Por Edição MMA Brasil | 23/02/2018 09:51

No próximo sábado, um pouco convencional evento do UFC na TV aberta em fevereiro. O octógono será montado novamente na Amway Center, casa do Orlando Magic, da NBA, para o UFC On FOX 28, cujo card principal será liderado por um combate com ares de hora da verdade, outro que provavelmente deixará a vencedora na boca de uma disputa de cinturão e seis top 8 em ação.

O duelo principal do evento dará a chance a Josh Emmett de provar contra o violento Jeremy Stephens que a última luta não foi obra do acaso. Antes, Jessica Andrade e Tecia Torres buscam se posicionar como a desafiante número um do peso palha.

Outros dois combates de potencial explosivo abrem o card principal. O primeiro deles envolve os caóticos Mike Perry e Max Griffin, que curiosamente foram contratados no mesmo dia. Em seguida, os brutos Ovince St. Preux e Ilir Latifi tentarão evitar ser o homem estendido no chão ao final da luta.

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O UFC On FOX 28 terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. Como se trata de um evento na TV aberta americana, os horários são bem mais cedo que o normal. A primeira luta do card preliminar está marcada para às 18:00h, enquanto que a porção principal deve ir ao ar a partir das 22:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Peso Pena: #4 Josh Emmett (EUA) vs. #7 Jeremy Stephens (EUA)

Por Diego Tintin

Jeremy Stephens (27-14 no MMA, 14-13 no UFC) não tem como ponto forte a regularidade, como seu cartel no octógono deixa bem claro. Ele também não pode ser considerado o cara mais empolgante do plantel do UFC, uma vez que já fez algumas lutas monótonas quando a expectativa sobre a peleja era grande. Porém, o sujeito tem algumas qualidades que o tornam um atleta muito respeitado pelo público e crítica do MMA.

A lista de virtudes começa com um poder de nocaute avassalador para o seu tamanho. Em algumas vezes, já esteve soterrado por adversários mais completos e conseguiu viradas espetaculares graças à força descomunal que consegue aplicar em seus golpes. Foi assim nas vitórias sobre o ex-campeão dos leves Rafael dos Anjos, o duro Dennis Bermudez e na sua última dança, contra Doo Ho Choi. Seria assim também contra outro ex-campeão, se Frankie Edgar fosse um ser humano comum e não tratasse como um dia normal na firma o chute monstruoso que absorveu na estreia do UFC em Nova York. Outra grandeza do “Esquentadinho” é aceitar todo tipo de adversário que a empresa ofereça, lidando quase sempre com gente do nível de Dos Anjos, Edgar, Anthony Pettis, Max Holloway, Renan Barão, Donald Cerrone, Gilbert Melendez e Charles do Bronx.

Além do poder de nocaute, Jeremy tem uma boa técnica na troca de golpes, sabendo compensar a falta de velocidade com precisão e experiência. Demonstrou grande maturidade e inteligência na vitória sobre Melendez, mas voltou a parecer confuso contra Choi, até virar o jogo com a sua famosa e temida patada. O grappling defensivo apresenta melhoras, mas ainda não é suficiente contra a elite e o ofensivo é pouco utilizado devido ao gosto pela luta em pé.

Grandes oportunidades podem aparecer poucas vezes na vida profissional de um atleta, portanto, não é de bom tom desperdiçá-las. Josh Emmett (12-1 no MMA, 4-1 no UFC) aceitou o convite para substituir o contundido José Aldo contra um dos figurões da divisão, Ricardo Lamas. Com menos de um mês de preparação, Emmett falhou na pesagem, mas conseguiu uma vitória improvável e fundamental, que o alçou para o importante evento principal na TV aberta e ainda uma possível eliminatória para o título.

O “Grim Reaper” começou no wrestling e participou de campeonatos importantes no ensino médio e na faculdade, embora sem grande destaque nacional. Treinando no Team Alpha Male, desenvolveu um interessante jogo em pé, com muita variação entre socos e chutes e movimentação pouco comum, mas até certo ponto eficiente. Destaca-se pelo enorme poder de nocaute, que só apareceu no UFC em sua mais importante vitória. No chão, além da luta olímpica, possui experiência também no jiu-jítsu – chegou a disputar o Campeonato Mundial na faixa azul.

Emmett debutou no UFC como peso leve, após conquistar o cinturão de uma organização local da Califórnia. Depois de vencer Jon Tuck e Scott Holtzman, foi derrotado por Desmond Green e resolveu descer para sua atual divisão. Na estreia como pena, aplicou uma senhora surra em Felipe Sertanejo (foram quatro knockdowns só no primeiro round), antes do triunfo contra Lamas.

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Luta casada com o único intuito de fornecer ao espectador médio americano um quebra-pau de grandes proporções. A esperança é que os dois plantem no centro do octógono e troquem todo tipo de hostilidade com pitadas de violência. Precisamos alertar que a possibilidade de uma luta travada – como Stephens já fez diversas vezes na carreira – existe. Porém, em uma plataforma de exibição tão importante, com a confiança do patrão para estampar o pôster, acredito que o esforço para entregar o produto esperado será grande. Com a chinela cantando, todo mundo sai ganhando e apostamos aqui que o conto de fadas de Emmett ganhará novo capítulo. Através de um triunfo por decisão, veremos um sujeito sair do anonimato para desafiante do UFC em menos de seis meses.

Peso Palha: #2 Jéssica Andrade (BRA) vs. #5 Tecia Torres (EUA)

Por Gabriel Carvalho

Com 1,57m de altura, Jéssica Andrade (17-6 no MMA, 8-4 no MMA) é uma gigante do MMA brasileiro. Ela traçou uma bela história de evolução no octógono e chegou na disputa de cinturão do peso palha, algo que era totalmente inimaginável para a brasileira em sua época de estreia. A “Bate-Estaca” perdeu para Joanna Jedrzejczyk, mas se superou novamente na luta seguinte, quando era zebra contra a compatriota Cláudia Gadelha, e saiu com a inesperada vitória.

Após a descida para o peso palha, Jéssica se tornou um motorzinho ofensivo, com um ritmo alucinante, bastante potência e uma evolução técnica notável. É comum assistir a paranaense combinar ganchos viscerais, tomar porrada e continuar andando para a frente, como se nada tivesse acontecido. No chão, ela tem um certo problema com defesa de quedas, mas melhorou nesse aspecto nos últimos tempos, e usa bem a explosão para jogar suas adversárias ao chão e aplicar o jiu-jítsu.

Comendo pelas beiradas na categoria, Tecia Torres (10-1 no MMA, 6-1 no UFC) só perdeu oficialmente uma vez, no belo arranca-rabo que fez com Rose Namajunas, atual campeã e a quem já derrotou anteriormente. De lá para cá, somou três vitórias seguidas, com desempenhos dominantes sobre Bec Rawlings, Juliana Lima e Michelle Waterson. Uma vitória em Orlando provavelmente crava Tecia como a próxima desafiante ao título.

Faixa-preta de taekwondo, Tecia abandonou a American Top Team para treinar na Triple Threat Gym, onde aprimorou bem o seu trabalho de mãos, evitando soltar tantos chutes, passando a ser uma lutadora agressiva e tornando-se uma atleta interessante de ser ver no clinch. O problema da mudança de academia da “Pequena Tornado” é a questão do wrestling, que não parece ser tão forte quanto nos tempos de ATT.

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Andrade vs. Torres é a verdadeira luta principal da noite, até porque é o duelo mais relevante, podendo encaminhar a próxima desafiante ao título da categoria. É certeza que Jéssica partirá para cima desde o início, como é característico de suas lutas, encurralando Tecia e combinando bons socos. É importante para a brasileira trazer a luta para a longa distância, já que ela tem buracos defensivos quando se expõe no pocket, um ponto no qual Torres é forte, e acredito que a americana de sangue latino, copero y peleador, pode trabalhar muito bem nisso, além do clinch, ponto forte de Tecia.

Caso o combate se alongue, o resultado dependerá bastante do ritmo de luta adotado no início. Torres tem um preparo físico muito forte, enquanto Jéssica é um pouco pior neste aspecto por conta do estilo de luta vândalo. A expectativa é de 15 minutos animados, com bonificação e tudo, além do braço levantado da brasileira em uma apertada decisão.

Peso Meio-Pesado: #5 Ovince St. Preux (HAI) vs. #8 Ilir Latifi (SUE)

Por Bruno Costa

Ovince St. Preux (21-10 no MMA, 9-5 no UFC) é ex-linebacker da Universidade do Tennessee, um atleta de elite que virou lutador de jogo diversificado e perigoso, e que sabe utilizar suas características físicas a fim de contornar dificuldades em áreas do esporte que não domina. Possui técnica decente no kickboxing pouco ortodoxo, usa constantes trocas de base, uma grande variedade de chutes e sabe criar ângulos para aplicar contragolpes mortais.

OSP faz bom trabalho também no clinch, onde consegue manusear adversários, auxiliado pelo físico gigantesco para sua categoria de peso. Quando tem o controle posicional no solo, dispara violento ground and pound contra a concorrência – ele ainda é o recordista de finalizações no octógono aplicando o muito raro estrangulamento Von Flue. O boxe é uma face do jogo que ainda exige melhora, uma vez que falta a St. Preux maior volume de golpes aplicados e refinamento técnico de seus movimentos. Seu maior problema, e que pode custar caro no sábado, é a recorrente dificuldade em defender quedas e atuar com as costas no chão. Mesmo em lutas nas quais acabou vitorioso, St. Preux esteve muito perto de ser derrotado por não evoluir defensivamente no wrestling.

O sueco descendente de albaneses Ilir Latifi (13-5 no MMA, 6-3 no UFC) é um sujeito forte como um búfalo, tão forte que já desmontou um ringue ao colidir contra o não menos equino Blagoi Ivanov num clinch, e que tem como base o wrestling explosivo, além de um boxe agressivo, mas tecnicamente rudimentar.

Em que pese a simplicidade e o fácil mapeamento nas combinações de golpes que apresenta no octógono, Latifi consegue fazer o suficiente para se manter como uma importante peça para a categoria dos meios-pesados, que anda combalida e necessitando de renovação de talento. Seu jogo implica em pressionar o adversário à base de muitos overhands e quedas explosivas, ou partindo de posições do clinch para trabalhar o bom controle posicional e feroz ground and pound no jogo de solo.

Ilir Latifi vs Ovince Saint Preux odds - BestFightOdds
 

No sábado, a gigantesca diferença de envergadura pode facilitar o trabalho de OSP, que prefere levar a luta na longa distância, tentando encaixar seus potentes chutes, sempre preparando o direto de esquerda. Em que pese o haitiano ser um lutador que inicia usualmente em marcha lenta seus combates (o que aumenta as chances de sucesso de Latifi executar algumas de suas quedas no round inicial), a aposta aqui é num cenário em que St. Preux consiga minar o adversário com potentes chutes baixos e no corpo, abrindo espaço para um nocaute entre o final do segundo e início do terceiro round.

Peso Meio-Médio: Mike Perry (EUA) vs. Max Griffin (EUA)

Por Alexandre Matos

Mike Perry

Em 2017, Perry (11-2 no MMA, 4-2 no UFC) ganhou bastante moral, com dois nocautes brutais e dois bônus de desempenho. Em dezembro, chegou a hora de entrar no ranking, mas ele parou numa atuação inteligente de Santiago Ponzinibbio, que arrefeceu a agressividade de Perry e conduziu as ações sem maiores dificuldades.

Ganhando ou perdendo, Perry provavelmente será sempre um dos favoritos dos fãs, até porque todas as vitórias dele foram pela via rápida dolorosa. Seu estilo de luta hiper agressivo não é o mais recomendável para sua saúde em longo prazo, mas vai garantir seu emprego. O muay thai é patologicamente ofensivo: não importa se o oponente devolva fogo, ele sempre vai avançar. A abordagem não é das mais técnicas – falta combinar melhor os socos retos com os chutes -, mas a pressão normalmente garante a aproximação. No infighting, Perry mostra seu melhor, lançando cotoveladas em pé ou uppercuts poderosos.

Max Griffin

Poucos sabiam quem era Griffin (13-4 no MMA, 1-2 no UFC) até outubro do ano passado. Contratado em 2016, ele foi atropelado por um ainda desconhecido Colby Covington e aplicou um nocaute rápido no também desconhecido Erick Montaño. Quase um ano depois, Max “Pain” (como não?) foi convocado a vir a São Paulo encarar Elizeu Capoeira. Sabe-se lá como ele não foi nocauteado no primeiro assalto e sabe-se menos ainda como ele reuniu forças para fazer a melhor luta daquela noite.

Griffin começou nas artes marciais aos 4 anos porque queria ser uma Tartaruga Ninja. Como o sonho não foi realizado, ele se especializou em bok-fu-do, o “sistema do tigre branco”, que reune aspectos do kung fu, taekwondo, kempo e ju-jutsu. Pupilo do ex-campeão mundial de kickboxing Dave “The Madman” Marinoble, Max também busca avançar sobre os oponentes e sabe combinar os golpes curtos quando entra no raio de ação dos rivais. O sistema defensivo lembra o de Perry, muito confiante no queixo de pedra, com alguns buracos e calcado na agressividade.

Max Griffin vs Mike Perry odds - BestFightOdds
 

A gente critica os matchmakers do UFC quando eles casam lutas absurdas, mas Mick Maynard foi muito feliz aqui. Dois alucinados que não têm a menor piedade das próprias saúdes e que confiam no queixo mais do que nas mães devem promover uma pancadaria de proporções bíblicas.

Dificilmente este combate vai durar 15 minutos, dadas as naturezas ofensivas e defensivas de ambos. Porém, enquanto durar, será um duelo explosivo, com trocas insanas de pancadas em pé. Perry não terá nenhuma dificuldade de atrair Griffin para o olho do furacão. Ali, Mike provavelmente encontrará o golpe definitivo para mais uma vitória por nocaute.