Por Edição MMA Brasil | 28/02/2020 15:35

O octógono mais famoso do mundo será montado pela segunda vez, neste sábado, na Chartway Arena, em Norfolk, Virginia. O ginásio da Old Dominion University vai receber o UFC Norfolk, encabeçado pela disputa do cinturão dos moscas, que Henry Cejudo deixou vago para se dedicar ao peso galo.

Talvez o melhor lutador da história que nunca conquistou um cinturão, Joseph Benavidez terá a terceira chance pela coroa da divisão mais leve entre os homens no UFC. Para impedi-lo, o paraense Deiveson Figueiredo, que ficou no lugar do rival no Team Alpha Male depois que Benavidez partiu para o UFC Performance Institute. Entretanto, só Benavidez pode conquistar a cinta, já que o brasileiro não bateu o peso. Caso o “Deus da Guerra” vença, a cinta continuará sem dono.

Outro duelo intrigante se desenrola pela categoria dos meios-pesados entre o russo Magomed Ankalaev e o moldavo Ion Cutelaba. As prévias do MMA Brasil também abordam os bons duelos entre Brendan Allen e Tom Breese pela categoria dos médios e, por fim, Marcin Tybura e Sergey Spivak pela categoria dos pesados.

O UFC Norfolk terá início às 19:00h com o card preliminar e a porção principal do evento está prevista para ir ao ar por volta de 22:00h, sempre seguindo o horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Mosca: #1 Joseph Benavidez (EUA) vs. #3 Deiveson Figueiredo (BRA)

Por Alexandre Matos

Joseph Benavidez

A devastação promovida por Demetrious Johnson no peso mosca deixou Benavidez (28-5 no MMA, 14-3 no UFC) numa situação esquisita. Por duas atuações ruins, vaticinou-se que o americano nunca mais chegaria a uma disputa de cinturão. Porém, a análise fria dos números mostra apenas uma derrota nos dez combates disputados por Benavidez desde a segunda derrota para Johnson. Ele se recuperou da zebra contra Sergio Pettis com três triunfos seguidos, dois por nocaute, incluindo um sobre Jussier Formiga, o atual número dois da divisão.

Revelado por Urijah Faber há quase 13 anos, Joe-Jitsu incorporou à perfeição o jogo do Team Alpha Male, tanto o pré quanto o pós-Duane Ludwig. O wrestling, a enorme habilidade nos scrambles e sagacidade da guilhotina seguem como o porto seguro de seu jogo, enquanto o muay thai foi desenvolvido com o antigo treinador a ponto de torná-lo confiante para encarar qualquer oponente da divisão. Seus ataques em combinação sob pressão permitem que Benavidez esconda os golpes decisivos até o último momento. A derrota para Pettis e a controversa vitória contra Cejudo mostraram um Benavidez com alguns problemas de velocidade e movimentação. No entanto, o lutador conseguiu se reorganizar, ainda que nenhum dos três últimos oponentes vencidos tenha levado o nível de perigo que o rival deste sábado entregará.

Deiveson Figueiredo

A escalada de Figueiredo (17-1 no MMA, 6-1 no UFC) até a disputa do cinturão se deu às custas de lutas hiper agressivas e muito divertidas para o público. Fora a única derrota, quando Formiga conseguiu detê-lo, Deiveson deixou para trás dois ex-desafiantes, dois prospectos e um top 5 consolidado. Foram duas vitórias por nocaute e uma por submissão no caminho que dexou claro o processo de evolução do marajoara.

Revelado aos 16 anos por Iuri Marajó, Deiveson desenvolveu um estilo explosivo e violento, consolidado sobre um atleticismo e potência raros entre os pequenos. Integrado há quase dois anos ao Team Alpha Male, ex-equipe de Benavidez, o brasileiro conseguiu canalizar o foco, desperdiçando bem menos golpes – ou seja, preservando energia –, melhorando muito seu nível defensivo e, de quebra, tornando o contragolpe ainda mais perigoso. Se antes ele era adepto de trocar couro como se não houvesse amanhã, hoje o “Deus da Guerra” aprendeu a “enxergar dentro do furacão”. Esta habilidade é preciosa para alguém que ataca cabeça e corpo em alta velocidade e que aplica quedas brutais. No chão, ele desenvolve um ground and pound sufocante.

Deiveson Figueiredo vs Joseph Benavidez odds - BestFightOdds
 

Analisadas as qualidades de ambos os lutadores, um cenário é bastante claro: Benavidez é o lutador mais técnico e com mais armas para chegar a vitória. Além do caminho claro através do wrestling, o veterano tem qualidade para vencer o brasileiro inclusive na luta em pé, através da movimentação e do volume de golpes. Porém, Joe Jitsu já é veterano de guerra, com mais de 30 lutas nas costas, e mostrou um certo declínio físico na derrota para Sergio Pettis. Deiveson tem a trocação e, principalmente, a potência para acertar o americano e conquistar uma interrupção, seja por nocaute ou finalização. Ainda assim, confiaremos na maior qualidade técnica e no gás de Joseph Benavidez, aguentando a pressão nos primeiros rounds e superando um Deiveson já cansado e desgastado fisicamente.

Peso Meio-Pesado: Magomed Ankalaev (RUS) vs. Ion Cutelaba (MOL)

Por Idonaldo Filho

O Daguestão é referência em trazer ao octógono lutadores de altíssimo nível e Magomed Ankalaev (12-1 no MMA, 3-1 no UFC) não é uma exceção. O russo chegou como campeão do WFCA e sempre foi um dos lutadores mais promissores da categoria, e agora mostra toda sua habilidade no maior evento do mundo. A estreia foi uma tragédia, batendo para um triângulo faltando um segundo para o fim da luta para Paul Craig. Porém, Ankalaev se recuperou com três boas vitórias em sequência, a última com um nocaute lindo contra Dalcha Lungiambula.

Treinando agora na American Top Team, Ankalaev vem do sambo como a maioria dos atletas do Daguestão. Lutador paciente, ele não é tão obcecado pela queda, mas quando quer derrubar o oponente faz isso de forma correta e na maioria das vezes com o apoio da grade. No chão temos simplesmente um dos melhores ground and pound do MMA, com volume, potência e principalmente violência em níveis altos. A trocação vem evoluindo cada vez mais, ainda tem alguns buracos na defesa, contudo, mostra muita habilidade com chutes, seja eles no corpo ou frontais no rosto, como o que vitimou Dalcha na última luta. O condicionamento de Ankalaev também é fora do normal. O conjunto como um todo é bem acima da média, podendo ele muito em breve chegar nas cabeças da categoria.

Se alguém merece a alcunha de lutador mais selvagem do UFC, esse é Ion Cutelaba (15-4 no MMA, 4-3 no UFC). O moldavo é conhecido pelo jeito falastrão e pelo alto grau de violência que seus combates apresentam. Lutador irregular no octógono, suas últimas três vitórias aconteceram no primeiro assalto, a última encarando o também nocauteador Khalil Rountree. Em sua última derrota perdeu para o brasileiro Glover Teixeira, onde a experiência falou mais alto.

Um dos lutadores mais perigosos em início de combate é com certeza Cutelaba. Um “fast starter” nato, Ion sempre entra em alto ritmo com o objetivo de definir o combate logo na primeira parcial. Muito forte, Cutelaba tem boa velocidade e poder nos golpes, além de um instinto de caçador que o faz crescer na luta quando o adversário está com problemas. O sambo de Ion é de bom nível e ele é capaz de realizar boas quedas. O principal problema é o QI duvidoso e que só vai piorando quanto mais a luta passa, aliado ao condicionamento cardiorrespiratório fraco, também mostrando alguns problemas no jogo de chão.

Ion Cutelaba vs Magomed Ankalaev odds - BestFightOdds

Ankalaev é um lutador em teoria melhor em praticamente tudo. É um grappler mais competente, tem uma trocação menos louca e mais técnica, além de vantagem no clinch. Se considerarmos somente as virtudes técnicas, o russo está em extrema vantagem. O jogo certo para ele vencer é contragolpear, derrubar e conseguir a interrupção no chão onde o trabalho é mais simples para ele.

Todavia, temos que Ankalaev algumas vezes demora um pouco para engrenar no combate e, definitivamente, isso é muito perigoso contra o oponente que enfrentará sábado, um lutador explosivo e com sangue nos olhos. É certamente uma aposta muito arriscada, mas acho que Cutelaba pega Ankalaev na blitz inicial aproveitando alguma brecha na defesa do russo e consegue um nocaute no primeiro assalto.

Peso médio: Brendan Allen (EUA) vs. Tom Breese (ING)

Por Matheus Costa

Brendan Allen (11-3 no MMA, 1-0 no UFC) é mais um da vasta lista de campeões do LFA que foram contratados pelo UFC. Não só isso, mas o americano também participou da quarta semana do Contender Series em 2019, que lhe deu o contrato com a maior organização de artes marciais mistas do mundo com uma bela atuação sobre Aaron Jefery, que acabou finalizado no primeiro assalto. Em sua estreia no octógono, tratou de surpreender a casa de apostas ao bater Kevin Holland – também por finalização. Suas únicas derrotas na carreira foram para atletas que hoje estão na organização de Dana White, como Trevin Giles, Eryk Anders e Anthony Hernandez.

O jogo do atleta gerenciado por Duke Roufus na Roufusport é formado no grappling, que é bastante completo e expande até o bom jogo de clinch do lutador. Todavia, Allen soube corrigir seus erros e acabou evoluindo em todas as áreas, tornando-se um striker agressivo e perigoso, assim como se porta no jogo de chão. Bem ofensivo, Allen gosta de pressionar e golpear na curta distância, geralmente com o intuito de levar para a especialidade da casa, que é o chão. Bom em quedas, é válido destacar o bom controle posicional do lutador, que sempre busca finalizações.

Sempre promissor mas nunca presente. Essa é a sina da carreira do bom Tom Breese, que poderia estar muito além do que está hoje se não fosse as constantes lesões que atrapalham o curso de sua carreira, incluindo um problema cardíaco em 2017 que quase forçou sua aposentadoria do esporte. Nos últimos 3 anos e meio, Breese lutou apenas duas vezes e não pisa no octógono desde maio de 2018 – quase dois anos atrás – quando nocauteou o veterano Daniel Kelly no primeiro assalto.

Breese é um bom lutador de chão que acabou evoluindo para se tornar um bom boxer. Em pé, o britânico possui mãos bem potentes e precisas que são utilizadas em boas combinações, sempre com a preferência por ganchos e, claro, jabs. No chão, o faixa-preta de jiu-jítsu sempre se destaca atacando por cima, pois assim como seu adversário, sempre busca a finalização com muita agressividade, geralmente optando por estrangulamentos – o mata-leão é a especialidade do cardápio.

Brendan Allen vs Tom Breese odds - BestFightOdds

Trata-se de um duelo intrigante sobre dois grapplers que acabaram se tornando completos, com Allen sendo mais jovem e mais ativo, enquanto Breese mais experiente e mais testado a um nível maior. Entretanto, vale destacar dois pontos importantes para o desenrolar do confronto. O primeiro, obviamente, são os dois anos de afastamento do inglês do octógono, enquanto o segundo é a passividade do mesmo na hora de se movimentar, tornando-se um alvo fácil para oponentes rápidos e ágeis, que é o caso do americano. Enxergo o confronto se desenrolando em algumas maneiras, mas vou optar pela racional: vitória de Allen por decisão unânime.

Peso Pesado: Marcin Tybura (POL) vs. Sergey Spivak (MOL)

Por Idonaldo Filho

Ex-campeão do M-1 Global, o polonês Marcin Tybura (17-6 no MMA, 4-5 no UFC) está em seu pior momento na carreira. Nas últimas cinco lutas, o “Tybur” perdeu quatro e foi nocauteado em três delas. Sua sequência atual é de dois reveses em um nocaute estranho que sofreu das mãos de Shamil Abdurakhimov, além de uma surra que Augusto Sakai o aplicou em setembro do ano passado. A possibilidade de demissão existe para o ex-top 15, que por um tempo mostrou que poderia ser uma renovação nos pesados, mas não vingou como esperado.

Tybura é faixa-preta de jiu-jítsu e gosta de atuar na luta agarrada, mas diante de lutadores de nível superior no UFC ainda não conseguiu finalizar ninguém. O polonês possui um wrestling apenas mediano – o que significa que muitas vezes a luta vai pro clinch -, mas tem boas transições e consegue chegar a montada com facilidade. A trocação mostra eficiência na parte de chutes, com perigosos chutes altos inclusive. Os problemas claros são o gás que não é bom, mas principalmente o queixo de cristal e falta de coração, se entregando muito facilmente no octógono.

Também do leste europeu vem Sergey Spivak (10-1 no MMA, 1-1 no UFC), jovem peso-pesado de 25 anos. Nascido na Ucrânia mas representante da Moldávia, Spivak era um dos mais promissores pesados fora do UFC e foi destacado na série “De Olho no Futuro” aqui no MMA Brasil, antes mesmo de assinar com o líder do mercado. Campeão do WWFC, enfrentou concorrência experiente e passou facilmente. No UFC foi frustrado na estreia sem camp, levando uma piaba de Walt Harris. No retorno encarou Tai Tuivasa e mesmo sendo azarão, mostrou toda sua qualidade no grappling e finalizou o maori.

Bastante agressivo, Spivak é um grappler muito perigoso. Suas quedas de wrestling são muitas vezes atabalhoadas, mas tem uma habilidade impressionante em quedas plásticas do judo/sambo. No chão seu arsenal de finalizações é vasto e há uma preferência pela grosseria e movimentos pouco ortodoxos, possuindo também ótimo ground and pound. A trocação é decente, tem um jogo de mãos bom mas ainda carece de refino técnico e aparenta faltar confiança em alguns momentos. O clinch também é uma boa arma e Spivak sempre é uma ameaça com joelhadas na posição.

Marcin Tybura vs Serghei Spivac odds - BestFightOdds

Sergey nunca foi para decisão, é um lutador agressivo por natureza. Sua oposição no circuito regional era adequada por ser experiente, porém de nível apenas razoável, aumentando bastante o sarrafo no UFC. Tybura é bom grappler, mas não o vejo finalizando o ucraniano. Existe uma possibilidade de termos uma disputa de trocação, mas eu acho que será a primeira vez de Spivak na decisão dos juízes e que ele sairá vitorioso, mesclando quedas com disputas no clinch.