Por Edição MMA Brasil | 24/01/2020 17:11

Neste final de semana, o UFC visita a PNC Arena em Raleigh, Carolina do Norte, para realizar a 166ª edição do seu Fight Night. O UFC Raleigh conta combates importantes para os rankings de algumas categorias. Não que o ranking seja tão importante, claro. Na luta principal, teremos dois Top 5 do peso pesado: Curtys Blaydes e Júnior Cigano. Blaydes busca aproximar-se ainda mais da disputa de cinturão. Na peleja coprincipal, Rafael dos Anjos enfrenta Michael Chiesa. Dos Anjos será um teste difícil para Chiesa nos meio-médios. O evento começa às 19h, com o card principal programado para iniciar às 22h. Sempre no horário de Brasília. Confira as prévias.

Peso Pesado: #3 Curtis Blaydes (EUA) vs. #4 Júnior Cigano (BRA)

Por Gustavo Lima

Curtis Blaydes (12-2, 1 NC no MMA, 7-2, 1 NC no UFC) é um dos poucos atletas abaixo da casa dos 30 anos nos pesados que já desfruta do status de elite na maior organização do mundo. Brecado somente nas duas ocasiões em que enfrentou Francis Ngannou (sendo a primeira num já longínquo começo de 2016), o estadunidense tem mostrado uma curva evolutiva interessante, colocando nomes cascudos como Mark Hunt e Alistair Overeem dentre suas vítimas ao longo de sua passagem pela companhia.

Em uma divisão povoada majoritariamente por strikers toscos, com preparo físico aquém do que se espera de um atleta de alto nível, Blaydes e seu wrestling se sobressaem com louvor. Nos últimos quatro anos, o atleta da Elevation melhorou consideravelmente a fase defensiva de seu jogo, se expondo cada vez menos tanto no striking, tal como na aproximação e busca por espaços para aplicar seu jogo de luta agarrada. Em sua última atuação dentro da jaula do UFC, fomos agraciados com um completo monólogo de quedas e ground and pound contra o modesto Shamil Abdurakhimov.

Apesar dos revezes para Ngannou, nessa altura do campeonato já é evidente que Blaydes está em outro patamar em relação ao miolo do Top 15 e que merece estar enfrentando o que há de melhor na categoria. Não é difícil cravar, inclusive, que Blaydes irá com certeza disputar o cinturão nos próximos dois anos, se tratando de uma categoria tão deficitária e pouco promissora.

Do outro lado, Junior Cigano (21-6 MMA, 15-5 UFC) vive a amarga transição do status de atleta de ponta para o posto de “porteirão” da nata da divisão. O striking de Cigano ainda é uma nota de corte interessante para os atletas que tentam ascender degraus na categoria dos pesados, mas tem se tornado cada vez mais distante do que é necessário para fazer frente a pequena fatia de grandes atletas que figuram entre os candidatos a título.

Embora sua técnica de boxe ainda seja indiscutivelmente suficiente para fazer frente a atletas perigosos, mas limitados, como Derrick Lewis e Blagoy Ivanov, a velocidade e movimentação que tornavam Cigano peça única na divisão foram embora há muito tempo. O brasileiro tem se tornado alvo estacionário e vulnerável a atletas com vantagem de velocidade, força e envergadura, tendo sucumbido por nocaute técnico em suas últimas três derrotas – todas elas diante de atletas que poderiam ser considerados superiores na cadeia alimentar da divisão.

Blaydes oferece a Cigano um casamento que o brasileiro não via faz tempo: wrestler que sustenta seu jogo na pressão e que possui força e explosão para fazer frente a grande maioria da divisão. Há de se pontuar também que próprio nível de striking e preparo físico de Curtis, inclusive, são superiores aos de alguns dos atletas que Júnior bateu de forma burocrática nos últimos anos.

Cigano precisa mais do que nunca se movimentar muito, rodar o octógono e evitar ser encurralado por Curtis. Overeem, indiscutivelmente a maior vitória de Blaydes e que vendeu a derrota muito caro, fez o que pode nessa linha, mas não foi suficiente para evitar as entradas de queda oportunas de um atleta que, ainda no terceiro round, mostrava um tanque de combustível muito acima da média para a classe de peso.

É muito difícil vislumbrar um cenário onde Cigano não facilite a imposição do jogo do Razor, que não só derruba, como é ativo explorando posições e é dono de um ground and pound devastador. A estratégia para minimizar esses riscos se pauta em valências que não vemos em dos Santos por mais de meia década.

Curtis Blaydes vs Junior Dos Santos odds - BestFightOdds
 

Essa dinâmica passa a inevitável impressão de que, para JDS, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Além das ferramentas necessárias para propor a luta e se colocar em posição de superioridade na maior parte do tempo, Blaydes também possui capacidade de dar cabo em Cigano sem muita dificuldade uma vez que o mesmo estiver no chão. Estar com as costas no chão contra um sujeito forte e técnico como Curtis é definitivamente território BEM hostil para Cigano – que não sofre uma tentativa de queda desde 2014, ocasião em que bateu Stipe Miocic. Apesar de programada pra cinco rounds, essa luta não deve passar nem da metade disso.

Veredito: Blaydes por TKO, round 2 ou 3

Peso Meio-Médio: #5 Rafael dos Anjos (BRA) vs. Michael Chiesa (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Um dos maiores nomes da história da categoria dos leves, Rafael dos Anjos (30-12 no MMA; 18-10 no UFC) foi o homem responsável por sugar a alma do “Showtime” Anthony Pettis. Antes disso, venceu 7 de 8 lutas, com a única derrota sendo para um certo russo então em ascensão. Depois de conquistar o cinturão, ainda o defendeu contra Cowboy Cerrone, até que foi nocauteado por Eddie Alvarez. Uma surra aplicada por Tony Ferguson foi a gota d`água que fez com que Rafael subisse para a categoria até 77kg, onde conquistou três boas vitórias e a chance pelo título interino contra Colby Covington. Desde a derrota para o wrestler, vem alternando resultados, com a última luta sendo uma derrota para Leon Edwards.

RDA é um dos maiores exemplos de quão longe a ética de trabalho pode levar um homem determinado. Longe de ser dos mais talentosos, o faixa preta de jiu-jitsu adicionou, com muito esforço, o wrestling e um muay thai de elite ao seu jogo, que hoje se baseia muito mais na pressão do que na arte suave. Suas principais armas são as do muay thai, com boas combinações de mãos e chutes e joelhadas em todos os níveis. As quedas também são mescladas com maestria ao jogo, assim como a pressão no clinch. Uma vez em posição de vantagem, Dos Anjos aplica uma pressão imparável, bancada por um condicionamento físico excepcional, mas que vem decaindo com a idade. Os maiores tendões de Aquiles do brasileiro são lutadores que conseguem imprimir pressão melhor do que ele – como Tony Ferguson e Leon Edwards – ou wrestlers com muita força física – como Usman, Covington e Khabib.

Depois de sofrer duas derrotas para Kevin Lee e Anthony Pettis, Michael “Maverick” Chiesa (16-5 no MMA; 9-4 no UFC) resolveu desistir do brutal corte de peso que fazia para a categoria dos leves. Então, subiu para a categoria até 77kg, onde enfrentou e dominou dois veteranos decrépitos – Carlos Condit e Diego Sanchez.

Campeão da 15ª temporada do TUF, o americano tem boas vitórias sobre nomes como Al Iaquinta, Beneil Dariush, Jim Miller e Francisco Massaranduba. Porém, o cabeludo é dos lutadores mais unidimensionais da categoria: faz uma trocação feijão-com-arroz, encurta a distância, derruba, parte para as costas e busca o mata-leão que virou sua marca registrada. A trocação melhorou com o passar dos anos e ainda utiliza-se de um ground and pound bastante eficiente. Nos leves, tinha o tamanho e a força como grandes aliados , coisa que não tem entre os meio-médios.

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Contra Chiesa, pesam a falta de atleticismo e de resistência, além da pouca proeza nos âmbitos defensivos – todas suas derrotas foram por interrupção. Além disso, costuma ficar perdido quando não consegue dominar seus oponentes com o grappling, seja por não conseguir a queda ou pelo fato de o oponente ter qualidade na luta agarrada, o que deve se provar um problema na luta de sábado.

O confronto de dois ex-pesos leve é a luta na medida para dar uma vitória ao brasileiro. RDA é muito superior em pé, mais atlético, tem defesa de quedas para manter a luta onde desejar e, de quebra, ainda é melhor grappler do que o americano. Portanto, a aposta é em uma vitória dominante do carioca, dominando as ações, punindo o adversário em pé e conquistando uma finalização lá pela metade da luta.

Peso Mosca: #11 Jordan Espinosa (EUA) vs. #12 Alex Perez (EUA)

Por Gabriel Fareli

Jordan Espinosa (14-6 no MMA, 2-1 no UFC) precisou vencer duas vezes no Contender Series para Dana White se convencer de que deveria dar a ele um contrato no maior evento de MMA do mundo. Após vencer Nick Urso por finalização em 2017,  Jordan teve que voltar aos eventos menores. Após vencer uma batalha, teve outra chance no Contender, quando venceu Rilley Dutro por nocaute. Quando finalmente teve chance no octógono, não desperdiçou e venceu Eric Shelton por decisão, mas logo em seguida foi derrotado por Matt Schnell quando foi pego num triângulo.

Espinosa é um grappler de origem no jiu-jítsu, tem uma trocação não muito boa, usa pouco as mãos, gosta muito de usar os chutes, mas de uma forma não muito inteligente, pois abre totalmente a guarda no momento que o faz. Usa pouco as combinações e se for levemente pressionado, não consegue sair do desconforto. Como já tem 30 anos, não tem mais tanto tempo disponível para evoluir e dificilmente veremos mudanças drásticas no seu jogo.

Alex Perez (22-5 no MMA, 5-1 no UFC), é talento interessante que surgiu sem muito alarde mas que vem mostrando um grande talento e capacidade de chegar bem longe. Estreou no Contender Series assim como seu adversário. Venceu Kevin Gray no reality e depois mais três adversários incluindo o então badalado Jose “Shorty” Torres, na época invicto na carreira e que chegou com pompas como campeão peso mosca do Titan FC. Depois disso, foi atropelado pelo eterno Joseph Benavidez e voltou ao caminho das vitórias contra Mark De La Rosa, numa bela atuação.

Perez é um Wrestler, foi condecorado All-American pela West Hills College, tem uma trocação muito boa, que permite tanto que ele se mantenha na luta em pé, ou que use para encurtar e botar pra baixo ou permanecer no clinch, golpeando o adversário na linha da cintura. No chão é perigoso tanto no ground and pound quanto nas transições, onde procura a todo instante a melhor posição para poder vencer por finalização. Aliás, foi dessa forma que ele venceu seis de suas vitórias na carreira.

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Aqui temos uma situação bem desfavorável para Jordan Espinosa. Alex é melhor em pé e no chão do que o lutador de Albuquerque. A aposta aqui é que Perez consiga manter a luta onde quiser, ora trocando, ora botando pra baixo e castigando no ground and pound. No final, Perez de vencer com muita tranquilidade na decisão dos juízes.

 

Peso Galo: #10 Sara McMann (EUA) vs. #11 Lina Lansberg (SUE)

Por Idonaldo Filho

Uma das principais atletas do UFC, Sara McMann (11-5 no MMA, 5-5 no UFC) está de volta ao octógono. Prata no wrestling estilo livre em Atenas 2004, McMann é também ex-desafiante do evento e foi uma das várias vítimas do reinado de Ronda Rousey. Atualmente aos 39 anos, não vem em boa fase, sendo derrotada de forma similar nas duas últimas lutas contra Ketlen Vieira e Marion Reneau. Sara retorna de gravidez e de lesão, esta última que cancelou sua luta contra Nicco Montaño no ano passado.

O pedigree atlético de McMann é nítido e obviamente sua melhor arma na luta é o wrestling. A americana sempre busca derrubar sua adversária partindo em queda geralmente após uma sequência de golpes poderosos, mas jogados sem precisão. Uma vez no chão, mantém um bom controle posicional, gira bastante por cima em busca de melhores posições e incomoda com o ground and pound, possuindo também grande eficiência com o katagatame. O problema gritante em seu jogo é a defesa em geral – o que espanta por se tratar de uma lutadora experiente. McMann não tem uma guarda muito boa em pé e no chão vem entregando muitas lutas de bandeja, mostrando deficiência na defesa de submissões. Outro ponto que preocupa é o tempo de estrada, um fator bem importante para uma lutadora com um estilo tão dependente de força como ela, ainda mais após a gravidez e algumas lesões.

A Rainha dos Cotovelos chegou ao UFC em uma enrascada e tanto. Lina Lansberg (10-4 no MMA, 4-3 no UFC) foi contratada para encarar Cris Cyborg e durou até mais do que o previsto. Seguindo a carreira na promoção, teve uma fase irregular, mas agora com duas vitórias seguidas e na beira do top 10 podemos falar que está em seu melhor momento. Nas duas últimas lutas, Lansberg derrotou a ex-campeã do Invicta FC, Tonya Evinger, além de acabar com parte do hype de Macy Chiasson – campeã do TUF: Heavy Hitters.

Lansberg é uma lutadora forte, que fez lutas como peso pena e que tem background no kickboxing e muay thai. Não mostra uma trocação que encha os olhos e não tem tanta técnica, porém é agressiva e sempre está andando para a frente aplicando pressão. Lina tem total preferência por lutar no clinch, preferindo colocar as oponentes na grade e desferir cotoveladas e joelhadas – o que faz boa parte de suas lutas serem muito ensanguentadas. A defesa de quedas não inspira muita confiança, mas dá para falar que houve uma melhora.

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Em um duelo de lutadoras experientes, a vantagem total é de McMann, que sempre foi melhor. Lansberg pode conseguir brecar as quedas de início ou assustar com um golpe ou outro, mas no chão dificilmente ameaça a americana. Se não oferece risco no chão, são grandes as chances da atleta olímpica tratorizar e conseguir uma finalização, sendo essa a aposta. Porém não se espante caso McMann esteja meio enferrujada ou lenta.