Por Edição MMA Brasil | 21/06/2019 02:41

Após duas semanas de hiato, a maior organização de MMA do mundo está de volta. Desembarcando em Greenville, na Carolina do Norte, Estados Unidos, o UFC realiza mais um evento no formato de Fight Night com o UFC Greenville. Mesmo que o card seja consideravelmente abaixo do estelar UFC 238, o evento ainda promete entregar algumas lutas divertidas – especialmente a principal.

Renato Moicano chegou muito perto de garantir uma disputa de cinturão na divisão dos penas, mas acabou esbarrando na experiência e senso de oportunismo de José Aldo. Agora, o brasileiro tenta voltar aos trilhos contra o ex-desafiante Chan Sung Jung, o popular “Zumbi Coreano”. Outro destaque da noite é o retorno de John Lineker, que encara Rob Font em uma revanche promissora.

Além disso, Randy Brown enfrenta Bryan Barberena, pela divisão dos meios-médios. Andrea Lee retorna ao UFC para encarar Montana De La Rosa. Depois de cinco anos, Matt Wiman está de volta ao MMA para enfrentar Luis Peña, nos leves.

O UFC Greenville terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O card preliminar está marcado para começar às 17:00h, enquanto o principal deve ir ao ar a partir das 20:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Peso Pena: #5 Renato Moicano (BRA) vs. #12 Chan Sung Jung (COR)

Por Alexandre Matos

O tempo perdido com contusões foi compensado por uma ascensão meteórica nos rankings do UFC para Moicano (13-2-1 no MMA, 5-2 no UFC). Em sua terceira luta no octógono, ele já estava encarando o ranqueado Jeremy Stephens. A vitória o catapultou para um encontro com Brian Ortega. O brasiliense vencia o combate quando foi vítima de mais uma das incríveis viradas do americano. Renato deu um passo atrás, bateu Calvin Kattar e Cub Swanson para se meter numa provável eliminatória contra José Aldo. Mais uma vez ele começou bem, mas sucumbiu a uma investida agressiva do ex-campeão, que o nocauteou no segundo assalto.

Moldado com uma rara carreira praticamente contra oposição de valor no Brasil, Moicano aos poucos foi construindo um sólido jogo multifacetado. A origem foi na área do striking, com o muay thai como ferramenta principal. Com o passar do tempo, aprimorou-se no jiu-jítsu, carro-chefe de sua academia em Brasília, a Constrictor Team. Muito bom no controle de distância, eficiente na longa, Renato mostra calma para executar suas estratégias, que agora são definidas pela American Top Team, uma das principais equipes do mundo. No chão, tem como principal característica o oportunismo, mas ainda precisa aprimorar as quedas. Seu sistema defensivo também é muito forte, apesar dos erros, um no striking e um no grappling, que custaram suas derrotas.

Somando as obrigações militares com contusões, os fãs ficaram quase quatro anos sem ver o Zumbi Coreano () em ação. A volta foi espetacular, para o bem e para o mal. Contra Dennis Bermudez, Jung mostrou certa lentidão e ferrugem, mas pegou o americano com um cruzado e conseguiu um nocaute sensacional. Em seguida, foi escalado contra o showman mexicano Yair Rodríguez. O Zumbi dominava o combate e estava literalmente a um segundo de garantir a vitória quando foi alvejado por uma cotovelada de baixo para cima, daquelas que as imagens valem mil palavras.

O Zumbi é um favorito dos fãs desde seu primeiro contato com o MMA ocidental, um quebra-pau antológico com Leonard Garcia, no WEC. O sujeito era um trocador amalucado, baseado numa mistura de hapkido e kickboxing, com queixo de titânio e coragem acima do recomendável, que adorava trocar pau como se não houvesse amanhã. Pouco a pouco, foi se tornando um lutador mais cerebral, com movimentos calculados, mas sempre sabendo a hora de dar o bote. Apesar da farra de Aldo, que o derrubou à vontade no Rio, a defesa de quedas do sul-coreano é confiável, bem como o grappling defensivo, ajudado por uma atividade acelerada no berimbolo.

Chan Sung Jung vs Renato Moicano odds - BestFightOdds
 

Aqui temos uma interessante disputa de interesses táticos – ou pelo menos deveria ser. Por um lado, o Zumbi deve atrair Moicano para a pancadaria dentro do raio de ação, tentando fazer o brasileiro errar. Por outro, Renato precisa ditar o ritmo das atividades e controlar a distância, mantendo o adversário na extremidade de seus jabs e chutes nas pernas, para quebrar o equilíbrio de Jung. Volume de golpes e movimentação lateral constante devem ser prioridade para o brasileiro – e ele é plenamente capaz de executar estas ações.

Jung terá 25 minutos para encontrar uma janela de oportunidade e passar a régua no combate – para um lutador oportunista como ele, é uma eternidade. Por este motivo, o brasileiro deve ficar atento às explosões de agressividade, como aquela que Aldo o nocauteou. Moicano precisa apostar na maratona e não se testar no chão com o traiçoeiro asiático, para evitar levar um bote. A aposta recai em vitória por decisão de Moicano.

Peso Galo: #10 John Lineker (BRA) vs. #12 Rob Font (EUA)

Por Diego Tintin

John Lineker (31-9 no MMA, 12-4 no UFC) luta em uma divisão fisicamente difícil para ele, por conta da dificuldade em alcançar o peso mosca, que sempre lhe pareceu mais adequado. Ainda assim, no peso galo veio a consolidação deste jovem veterano, após um caminhão de lutas no MMA nacional. Depois de quatro vitórias, duas delas bonificadas, Lineker foi alçado a uma indigesta eliminatória contra o ex-campeão TJ Dillashaw. Derrotado, começou a refazer o caminho com a costumeira competência, despachando os limitados, porém valorosos, Marlon Vera e Brian Kelleher. Ao se aproximar novamente da casta dominante do peso, foi mais uma vez barrado em um duelo contra o também muito talentoso Cody Sandhagen.

O jogo de Lineker sempre foi baseado no boxe, especialmente na curta distância. É um especialista em variar ataques à cabeça e linha de cintura com a mesma facilidade, combinando velocidade com potência. Foi importante a evolução que traçou na defesa de quedas, hoje mais sólida, o que lhe permite mais conforto no momento de soltar o jogo em pé. Os oponentes, com exceção dos mais capacitados como Dillashaw, costumam cair na armadilha que o “Mãos de Pedra” constrói, levando os combates para uma trocação alucinante. Na profundidade dessas águas turbulentas, é difícil lidar com os punhos do baixinho da American Top Team. Uma preocupação é que seu corpo parece apresentar os primeiros sinais de uma carreira predatória, com muitas lutas em intervalos curtos, notoriamente em sua fase nacional.

Rob Font (16-4 no MMA, 6-3 no UFC) é um atleta que mostra a profundidade da divisão dos galos. Lutador de qualidade, sólido e de jogo vistoso, ainda não apareceu próximo da elite da categoria. Depois de começar com um empolgante 4-1 na organização, pegou uma sequência de quatro lutas encardidas e venceu apenas metade destes combates (contra Thomas Almeida e Sergio Pettis). As derrotas para os brasileiros Raphael Assunção e Pedro Munhoz evitaram o tal ingresso na primeira prateleira de lutadores do peso.

Boxeador competente, Font sabe tirar proveito de sua envergadura, tem velocidade e potência nos punhos. Além disso, é oportunista em pé, no ground and pound e na luta agarrada. O wrestling é razoável, tem virtudes ofensivas e defensivas, mas funciona plenamente só contra a turma menos provida de talento. A defesa é mediana e costuma reagir mal sob pressão, o que é sempre um pesadelo contra um cara como Lineker. O condicionamento é muito bom e, paulatinamente, vem apresentando melhorias na luta de solo.

John Lineker vs Rob Font odds - BestFightOdds

Os dois lutadores se enfrentaram no UFC 198, há três anos. Na ocasião, Font caiu nas teias da pancadaria desenfreada armada por Lineker. Em grande duelo, o brasileiro teve autoridade na vitória, enquanto o americano exibiu muita resiliência. Font certamente vai tentar evitar o mesmo percurso, para não cair no mesmo desfecho. Ele pode tentar o caminho traçado por Sandhagen, que venceu Lineker há dois meses em um duelo mais cadenciado, esfriando o ímpeto do paranaense. Contudo, ainda assim é arriscado, uma vez que a vitória foi apertada e John teve seus bons momentos, até mesmo deixando a decisão duvidosa. Considerando que Font é talentoso e deve oferecer uma grande luta, a aposta é em nova vitória de Lineker por decisão, após três bons rounds.

Peso Meio-Médio: Bryan Barberena (EUA) vs. Randy Brown (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Após estrear em 2014, Bryan Barberena (14-6 no MMA; 5-4 no UFC) ficou conhecido como destruidor de prospectos. Depois de uma vitória e uma derrota, foi pareado contra o super promissor Sage Northcutt, claramente em uma luta casada para alimentar o cartel de Sage. Barberena acabou vencendo por finalização no segundo round, acabando com a invencibilidade do “Ken humano”. Na luta seguinte, veio à Curitiba, onde manchou mais um cartel, que até então era perfeito, ao superar Warlley Alves na decisão unânime.

Tirando o primeiro revés para Chad Laprise, todas as derrotas do americano descendente de colombianos no UFC foram para grandes lutadores: Colby Covington, Leon Edwards e Vicente Luque. O último foi o primeiro a parar Barberena, nocauteando-o em uma virada espetacular em sua última luta.

Bryan é um daqueles lutadores decentes em tudo, mas sem destaque em nenhuma área do jogo. Conhecido principalmente pela resiliência, ele mostrou contra Luque que tem gás e resistência para dar trabalho para a maior parte da categoria, inclusive para lutadores muito melhores tecnicamente do que ele. Sua trocação, assim como todo seu jogo, é extremamente básica, baseada em combinações curtas de jabs, diretos, e alguns cruzados. Barberena tem seus melhores momentos quando encurta a distância, principalmente quando chega ao clinch, onde dominou Warlley Alves e nocauteou Joe Proctor. O grappling é baseado mais na vontade do que na técnica, mas ele apresenta um bom trabalho de ground and pound e algumas finalizações, à exemplo do estrangulamento que vitimou Northcutt.

Ex-campeão do Ring of Combat onde venceu todas suas lutas por interrupção, Randy “Rude Boy” Brown (10-3 no MMA, 4-3 no UFC) chegou ao UFC após impressionar Dana White com um nocaute no programa “Looking For a Fight”, estreando em 2016 com vitória sobre Matt Dwyer, na primeira vez em que chegou à uma decisão. Após ser estrangulado por Michael Graves, finalizou Erick Montaño e nocauteou Brian Camozzi, até que foi parado pelo bom Belal Muhammad. Depois de uma vitória dominante sobre o badalado Mickey Gall, foi vítima de um dos nocautes mais sensacionais dos últimos tempos, quando Niko Price o acertou com marteladas de baixo para cima enquanto fazia guarda aberta, em sua última apresentação.

Gigantesco para a categoria, Brown usa a envergadura de quase 2 metros para lançar alguns bons jabs e chutes frontais enquanto circula os oponentes. Os membros compridos também servem para acertar joelhadas no clinch ou catar pescoços alheios em guilhotinas. Contra Gall, mostrou alguma habilidade nas quedas e no jogo por cima. Apesar disso, Randy deixa muitas brechas para finalizações e raspagens, e a defesa de quedas é quase inútil contra wrestlers de algum nível técnico. A defesa em pé é extremamente esburacada – praticamente inexistente, apesar da enorme envergadura, e ele acaba engolindo muitos golpes sempre que os oponentes invadem sua distância.

Bryan Barberena vs Randy Brown odds - BestFightOdds

Em um duelo entre dois lutadores afeitos à trocação e sem grandes habilidades no âmbito defensivo, a expectativa é que veremos uma luta com muitos golpes acertados por ambos, alternando momentos de domínio. Com mais consciência tática, Barberena deve conseguir encurtar a distância e levar a melhor na troca de golpes no pocket, com sua estratégia de aceitar os golpes do oponente para acertar os seus. Com alguns bons momentos no clinch e possíveis quedas efetuadas por ambos, Bryan Barberena deve levar pelo menos dois rounds, sagrando-se vencedor por decisão.

Peso Mosca: #10 Andrea Lee (EUA) vs. #11 Montana de la Rosa (EUA)

Por Bruno Costa

Andrea Lee (10-2 no MMA, 2-0 no UFC) busca sua terceira vitória consecutiva para se aproximar do topo do peso mosca. É uma kickboxer experiente e de bom nível, que tem uma boa defesa enquanto o combate se mantém na troca de golpes em pé, e quando atingida, demonstra ter queixo suficiente para seguir em frente no combate mesmo diante de dificuldades.

A troca de golpes na longa distância parece o cenário ideal para “KGB” na luta em pé, ao utilizar jabs e chutes frontais constantes. Tem no trabalho de clinch sua principal arma, e evolui constantemente no ritmo imposto à base da força física e excelente resistência. Trabalhando ofensivamente no solo, Lee consegue explorar bem as posições de vantagem com ground and pound constante, e já acumulou quatro vitórias por finalização na carreira profissional. Contudo, a defesa de quedas é vazada e ainda apresenta muitas dificuldades em trabalhar para sair das posições de desvantagem quando de costas para o chão.

Hoje, Montana De La Rosa (10-4 no MMA, 3-0 no UFC) é junto à campeã Valentina Shevchenko quem tem a melhor sequência de vitórias na categoria dentro do UFC. Em bom momento de evolução na carreira, De La Rosa teve o desenvolvimento prejudicado ainda no início da carreira enfrentado as talentosas Mackenzie Dern e Cynthia Calvillo em sequência, saindo derrotada em ambas ocasiões.

Montana é uma grappler de boa altura para a divisão e que possui ótimos instintos de finalização. Ela trabalha na luta em pé essencialmente com golpes retos, servindo os jabs e diretos para marcar a distância das adversárias e manter volume de ações no combate, mas deixando a desejar no jogo de pernas, agilidade e potência. A postura de luta com o queixo alto possibilita muitos contragolpes das adversárias, o que pode render problemas no combate do sábado.

Andrea Lee vs Montana De La Rosa odds - BestFightOddsAndrea Lee é favorita para o duelo, uma vez que além de ser mais capaz na luta em pé, tem melhores chances de levar o duelo ao solo com Montana de costas para o chão. Atleticismo e resistência estarão inteiramente ao lado da KGB, que deve levar vantagem na troca de golpes e no wrestling. Contudo, deve ter atenção aos botes da adversária visando finalizações mesmo da guarda, já que De La Rosa provavelmente seja tecnicamente melhor lutadora no solo. A tendência é que tenhamos três agitados rounds com Lee saindo vencedora em decisão dos juízes laterais.

Peso Leve: Matt Wiman (EUA) vs. Luis Peña (EUA)

Por Diego Tintin

Muita gente nem lembrava mais da existência de Matt Wiman (16-7 no MMA, 10-5 no UFC), muito menos esperava que o veterano voltaria para dar continuidade à sua carreira na organização. Sem lutar desde novembro de 2014, o participante da quinta edição do TUF sofreu com lesões nas costas e problemas pessoais diversos que o fizeram desencanar do MMA por algum tempo. Antes deste grande intervalo, era um dos bons valores da sempre bem frequentada divisão dos leves. Chegou a aspirar por um lugar na primeira prateleira da categoria, mas foi barrado primeiro por Dennis Siver e depois por TJ Grant.

Matthew é um típico wrestler pegajoso e voluntarioso. Mas, ao contrário do que um senso comum pode levar a pensar, o “Bonito” costumava entregar combates com alto grau de diversão. Prova disso é que já conquistou cinco bônus de luta ou desempenho da noite. A trocação é mediana, com boa postura defensiva, porém básica e pouco refinada ofensivamente. O condicionamento é um mistério depois de tanto tempo parado, mas era muito bom quando no auge da forma.

Luis Peña (6-1 no MMA, 2-1 no UFC) apareceu também em um TUF, só que 22 edições após seu oponente. Ele venceu a sua luta na primeira rodada e enfrentaria Mike Trizano em uma das semifinais. Entretanto, não pode lutar devido a um pé quebrado e teve que deixar o programa. Recuperado, venceu o colega de time Cormier, Richie Smullen, no dia em que Trizano conquistou o troféu do reality show. Peña teve a chance de lutar contra Trizano pouco depois, mas acabou derrotado em uma decisão muito apertada. A recuperação veio no triunfo sobre Steven Peterson, com a devida mancha de não ter alcançado o peso pena na véspera do combate.

O “Bob Ross Violento” (apelido por ser idêntico ao pintor e apresentador de TV famoso nos EUA na década de 80) é um ótimo prospecto ofensivo. O sujeito sabe avançar com um furacão de socos, cotoveladas, caneladas, joelhadas e toda sorte de pancadas que seja permitida no jogo. O problema é seu sistema defensivo, ainda muito frágil para encarar uma selva como a metade superior do peso leve. Destaque para o tamanho do cara, que mede 1,91m de altura e 1,93 de alcance, algo meio assustador para esta divisão.

Luis Pena vs Matt Wiman odds - BestFightOdds

Peña é um desafio pela postura agressiva e talento ofensivo natural. Se Wiman apresentar boa forma física e velocidade, ele tem qualidade e experiência suficientes para aproveitar as brechas flagrantes na defesa de Luis. A questão aqui é que as chances de seu desempenho ser atrapalhado pela chamada “ferrugem de octógono” são significativas, pois cinco anos sem lutar não são cinco meses. A aposta é em um nocaute técnico para o jovem Peña.