mais nova estrela do wrestling.

Taha Akgul, gigante turco de 1,92m de altura e mais de 115kg, confirmou o favoritismo no peso pesado vencendo todos os seus adversários sem muita dificuldade. Fiquem de olho nesse monstro turco, que vem aterrorizando a categoria desde 2014. Se não tiver nenhuma lesão séria, já é um sério candidato a mais três títulos mundiais antes de conquistar novamente o segundo título olímpico, em Tóquio.

Sadulaev é carregado pelos fãs após conquistar a medalha de ouro no Rio 2016

Sadulaev é carregado pelos fãs após conquistar a medalha de ouro no Rio 2016

Apesar do atropelamento de Akgul, Abdulrashid Sadulaev é o nome da vez. Wrestler mais dominante da atualidade, que começou a reinar em sua categoria na mesma época que Akgul, Sadulaev carrega a expectativa de alcançar grandezas do nível de Karelin, Medved e Saitiev. A facilidade com que ele vence seus oponentes é algo fora do comum. Sadulaev só levou um ponto em toda a competição. Se somarmos os pontos que ele e Akgul fizeram e levaram neste torneio olímpico, chegamos ao placar de 60-3. Agora dá para ter uma noção melhor do quão bom esses caras são?

Confira o vídeo que o Alexandre gravou na Arena Carioca 2 com o momento em que Sadulaev sobe ao pódio:

Bilyal Makhov e Anzor Boltukaev caem na primeira luta

Depois da derrota de Yoshida, as maiores surpresas dessa Olimpíada foram as quedas de Bilyal Makhov e Anzor Boltukaev logo em suas primeiras lutas.

Makhov, que já tem contrato assinado com o UFC, era uma das grandes ameaças para Akgul e apontado como um dos wrestlers que subiriam ao pódio no peso pesado. Porém, ao enfrentar o ucraniano Alen Zasyeyev, foi derrotado por 2-2 no critério de desempate. Independentemente do revés, o mutante russo já fez muito no esporte, conquistando três Campeonatos Mundiais e uma medalha de bronze olímpica, em 2012. Agora Makhov tem um plano, o de conquistar o cinturão do UFC. Passada a Olímpiada, ele vai focar no MMA, para a alegria dos fãs do esporte e para a tristeza dos pesados do UFC.

Boltukaev parecia outro wrestler naquele tapete. Falta de gás, olhar de assustado, nem parecia o lutador que estava vencendo todos a sua frente. Favorito a levar o ouro na categoria até 97 quilos, ele caiu para o ucraniano Valerii Andriitsev. O checheno estava irreconhecível, não sei se pela pressão ou outro fator externo. Agora vamos esperar e ver qual será o futuro dessa máquina, que pifou na pior hora possível.

Com a queda de Jordan Burroughs, Kyle Snyder é a nova cara do wrestling americano

O jovem Kyle Snyder vem tendo os melhores 12 meses de sua vida. Desde setembro do ano passado, o americano venceu o Campeonato Mundial, a Divisão I da NCAA e, agora, os Jogos Olímpicos. Nada mal para um garoto de 20 anos, não é mesmo? Aliás, ele quebrou a marca de Henry Cejudo, que era o mais jovem americano a conquistar uma medalha de ouro olímpica.

E Snyder não teve um casamento fácil de lutas. Ele precisou passar por Albert Saritov, Elizbar Odikadze e Khetag Gazyumov na final para conquistar a medalha de ouro. Além disso, Snyder mostrou um poder de recuperação incrível, não se abalando depois de levar uma projeção de 4 pontos do georgiano Odikadze logo no começo da luta. Ele marcou 9 pontos em seguida e venceu por 9-4.

Talvez possamos ver uma rivalidade nascer nesta categoria. Um wrestler que testou as águas da divisão até 97 quilos no final do ano passado foi o tanque russo Abdulrashid Sadulaev, mostrando que não é menos dominante acima do peso, levando o ouro na Alrosa Cup. Poderíamos ver nos próximos anos uma das maiores rivalidades do wrestling se o russo realmente subir. Imaginem Snyder vs. Sadulaev, em quem vocês apostariam? Será que a força de Snyder faria diferença? Será que Sadulaev não é na verdade mais forte? São questões que todo fã de wrestling gostaria de ter respostas.

Com o título olímpico, Snyder é a nova imagem do wrestling dos Estados Unidos, principalmente agora com a queda de Jordan Burroughs, que foi derrotado (não sem polêmica) pelo russo Aniuar Geduev, que veio a conquistar a medalha de prata, perdendo para o iraniano campeão mundial júnior Hassan Yazdani na final da categoria até 74 quilos. Burroughs, na repescagem, foi vencido por superioridade técnica pela primeira vez em sua carreira internacional. Ele foi outro wrestler que estava irreconhecível ali, não sei se simplesmente não era o seu dia ou se os adversários estão cada vez mais preparados para seus ataques da longa/média distância. Veremos nos próximos anos se é a primeira ou a segunda opção.

Pontos negativos da competição

Primeiramente, muito árbitros da United World Wrestling mal preparados, que não sabiam pontuar adequadamente certos movimentos e que, dessa maneira, mataram o sonho de alguns wrestlers. Se você assistiu ao combate entre Reza Yazdani e Khetag Gazyumov e principalmente entre Franklin Gomez e Ikhityor Navruzov, deve ter passado muita raiva. Uma mistura de mau preparo com talvez algo mais sério decidiu essas lutas.

Yazdani conseguiu uma queda em Gazyumov no final do primeiro período que não foi contabilizada pelos árbitros, mesmo com a revisão por vídeo mostrando claramente a queda. O caso de Gomez foi pior ainda, pois ele acertou uma queda de quatro pontos em Navruzov que, por incrível que pareça, não foi contabilizada. O portorriquenho ainda ficou atrás do placar por uma suposta exposição de costas. Não é à toa que os oficiais responsáveis por essa luta foram suspensos “por atitude suspeita”, então vocês tirem suas próprias conclusões.

Sobrou até para Aline Silva, uma das favoritas a medalha na categoria até 75 quilos. A brasileira enfrentou Ekaterina Bukina, a quem venceu no Campeonato Mundial de 2015, nas quartas de final, e sofreu com inúmeras pegadas irregulares da russa sem que houvesse uma única punição. Para piorar, Aline teve uma queda ignorada pelos árbitros e acabou perdendo por 4-3. Com a chave aberta e a derrota da favorita Adeline Gray, Silva perdeu uma oportunidade gigante de garantir a primeira medalha olímpica brasileira na modalidade.

Depois da arbitragem, a subjetividade das marcações de passividade tem sido um grande problema no wrestling, com shot clocks indevidos sendo distribuídos pelos árbitros, decidindo vencedores de lutas apertadas. Um desses combates infelizmente foi a final da categoria até 57 quilos. Não me entendam mal, Vladimer Khinchegashvili é um dos maiores da categoria mais leve do wrestling na atualidade e pode vencer qualquer um em qualquer dia, mas foi abençoado por um shot clock na decisão contra a surpresa da competição, o japonês Rei Higuchi, que chegou à disputa passando por Yang Kyong-il (bicampeão mundial), Yowlys Bonne (minha aposta pra ouro) e Hassan Rahimi (campeão mundial). Num confronto apertado, em que o japonês estava vencendo por 3-2, o árbitro decidiu do nada, ao final da luta, que Higuchi estava passivo e deu um advertência a ele, para segundos depois o colocar em shot clock. O japonês não conseguiu pontuar e Khinchegashvili ficou na frente, vencendo a luta.

Algo precisa ser feito com essa subjetividade do shot clock, que faz com que árbitros decidam lutas às vezes em favor do wrestler que estava menos ativo no combate.

O terceiro ponto negativo foram os técnicos mongóis que tiraram a roupa para reclamar do resultado da luta entre seu pupilo Mandakhnaran Ganzorig e o uzbeque Ilkhativor Navruzov. O protesto aconteceu por causa da subjetividade da passividade anotada contra o mongol, que acabou derrotado. Terrível isso para a imagem do esporte (e para a imagem deles).

E a apresentação mais dominante das finais vai para….

Soslan Romanov, da Rússia, que já foi campeão mundial em 2014. Ele praticamente destruiu o campeão olímpico de 2012 da categoria até 65 quilos, Togrul Asgarov. Ainda no começo do primeiro período, queda atrás de queda, Romanov conseguiu a superioridade técnica, a única das disputas pelo ouro, por 11-0, chocando quem acompanhou esse momento único. A rivalidade entre Ramonov e o cubano naturalizado italiano Frank Chamizo, que ficou com a medalha de bronze, vai continuar com tudo, para a alegria dos fãs. Possivelmente eles dividirão os títulos mundiais até a Olimpíada de 2020, já que Asgarov provavelmente vai se aposentar.

No geral, apesar dos pontos negativos citados, gostei muito do que vi, principalmente dos dois últimos dias. Sonhos foram destruídos, outros foram realizados. Campeões que mereceram chegar no ponto mais alto que suas carreiras poderiam alcançar, realizando sonhos que se arrastavam desde quando eram crianças, completando um árduo ciclo de quatro anos (e uma vida de trabalho duro) com sucesso. Enquanto alguns veteranos que vemos há anos conquistando medalhas em Mundiais e Olimpíadas estão pendurando suas sapatilhas, como Yazdani, Gazyumov e Asgarov, outros novos como Akgul, Sadulaev, Yazdani, Snyder, Ramonov e Khinchegashvili já estão os substituindo com muita autoridade.

Que venha o próximo ciclo olímpico! E que venha Tóquio 2020!

  • Olha, o Romanov é um monstro mesmo, mas me desceu mal aquele vareio que ele deu no Asgarov. Rolou muito resultado polêmico a favor de russo no boxe, no wrestling. Eu espero que a vitória tenha sido na moral, mas que pareceu que o Asgarov facilitou, isso pareceu. E não fui o único com essa impressão.

    • Elias Freire

      Não coloco minha mão no fogo por ninguém, mas não acredito em facilitada por parte do Asgarov. Ramonov tem um nível muito alto e estava voando nessa competição. Além disso os dois nunca tinham se enfrentado, às vezes é normal que um top tenha facilidade em vencer o outro por questões de jogo, o que pode muito bem ser o caso.

      • Eu também acho possível, só fiquei meio bolado com a quantidade de absurdo pró-russo que aconteceu nesses Jogos.

  • James sousa

    foi a modalidade de luta que eu mais me interessei e acompanhei nestes jogos , da pra imaginar o Brasil ganhando medalhas em 2020 principalmente com as mulheres ? ou a diminuição do investimento nos esportes olímpicos tornar difícil pensar em um resultado melhor do que o conseguido no Rio ?

    • Digodasilva

      Então, James….
      Na minha opinião, essa foi a grande chance! Acredito sim que é possível continuar o trabalho e conquistar resultados melhore, mas tenho uma certeza: o trabalho e a dificuldade serão MUITO maiores!

      • O projeto da CBW sempre foi pra medalha em 2020, não em 2016.

    • Elias Freire

      É bem possível sim o Brasil sair com medalhas em 2020 no wrestling, não faz muito tempo que a Aline saiu com uma prata de um mundial e a Joice com uma medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos, então não é algo difícil de se visualizar. Já no masculino a história já é bem diferente, infelizmente o nível ainda está extremamente aquém das potências do esporte.

      • Digodasilva

        Vdd… O masculino (principalmente livre) está aquém do cenário internacional. A CBW está até procurando novos talentos na Greco, mas o masculino tem um longo caminho. Quanto ao feminino, minha preocupação é a próxima geração de atletas. Aline, Joyce, Lais e as demais meninas devem continuar o bom trabalho. Mas com menos investimento e a necessidade de muito mais esforço conseguiremos formar novas atletas? Espero que sim!

        • Não acho que a Aline e a Joice cheguem fortes em Tóquio, mas a Lais e a Giullia, sim.

    • Sim, é possível e essa é a meta da CBW, não era pra 2016. A Lais deve chegar muito forte, ela ainda é nova e tava passando o carro na turca quando foi encostada. A Giullia Penalber também é nova e deve crescer nesse próximo ciclo olímpico. Se não cortarem verba, a CBW deve estreitar as ligações com a Federação Japonesa pro time feminino.

  • Digodasilva

    Gostaria de parabenizar o Elias pela análise da arbitragem. Não li em nenhum outro lugar até agora as críticas aqui colocadas. Comentei algumas vezes no grupo sobre os erros dos árbitros, mas não quis falar mais pq enchi de comentários o grupo do whatsapp, principalmente na luta dos brasileiros e não quis exagerar rsrsrsrs! Senti-me representado, pois tbm observei decisões e omissões lamentáveis da arbitragem! Concordo com o que foi colocado. Revi lutas, inclusive a da brasileira, e houveram algumas falhas que até que podem ser justificadas por eu analisar um replay e ao vivo ser mais difícil! Mas houveram outras que não se justificavam! Infelizmente.

    • A parte da arbitragem teve trecho meu também (o da Aline).

      • Digodasilva

        Então deixem-me fazer esse adendo :) Parabéns tbm Alexandre! Curioso que estávamos trocando msgs no grupo durante a luta da Aline e, como disse antes, não abordei esse assunto, mas mesmo sem conversarmos sobre isso naquela oportunidade fiquei de certa forma surpreso por concordarmos nisso. Achei freaca a arbitragem na luta da Aline.

  • Pedro Carneiro

    Mijaín López é um monstro sagrado, mas eu achei que o Kayaalp seria o campeão…