Por Edição MMA Brasil | 06/12/2019 08:42

Após algumas semanas de férias, o UFC chega a Washington para o primeiro de três eventos que irão encerrar o ano de 2019 da maior organização de MMA do mundo. Sem lutas de grande expressão, o UFC Washington terá como principal combate da noite a disputa entre Alistair Overeem e Jairzinho Rozenstruik.

Teremos também no card outros dois pesos pesados, com Stefan Struve enfrentando Ben Rothwell. Entre os duelos de gigantes, dois talentos das categorias femininas devem fazer bom combate, com Marina Rodriguez e Cynthia Cavillo se enfrentando pelo peso palha.

Ainda, no início da porção principal do evento, Aspen Ladd enfrenta Yana Kunitskaya no peso galo e Cody Stamann promete pancadaria contra Song Yadong.

O UFC Washington terá transmissão na íntegra pelo Canal Combate, se iniciando às 20:30 e com a porção principal do evento indo ao ar a partir de meia-noite, sempre no horário de Brasília.

Pesado: #6 Alistair Overeem (HOL) vs. #14 Jairzinho Rozenstruik (SUR)

Por Thiago Kuhl

Alistair Overeem (45-17 no MMA, 10-6 no UFC) vai surpreendendo e, mesmo já tendo ultrapassado a barreira de 60 combates e conseguido se manter relevante em um MMA muito mais regulamentado do que já viveu no passado, se mantém relevante no maior evento do mundo. Como se isso já não fosse algo a se exaltar, o holandês conseguiu superar o pior momento da carreira, entre 2013 e 2014 – quando emendou derrotas para adversários de calibre duvidoso – e mudou seu modo de luta para ser mais longevo no esporte. Mesmo com todos esses méritos, Reem acabou se formando como um porteiro do top 5 da divisão mais órfã de talentos do MMA mundial, o que o torna um adversário ideal para alavancar eventuais prospectos ou candidatos à estrela.

Dentro do cage podemos dizer que Alistair teve duas facetas. Uma, que já não existe mais, é o agressor impiedoso, que implementava um arsenal ofensivo com muita técnica e explosão, conseguindo os mais variados nocautes e finalizações, seja com um poderoso clinch, seja com estrangulamentos bem encaixados. O problema é que, contra gente qualificada – ou nem tanto, as vezes – a alta exposição ofensiva cobrava um preço alto, fazendo o médico acordar Overeem algumas vezes com a lanterninha, no decorrer dos anos. Decidido a se manter na ativa, sob a batuta de Greg Jackson o holandês conseguiu se tornar um lutador estratégico, que sabe usar o espaço do octógono para evitar ter seu queixo atingido, com mais inteligência, conseguiu vitórias que o mantém relevante, mas a falta de gás e de coração seguem lá e, se a coisa aperta, pode ter certeza que Overeem irá acabar nocauteado de algum modo brutal.

Jairzinho Rozenstruik (9-0 no MMA, 3-0 no UFC) é uma das sensações do momento da categoria dos pesados. Não que se espere do surinamês cheio de carisma, talento de elite, mas o carisma do gigante já conquistou fãs em alguns cantos do mundo. Em suas três vitórias ainda não somou 7 minutos de octógono, três nocautes sobre Junior Albini, Allen Crowder e Andrei Arlovski deram a ele o possibilidade para tentar adentrar à elite dos pesos pesados, com um ex-desafiante em seu caminho.

Trocador de ótimo nível, Jairzinho chegou a vencer campeonatos de kickboxing, sendo veterano na arte do striking. Dono de mãos pesadíssimas e punhos rápidos, utiliza-se de uma boa explosão para mandar os adversários para vala, e é isso. O problema é todo o resto. A condição cardiorrespiratória é abaixo da crítica, o grappling, defensivo e ofensivo, pífio. Sobra à Rozenstruik a imensa força física e a capacidade técnica de encontrar um queixo desguarnecido pelo seu caminho, porém, se o combate mudar de nível, ou se alongar, teremos cenas dantescas.

Alistair Overeem vs Jairzinho Rozenstruik odds - BestFightOdds
 

Se fôssemos nos valer das características de cada lutador, me parece muito claro que o holandês tem um caminho óbvio para seguir e condições técnicas de impor uma movimentação que canse o surinamês e permita que Overeem chegue a uma finalização pelo fim do segundo, começo do terceiro round.

O problema é que Alistair não consegue ver uma baranga de mão pesada que ele já quer tomar um nocaute, então não me surpreenderia nada Jairzinho conseguindo um nocaute ainda no primeiro round, num vacilo de seu adversário. Para não ficar no muro, vamos de Overeem por finalização.

Peso Palha: #9 Marina Rodriguez (BRA) vs. #10 Cynthia Calvillo (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Descoberta na edição brasileira do Contender Series, Marina Rodriguez (12-0-1 no MMA; 2-0-1 no UFC) vem traçando uma trajetória muito promissora dentro do UFC. Depois de estrear com um empate contra Randa Markos, a gaúcha venceu as veteranas Jessica Aguilar e Tecia Torres com atuações convincentes, invadindo o ranking da divisão. No próximo sábado, busca se consolidar no topo da categoria ao enfrenta a décima colocada.

Especialista na trocação, Marina é uma clássica lutadora do muay thai, utilizando bons golpes retos e chutes em combinação, sempre caminhando para frente e impondo pressão. No entanto, os melhores momentos de Rodriguez são quando encurta a distância, utilizando violentas joelhadas e cotoveladas no clinch, onde causa a maior parte do seu dano. O principal ponto fraco do seu jogo é o grappling defensivo, principalmente na parte de quedas. De costas para o chão, Marina utiliza as cotoveladas para abrir espaço para tentar levantar, mas sem grandes ações ofensivas. O condicionamento já mostrou ser suficiente para manter a pressão por três rounds, já que todas as suas vitórias no UFC foram por decisão.

Outra lutadora que chegou com tudo na divisão dos palhas, Cynthia Calvillo (8-1 no MMA; 5-1 no UFC) tenta recuperar o bom momento da estreia após uma suspensão de seis meses por uso de maconha. A americana já tem cinco vitórias dentro do UFC, com a única derrota sendo para a ex-campeã Carla Esparza em uma decisão apertada.

Outra adepta da pressão constante, Cynthia marcha para frente com um objetivo oposto ao de Marina: levar a luta para o chão, área em que a integrante da Team Alpha Male tem maior talento. As quedas são efetivas e, uma vez por cima, Calvillo tem muita habilidade nas transições, chegando às costas com facilidade, de onde aplica os estrangulamentos que marcaram sua carreira. A trocação vem melhorando e ela conta com um bom boxe composto por combinações de mãos utilizadas para distrair as adversárias rumo à curta distância, além de possuir boa potência para a categoria mais leve do evento. Na última luta, teve problemas com o peso, além de vir de quase 10 meses parada, o que pode afetar seu condicionamento.

Cynthia Calvillo vs Marina Rodriguez odds - BestFightOdds
 

A luta de sábado traz um confronto de estilos entre duas lutadoras empolgantes e promissoras, que pode aproximar a vencedora do top 5 da divisão. Apesar do clichê, fica evidente que a lutadora que conseguir impor seu jogo deve levar a vitória: enquanto Marina é mais habilidosa em pé, Calvillo tem vantagem na luta agarrada. Quanto ao prognóstico, o casamento parece mais afeito à americana, que deve explorar a esburacada defesa de quedas da gaúcha para levar a luta para o solo, onde é letal. Assim, a aposta é que Cynthia Calvillo derrube, chegue as costas e conquiste mais uma vitória por submissão, utilizando seu clássico mata leão.

Peso Galo: #9 Cody Stamman (EUA) vs. #13 Yadong Song (CHN)

Por Bruno Costa

Cody Stamann (18-2 no MMA, 4-1 no UFC) chegou à organização conquistando boas vitórias e teve rápida evolução no nível de adversários enfrentados, derrotado apenas pelo excelente Aljamain Sterling. Um wrestler muito forte e atlético, Stamann se utiliza do conjunto de habilidades para levar a luta no ritmo e ambiente em que se sente mais confortável.

O striking ainda necessita de melhoras, mas o chute baixo é uma arma ofensiva importante, além dos potentes diretos. Quando decide pelo jogo de quedas, o americano tem bom controle posicional e ground and pound potente. Ainda possui dificuldades em evoluir posições no jogo de solo, mas apesar de ter sido finalizado por Sterling parece defensivamente competente o suficiente para enfrentar a esmagadora maioria dos possíveis oponentes. No seu último combate, contra Alejandro Perez, demonstrou novamente inteligência tática para garantir a vitória. Exibiu nítida evolução de consciência sobre o gasto de energia, mas ainda falta maior dinamismo para competir contra o mais alto nível.

Yadong Song (15-4 no MMA, 4-0 no UFC) é um dos melhores jovens lutadores do plantel do UFC – competindo profissionalmente desde os 15 – e busca sua quinta vitória consecutiva no octógono. Dono de um atleticismo impressionante, o chinês claramente ainda carece de refinamento técnico, mas dá sinais de que, mesmo em fase de desenvolvimento, é páreo duro para diversos habitantes do peso galo.

Muito ágil e explosivo, Song tem capacidade para exercer constante pressão sobre seus adversários, mas também luta efetivamente à base de contra-ataques. Em seus últimos desafios, se demonstrou capaz de controlar a distância com competência com bons jabs para pontuar e abrir espaço para potentes diretos. Isto o levou a um assombroso nocaute no último compromisso. A contínua movimentação não permite que seja um alvo fácil para as ações ofensivas rivais; a defesa de quedas melhorou muito desde que Song passou a treinar na Team Alpha Male, onde encontra muitos lutadores de sua faixa de peso e que podem contribuir na melhoria desse quesito.

Além de defensivamente demonstrar avanços, Song passou a inclusive conseguir contraquedas que levam a um ground and pound que surpreende pela violência e efetividade. O jiu-jítsu ofensivo demonstrou ainda necessitar de polimento, uma vez que perde posições com constância ao tentar avançar posições.

Cody Stamann vs Song Yadong odds - BestFightOdds
 

Stamann é mais um excelente teste para Yadong e apresenta um novo desafio: a de um wrestler potente com capacidade física, técnica e tática para colocar o chinês de costas para o solo por longo período. Yadong necessita ter inteligência na movimentação e trabalhar com alto volume de golpes para não deixar o americano confortável com o baixo ritmo que prefere imprimir aos seus combates.

A aposta é que Stamann consiga ao menos uma queda ao longo do combate, mas que Yadong se adaptará e conseguirá manter a distância com competência, entrando no raio de ação de Stamann para golpear com potência e saindo com velocidade, acabando o combate vitorioso em uma apertada decisão que aumentará sua sequência de vitórias na organização.

Peso Galo: #10 Rob Font (EUA) vs. Ricky Simón (EUA)

Por Bruno Costa

Rob Font (16-4 no MMA, 6-3 no UFC) é mais um dos ótimos valores da profunda categoria dos galos no UFC. Um ótimo boxeador para o MMA, utiliza com competência sua envergadura, tem boa velocidade nas mãos e é capaz de protagonizar interrupções em seus combates como poucos integrantes da mesma faixa de peso. A habilidade na nobre arte ficou marcada em seu último combate, no qual aplicou uma clínica de jabs em Sergio Pettis.

O wrestling ofensivo é uma arma importante a ser utilizada caso Font necessite de um desafogo eventualmente. Defensivamente, se sente muito incomodado quando pressionado por rivais com mãos potentes, fugindo à boa movimentação característica e deixando ir embora sua inteligência de luta. A defesa de quedas baseada na movimentação é boa para a média de seus adversários. Também já demonstrou oportunismo ao finalizar oponentes de menor nível técnico com guilhotinas bem encaixadas.

Ricky Simón (15-2 no MMA, 3-1 no UFC) chegou ao UFC com notáveis desempenhos contra oponentes de bom nível. Ele conquistou rapidamente uma posição no ranking da categoria após a vencer o veterano grappler brasileiro Rani Yahya.

Em sua estreia na organização, uma virada espetacular contra o duríssimo wrestler Merab Dvalishvili demonstrou seu ótimo senso de oportunismo ao encaixar uma guilhotina nos segundos finais do combate. Na luta seguinte, contra um dos strikers mais altos da categoria em Montel Jackson, teve capacidade para entrar no raio de ação e conseguir quedas para vencer em uma folgada decisão. Já contra Yahya, mostrou ótima defesa de quedas típica de lutadores oriundos do wrestling e venceu com folga a batalha em pé para fechar a sequência de três vitórias seguidas.

A primeira derrota no UFC veio na oportunidade de protagonizar uma das principais lutas do evento realizado em Sacramento, casa de Urijah Faber, lutador histórico da categoria e que retornava ao esporte após dois anos e meio de aposentadoria. Na ocasião, Simón até teve um início interessante se aproveitando da vantagem de velocidade e falta de ritmo do oponente. Contudo, demonstrou uma falha comum aos jovens lutadores: a defesa no striking ainda deixa muitos espaços para ser acertado – e isso considerando que Faber tem como golpe importante quase que unicamente o overhand de direita, que acertou em cheio Simón.

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Para o duelo de sábado, Simón precisa ser intenso nas ações ameaçando com constância Font. Isto deve ser feito não só com pressão do boxe baseado em golpes pesados, mas também com tentativas de quedas (sem expor o pescoço a um finalizador de bom nível) para deixar na dúvida o oponente, visto que se depender apenas da troca de golpes pura, tende a sair no prejuízo.

A tendência, contudo, é que Font consiga impor sua vantagem em pé e na movimentação, mantendo a distância e aproveitando as falhas defensivas do seu adversário para sair vitorioso com uma interrupção no terceiro round.