Por Alexandre Matos | 22/07/2009 20:00

A diferença nos locais de competição, precedida por uma perseguição de políticos americanos, provocaram mudanças nas regras, de modo a não deixar o MMA se tornar um perigo para o praticante.

Nas regras dos eventos japoneses, disputados em ringues, algumas manobras consideradas válidas são vistas com pavor por alguém que convive com as Regras Unificadas de Conduta do MMA, trabalho desenvolvido por algumas comissões atléticas nos EUA para regulamentar a prática do MMA em solo americano e aproveitado em diversos outros países. Em contrapartida os japoneses impediam golpes considerados normais pelos americanos. Esta confusão de proibições ajudou a tumultuar a migração de lutadores entre os eventos.

Como não era regulamentado por comissões atléticas, o PRIDE não tinha preocupações com alguns pontos de segurança dos lutadores. Por exemplo, não permitia o uso de vaselina ou de qualquer outro produto lubrificante ou apaziguador de dores no rosto, como acontece no UFC. A vaselina deixa o rosto mais escorregadio, dificultando o impacto de um soco, chute ou cotovelada, o que ajuda muito a minimizar os danos na trocação e principalmente àqueles que lutam na guarda a ser alvo de golpes menos contundentes no ground and pound.

Joelhada de Ricardo AronaO público japonês vibrava com golpes traumáticos como pisões na cabeça (foto no alto), tiros de meta contra o rosto (última foto do artigo) e joelhadas no rosto de atleta caido (foto ao lado). Por motivos óbvios, estas técnicas são proibidas pelas Regras Unificadas. Imagine o que aconteceria a um lutador com a cabeça pressionada contra a grade do octógono levar um pisão voador ou um tiro de meta. Alguém pensou em risco de morte? Pois é. Num ringue este risco é minimizado, pois não há um anteparo que pressione a cabeça do atleta contra o pé do adversário.

O brasileiro Maurício Shogun era usuário comum dos pisões em suas lutas no PRIDE e precisou se readaptar ao ingressar no UFC. Já o americano Quinton Jackson, que sofreu com os tiros de meta do brasileiro no Japão, livrou-se do tormento quando foi contratado pelo UFC.

Kazushi SakurabaEm contrapartida, os japoneses não permitiam cotoveladas na cabeça em lutadores no chão, artefato largamente utilizado no UFC e que fez a fama de Anderson Silva, por exemplo (leia mais abaixo).

No TUF 9 Finale, o americano Diego Sanchez mostrou ainda que é possível levar vantagem mesmo por baixo no ground and pound: ele aplicou diversas cotoveladas em Clay Guida a partir da guarda.

A explicação japonesa para a proibição partia do pressuposto que a cotovelada é um artifício cortante, que provoca sangramento em excesso, gerando uma imagem forte para o espectador. Só acho estranha esta justificativa depois que o ídolo local Kazushi Sakuraba saiu de uma luta contra Ricardo Arona com o rosto coberto por uma toalha, totalmente deformado pelas joelhadas da foto acima.

Cotovelada de Evan TannerJá o torcedor americano adora as cotoveladas na cabeça aplicadas a partir do ground and pound, como o falecido lutador Evan Tanner mostra na foto ao lado no UFC 45, em vitória sobre Phil Baroni. Cotoveladas causam mais estrago aparente pelo poder de corte, mas o impacto real é muito menor do que um pisão ou um tiro de meta na cabeça.

O MMA é um esporte e, sendo assim, deve privilegiar o uso de técnica e aplicação de planos táticos. Pisões e tiros de meta não demonstram superioridade técnica alguma, além de reduzir muito as chances de defesa, principalmente dependendo do momento em que o golpe for aplicado. Um lutador caído por um knockdown é uma vítima de tiro de meta ou pisão praticamente sem defesa.

Rampage sofre tiro de meta

Por falar em golpes que não demonstram superioridade técnica sobre o oponente, algumas regras soam estranhas. O UFC considera golpes contra a cabeça de lutadores em três ou mais apoios como falta, pois se um lutador está em uma destas posições é sinal que algo não vai bem e ele pode não conseguir se defender. Em compensação, o evento americano permite, a critério do árbitro, um golpe em um adversário nocauteado, como Dan Henderson fez com Michael Bisping no UFC 100. Se o árbitro não parasse a luta, Dan somente pararia de socar o oponente previamente nocauteado quando tivesse vontade, provocando risco no mínimo igual a golpes contra três ou mais apoios.

E aí, já apresentamos motivos suficientes para explicar a diferença de performance de atletas que passaram do PRIDE para o UFC (e vice-versa)? Pois aguarde que ainda tem mais. Publicaremos a terceira parte do especial mostrando que até a atmosfera que cerca cada evento influencia a performance dentro de uma luta. Não perca!