Por Edição MMA Brasil | 24/10/2019 23:02

O UFC retorna à Singapura com um duelo entre dois dos melhores grapplers que o MMA tem para oferecer. O UFC Singapura será realizado em Kallang, no Singapore Indoor Stadium. Na luta principal, o brasileiro Demian Maia coloca seu jiu-jítsu para jogo contra o wrestling de Ben Askren.

O evento ainda terá a volta de Michael Johnson ao peso leve em embate com Stevie Ray. Na mesma divisão, o confronto entre Frank Camacho e Beneil Dariush deve ser uma opção empolgante. Além disso, o prospecto dos pesados Cyril Gané faz sua segunda aparição no UFC ao enfrentar Don’Tale Mayes.

O UFC Singapura terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O primeiro combate preliminar acontece às 06:30h, enquanto o card principal vai ao ar a partir das 9:00, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Peso Meio-Médio: #10 Demian Maia (BRA) vs. #11 Ben Askren (EUA)

Por Bruno Costa

Próximo de completar seu 42º aniversário, Demian Maia (27-9 no MMA, 21-9 no UFC) volta ao octógono. Ele busca a terceira vitória consecutiva depois de ter enfrentado uma difícil série de revezes iniciada quando desafiou Tyron Woodley pelo cinturão do peso meio-médio.

O brasileiro continua sendo duro teste para oponentes que não tenham ótimo nível de defesa de quedas mesmo em fase final de carreira, aplicando o reconhecido jiu-jítsu de elite, técnico por cima e por baixo (mesmo que muito pouco visto) e de transições tão limpas que parecem fáceis. Desenvolveu com competência a capacidade técnica de encurtar a distância em busca das quedas, aproveitando o tamanho e força física como meio-médio para derrubar muito melhor que a maioria dos compatriotas, especialmente a partir do clinch.

O nível técnico na troca de golpes nunca foi seu ponto forte, embora tenha investido muito por um curto período da carreira em melhorar o jogo de boxe. O que de melhor extraiu Demian do striking com o decorrer da carreira foi a movimentação mais sólida para exercer pressão sobre os oponentes, mas com pouca variedade entre jabs e diretos, nunca tendo demonstrado capacidade de misturar socos e chutes em combinações longas.

Ben Askren (19-1 no MMA, 1-1 no UFC) chegou ao UFC com cartel irretocável e com esperanças de ser reconhecido como o melhor meio-médio do mundo. Em duas lutas e menos de um round completo pela maior organização de MMA do mundo, “Funky” absorveu uma quantidade de danos que ainda não havia vivenciado em sua carreira, mesmo que tenha saído vencedor em um dos confrontos.

Askren é um wrestler universitário histórico e foi integrante da seleção olímpica dos Estados Unidos. Um dos maiores especialistas no esporte que é a principal ferramenta do MMA e dos sujeitos que com mais habilidade adaptou seus talentos no cage, demonstra muito pouca capacidade técnica na troca de golpes tanto ofensiva quanto defensivamente. Diga-se aqui que o fanfarrão nunca fez questão de esconder essa deficiência por reconhecer a facilidade de colocar os adversários de costas para o chão, trabalhando com excelência o controle posicional com ground and pound e algumas tentativas de finalização.

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Demian tem encontrado cada vez mais dificuldades em lidar com wrestling de elite no octógono, e a falta de explosão e velocidade decorrentes da idade avançada não tendem a melhorar a situação. Porém aqui cabe mencionar um fato curioso: o brasileiro é quem tem tido a necessidade de levar o combate ao solo para sair vitorioso, o que, por incrível que pareça, não deve ser o cenário do próximo sábado.

Muito embora Askren tenha declarado que pretende demonstrar evolução na troca de golpes após o rápido e brutal nocaute sofrido para Jorge Masvidal, é difícil visualizar o americano mudando o plano de ação padrão de toda sua carreira. Numa eventual batalha em pé, inclusive, Demian seria favorito enquanto durasse seu fôlego.

Esse provavelmente seja o único combate que tenhamos a chance de observar um adversário buscando quedas contra Demian desde o primeiro round, sem que o brasileiro esteja sofrendo de exaustão e pouco capaz de ameaçar com o seu temido jogo de chão, uma vez que o americano necessita buscar batalhas no clinch e no wrestling para sair vitorioso.

Buscando atacar com inteligência e deixando poucos espaços e posições disponíveis, Askren deve levar vantagem nas quedas e procurar a todo tempo travar os movimentos de Demian. Para isso, adotará padrões na postura para trabalhar com muita calma o ground and pound que garanta a vitória ao longo dos rounds em busca de recuperação com um triunfo sem riscos.

Peso Leve: Michael Johnson (EUA) vs. Stevie Ray (SLD)

Por Bruno Costa

Michael Johnson (19-14 no MMA, 11-10 no UFC) tenta se reencontrar na carreira como peso leve, faixa de peso em que chegou a ocupar boas posições no ranking, após uma experiência frustrante e descabida no peso pena do UFC.

Um lutador que depende de velocidade e agilidade acima da média para exercer o estilo que lhe é mais confortável, Johnson perdeu muito desses atributos com o excessivo corte de peso em um momento de menor vigor físico da carreira. Bom no controle de distância e dono de mãos muito rápidas, capaz de exercer pressão sobre os adversários – como mostrou contra Edson Barboza – ou contra-atacar com potência, “The Menace” tem como ponto fraco a capacidade defensiva, principalmente no grappling.

Além das dificuldades técnicas, Johnson não é exatamente o que se pode chamar de um lutador inteligente. Se deixa levar facilmente por jogos psicológicos dos oponentes, como percebido no duelo contra Nate Diaz.

Stevie Ray (22-9 no MMA, 6-4 no MMA) teve bons primeiros anos assim que chegou ao UFC, mas a derrota em casa contra Paul Felder parece ter alterado a trajetória da sua carreira.

De início um lutador bastante agressivo tanto na troca de golpes quanto nos momentos em que procurava a luta de solo, o escocês tem se tornado um lutador dependente exclusivamente dos contragolpes e que sofre muito para iniciar as ações. Além da falta do gatilho para buscar as vitórias, Ray também tem parece ter perdido velocidade e capacidade de absorver golpes.

No último combate recebeu Leonardo Santos, que estava afastado há 3 anos do octógono, e pareceu ele o lutador sem ritmo no duelo, em que terminou nocauteado.

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Mesmo que Johnson por vezes pareça tentar encontrar meios de perder seus combates, o duelo de estilos é bastante complicado para Ray. A velocidade e técnica superior do americano no boxe devem garantir que vença todos os duelos no pocket. Mesmo que eventualmente o escocês busque tentar pressionar o oponente para tirá-lo da zona de conforto, Johnson tem totais capacidades de acertar limpo o queixo do oponente enquanto mantém a distância.

A aposta é em uma vitória de Johnson por nocaute ainda na primeira metade da luta.

Peso Leve: Frank Camacho (GU) vs. Beneil Dariush (IRI)

Por Tiago Paiva

Em caso de uma luta principal que poderá ser bastante monótona, Frank Camacho (22-7 no MMA, 2-3 no UFC) é o homem necessário para animar os fãs. O lutador nascido em Guam é garantia de espetáculo, seja nocauteando, sendo nocauteado ou trocando sopapos sem fim. Das suas cinco lutas no UFC, três foram agraciadas com o prêmio de combate da noite.

Camacho foi campeão mundial de jiu-jítsu na faixa-azul em 2010, mas é na luta em pé que o “The Crank” se destaca; 17 das suas 22 vitórias no MMA foram por meio da via rápida dolorosa. Essa será a segunda luta do atleta na divisão dos leves; em sua estreia, Frank demoliu Nick Hein em junho deste ano.

Sedento desde que foi brutalmente nocauteado pelo a época estreante Alexander Hernandez, Beneil Dariush (16-4-1 no MMA, 10-4-1 no UFC) vai para o seu terceiro combate num intervalo de menos de um ano. O assírio vem de boas vitórias em sequência sobre o brasileiro Thiago Moisés e sobre o americano Drew Dober, esta última via finalização que lhe rendeu um cheque de performance da noite.

Dariush é o que podemos chamar de lutador completo, afinal é faixa preta de jiu-jítsu sob a batuta do multicampeão mundial Rômulo Barral e grau preto de muay thai sob a tutela de Rafael Cordeiro. Dentro do octógono, Benny tem um jogo de chão justo e arisco, com boas finalizações, além de uma refinada trocação trabalhada na Kings MMA. A versatilidade do assírio torna a vida dos seus oponentes bastante complicada.

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Uma boa base de comparação para este combate é avaliar como eles atuaram contra Drew Dober, nome em comum em ambos cartéis. Enquanto Dariush passou sem sustos pelo desafio, Camacho foi dominado em pé – seu ponto forte.

Caso o assírio não cometa erros crassos de defesa e proteção como os que lhe custaram as quatro derrotas da carreira – todas por nocaute ou finalização – deverá passar por Frank Camacho com tranquilidade, visto que tanto seu jogo em pé quanto o grappling são superiores. Dariush, decisão unânime.

Peso Pesado: Cyril Gané (FRA) vs. Don’Tale Mayes (EUA)

Por Idonaldo Filho

Todo mundo sabe que os pesos pesados sofrem bastante na renovação de talentos. Até pouco tempo gente como Andrei Arlovski e Stefan Struve ainda estavam ranqueados. Mas isso vem mudando com novos talentos chegando ao ranking. O francês Cyril Gané (4-0 no MMA, 1-0 no UFC) tem tudo para ser mais um prospecto chegando no top 10 – apontamos isso aqui antes mesmo dele assinar com o UFC -, sendo ex-campeão do tradicional TKO e treinando na mesma MMA Factory que forjou Francis Ngannou, seu principal parceiro de sparring. Na estreia, Gane atropelou o brasileiro Raphael Bebezão no Uruguai, surpreendendo com uma finalização que ninguém esperava.

Gané é um trocador bem acima da média. O francês vem do muay thai e conquistou títulos regionais, sendo habilidoso demais na troca de golpes tanto na curta quanto na longa distância. Cyril é veloz, técnico e tem uma variedade impressionante de golpes, se movimentando muito bem se compararmos com o que temos na divisão, impressionando também pelo volume bacana. Violento no clinch, usa muito bem joelhadas e cotoveladas para causar dano e cortes. Parece estar evoluindo também no grappling como vimos em sua última luta e isso é muito importante para se manter relevante. O conjunto de habilidades somado ao atleticismo e a categoria que frequenta faz de Gane um candidato a campeão.

Don’Tale Mayes (7-2 no MMA, 0-0 no UFC) é um exemplo de perseverança. Enquanto muitos lutadores desistem quando são frustrados nas “peneiras” para entrar no UFC, Don’Tale nunca parou de tentar. Foram necessárias três aparições no Contender Series até assinar com o UFC. Na primeira tentativa perdeu e viu o adversário conquistar o contrato em uma luta bizarra. Também não conseguiu o contrato na segunda vez, mesmo vencendo. Nessa última chance o “Kong” não deixou brecha para discussão, aplicando uma surra no brasileiro Ricardo Prasel.

O americano também é um lutador bem atlético. Ex-jogador de basquete, Mayes é ágil para a categoria e a movimentação diferente é algo notável em seu jogo. Em pé, se mostra o oposto de um peso pesado normal, preferindo golpes retos e menos poderosos do que o tradicional mata-cobra, utilizando sequências de jabs e diretos, sempre medindo a distância. Também chuta com frequência, mas sem muita força. Seus principais problemas se resumem ao condicionamento deplorável que já o deixou na mão algumas vezes, a defesa de quedas, que é pouco confiável, e o fato de lutar com as mãos baixas, confiando demais na movimentação. Outro fato é que Mayes muitas vezes tenta alguns golpes plásticos que nunca vão funcionar, gastando energia por besteira.

Ciryl Gane vs Don'tale Mayes odds - BestFightOdds
 

É um casamento bem ruim para Mayes. Gané sobra em pé e vem mostrando evoluções em outras áreas. Don’Tale não é um lutador ruim para os pesados e deve ocupar a parte intermediária da tabela. O problema é que o americano é muito displicente, não é conhecido por tomar as melhores decisões na luta e a falta de uma defesa confiável é um prato cheio para tomar baile do francês. Gané deve conseguir o nocaute no primeiro round sem muitos sustos.