Por Edição MMA Brasil | 09/08/2019 03:00

Por muitos anos, o Brasil foi o único país latino-americano a sediar um evento do UFC. De repente, México, Chile e Argentina ampliaram este escopo. No próximo sábado chega a vez do Uruguai. A Antel Arena, erguida no ano passado onde ficava o antigo Cilindro Municipal, será palco do UFC Montevidéu, evento repleto de lutas divertidas e com a primeira disputa de cinturão na América do Sul fora do Brasil.

A quirguiz naturalizada peruana Valentina Shevchenko puxa a fila do card. Ela fará a segunda defesa do cinturão do peso mosca em revanche contra Liz Carmouche, única que a venceu fora do UFC.

Tiro, porrada e bomba devem brotar do encontro entre os hiper agressivos Vicente Luque, que tenta retornar ao ranking dos meios-médios, e Mike Perry. Antes deles, o peso-pena local Luiz Eduardo Garagorri estreia no octógono mais famoso do mundo contra o peruano Humberto Bandenay. Eles sucederão um duelo entre meios-pesados europeus brutos que envolverá o suíço Volkan Oezdemir e o sueco Ilir Latifi.

Os uruguaios testemunharão a estreia do UFC de Rodolfo Vieira, um dos maiores campeões da história do jiu-jítsu. O peso médio vai enfrentar o também grappler Oskar Piechota. Abrindo o card principal, o peruano Enrique Barzola bate de frente com Bobby Moffett.

O UFC Montevidéu terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. A primeira preliminar está marcada para iniciar às 18:00h, enquanto o card principal deve ir ao ar a partir das 21:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Mosca: C Valentina Shevchenko (KGZ) vs. #3 Liz Carmouche (EUA)

Por Alexandre Matos

Quando estava na categoria de cima, mesmo em clara desvantagem física, Shevchenko (17-3 no MMA, 6-2 no UFC) levou duas vezes o terror a Amanda Nunes. Depois que o UFC abriu o peso mosca, ficou claro que apenas uma hecatombe impediria que a peruana conquistasse o cinturão. Em três duelos pela categoria atual, ela rumou la disgraça em Priscila Pedrita, atropelou Joanna Jedrzejczyk e aplicou um nocautaço em Jessica Eye.

A atual fase, que fez de Valentina uma consolidada integrante do top 15 peso por peso entre homens e mulheres, mostra também a enorme caixa de ferramentas que ela tem. O muay thai, desenvolvido por anos de títulos na modalidade, sempre foi o carro-chefe. Porém, a “Bala” é muito mais do que uma striker poderosa, mestra dos contragolpes, com um controle de distância e noção de volume que beiram à perfeição. Valentina vem se mostrando inquebrável no combate corpo a corpo, seja no violento thai clinch ou aplicando quedas importantes. No chão, Shevchenko usa o controle posicional para aplicar um sonoro ground and pound, mas também sabe transicionar para as finalizações. Se a Amanda é a maior lutadora da atualidade, provavelmente Valentina é a melhor.

Primeira mulher a pisar no octógono para lutar, Carmouche (13-6 no MMA, 5-4 no UFC) viveu altos e baixos no UFC e passou um tempo longe dos holofotes. Apesar de nunca ter conquistado três vitórias seguidas na maior organização do mundo — tem 2-1 no peso mosca, mas vem de dois triunfos dominantes –, traz em seu currículo uma vitória sobre Valentina há quase nove anos, em sua quinta atuação profissional e oitava da atual campeã.

Ex-fuzileira naval, Carmouche se destaca por um forte jogo de quedas e pressão no solo. No UFC, são quase três quedas completadas por luta em média, mas o trabalho no ground and pound é mais sufocante do que bruto. É um jogo que a separa da linha mediana, mas que a torna pouco variada no confronto contra as melhores – a única lutadora de nível de elite que Liz venceu, Jessica Andrade, tinha uma gigantesca desvantagem física e de experiência na época do confronto. Carmouche recebeu há menos de um ano a faixa preta de jiu-jítsu na 10th Planet, academia de Eddie Bravo, onde aplica uma influência do folkstyle wrestling na arte suave.

Liz Carmouche vs Valentina Shevchenko odds - BestFightOdds
 

Tecnicamente falando, Carmouche estará em situação crítica quando as portas do octógono se fecharem. Basicamente ela terá que confiar na força física para superar Shevchenko no clinch e nas quedas, tentando emular a pressão que Amanda deu na primeira luta.

Para azar da americana, ela não é Amanda. É possível imaginar que o grappling defensivo de uma anule o ofensivo da outra e que não muita coisa aconteça neste aspecto. Então o duelo volta-se para a troca de golpes em pé e aqui a vantagem da campeã assume proporções gigantescas. Apesar disso, Liz pode adotar uma postura defensiva que evite maiores estragos, mas que não a deixará perto de uma vitória. A aposta é na manutenção do cinturão com uma vitória na leitura das papeletas dos juízes.

Peso Meio-Médio: #15 Vicente Luque (BRA) vs. Mike Perry (EUA)

Por Pedro Carneiro

Cinco vitórias seguidas. Esse é o impressionante retrospecto de Vicente Luque (16-6-1 no MMA, 9-2 no UFC), atleta onde não haviam muitas expectativas, mas prossegue sua escalada na categoria, que só teve empecilhos contra o top 15 Leon Edwards. Excetuando esse desvio de rota e a estreia com derrota, o lutador que ocupa o cargo de multinacionalidades deixado em aberto por Gegard Mousasi – Vicente possui a nacionalidade brasileira, americana e ascendência chilena -, alcançou a marca de nove vitórias no UFC, muitas delas em ótimos combates. Luque teve uma carreira irregular no MMA brasileiro, com um cartel de 7-4-1, surgindo para o UFC na vigésima primeira edição do The Ultimate Fighter, no qual as equipes rivais American Top Team e Blackzillians se confrontaram. Ali, finalizou Nathan Coy, perdeu para Hayden Hassan em uma decisão dividida e estreou com derrota no UFC contra Michael Graves.

A partir daí, chegou o período de glórias. Com quatro vitórias seguidas por interrupção – vingando a derrota contra Hassan, inclusive e, após o citado tropeço contra Edwards – mais cinco interrupções, destacando-se o show de chineladas trocadas contra Bryan Barberena, onde os dois lutadores fizeram uma animada guerra, com Vicente nocauteando o americano aos 4:54 do terceiro round. No seu último compromisso, Luque nocauteou Derrick Krantz com um potente gancho de esquerda, quando o adversário já estava castigado por joelhadas no clinch.

O brasileiro é bom no boxe, trabalhando bem as combinações e apresentando um controle de distância eficiente. Os chutes são outro aspecto positivo no arsenal ofensivo, que é complementado com um alto poder de nocaute ao aplicar golpes com a mão esquerda. Seu wrestling é bem adaptado ao MMA e age conjuntamente com um jiu-jítsu ofensivo com boas finalizações. Defensivamente, Luque também é eficiente e possui uma ótima absorção de golpes. Comparando o lutador irregular de anos atrás com o atual, não é um exagero afirmar que Vicente conseguiu mudar as expectativas e hoje pode ser considerado um lutador versátil e bom em várias áreas.

Em uma gangorra de resultados, Mike Perry (13-4 no MMA, 6-4 no UFC) tentará a segunda vitória seguida no Uruguai, fato que não ocorre desde 2017 quando emendou Jake Ellengerger e Alex Reyes. Apesar disso, o americano é um ótimo exemplo de lutador, e assim como seu adversário deste sábado, é um sujeito ótimo para entreter o público, trazendo para o octógono um estilo agressivo, corajoso e alucinante. Recentemente, ele se recuperou da derrota sofrida contra Donald Cerrone, em novembro do ano passado, com uma vitória sobre o outro cowboy, o brasileiro Alex em abril, no UFC Fight Night 150.

Radicado na Flórida, Perry segue na Jackson-Wink MMA, mesmo após um período de discórdia, onde após a marcação do combate entre Mike e Cerrone, o segundo queria a exclusividade da equipe, porém, mesmo com um longo histórico do Cowboy na academia, o técnico Mike Winkeljohn decidiu treinar Perry para o duelo. Mike é agressivo como um carcaju e segue avançando mesmo quando recebe golpes potentes. A pressão que ele impõe funciona como um atenuante das suas limitações técnicas, ao mesmo tempo em que catalisa a sua força bruta. Por conta deste cenário, as combinações do “Platinum” costumam ser simples, porém causam danos em cada golpe. Outro ponto positivo de Mike é a capacidade de encurtar a distância, muito motivada por este ímpeto de sempre avançar. Neste momento, cotoveladas mortais são desferidas, e andam conjuntamente com ganchos fortes e uma aproximação potencializada pela vontade. Todavia, todo o jogo de Perry subiria de nível se o condicionamento físico fosse incrementado.

Mike está em um momento delicado na carreira, pois apesar do estilo que chama a atenção do público, já há sinais de que o americano alcançou um teto, onde se sobressai contra os bons, mas perde para os muito bons. Na realidade, é possível que o combate seja para o UFC ver até onde Vicente Luque pode chegar, e não o contrário.

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Diz o ditado que “cavalo bom e homem valente se conhece na chegada”. É bem por aí o prognostico do primeiro round entre Luque e Perry, que o que tem de valentes também tem de cavalice. Ambos são fortes, gostam de trocar socos e possuem uma boa absorção de pancadas. Se isso ocorrer, o prognóstico é de loucura e sangue, com um equilíbrio entre os dois. Contudo, caso após uma explosão inicial ou um inicio mais respeitoso, os dois lutem de modo estratégico, Luque possui um bom controle de distância e um encaixe bom para tomar as rédeas da peleja e sair em vantagem contra Perry. O condicionamento físico também pode fazer a diferença já que os dois já demostraram dificuldades na área e dar e receber golpes cansa bastante. Em um cenário racional, Vicente Luque leva vantagem por ter mais ferramentas em pé e ainda poder usar o jiu-jitsu como trunfo. O problema é que “o cavalo procura sempre voltar à querência” e é possível que ambos não se segurem e queiram sair na porrada tornando qualquer resultado possível. Ainda assim, a aposta aqui é em Vicente Luque, mesmo sabendo que a possibilidade de qualquer um ir pra vala é bem real.

Peso Meio-Pesado: #7 Volkan Oezdemir (SUI) vs. #9 Ilir Latifi (SUE)

Por Diego Tintin

No deserto que a divisão meio-pesado se transformou, bastaram três vitórias sobre o segundo escalão da divisão para Volkan Oezdemir (15-4 no MMA, 3-3 no UFC) sair de um ilustre desconhecido para o desafiante ao cinturão do astro Daniel Cormier. O suiço estreou com uma decisão dividida sobre Ovince Saint-Preux e nocauteou em menos de um minuto os limitados Misha Cirkunov e Jimi Manuwa. Depois disso, não venceu mais: foi, como esperado, dominado pelo ex-campeão na disputa pelo título, finalizado por Anthony Smith e perdeu na decisão para Dominick Reyes em seu último compromisso.

Volkan tem na potência sua mais destacada qualidade. Forte, explosivo e oportunista, é um perigo danado enquanto o problemático condicionamento o permite. Tecnicamente não é tão bom para ser alçado a desafiante em tão pouco tempo, nem tão ruim quanto as três derrotas seguidas podem sugerir. Ele tem capacidade de criar oportunidades para sua violenta patada a partir de combinações simples. A movimentação não é nenhuma maravilha, mas quebra um galho, assim como seu trabalho no clinch. O mesmo não pode ser dito de sua luta de solo, além do já citado problema com falta de gás para lutas em um ritmo mais forte.

Ilir Latifi (14-6 no MMA, 7-2 no UFC) apareceu para o mundo ao substituir o compatriota Alexander Gustafsson em uma luta principal contra a estrela Gegard Mousasi. Fez um papel digno e conquistou na unha seu lugar dentro da organização. Foram algumas vitórias contra a turma do meio de tabela e derrotas pontuais quando poderia se aproximar do pelotão de frente.

O sueco descendente de albaneses pratica luta olímpica desde a infância. Ele foi campeão nórdico júnior no estilo greco-romano e da seletiva europeia do ADCC. O apelido de “Sledgehammer” (Marreta) vem de seus punhos pesados moldados pelo boxe, mas bem utilizados também no ground and pound.

Sua técnica – em todas as áreas, mas principalmente na trocação – rudimentar e o tamanho diminuto para a divisão dificultam a sua tarefa contra gigantes desta divisão. Contudo, Ilir não tem medo de levar soco na cara e encara o desafio de encurtar a distância para chegar ao clinch. Quando alcança o rosto adversário, no chão ou em pé, é um dos sujeitos mais destruidores e selvagens dentro do UFC. Como dá para imaginar, não é lá muito cuidadoso no aspecto defensivo e todo esse jeitão de ogro não combina com refinamento tático ou estratégico.

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A diferença de tamanho nesta peleja é gritante e parecem atletas de divisões diferentes. A tarefa de Latifi será inglória, pois terá que lidar ainda com desvantagem técnica na trocação. O sueco poderia até apelar para a luta agarrada, mas tem tanto tempo que não faz algo parecido que nem dá para dizer que ele lembra como funciona e, como dissemos, traçar uma estratégia refinada não é o seu forte. O seu condicionamento físico é melhor, mas não parece haver uma discrepância que seja a chave deste duelo. Por estes motivos, apostamos em uma vitória de Oezdemir, provavelmente em uma interrupção após momentos de pura selvageria.

Peso Médio: Rodolfo Vieira (BRA) vs. Oskar Piechota (POL)

Por Rafael Oreiro

Não é nenhum exagero dizer que, antes mesmo de sua estreia, Rodolfo Vieira (5-0 no MMA, 0-0 no UFC) já é um dos maiores representantes do jiu-jítsu – de todos os tempos – contratado pelo UFC. Pentacampeão mundial na arte suave e primeiro lugar do ADCC em 2015, ele se aposentou do competitivo na modalidade em 2016 e fez a transição rápida para o MMA, já estreando nos cages no ano seguinte. Vencendo suas primeiras lutas por finalização em território nacional, ele impressionou ao rapidamente ser contratado pelo ACB (hoje ACA) e, recentemente, vencer com autoridade dois grandes testes para seu atual estágio de experiência em Jacob Holyman-Tague e Vitaliy Nemchinov, ambos com menos de quatro minutos de combate.

O “Caçador de Faixa-Preta” tem trabalhado bem a transição de seu jiu-jítsu para o MMA, colecionando quatro finalizações em suas cinco lutas profissionais até aqui. Para isso, tem contado com a colaboração de Ronaldo Jacaré na Fusion X-Cel, na Flórida, para onde se mudou em busca de ganhar mais experiência no wrestling, fator decisivo para seu sucesso no MMA. Até agora, conseguir quedas não se mostrou uma tarefa muito difícil para o carioca, mas estas tem vindo mais no uso de sua impressionante força bruta do que de uma técnica que ainda está sendo lapidada. Uma vez no chão, ele não demonstra o vício de outros grandes praticantes da arte suave de se manter focado somente nas transições e finalizações, mostrando bastante iniciativa para golpear no ground and pound – só podendo ainda melhorar o oportunismo do uso dessa ferramenta para abrir brechas na defesa de seus adversários. A troca de golpes é, de longe, a área onde Vieira se mostra mais cru. Ainda pouco confortável e testado, ele demonstra uma noção de manter a distância com uso de jabs e golpes retos, usando estes com o objetivo de se aproximar e tentar levar o combate para o chão – mostrando ainda uma baixa variedade de movimentos e um certo problema com timing.

Na única vez que uma de suas lutas passou do primeiro round, mostrou uma certa dificuldade com seu condicionamento físico ao ter suas quedas inicialmente negadas pelo pouco técnico Fagner Rakchal, conseguindo dar a volta por cima no terceiro assalto e ainda assim conseguir uma finalização. Com este combate tendo acontecido em 2017 e uma categoria acima da que Rodolfo atua hoje, não é possível cravar que esse problema possa vir a ocorrer novamente, mas devido a pouca amostragem que ainda temos do jiujiteiro no MMA, este se torna um aspecto a se observar.

Tendo chegado no UFC como campeão do Cage Warriors, Oskar Piechota (11-1 no MMA, 2-1 no UFC) foi rapidamente destacado pelo MMA Brasil como um Top 10 do Futuro no peso médio. Correspondendo as expectativas, o polonês venceu suas duas primeiras lutas no octógono, contra Jonathan Wilson e Tim Williams, com performances bastante animadoras. Porém, em sequência, acabou perdendo sua invencibilidade para o meio de tabela Gerald Meerschaert, após se cansar ao tentar desesperadamente conseguir uma interrupção no primeiro assalto e acabar finalizado na segunda parcial.

Faixa preta de jiu-jítsu do americano Robert Drysdale, Piechota é outro lutador a ter feito a transição da arte suave para o MMA, inclusive também tendo chegado a competir no ADCC em 2013, chegando a vencer Vinny Pezão no absoluto. Entretanto, o “Imadlo” já é um lutador com uma caixa de ferramentas mais completa, tendo estreado na modalidade em um já distante 2011. Tendo refinado sua técnica na troca de golpes nos últimos anos, o polonês tem boa potência nas mãos e já se mostra confortável ao manter a distância, variando bem o uso de socos e chutes, mas ainda pode se portar de maneira bastante passiva ao atuar como contragolpeador e não costuma atuar bem sob pressão do adversário. Devido a sua perícia no jiu-jítsu, talvez a defesa de quedas não tenha sido a área de maior preocupação de evolução para Oskar nos últimos tempos, não tendo se mostrado sólida no combate contra Meerschaert. No chão, ele é um lutador de boa habilidade e controle posicional, sendo muito agressivo nas transições e nas tentativas de finalização. O problema de condicionamento físico que condenou sua última luta também é um ponto de alerta, mas Piechota já demonstrou antes ter a capacidade de lutar três assaltos em bom ritmo.

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Com a diferença de experiência entre os dois, a estratégia de Rodolfo Vieira não será nenhum mistério: levar para o chão, trabalhar seu jiu-jítsu e buscar a finalização. Caso se tratasse de um caso normal de jiujiteiro se adaptando às artes marciais mistas, a estratégia teria altos riscos de dar errado no MMA moderno. Porém, o carioca é um atleta especial, e seu talento pode muito bem ser o suficiente para evitar as armadilhas do polonês e conquistar a vitória.

O ponto de definição deste combate será se a pura força física de Vieira será suficiente para levar o combate para o chão, e se Piechota evoluiu sua defesa de quedas e conseguirá passar três rounds evitando ficar por baixo do brasileiro. Caso se mantenha em pé, a maior experiência e versatilidade de Oskar lhe deixará em vantagem.

No final, analisando todos os pontos, temos uma luta bastante equilibrada. Imaginando que Piechota não terá capacidade de evitar ficar por baixo de Vieira por quinze minutos de luta, e potencializando com a possibilidade do polonês se cansar neste tempo, aposto que Rodolfo conseguirá uma finalização na metade final do combate.

Peso Meio-Médio: Gilbert Durinho (BRA) vs. Alexey Kunchenko (RUS)

Por Rodrigo Rojas

Muito condecorado no jiu jitsu, Gilbert Burns, o “Durinho (15-3 no MMA; 8-3 no UFC) é um dos bons nomes brasileiros na categoria mais disputada do UFC. Após estrear no evento em 2014 com duas vitórias por finalização, foi parado pelo ótimo Rashid Magomedov. Desde então, vem seguindo o padrão que provou ser a tônica de sua carreira: Durinho consegue belas vitórias quando enfrenta oponentes medianos, mas acaba batendo na trave contra os adversários mais qualificados.

Campeão mundial de BJJ com e sem kimono, Gilbert conta com um dos jogos de chão mais afiados da divisão. As transições e o controle por cima são excepcionais, e ele costuma chegar às costas dos oponentes com facilidade, de onde a mentalidade ofensiva geralmente leva à finalizações. As quedas são acima da média para um lutador originado na arte suave, assim como o atleticismo.

Nas últimas lutas, mostrou maior predileção pela luta em pé, chegando a anotar nocautes brutais sobre Jason Saggo e Dan Moret, em que pese a (falta de) qualidade dos adversários. A confiança no boxe acabou o traindo na luta contra Dan Hooker, em que acabou nocauteado no primeiro round pelo kickboxer australiano, sem tentar nenhuma queda. Nos últimos dois duelos, obteve sucesso recorrendo à sua origem, novamente apostando no grappling. Apesar dos nocautes, a trocação ainda é bastante básica e dependente das mãos pesadas.

Alexey Kunchenko (20-0 no MMA; 2-0 no UFC) chegou ao UFC na leva de campeões do M1 Challenge. Na nova casa, o russo foi casado com veteranos decadentes: Thiago Pitbull e Yushin Okami. Venceu ambos com facilidade, em lutas mornas disputadas inteiramente em pé.

Invicto em 20 lutas, Kunchenko chegou a defender o cinturão do M-1 em quatro oportunidades. Seu jogo é principalmente baseado em uma trocação burocrática, com baixo volume de golpes. Ele costuma esperar que o oponente abra brechas, o que pode levar a lutas sem muita emoção. Alexey é muito forte e atlético, o que é refletido em seu jogo de clinch e na defesa de quedas, ambos efetivos e muito baseados na força física.

O queixo é muito resistente e ele tem bom poder de definição, obtendo 13 nocautes em suas 20 vitórias. O wrestling ofensivo é efetivo quando necessário, mas não deve dar as caras no duelo de sábado. O condicionamento é de boa qualidade, tendo durado inclusive em lutas de 5 rounds.

Aleksei Kunchenko vs Gilbert Burns odds - BestFightOdds
 

Essa luta deve se desenhar como um interessante confronto de estilos. Durinho precisa buscar a luta agarrada e utilizar seu jiu jitsu, enquanto Kuchenko deve manter a luta em pé e aplicar seu jogo de muay thai. O duelo é de difícil prognóstico, já que o lutador que impuser sua vontade deve prevalecer. Para não ficar em cima do muro, a aposta é em uma vitória do russo, que deve evitar as quedas e as mãos pesadas do brasileiro rumo à uma vitória por decisão.

Peso Médio: Cyril Gané (FRA) vs. Raphael Pessoa (BRA)

Por Idonaldo Filho

Cyril Gané (3-0 no MMA, 0-0 no UFC) é atleta da MMA Factory e um dos principais parceiros de sparring de Francis Ngannou. O francês era campeão dos pesados do TKO MMA, no Canadá com apenas três lutas, e isso já diz muito sobre o quão bom ele é. Duas de suas vítimas eram prospectos bem conhecidos como o canadense Adam Dyczka e o brasileiro Roggers Souza. Assinando com UFC com tão pouca experiência é um risco para Gane, que é um dos atletas comentados pelo MMA Brasil na série de textos “De Olho no Futuro”, mas tudo indica que ele causará um grande impacto no evento.

Um tipo muito raro de lutador para categoria, Gané é atlético, tem mãos ligeiras e movimentação fora do comum. Ele vem do muay thai e foi campeão francês invicto na modalidade. Para ter noção de seu gabarito no striking, Cyril comentou que havia assinado com o Glory antes de entrar no UFC e que no contrato garantia que ele iria enfrentar Rico Verhoeven, o campeão dos pesos pesados. Outros pontos positivos são o controle de distância, com 1,94m de altura e 2,10m de envergadura, condicionamento de bom nível e um poder de nocaute notável mas não tão impressionante como o de seu parceiro de academia. Ele já mostrou que sabe derrubar os adversários em sua primeira luta, mas ainda não foi bem testado no wrestling. Porém, é de se impressionar que com tão poucas lutas, ele foi capaz de massacrar seus adversários mais experientes e demonstrar um estilo de luta tão refinado e bonito de se assistir, provavelmente virando um fan favorite em pouco tempo.

Outro invicto é Raphael Pessoa (9-0 no MMA, 0-0 no UFC). “Bebezão” é lutador da Evolução Thai e foi contratado pelo UFC para lutar com Gané depois de sete lutadores recusarem enfrentar o canadense. Curiosamente, a luta entre eles já foi marcada para o TKO mas acabou não acontecendo. A última luta do brasileiro foi no LFA, onde nocauteou o veterano Brian Heden com facilidade em sua primeira luta fora do Brasil.

Raphael também tem mãos rápidas, porém uma técnica bem duvidosa. Ele não recusa uma trocação franca e gosta de jogar socos ao vento sem se preocupar defensivamente, engolindo vários golpes limpos do adversário e mostrando boa absorção. Como um lutador que também vem do muay thai, os chutes na perna estão presentes e são utilizados com frequência. No clinch ele mostra poder ofensivamente mas também já mostrou que oferece pouca resistência se colocado de costas para a grade em suas primeiras lutas.

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Gané tem um adversário que casa muito bem com o seu estilo de luta. Raphael tem uma trocação desengonçada e abre muito a defesa, prato cheio para os contragolpes fatais do francês que é mais ágil também. Gané é bem mais rápido e preciso, deve mostrar seu excelente kickboxing e conquistar um nocaute no primeiro assalto e chamar a atenção dos fãs.

Peso Palha: #8 Tecia Torres (EUA) vs. Marina Rodriguez (BRA)

Por Bruno Costa

Em sequência inédita de três derrotas consecutivas na carreira, Tecia Torres (10-4 no MMA, 6-4 no UFC) busca voltar ao caminho das vitórias e recuperar o status de uma das melhores lutadoras da divisão do peso palha. Em que pese o mau momento que tem enfrentado, até seu último combate as únicas derrotas da “Tiny Tornado” haviam ocorrido contra as últimas campeãs da categoria. Já o último revés, contra Weili Zhang, acabou por transformar a chinesa na próxima desafiante ao título de Jessica Andrade.

Uma trocadora competente, com bons chutes advindos do taekwondo e golpes retos muito rápidos formavam a base de Tecia no início da carreira. Após sofrer com problemas no wrestling defensivo, trabalhou muito a movimentação lateral e a luta agarrada, inclusive incorporando ao seu estilo bom jogo de quedas utilizando do timing e atleticismo sempre presentes. Na derrota contra Jessica Andrade, chegou a demonstrar evolução no boxe, com muita precisão aliada à agilidade que incomodava às oponentes. Contudo, na sequência de derrotas atual parece ter demonstrado que bateu no teto do nível de competição que pode bater. Teve problemas em lidar com a força e resistência de Jessica e Zhang, além de não conseguir transpor a barreira imposta pelos jabs de Joanna.

Oriunda do Contender Series, a brasileira Marina Rodriguez (11-0-1 no MMA, 1-0-1 no UFC) recebe um duro teste para alavancar rapidamente sua carreira rumo ao top 10 da categoria. Após estrear contra Randa Markos sofrendo muito no wrestling em luta equilibrada, Marina foi agraciada com a tarefa de enfrentar um nome bastante reconhecido, mas em péssimo momento, contra a veteraníssima Jessica Aguilar, quando conseguiu demonstrar pouco mais do arsenal ofensivo.

Muita alta para a divisão de peso, Rodriguez tenta manter seus combates na longa distância, com jabs alongados e bons chutes baixos. Porém, é no clinch e na curta distância que causa os maiores danos às adversárias, com cotoveladas de alto poder de violência. Wrestling ofensivo praticamente não é utilizado, e a defesa de quedas ainda necessita melhoras para encarar competição de alto nível. Jogando por baixo, tem guarda ativa e tenta utilizar dos cotovelos afiados, mas não o suficiente para vencer rounds na posição.

Marina Rodriguez vs Tecia Torres odds - BestFightOdds
 

Para o duelo de sábado, Tecia precisa invadir o raio de ação de Marina com rapidez e variar as ações da luta em pé com quedas pontuais que permitam utilizar do bom controle posicional. Nas ocasiões em que não teve sucesso em variar o jogo, Torres pareceu menos à vontade no octógono e acabou derrotada. Para Marina, necessário manter a luta na longa distância, visto que talvez mesmo no clinch, onde sabe atuar com competência, a adversária pode levar vantagem para mudanças de nível.

A aposta é que a experiência e maior capacidade de variação técnica de Tecia façam a diferença, fazendo com que interrompa a série de derrotas para sair vitoriosa numa decisão menos empolgante do que os fãs gostariam de assistir.