Por Edição MMA Brasil | 14/02/2020 16:04

Após deixar a populosa cidade de Houston, no Texas, chegou a vez do UFC desembarcar na pequena cidade de Rio Rancho, no Novo México, para realizar o UFC Rio Rancho. Com um card com potencial bem menor em questão de poder de marketing, a edição da cidade de menos de 100 mil habitantes possui algumas lutas bem interessantes para o fã de MMA.

Na luta principal da noite, o ascendente Corey Anderson quer, de vez, provar que pertence ao topo da categoria dos meios-pesados após nocautear Johnny Walker com facilidade. Para isso, ele precisa bater o duro polonês Jan Blachowicz em um confronto de cinco rounds na peleja principal da noite. Já na luta coprincipal, o interminável Diego Sanchez encara o brasileiro Michel Pereira com a promessa de um freakshow dos bons. O evento ainda conta com o duelo de strikers entre Yancy Medeiros e Lando Vannata nos leves e, por fim, John Dodson contra Nathaniel Wood nos galos.

O evento será transmitido com exclusividade pelo Canal Combate no Brasil. O card preliminar está previsto para começar às 19:00h, enquanto a porção principal deve ser transmitida a partir de 22:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

PESO MEIO-PESADO: #5 COREY ANDERSON (EUA) VS. #6 JAN BLACHOWICZ (POL)

Por Bruno Costa

Em busca da primeira sequência de cinco vitórias consecutivas na carreira, Corey Anderson (13-4 no MMA, 10-4 no UFC) se consolidará como um provável desafiante em curto prazo nos meios-pesados caso repita o resultado de um longínquo 2015, quando bateu com autoridade o rival contra quem protagonizará o evento principal do sábado.

Um lutador longilíneo e muito atlético, Anderson surgiu como vencedor do TUF 19, mas ainda com pouco tempo de treinamento e muito cru para a prática do MMA. O jogo de wrestling eficiente e o condicionamento físico de altíssimo nível já demonstravam as credenciais para se tornar um meio-pesado com condições de, no futuro, frequentar o ranking da categoria que tem dificuldades de renovação há tempos.

Na troca de golpes, ofensivamente, se pecava bastante pelo jogo de pés e movimentação sem muita fluidez, procurava utilizar com bastante frequência golpes retos se aproveitando da boa envergadura. Mas era só. Apesar de bom volume de golpes, faltava muita contundência e utilização de outras ferramentas para ao menos confundir o oponente com mais propriedade para mixar ao wrestling ofensivo. Demonstrou melhoras em seus últimos combates a ponto de conquistar um belo nocaute contra Johnny Walker no UFC 244.

Defensivamente, “Overtime” demorou muito a demonstrar progressos, se expondo com frequência impressionante aos contragolpes adversários. Para ser justo, o fato da categoria ser muito rasa fez com que Anderson demonstrasse suas deficiências comuns a um jovem inexperiente já sob os holofotes de uma grande organização e contra lutadores muito mais consolidados ainda no início de sua caminhada como lutador de MMA. Contudo, o sistema defensivo melhorou bastante desde a última derrota para Ovince St. Preux e tem deixado pouco a desejar mesmo contra adversários de mãos muito pesadas que talvez lhe entregassem derrotas por nocaute anos atrás.

Jan Blachowicz (25-8 no MMA, 9-5 no UFC) sofreu com o salto no nível de competição quando chegou ao UFC. O polonês, ex-campeão da KSW, dava a impressão de que decepcionaria por completo em sua passagem pelo octógono com uma caminhada muito irregular, mas alterou ao menos parcialmente a impressão inicial, se estabilizando como valioso talento no top 10 da categoria.

Blachowicz é bom na troca de golpes em pé, e embora tenha ótimo poder de nocaute, consegue optar por abordagens mais técnicas e conservadoras quando enxerga necessidade, como no último (sonolento) combate contra Ronaldo Jacaré, diminuindo ritmo das ações e trabalhando o jab buscando controlar a distância. Esse é um aspecto essencial a Jan porque sua defesa de quedas, apesar da notável melhora nos últimos dois anos, ainda é insuficiente para lidar contra wrestlers de boa qualidade.

Quando se deixou ser pressionado e colocado de costas para o solo, Jan também apresentou problemas também com o fôlego, o que seria o começo do fim para o polonês caso seja o cenário do próximo sábado. O primeiro confronto entre ambos não chegou perto de ser parelho. Anderson foi inteligente e, mesmo numa fase em que tinha pouca experiência no MMA, conseguiu se defender com competência e utilizar como e quando quis do wrestling ofensivo, dominando o combate por três rounds.

A questão é a melhora notável de Blachowicz na postura para defesa de quedas sem buscar o nocaute a todo o tempo, se expondo menos aos botes de seus adversários. Contudo, há tempos não enfrenta um adversário que combine a capacidade de wrestling ofensivo aliada ao condicionamento físico e tamanho de Corey Anderson, que também é um lutador muito diferente daquele de quase 5 anos atrás.

Corey Anderson vs Jan Blachowicz odds - BestFightOdds

A aposta é em mais uma boa apresentação de “Overtime”, com boa movimentação e fintas buscando as tradicionais ótimas entradas de queda e controle posicional, desgastando aos poucos Jan Blachowicz e tornando a luta menos emocionante do que o seu último combate, para sair vencedor ao final dos 5 rounds em uma decisão sem passar por grandes sustos.

PESO MEIO-MÉDIO: DIEGO SANCHEZ (EUA) VS. MICHEL PEREIRA (BRA)

Por Rodrigo Rojas

Uma das figuras mais icônicas da história do MMA, o veterano Diego Sanchez (29-12 no MMA; 18-12 no UFC) completa 15 anos de UFC, firmando-se em seu novo posto na última fase da carreira: um bom teste para prospectos. Vencedor da primeira edição do TUF, em 2005, Sanchez, que já fez parte da elite do esporte, apodreceu vertiginosamente nos últimos anos, com o queixo, outrora inquebrável, dando espaço à nocautes brutais nas mãos de Joe Lauzon, Al Iaquinta e Matt Brown. Mais recentemente, o “Nightmare” fez bons trabalhos ao vencer Craig White e Mickey Gall, mas foi dominado por Michael Chiesa na última luta.

No auge, Sanchez contava com um jogo bastante completo, com boxe agressivo baseado em combinações incessantes, além de alguns chutes e joelhadas pontuais. O condicionamento e a resistência sempre foram o grande diferencial do descendente de mexicanos, mas vêm arrefecendo com o passar do tempo e o acúmulo de danos. Hoje, a maior força de Diego está na luta agarrada, fruto de um bom background no wrestling colegial e da faixa preta de jiu-jítsu, conquistada das mãos de Roberto Tussa. Apesar de ter perdido para o maior e mais forte Michael Chiesa, Sanchez venceu bons grapplers no chão, como Marcin Held e Mickey Gall. Seu controle posicional é bastante forte, assim como o ground and pound.

Se Sanchez é conhecido pela loucura fora do octógono, Michel Pereira (23-10 no MMA; 1-1 no UFC) ganhou proeminência pela falta de sanidade dentro dele. Contratado pelo UFC após ver um vídeo de uma de suas lutas viralizar por conta das piruetas, Michel comprovou as expectativas ao nocautear Danny Roberts na estreia – como de costume, dando show. Porém, na última luta, passou um vexame ao ser dominado pelo estreante Tristan Conelly, que pegou a luta em cima da hora e ainda vinha da categoria de baixo.

Como o próprio afirma, o “Paraense Voador” é mais preocupado em entreter os fãs do que vencer os combates. Para tanto, valhe-se de infinitas tentativas de golpes plásticos, cheios de piruetas e manobras voadoras, sem dar a devida importância à efetividade e muito menos à conservação de energia. Por isso e por conta da grande quantidade de massa muscular, Michel mostrou que acaba cansando rapidamente quando não consegue a interrupção logo no começo. Além disso, as firulas abrem avenidas para tentativas de queda e de contragolpes.

Apesar de ter impressionado na estreia, Pereira nunca foi tudo isso. Com uma carreira bastante mediana no cenário asiático, o “Demolidor” ganhou fama por conta do poder de nocaute e estilo atrativo, mas está muito – mas muito – longe da elite dos meio-médios. A mídia brasileira, sedenta por novas estrelas, deu ao paraense um hype largamente injustificado, que pode cair ainda mais por terra na noite de sábado.

Diego Sanchez vs Michel Pereira odds - BestFightOdds

O duelo entre os dois insanos tem tudo para ser um freakshow dos bons. Com o estado físico de Sanchez e a gigantesca diferença de tamanho – enquanto Diego lutou de peso pena, Michel é praticamente um peso médio – uma vitória por nocaute no primeiro round do brasileiro não pode ser descartada. Porém, levando em consideração a última luta de Pereira e as habilidades do veterano, o cenário mais provável é Diego evitando as piruetas e jogando o adversário de bunda no chão, aproveitando o cansaço do “Demolidor” para conquistar uma interrupção no terceiro round.

PESO LEVE: YANCY MEDEIROS (EUA) VS. LANDO VANNATA (EUA)

Por Idonaldo Filho

O havaiano Yancy Medeiros (15-6, 1NC no MMA, 6-6, 1NC no UFC) está no UFC desde 2013, quando veio do Strikeforce. Parceiro de treinos de Max Holloway, Medeiros sempre foi um atleta muito irregular mas com alto grau de entretenimento em seus combates. Dois bons desempenhos contra Erick Silva e Alex Cowboy – esse em uma virada espetacular – deram a chance da carreira para Yancy, mas ele não conseguiu passar do primeiro round contra Donald Cerrone por apenas dois segundos. Encarando o prospecto Gregor Gillespie em sua última luta, Medeiros foi derrotado no segundo assalto e agora busca recuperação.

Medeiros é garantia de diversão no octógono. Muito aguerrido, o atleta do Havaí tem um dos maiores corações do UFC, e mesmo quando está quase nocauteado, sempre oferece perigo. Yancy ataca com muito volume e coloca bastante pressão no oponente, andando para a frente e com golpes pesados, contando com mais da metade de suas vitórias pela via rápida. O chão do havaiano é de bom nível também e ele se mostra muito capaz no scrambling, nunca ficando de forma passiva no solo. O principal problema de Medeiros é que ele é muito acertável e não liga para isso. O queixo é bom, mas a quantidade de golpes que já recebeu na carreira, além da quantia grande que sempre recebe em todas as lutas que faz preocupa bastante.

“Groovy” Lando Vannata (10-4-2 no MMA, 2-4-2 no UFC) ganhou inúmeros fãs após sua estreia memorável no UFC em Sioux Falls. Substituindo ninguém menos que Khabib Nurmagomedov contra Tony Ferguson, o novato foi o centro das atenções, levando Ferguson até o inferno e quase chegando a vitória em vários momentos no confronto, mas perdendo no final. Infelizmente, o prospecto não teve lá muito sucesso além disso no evento, conseguindo um nocaute absurdo contra John Makdessi mas sofrendo bastante com a irregularidade, criando um curioso cartel com um número igual de vitórias e empates no UFC.

Não dá para negar que Vannata é muito talentoso e que aguenta muita pancada. O americano é um striker nada ortodoxo e que abusa excessivamente de golpes plásticos, que podem até ser bonitos, mas que não funcionam com frequência e demandam bastante energia. A falta de um jogo mais cauteloso, de volume de golpes, somado aos problemas defensivos gritantes e que até hoje não mostraram melhora limitaram muito o desempenho de Landon. Vindo do wrestling, é uma arma que usa pouco e que deveria ser mais explorada. Pode até ser que enquanto faça lutas empolgantes, seu emprego não esteja em risco, mas definitivamente não é o melhor plano de carreira para o atleta.

Lando Vannata vs Yancy Medeiros odds - BestFightOdds

O UFC acertou em cheio nessa peleja. São dois lutadores totalmente despreocupados com a defesa de golpes e que sempre estão metidos em anarquias. Medeiros é mais ortodoxo e prefere a pressão e eficiência do que a plasticidade, enquanto Vannata sempre busca um golpe para seu vídeo de melhores momentos e costuma ser pressionado nas lutas que faz. O casamento é bom para Yancy, que vencerá a luta da noite na decisão dos juízes.

PESO GALO: JOHN DODSON (EUA) VS. NATHANIEL WOOD (GBA)

Por Matheus Costa

Um dos principais lutadores da história do peso mosca do UFC, John Dodson (20-11 no MMA, 9-6 no UFC) não consegue repetir as boas atuações na categoria de cima e vem dando grandes indícios de que já está longe de seu auge. Afinal, sempre que enfrentou um contender da divisão, acabou perdendo – de forma bem digna, diga-se de passagem. Entretanto, o “Magician” ainda é um adversário muito útil para ser “porteiro” da divisão que vive uma boa renovação.

Dodson se alia em uma movimentação de ritmo alto, com ótimo footwork e uma combinação de rapidez com agilidade bastante impressionante. Em pé, é especialista no boxe com mãos muito potentes, sempre optando pela estratégia de bate e sai de olho nos contragolpes. A luta agarrada do americano não é sua especialidade e raramente o atleta precisa usar suas habilidades por lá.

Um dos nomes mais interessantes da nova safra de lutadores na categoria dos galos, o britânico Nathaniel Wood (16-3 no MMA, 3-0 no UFC) é um atleta que pode alcançar o topo da divisão em pouco tempo. Com três triunfos na organização, o pupilo de Brad Pickett finalizou o brasileiro Johnny Eduardo com um estrangulamento D’arce e bateu tanto Andre Ewell como Jose Alberto Quiñones usando mata-leão.

Boxeador clássico da escola inglesa, o “The Prospect” possui o estilo que Dodson gosta: pressão, volume e preferência por jogar no pocket. Mas a missão do americano não será nada fácil, já que Wood possui ótimas combinações com ganchos que atingem a cabeça e o tronco, com mãos bem velozes e pesadas, além de sempre tentar minar a movimentação de seus adversários com violentos chutes baixos – e isso pode ser vital para este confronto. Entretanto, sua especialidade está no chão, já que Nathan possui uma técnica bem apurada no jiu-jítsu, sendo muito agressivo na hora de buscar a finalizações e sutil na hora de realizar transições e raspagens.

John Dodson vs Nathaniel Wood odds - BestFightOdds

Este é um dos confrontos mais interessantes de todo o card, pois o confronto de estilos é bastante intrigante. Como dito acima, Dodson não vive mais o auge de sua carreira, mas ainda entrega bons combates, principalmente com lutadores do estilo de Wood, que pode se prejudicar por isso. Afinal, quando ele entra no pocket, acaba invocando o estilo Wanderlei Silva e simplesmente ignora a defesa de golpes – contra Dodson, isso pode ser letal. A aposta fica na clássica passagem de bastão na categoria. Espero uma luta bastante equilibrada e bem divertida, mas Wood deve ter seu braço levantado por decisão dos juízes.