Por Edição MMA Brasil | 15/11/2019 13:18

O octógono mais famoso do mundo desembarca neste sábado no Brasil pela terceira vez no ano. Como está ficando tradicional, a capital paulista fecha a trinca de eventos em solo nacional, desta vez com o UFC São Paulo: Blachowicz vs. Jacaré.

O que o evento peca em nomes de peso, sobra em lutas divertidas. A exceção do primeiro caso fica com o duelo principal. Ronaldo Jacaré será o terceiro da elite do peso médio a tentar a sorte na divisão de cima. O oponente será Jan Blachowicz, que já deu as boas-vindas a Luke Rockhold em seu último combate.

Embora tenha perdido muito de sua relevância, Maurício Shogun sempre será uma estrela no Brasil – e tem quatro vitórias nas últimas cinco aparições. O oponente original do curitibano seria Sam Alvey, mas uma contusão obrigou o UFC a chamar Paul Craig como substituto.

Outro favorito do público brasileiro e arroz-de-festa em eventos no país é Charles do Bronx. O maior finalizador da história do UFC vai encarar Jared Gordon. Antes, um encontro entre dois saídos do Contender Series, quando André Sergipano faz sua aguardada estreia na organização contra o pupilo da Marajó Brothers Antonio Arroyo. No entanto, nossa prévia vai resgatar do card preliminar o duelo de Francisco Massaranduba contra Bobby Green e mais uma tentativa de redenção de Renan Barão, desta vez contra Douglas D’Silva.

O UFC São Paulo terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O card preliminar está agendado para iniciar às 19:00h, enquanto a porção principal deve ir ao ar a partir das 22:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Peso Meio-Pesado: #6 Jan Blachowicz (POL) vs. #8 MW Ronaldo Jacaré (BRA)

Por Alexandre Matos

Depois de estrear com um belo nocaute e aquecer as expectativas no UFC, Jan Blachowicz (24-8 no MMA, 7-5 no UFC) foi ao inferno antes de renascer. Ele perdeu quatro de cinco combates e esteve com o emprego por um fio. Nos últimos dois anos, entretanto, o polonês venceu cinco combates, quatro de modo consecutivo, e perdeu apenas para Thiago Marreta, num combate em que chegou a ter o controle das ações e parecia que venceria na decisão. Depois do revés, Jan deu as boas-vindas a Luke Rockhold com um nocaute brutal no ex-campeão dos médios.

A área técnica e a estratégia explicam a gangorra de resultados de Blachowicz. Ele se notabilizou pelo kickboxing técnico, de combinações bem executadas e considerável capacidade de decisão. No UFC, Jan percebeu que o nível da concorrência era superior à que encontrou no KSW e se viu obrigado a mudar. Ele recebeu a faixa preta de jiu-jítsu de Joe Moreira e passou a adotar mais a luta agarrada. Isso surpreendeu muita gente que ainda o via como um kickboxer e poucos perceberam que Jan era um grappler muito competente. O desafio deste sábado é enorme nessa validação.

Quando venceu Chris Camozzi pela décima vez, Ronaldo Jacaré (26-7 no MMA, 9-4 no UFC) ostentava oito vitórias consecutivas e era tido como um dos candidatos a conquistar o cinturão do peso médio do UFC. Hoje, oito lutas depois, ele venceu metade e tropeçou nas três oportunidades que provavelmente lhe dariam o posto de desafiante (Yoel Romero, Robert Whittaker e Kelvin Gastelum). No último compromisso, uma derrota unilateral para Jack Hermansson foi o ultimato de que o peso médio já tinha dado.

Jacaré chegou ao MMA como um dos maiores ases da história do jiu-jítsu. O tempo passou e o craque foi trocando a luta agarrada pelo striking. Ele desenvolveu um poder de nocaute bastante elevado e conseguiu inserir chutes nas combinações. Não chegou a virar um striker de elite, mas tinha poder de fogo para decidir. O problema foi que a arte suave ficou de lado e o tempo lhe tirou a velocidade e mobilidade. O queixo resistente demais da conta manteve o capixaba na elite mesmo quando o resto do corpo dava sinais de queda. Como meio-pesado, a aposta deve voltar ao striking, visto que ele terá larga desvantagem física para impor o wrestling e chegar ao chão em posição de domínio.

Jan Blachowicz vs Ronaldo Souza odds - BestFightOdds
 

Fosse em 2016 e eu não teria dúvida em afirmar que Jacaré venceria Blachowicz. Mas o tempo foi mais cruel com o brasileiro do que com o polonês, que soube se reinventar, enquanto o oponente manteve o mesmo padrão de jogo.

Não é que Blachowicz vá dominar Jacaré no solo. A questão é que o europeu é consideravelmente mais forte e com um senso de equilíbrio muito decente para ceder quedas ao superastro do jiu-jítsu. Enquanto o confronto ficar no clinch, pior para Ronaldo, que tenderá a se desgastar mais.

Ao analisar a subida de categoria de dois que triunfaram (Marreta e Anthony Smith) e dois que naufragaram (Rockhold e Weidman), é tranquilo afirmar que é melhor lutar como striker quando você é menor. O problema é que Jacaré não terá a velocidade a seu favor, como tiveram Marreta e Smith – fora a vantagem de alcance e a excelente capacidade de controle de distância de Blachowicz.

O cenário atual aponta para Jacaré com problemas tanto se resolver trocar na distância quanto se precisar fazer força isométrica. Resta a ele trazer o polonês para o pocket e trocar soco a milhão. Neste caso, o queixo e o punho direito de Jacaré devem triunfar. No entanto, eu não apostaria que Blachowicz cometeria esse erro em território hostil. A aposta é que o europeu vai jogar na segurança, controlando a distância e desgastando o rival no combate corpo a corpo até uma vitória por decisão.

Peso Meio-Pesado: #14 Maurício Shogun (BRA) vs. Paul Craig (SLD)

Por Tiago Paiva

Maurício “Shogun” Rua (26-11 no MMA, 10-9 no UFC) definitivamente tem seu nome tatuado no panteão das grandes lendas das artes marciais mistas. O curitibano chuteboxer é um dos poucos sujeitos do planeta que possui em sua estante o título de campeão do Grand Prix do finado PRIDE e o cinturão dos meio-pesados do UFC. No entanto, cada vez menos presenciamos aquele nocauteador visceral de outros tempos; este deu lugar a um veterano combalido, que apresenta evidente sinais de batalhas de outrora, mas ainda assim bastante perigoso.

Dono de um muay thai refinado, forjado no ferro e no fogo do Academia Chute Boxe, Shogun destacou-se por seus violentos chutes baixos, tiros de meta e mãos rápidas e explosivas. Na atualidade, a situação é diferente: os chutes baixos são cada vez menos usados, o que lhe tira uma oportunidade de abrir espaços para o alinhado boxe do lutador de 37 anos, que ainda dá caldo, como visto em seu último combate contra Tyson Pedro.

O sistema defensivo apresenta cada vez mais falhas: o queixo por vezes lhe deixa na mão (vide o rápido nocaute sofrido contra Anthony Smith) e sua movimentação beira a inércia. Sua defesa de quedas e seu jogo de chão seguem sendo o suficiente para a rasa divisão dos meio-pesados; a meia-guarda, que um dia já trouxe pesadelos aos oponentes, não é mais tão funcional quanto antes.

O escocês Paul Craig (12-4 no MMA, 4-4 no UFC) vai para a luta da sua vida neste sábado, no Ibirapuera. No maior combate da sua carreira, o “Urso Judeu” terá a chance de entrar no rol dos 15 melhores lutadores de sua divisão pela primeira vez na carreira, algo bastante relevante pro sujeito que antes de trocar sopapos numa jaula já jogou futebol e foi treinador do esporte bretão.

Faixa-marrom de jiu-jítsu, Craig não mija fora do penico. Não à toa, 11 das suas 12 vitórias no MMA foram por meio de finalização, inclusive a última, via um justo mata-leão sobre o brasileiro Vinicius Mamute. Apesar de ter apenas 31 anos, o queixo do escocês já é bastante combalido, assim como seu sistema defensivo: suas quatro derrotas na carreira foram por meio da via rápida dolorosa.

A trocação de Paul Craig beira um crime lesa-pátria. Cortar ângulos é devaneio, assim como algum tipo de consistência ofensiva em pé. Já o wrestling, tanto ofensivo quanto defensivo, deixam a desejar. A chave para o barbudo neste combate é o seu oportunismo, sua característica mais retumbante dentro do cage. Como visto em quase todas suas vitórias no UFC, a especialidade do escocês é tirar coelhos da cartola, especialmente após tomar vigorosas sovas de oponentes mais qualificados.

Mauricio Rua vs Paul Craig odds - BestFightOdds
 

Apesar dos pesares, da idade, das lesões, do comprometimento e da motivação, Maurício Shogun é muito mais lutador que Paul Craig, o superando em todos os aspectos do jogo. Mesmo com os enormes sustos em seu último combate, vamos apostar que o brasileiro fará uma luta segura, assegurando em banho-maria uma decisão unânime.

Peso Leve: #13 Charles do Bronx (BRA) vs. Jared Gordon (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Charles “do Bronx” Oliveira (27-8 no MMA, 15-8 no UFC) é um dos brasileiros mais empolgantes da categoria dos leves. No UFC desde 2010, o paulista se encontra em uma das melhores fases da carreira, carregando uma sequência de cinco vitórias na categoria. Depois de ter enfrentado alguns dos maiores lutadores da história da divisão, Charles agora se contenta em pegar alguns nomes mais modestos, como o adversário de sábado.

Recordista de finalizações na história da organização, do Bronx é o exemplo de lutador que sobra no âmbito ofensivo mas peca na defesa. Especialista no jiu-jitsu, já submeteu gente como Jim Miller, Darren Elkins, Myles Jury e Hatsu Hioki. Ainda no chão, porém, foi finalizado pelo próprio Miller e pelos strikers Anthony Pettis e Ricardo Lamas. Na luta em pé, conta com ataques bastante sólidos. Porém, a defesa é das mais esburacadas, com enormes vias a serem exploradas pelos adversários – não à toa, 7 de suas 8 derrotas foram por interrupção, o que gera algumas dúvidas sobre sua resistência. As quedas não são das melhores, mas são úteis contra a parte de baixo da categoria. Além disso, Charles já mostrou que pode iniciar finalizações com o adversário ainda em pé, ou até puxar para a guarda.

Vindo de uma carreira interessante no cenário regional americano, Jared “Flash” Gordon (15-3 no MMA, 3-2 no UFC) acabou não correspondendo às expectativas na maior organização do mundo. O americano chegou ao UFC obtendo vitórias sobre os decentes Michel Quiñonez e Hacran Dias. No entanto, amargou nocautes consecutivos para Carlos Diegos Ferreira e Netto BJJ. Na última luta, recuperou-se ao vencer Dan Moret.

Gordon tem uma das histórias de vida mais difíceis entre lutadores: chegou a morar na rua e passou por três overdoses de heroína. As dificuldades resultaram em uma mentalidade duríssima para o lutador, e isso se reflete em seu estilo no octógono. Jared é essencialmente um brigador, tendo seus melhores momentos com blitzes de cruzados bastante abertos, além de alguns chutes. Vale-se, ainda, de algumas quedas misturadas em suas combinações de golpes, e, por cima, conta com um bom ground and pound, ainda que não muito técnico. Ainda que seja muito resistente, o estilo displicente e a tendência a entrar em trocas de golpes sem proteção abriram espaço para as duas derrotas por nocaute, já que recebe muitos golpes limpos.

Charles Oliveira vs Jared Gordon odds - BestFightOdds
 

Nesse confronto entre dois lutadores muito agressivos e pouco aptos defensivamente, temos a quase garantia de um desfecho por interrupção. Dito isso, a luta parece um casamento extremamente favorável para Charlinho, que tem vitórias sobre lutadores muito superiores ao seu adversário de sábado. Além disso, o brasileiro é melhor lutador tanto em pé quanto no chão, e deve conquistar a finalização ainda na primeira metade do combate.

Peso Leve: Francisco Massaranduba (BRA) vs. Bobby Green (EUA)

Por Gabriel Fareli

Francisco Massaranduba (23-7 no MMA, 13-6 no UFC) segue incansável no seu destino de “homem que nasceu pra bater em outro homem”. Mesmo sem chegar perto de uma disputa de cinturão, Massara já enfrentou ótimos nomes do peso-leve como Kevin Lee, Ross Pearson e Paul Felder. Inclusive, chegou a emendar sete vitórias consecutivas e chegar no top-15 do ranking, algo muito difícil de se conquistar na categoria mais difícil que existe.

Depois da sequência de triunfos, o piauiense vem alternando vitórias e derrotas. Foi finalizado por Kevin Lee, venceu Jim Miller por decisão e foi derrotado por James Vick, mas após vencer Evan Dunham em São Paulo, foi dominado por Alexander Hernandez no UFC San Antonio. A inconstância dos resultados mostra também que o atleta de 41 anos está na parte final da sua honrosa carreira.

O atleta da Evolução Thai tem mãos pesadas e um jogo em pé decente afiado por André Dida. Costuma usar bastante o seu wrestling para conseguir quedas para trabalhar no ground and pound e/ou tentar alguma finalização. Com uma idade tão avançada para o mundo das lutas, fica aqui a dúvida se o faixa marrom de jiu-jítsu terá preparo físico para aguentar os três rounds, ou fazer muita força para trazer o adversário para o seu jogo de isometria.

Bobby Green (24-9-1 no MMA, 5-4 no UFC) foi um dos muitos lutadores que foram incorporados ao UFC quando o evento presidido por Dana White comprou o Strikeforce. Chegou a emendar 8 vitórias seguidas na transição entre esses dois eventos, o que o fez enfrentar o brasileiro Edson Barboza. Foi dominado do começo ao fim, pelo atleta nascido em Nova Friburgo e teve um choque de realidade com o topo da categoria até 70kg no maior evento do mundo.

Depois disso, teve muitos problemas pessoais e de lesões, o que o deixou mais de um ano e meio sem lutar. Nos últimos 31 meses, foram apenas três lutas com a última sendo 11 meses atrás. Green é um lutador legal de se assistir, que gosta de provocar o adversário, tem boa movimentação, um boxe pouco ortodoxo e está sempre indo pra cima do oponente. Seu sistema defensivo é que é um grande problema. O “King” tem uma defesa de quedas de nível ruim e tem a péssima mania de gostar de defender socos com o rosto.

Bobby Green vs Francisco Trinaldo odds - BestFightOdds
 

Bobby deve tentar manter a luta em pé, usar sua movimentação para circular e golpear o Massara que não é um lutador tão veloz. Mas creio que Trinaldo consiga uma queda no final do primeiro round, use o seu ground and pound e ache uma interrupção do árbitro para encerrar a luta antes do primeiro soar do gongo.

Peso Pena: Douglas D’Silva (BRA) vs. Renan Barão (BRA)

Por Bruno Costa

Vindo de uma dura derrota contra adversário de elite no peso galo, Douglas D’Silva (25-3 no MMA, 3-3 no UFC) fará como o adversário e volta ao peso pena para o confronto do próximo sábado. O veterano paraense teve uma carreira recheada de violência enquanto esteve no cenário regional, e no UFC não mudou muito o estilo.

Um lutador muito duro e dependente do privilegiado físico, muito forte e explosivo, Douglas se caracteriza como sujeito agressivo e que gosta de trocar porrada no pocket, sem grande volume de golpes, e pouco mais do que isso. O brasileiro teve uma estreia com pouco tempo de preparação contra o duro Zubaira Tukhugov no peso pena, desceu ao peso galo vencendo lutas que o levaram rapidamente a adversários de bom nível e saiu derrotado nas oportunidades que teve de subir ao top 10 da categoria. Além do pouco refino técnico e variação tática, Douglas sofreu com os longos períodos de inatividade que prejudicam ainda mais um lutador com suas características.

A superexposição de D’Silva pode colocá-lo em maus lençóis contra adversários com boa técnica nos golpes retos e controle de distância eficiente, além de boa diversidade ofensiva.

Renan Barão (24-8 no MMA, 9-7 no UFC) nunca retomou o caminho da regularidade e boas atuações após a primeira derrota sofrida para TJ Dillashaw valendo o cinturão do peso galo do UFC. Agora numa sequência de quatro derrotas consecutivas, inclusive para lutadores de nível distante do top 15 da categoria, tenta retomar o caminho das vitórias retornando ao peso pena.

No auge da sua carreira, Barão era um lutador de estilo bem moldado por Jair Lourenço e Dedé Pederneiras. Bom jab se aproveitando da envergadura avantajada para o peso galo (ao menos à época), chutes baixos muito potentes, defesa de quedas de elite e oportunismo aguçado na luta de solo. Defensivamente chegou a ter dificuldades com a velocidade de mãos de Eddie Wineland e Michael McDonald, mas soube contornar a situação para implementar seu estilo e sair vitorioso nas ocasiões.

Contudo, a queda para TJ Dillashaw parece ter custado, além do título, muito da confiança de Barão. As dificuldades defensivas permaneceram, mas o bom arsenal ofensivo não dá mais as caras. Quando esteve no peso pena no meio da sequência de 2-7 nas últimas 9 lutas da carreira, chegou a fazer um primeiro round interessante contra Jeremy Stephens, mas não conseguiu manter o ritmo e saiu derrotado. Contra Phillipe Nover, adversário que seria batido com tranquilidade noutro momento da carreira, sofreu mais do que deveria para arrancar uma decisão apertada. Com dificuldades na troca de golpes, nem mesmo o jogo de chão de elite resolveu a favor do ex-campeão, mesmo contra um grappler de baixo nível como Andre Ewell.

Douglas De Andrade vs Renan Barao odds - BestFightOdds
 

Para que o confronto de sábado seja disputado em bom nível, Renan Barão precisa demonstrar algum tipo de evolução na sua situação física, uma vez que infelizmente seus desempenhos fazem parecer que tem cada vez menos capacidade de competir contra atletas de elite. Alguns anos atrás seria mais fácil imaginar Barão controlando com paciência a distância com jabs e chutes baixos enquanto Douglas tentasse iniciar seus ataques.

Contudo, diante de um adversário que parece mais travado a cada apresentação no octógono, mesmo que tenha algumas dificuldades iniciais até encontrar a melhor distância, D’Silva tem potência, velocidade e mira boa o suficiente para acertar com contundência o adversário e nocautear Renan Barão na segunda metade da luta.