Por Edição MMA Brasil | 23/11/2018 10:07

Explorando novos territórios ao redor do planeta, o UFC desembarca em Pequim para realizar o UFC Fight Night 141, cruzando o mundo após realizar sua estreia na Argentina. Agora, chegou a vez da Cadillac Arena de receber o segundo evento do UFC na história do território chinês.

Com um card nada atrativo do ponto comercial e técnico, o evento será encabeçado pelo duelo entre os pesos pesados Curtis Blaydes Francis Ngannou, que podem definir o próximo desafiante ao cinturão da categoria. Além disso, Alistair Overeem receberá o estreante invicto Sergey Pavlovich, também pela categoria dos pesados.

Mas nem só de pesos pesados vive o UFC Pequim. Yadong Song contará com o apoio da torcida chinesa contra Vince Morales pela categoria dos galos, enquanto o principal representante chinês no UFC, Jingliang Li, encara David Zawada pela categoria dos meios-médios.

O UFC Fight Night 141 será transmitido ao vivo e na íntegra no canal Combate. Quebrando a faixa de horário padronizada no Brasil, o evento começa às 06:15h da manhã no card preminar, com os destaques principais com início estimado para 09:30h.

Peso Pesado: #3 Curtis Blaydes (EUA) vs. #4 Francis Ngannou (CAM)

Por Alexandre Matos

Em três anos no octógono, Ngannou (11-3 no MMA, 6-2 no UFC) foi do céu ao inferno. Ele enfileirou corpos, inclusive seu rival deste sábado, com um punhado de nocautes brutais e uma kimura que quase destroçou os ligamentos de Anthony Hamilton. Nada comparado ao nocaute que quase destacou a cabeça do pescoço de Alistair Overeem, no entanto. Alçado a nova sensação da divisão, o camaronês não viu a cor da bola na disputa do cinturão contra Stipe Miocic e protagonizou a luta mais tenebrosa que tive o desprazer de ver ao vivo contra Derrick Lewis.

O que levou Ngannou ao topo foi a mesma coisa que o derrubou de lá. Ele é um lutador muito forte, com um poder de destruição absurdamente elevado, que fez o boxe passar do nível rudimentar para o decente. Numa categoria pobre tecnicamente, foi o suficiente para deitar vários. Porém, quando foi preciso mostrar mais versatilidade, o francês naturalizado não teve respostas para o wrestling de Miocic, tampouco foi capaz de quebrar o ritmo (ou a falta dele) contra Lewis. É preciso melhorar basicamente em todos os aspectos para que Francis possa ocupar o lugar que muitos imaginaram – e provar que não estavam errados.

Desde a derrota no confronto anterior, Blaydes (10-1 no MMA, 5-1 no UFC) desfez a impressão ruim da estreia e se estabeleceu como um dos principais prospectos na categoria de mais dificuldade de renovação. Com desempenhos dominantes, ele venceu os seis compromissos seguintes – embora um tenha ficado sem resultado devido ao antidoping por maconha -, chegando ao top 10 após bater Mark Hunt e encher Overeem de cotoveladas.

Campeão da NJCAA pela Harper University, Blaydes fez o que Ngannou não conseguiu. Depois da estreia desastrada, o americano revisou o jogo e adotou o par boxe-wrestling clássico da escola de seu país. Para tanto, ele exibe condicionamento cardiorrespiratório acima da média da categoria e uma capacidade bem grande de manter os oponentes no chão sob severo ground and pound. Mais do que isso, entendeu que é preciso adotar estratégias inteligentes para não se expor numa divisão em que um golpe põe fim a uma disputa a qualquer momento. Esta inteligência tática será a principal chave para o duelo de sábado.

Curtis Blaydes vs Francis Ngannou odds - BestFightOdds

Miocic apresentou um caminho tão aberto para vencer Ngannou que chega a ser covardia imaginar como alguém pode vencer o camaronês. Evitar a troca de golpes na média para a curta distância e entrar rapidamente nas pernas para derrubar e colocar o gigante de costas para o chão é o passaporte para a alegria.

Blaydes tem todas as ferramentas necessárias. Ele tem mobilidade o suficiente para abrir ângulos para entradas em diagonal, evitando os golpes de encontro. Tem capacidade no striking de deixar Ngannou ocupado enquanto prepara uma queda. E o wrestling ofensivo é muito melhor que as parcas capacidades de o africano defender quedas.

Caso não cometa um erro estratégico que exponha seu queixo às bigornas de Ngannou, a expectativa é que Blaydes leve o combate por decisão ou nocaute técnico no chão.

Peso Pesado: #6 Alistair Overeem (HOL) vs. Sergey Pavlovich (RUS)

Por Idonaldo Filho

É inegável que Alistair Overeem (43-17 no MMA, 9-6 no UFC) é um dos melhores strikers que a categoria já viu no MMA. O holandês é dono de uma vitoriosa carreira nos esportes de combate, e ela pode estar chegando a um fim em breve, após muitos anos dedicados ao esporte. Ele não é mais o lutador magricela do Pride, nem mais o apreciador de carne equina que saiu com o título do Strikeforce para o UFC. Overeem envelheceu,  e diminuiu sua massa muscular um pouco, mas continua extremamente perigoso. Atualmente em má fase, o “Homem Demolição” saiu demolido dos últimos combates que fez contra lutadores mais novos, sendo morto por Francis Ngannou, e enterrado por Curtis Blaydes.

Tecnicamente se trata de um trocador fatal, com um dos clinchs mais temidos no mundo da luta. As joelhadas de Overeem são famosas, e ele inclusive vitimou Mark Hunt em 2017 com uma dessas, nunca é uma boa ideia deixar o holandês se aproximar de você, e levar para o clinch. Em pé, ele também tem muita potência nos socos, e leg kicks que incomodam muito, mas após inúmeros nocautes sofridos, ele vem adotando uma abordagem mais apreensiva, com golpes mais singulares e menos ousados, utilizando da boa envergadura e preferindo a longa distância, além das criticadas corridinhas quando o adversário tenta entrar na curta distância, mas que são úteis para seu jogo. Entretanto um de seus problemas não é possível corrigir com treino, que é a absorção de golpes. É nítido que Overeem sabe que é um lutador de queixo frágil, e tenta adaptar o seu jogo para evitar ser pego pelo adversário, mas não é preciso de muito para deixar o holandês grogue, e uma vez bambo, ele não oferece a mínima resistência para ninguém.

Como assim o UFC vai colocar um estreante qualquer para enfrentar logo Alistair Overeem? Acontece que Sergey Pavlovich (12-0 no MMA, 0-0 no UFC) não é um qualquer, e aos 26 anos ele é simplesmente um dos melhores prospectos que a categoria dos pesos pesados tem no mundo, e que buscará se tornar realidade em um duro confronto, mostrando que o UFC está com pressa de renovar a categoria. Pavlovich foi campeão, e era uma das grandes estrelas do evento russo Fight Nights Global, enfrentando oponentes de bom nível no cenário regional russo, como o também ótimo Mikhail Mokhnatkin, o veterano Alexei Kudin entre outros lutadores decentes.

Um cavalo de tão forte, a base de Pavlovich é na luta greco-romana, e embora prefira se manter em pé em seus combates, já mostrou que é extremamente habilidoso nesse fundamento, geralmente derrubando o adversário para mesclar um pouco o jogo, além de ter um sprawl que pode mudar o decorrer de um combate, defendendo quedas, e caindo por cima golpeando. A sua preferência é pela trocação, Pavlovich é um bom contragolpeador, mas geralmente é o agressor nos combates, possuindo mãos rápidas para um peso pesado, assegurando sequências perigosas, como a que destruiu Kiril Sidelnikov no Fight Nights. No clinch, ele foca no uso das joelhadas no corpo, e sempre sai da posição golpeando o adversário para o pegar de surpresa. Algo que pode ser corrigido em seu jogo é a forma de golpear, embora seja rápido e tenha potência, boa parte de seus golpes são abertos, e isso é perigoso contra um dos melhores strikers que o peso pesado já presenciou.

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Eu acho errado casar Sergey Pavlovich com Overeem logo de cara, é muito arriscado jogar um lutador que pode ser um importante membro da categoria no futuro logo de cara contra um top 10, mesmo tendo as credenciais e o hype que Pavlovich tem. Overeem não é bobo, tem um ótimo senso de tática, muita experiência, e um lutador completo, que muito bem pode frustrar a estreia do russo.

Acontece que não é todo dia que aparece lutadores do nível de Pavlovich, ele aparenta ter tudo que um lutador precisa para ser bem sucedido na envelhecida categoria dos pesos pesados, e o palpite será talvez um pouco ousado, tendo em vista que Pavlovich também é um lutador inteligente, e que sabe segurar o combate quando lhe convém, já fazendo isso algumas vezes na Rússia. Acredito que após um pouco de estudo, o russo vai explodir perto da grade, e conseguir nocautear Overeem, no primeiro assalto, cravando seu nome na categoria.

Peso Galo: Yadong Song (CHN) vs. Vince Morales (EUA)

Por Bruno Costa

Yadong Song (13-4 no MMA, 2-0 no UFC) é um dos mais jovens lutadores do plantel do UFC, com apenas 20 anos de idade – competindo profissionalmente desde os 15 – e busca sua terceira vitória consecutiva no octógono. Dono de um atleticismo impressionante, o chinês claramente ainda carece de refinamento técnico, mas dá sinais de que, mesmo em fase de desenvolvimento, é páreo duro para diversos habitantes do peso galo.

Muito ágil, explosivo e cheio de gás, Song tem capacidade para exercer constante pressão sobre seus adversários. Em seus últimos desafios, se demonstrou capaz de controlar a distância com competência se utilizando de bons jabs para pontuar na luta e abrir espaço para potentes diretos. A contínua movimentação não permite que seja um alvo fácil para as ações ofensivas rivais; a defesa de quedas melhorou muito desde que Song passou a ter seus camps na Team Alpha Male, onde encontra muitos lutadores de sua faixa de peso que podem contribuir na melhoria desse quesito.

Além de defensivamnte demonstrar avanços, Song passou a inclusive conseguir contraquedas que levam a um ground and pound que surpreendeu pela violência e efetividade contra um veterano do nível de Felipe Sertanejo em seu último combate. O jiu-jitsu ofensivo demonstrou ainda necessitar de polimento, uma vez que perde posições com constância ao tentar avançar posições.

Vince Morales (8-2 no MMA, 0-0 no UFC) estreia no UFC com pouco tempo de preparação substituindo com uma dura tarefa em mãos. Após um agitado embate no Contender Series, quando quase nocauteou seu oponente mas acabou saindo derrotado, Moreales fez uma luta no Bellator e saiu vitorioso.

Com um jogo um tanto quanto básico e ainda assim perigoso, o americano se caracteriza como um potente contragolpeador e não muito mais do que isso. Quando obrigado a conduzir as ações, Morales não se sente à vontade por ter repertório limitado e utilizar pouco de fintas. O grappling ofensivo normalmente não é alternativa, embora contra oponentes de muito baixo nível tenha arrancado duas finaizações.
Quando o nível de competitividade subiu, Morales apresentou uma defesa de quedas muito falha e pouca capacidade de recomposição da guarda, mesmo em ocasiões em que previamente havia castigado seus oponentes. Ainda, conta em demasia com o queixo nas ações defensivas, visto que mesmo contra rivais com menos capacidade técnica foi golpeado com contundência.

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O combate de sábado deve ser disputado em ritmo acelerado e contar com bons momentos de chinela cantando. Song precisa manter sua abordagem inteligente e manter a distância com competência, entrando no raio de ação de Morales para golpear com potência e saindo com velocidade para não acabar entregue à principal arma do seu advesáro, que é a troca de golpes na curta distância.

A aposta aqui é que o chinês consiga pressionar com competência seu adversário, dominando a luta na troca de golpes até que aplique um knockdown na metade inicial do combate, e após um contundente trabalho no ground and pound obrigue a interrupção do árbitro, fazendo aumentar sua sequência de vitórias na organização.

Peso Meio-Médio: Li Jingliang (CHN) vs. David Zawada (ALE)

Por Thiago Kühl

Li Jingliang (15-5 no MMA, 7-3 no UFC) tem tido mais  bons do que maus momentos no maior evento do mundo. Vem de um belíssimo nocaute na última vez que lutou na Ásia, além de ter um retrospecto de cinco vitórias em suas últimas seis lutas. Mesmo depois de ver interrompida sua série de 4-0 em um combate contra o talentoso Jake Matthews, se recuperou na última luta ao conseguir vitória dominante contra o japonês Daichi Abe.

O chinês mais bem-sucedido da história do maior evento do mundo tem suas limitações, é verdade, mas tem se tornado um lutador que, graças à força bruta que possui, aliado a um melhor jogo de grappling do que no passado, tem se mantido relevante dentro da categoria de até 170 libras. Li, ainda guarda um potente striking, proveniente do Sanda e do Kickboxing e parece cada vez mais adepto dos nocautes.

David Zawada (16-4 no MMA, 0-1 no UFC), foi novamente chamado para salvar uma luta no UFC, após aceitar uma luta com poucos dias de antecedência na última aparição do octógono na Alemanha, volta mais uma vez, porém com cerca de um mês para se preparar. Em sua primeira luta pela organização entregou um ótimo combate contra Danny Roberts, que inclusive foi bonificado como melhor daquela noite.

Com uma carreira sólida no MMA Europeu, inclusive com boas apresentações no KSW, o “Sagat” tem um jogo muito interessante e agressivo. Bom no grappling com uma guarda bem ativa que deu trabalho para Roberts em sua última luta e com striking potente o suficiente para derrubar desavisados, David coleciona nocautes e finalizações. Porém, tal agressividade cobra seu preço, fazendo o alemão perder posições e se expor demais no striking.

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Dentro de um cenário de dois lutadores agressivos e com nível decente no grappling, não espero menos que um combate bem movimentado, cheio de momentos de pancadaria, quedas despropositadas, tentativas de finalização da guarda, dentre outras grosserias mais. No fim, considerando que quase qualquer resultado é possível – exceto talvez por uma finalização do chinês – na base da moedinha vamos de Zawada por finalização.

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