Por Edição MMA Brasil | 26/06/2020 03:22

Em mais uma semana de evento durante a pandemia do COVID-19, o UFC retorna a cidade de Las Vegas para realizar o UFC Vegas 4. Mas depois de um evento bem abaixo da média, a organização chega com o pé na porta com uma luta principal bastante promissora.

No combate principal da noite, o peso leve e ex-campeão interino Dustin Poirier retorna ao octógono para enfrentar o ascendente Dan Hooker em um duelo que promete ser explosivo.

Outro combate que ganha destaque no card é o duelo entre Mike PerryMickey Gall, que será realizado pela categoria dos meio-médios. Para fechar as lutas da porção principal, Brendan Allen encara o recém-contratado Kyle Daukaus pela categoria dos médios e, por fim, Luis Peña enfrenta Kharma Worthy na divisão dos leves.

Peso Leve: #3 Dustin Poirier (EUA) vs. #5 Dan Hooker (NZL)

Por Pedro Carneiro

A carreira de Dustin Poirier (25-6 no MMA, 17-5 no UFC) é semelhante a uma parábola com a concavidade para cima. O “Diamante” era realmente uma joia bruta, cercada de talento e expectativa, chegando a conseguir grandes vitórias no início da carreira. Quando pensamos que ele estava no ponto de mínimo ou no pior momento da carreira, veio a mudança para o peso leve criando uma ascensão e lapidação que gerou, além de um retrospecto de 4 vitórias seguidas (Anthony Pettis, Justin Gaethje, Eddie Alvarez e Max Holloway), um dos mais empolgantes lutadores da atualidade dentre todas as categorias. O tropeço no compromisso mais recente contra Khabib Nurmagomedov, além de não ser demérito para ninguém, só serve mesmo para dizer que o campeão da categoria não tem adversários.

Poirier tem versatilidade até nas entranhas, compondo um kickboxing com combinações de muitos golpes, um ritmo forte e uma pressão constante que mantém os adversários em estado constante de alerta. A pressão é tão forte que vimos Eddie Alvarez e até mesmo Gaethje serem superados nesse quesito. O wrestling é de bom nível, com quedas eficientes e transições oportunas para finalizações. O condicionamento físico é ótimo e consegue suportar os cinco rounds bem.

Defensivamente o “Diamante” expões dois lados de uma mesma moeda. O lado bom é que mesmo quando está em uma troca franca de afagos, o americano consegue pensar e tomar boas decisões no calor do momento e na adversidade. O lado ruim é que em adversários mais velozes, a sua recomposição defensiva é suplantada, o que o deixa exposto a golpes limpos.

Se o objetivo do UFC era promover um encontro de lutadores agressivos, a escolha de Dan Hooker (20-8 no MMA, 10-4 no UFC) dá um excelente match e a oportunidade de termos no mínimo um nocaute da noite no próximo sábado.

Hooker é também um amante da pressão e de encurralar os oponentes visando sempre o nocaute. Até certo ponto, o neozelandês chegava a exagerar na potência de cada golpe desferido ao longo da luta, o que o deixava com baixo volume e cobrava certo preço ao longo da luta, mas o problema parece ter sido resolvido. Dan gosta de lutar no pocket e confia no seu poder de absorção de golpes para promover o encontro do adversário com Morpheus, o deus grego do sono. No entanto, a luta agarrada não é um ponto forte e pode ser um caminho explorado por Poirier.

Dan Hooker vem comum retrospecto de 7-1 nos últimos 3 anos, vencendo James Vick, Durinho, Jim Miller e Ross Pearson pela via rápida e dolorosa. Como quem todos que lançam mão da espada, pela espada perecem, foi nocauteado por Edson Barboza em dezembro de 2018. Desde então só vitórias, incluindo as duas últimas contra Al Iaquinta e Paul Felder, ambos na decisão dos juízes.

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Poirier e Hooker tem estilos parecidos e são fortes candidatos a receberem algum bônus no final da noite. Ambos gostam de trocar tabefes na velocidade 5 do créu e na distância da dança do maxixe e ambos aguentam receber golpes como se o amanhã não existisse. O problema para Hooker é que tudo que ele faz bem, Poirier faz muito melhor. Melhor ao ponto de que se Poirier quiser, ele pode simplesmente evitar a fadiga e levar a luta para o chão, onde leva boa vantagem. Mas vamos torcer para que isso não aconteça e os dois resolvam sair na mão, e nesse cenário a aposta aqui é a de que Poirier consiga o nocaute no máximo no terceiro round.

Peso Meio-Médio: Mike Perry (EUA) vs. Mickey Gall (EUA)

Por Gustavo Lima

Apesar da inconstância, Mike Perry (13-6 MMA, 6-6 UFC) é um dos inúmeros atletas interessantes da divisão dos meios-médios. Se tecnicamente deixa a desejar, ele costuma render bom entretenimento aos espectadores em suas aparições no UFC. Novamente com duas derrotas consecutivas, o “Platinum” precisa de uma nova vitória para manter sua relevância e tem pela frente um adversário que possibilita bastante esse cenário.

Perry é um trocador rápido e explosivo com bom mix-up de técnicas de boxe e muay thai que costumam ser letais contra oponentes que não são capazes de evitar esta ofensividade. Se estes artifícios permitiram a Mike anotar bons nocautes e fazer duelos memoráveis no UFC, a falta de polimento técnico e fragilidade no sistema defensivo fizeram o atleta saísse derrotado quando bateu de frente com oponentes de nível técnico superior.

Mickey Gall (6-2 na carreira, 5-2 no UFC) tem um histórico muito atípico em sua carreira. O homem que recepcionou CM Punk na companhia e freou o “hype train” de Sage Northcutt alterna vitórias e derrotas em suas últimas quatro lutas, mas sempre com uma nota de corte bem clara. Sua fundação no jiu-jítsu garante vantagem contra adversários modestos (tendo inclusive ganhado 5 de suas 6 lutas via mata-leão), mas isso não foi suficiente quando teve sua técnica acionada em casamentos mais cascudos.

Não dá pra dizer que o atleta não faz por merecer seu posto no UFC, mas dificilmente seria considerado favorito contra nomes mais medianos da categoria até 77kg. Em sua última luta, sucumbiu aos resquícios de habilidade do decrépito Diego Sanchez, sendo nocauteado no segundo round.

Esta é uma luta que favorece muito uma recuperação de Mike Perry visto que mesmo do ponto de vista de um confronto clássico de estilos, o “Platinum” tem alguma base de habilidade para não sucumbir a possíveis investidas de Gall. Mickey não é o tipo de lutador que teria a consonância entre frieza e técnica para impedir que a voracidade do oponente de sábado o engolisse.

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Levando em conta que Mickey não é exímio wrestler (e inclusive vai estar de frente pra um cara que se vira muito bem nesse aspecto) e que necessariamente precisa lidar com Perry em sua frente ao início de cada parcial, temos aqui um conjunto de situações que apontam para uma vantagem muito grande de Mike, na teoria. Perry é franco favorito aqui com grandes chances de KO/TKO.

Peso Médio: Brendan Allen (EUA) vs. Kyle Daukaus (EUA)

Por Bruno Costa

Brendan Allen (14-3 no MMA, 2-0 no UFC) é um campeão mundial de MMA amador e ex-campeão do LFA que chegou ao UFC após ótima desempenho na semana 4 do Contender Series 2019, quando finalizou Aaron Jeffrey com pouco mais de três minutos no primeiro round.

Nos primeiros duelos no octógono, Allen recebeu bons desafios de nível de competição forte e à época já bastante experientes, mas soube lidar bem com a pressão e impôs com sucesso seu jogo favorito. Grappler de origem, bom nos scrambles e com ótimo senso de finalização, Allen tem melhorado a precisão na luta em pé e, principalmente, se tornado especialmente agressivo no ground and pound aproveitando do controle posicional. Ainda são muitas as brechas defensivas, tanto na trocação quanto no solo – a ponto de se colocar em apuros no chão mesmo contra Kevin Holland -, mas deve melhorar no quesito com experiência e mais tempo de rodagem.

Ainda pouco experiente e em notável evolução, “All In” é um dos nomes a se prestar atenção para a renovação de uma categoria precisando de bons jovens talentos. Muito embora tenha saído derrotado em três ocasiões antes de chegar ao UFC para lutadores que hoje também fazem parte do plantel e sem grande destaque pela irregularidade (Trevin Giles, Eryk Anders e Anthony Hernandez), vale dizer que no momento desses combates o nível de desenvolvimento e diferença de idade prejudicaram Allen.

Kyle Daukaus (9-0 no MMA, 0-0 no UFC) estreia na organização substituindo Ian Heinisch de última hora, mas estava no radar há algum tempo. Assim como seu adversário, saiu vitorioso e teve bom desempenho no Contender Series 2019, na Semana 2. Contudo, mesmo com bom desempenho e tendo chegado muito próximo de conseguir uma finalização, acabou não recebendo contrato com o UFC.

Daukaus era campeão do Cage Fury e tem tudo para se tornar um lutador de ação, no mínimo, de bom valor para o peso médio. Apesar dos bons golpes retos e chutes altos, não prima pela potência no jogo em pé e prefere partir para o grappling, onde é bastante ofensivo e oportunista na busca pelo pescoço dos adversários.

Contra oponentes de nível atlético de excelência, pode sofrer pelo menor nível de agilidade e movimentação, mas as qualidades e agressividade aliadas ao senso de finalização devem carregar Daukaus a uma boa passagem pelo UFC.

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Para o duelo de sábado, podemos esperar muita ação de dois lutadores com boas condições de trilhar um caminho longo no UFC. O plano de jogo de ambos são parecidos, sempre com agressividade em busca do grappling ofensivo e nem tão cuidadoso, o que deve render ótimos momentos no combate, mesmo na luta em pé.

Allen é o lutador mais experiente e teve o camp completo, enquanto Daukus parece cortar muito peso e estreará com pouquíssimo tempo de preparação. Como a disputa no solo parece inevitável no confronto, a vantagem fica ao lado de Allen, que deve desgastar o oponente e sair vitorioso por finalização a partir da metade final da luta – contudo, sem descartar a hipótese de Allen se colocar em péssima posição logo no início do combate e acabar entrando na coleção de pescoços de Daukaus.

Peso Leve: Luis Peña (EUA) vs. Khama Worthy (EUA)

Por Idonaldo Filho

Americano nascido na Itália, o “Bob Ross violento” Luis Peña (8-2 no MMA, 4-2 no UFC) era um dos favoritos a vencer o TUF 27 no peso leve, reality com a temática focada em lutadores invictos. Uma lesão impediu Peña de disputar a final, mas mesmo assim, ele teve a chance e com uma vitória sobre Richie Smullen e obteve o contrato com o UFC. No líder do mercado, tem desempenho irregular e chegou a tentar bater o peso pena, mas acabou falhando ainda que tenha vencido sua luta contra Steven Peterson na categoria. Atualmente, Luis vem de uma vitória sobre Steve Garcia Jr, em fevereiro.

Peña aproveita bastante sua boa estatura na categoria e grande envergadura – ambas com 1,91m – na hora de soltar golpes retos, principalmente chutes no rosto, aplicando um volume significante de golpes em detrimento de potência. Alguns movimentos do ruivo também mostram ousadia, como cotoveladas frontais e joelhadas voadoras. No grappling, Peña conta com alguns estrangulamentos interessantes em seu jogo, além de ter boa habilidade para prender o oponente e ter liberdade para soltar golpes. Não possui bom wrestling defensivo, mas costuma se levantar rapidamente quando é derrubado. A defesa de golpes é baseada na esquiva, não sendo muito efetiva. Peca também pela falta de contundência, que queira ou não dá margem para interpretações diversas dos juízes laterais.

Contratado de última hora para enfrentar Devonte Smith, é possível dizer que Khama Worthy (15-6 no MMA, 1-0 no UFC) quebrou a banca contra um oponente bastante favorito, conhecido pelos nocautes e que tinha certo hype por parte do evento. O americano nunca teve destaque no cenário regional americano e surpreendeu ao corresponder bem ao chamado do UFC. Um canhão de vidro, Worthy venceu nove lutas por nocaute, porém também viu a lanterninha do médico em cinco de suas seis derrotas – contra nomes decentes como Paul Felder, Billy Quarantillo e Kyle Nelson.

Um clássico porradeiro ruim, Worthy é todo ataque e nada defesa. A maioria de seus nocautes saíram de golpes únicos, mostrando um poder acima da média nos punhos, entretanto conta com uma técnica rudimentar na troca de golpes. O “Estrela da Morte” tem um jogo de chão bem abaixo da média, com dificuldades nesse aspecto. O queixo já foi reprovado em várias oportunidades e, para a situação ficar muito pior, Worthy deixa brechas gritantes na defesa. Não é lutador de futuro, só que é um bom atleta para garantir entretenimento no card preliminar.

Khama Worthy vs Luis Pena odds - BestFightOdds
 

Peña não é definidor de combates, pouco ou nunca usa golpes com poder suficiente para interromper um combate. Já Worthy sempre ataca com toda força que tem, mas deve levar um baile técnico até constrangedor em pé. No chão, Luis também é muito superior. As chances de Khama Worthy se resumem no famoso “e se a mão entrar?”.

A dúvida principal é se Peña levará a lutar por interrupção ou na decisão dos juízes. A aposta é em um nocaute técnico no terceiro assalto por parte do ítalo-americano.