Por Edição MMA Brasil | 14/09/2018 09:00

De fato, a estreia do UFC na Rússia poderia e deveria ser melhor, com um card com maiores estrelas e melhores lutas. Todavia, o UFC Fight Night 136 ainda possui certos valores e não pode ser ignorado.

O evento, que será realizado em Moscou e marca a primeira vez que a organização promove um evento no país, possui um significado importante. Afinal, o UFC está expandindo sua marca ao redor do mundo e a Rússia é um grande mercado a ser explorado, principalmente agora que Khabib Nurmagomedov é o detentor do cinturão dos leves.

card traz como luta principal destaque o retorno de Mark Hunt ao octógono, que enfrenta o prata da casa Alexey Oleinik, conhecido por aplicar o estrangulamento ezekiel com maestria. Enquanto Hunt vem de derrota para Curtis Blaydes, o russo derrotou Junior Albini por finalização.

Além disso, o card traz alguns lutadores bem interessantes que prometem boas lutas, como o campeão do M-1 GlobalAlexey Kunchenko, o veterano Mairbek Taisumov e o promissor Petr Yan.

O UFC Fight Night 136 será realizado neste sábado e terá início às 11:30h da manhã com transmissão exclusiva do Canal Combate, que deve transmitir o card principal à partir das 15:00h.

Peso Pesado: #8 Mark Hunt (NZL) vs. #11 Alexey Oleinik (RUS)

Por Idonaldo Filho

Tranquilamente um dos lutadores com mais poder nos punhos na história do MMA, Mark Hunt (13-12-1, 1NC no MMA, 8-6-1, 1 NC no UFC) ainda está na ativa no auge dos seus 44 anos. O “Super Samoano” continua com o poder destrutivo nas mãos, porém não com a mesma resistência, tão elogiada em seu auge. Entre lutas e brigas judiciais contra o UFC, Hunt vem de retrospecto irregular. Em sua última luta, sucumbiu para a nova geração ao ser derrotado pelo poderoso wrestling de Curtis Blaydes, e sua última vitória foi na luta anterior, quando Derrick Lewis nos mostrou seu pavoroso tanque de energia e praticamente desistiu no meio do combate.

Hunt sempre tem o mesmo objetivo em seus combates, já que o “rei do walkoff” busca acertar a mão na cara de seu oponente e sair andando como se aquilo fosse algo normal. E muito se enganam quem subestima o neozelandês pelo seu corpo mais grosso, típico do povo samoano, pois Hunt tem alta técnica no striking, conseguindo fazer boa carreira no kickboxing antes de adentrar no MMA. Ainda no Pride, onde começou sua carreira no MMA, o atleta acabou conseguindo vitórias sobre Wanderlei Silva e Mirko Cro Cop. Hunt pouco a pouco evoluiu no UFC, e saiu de um lutador unidimensional com dificuldades contra grapplers, para um lutador que sabe se movimentar e consegue se defender no chão contra lutadores razoáveis. Porém o tempo passa, e já com idade avançada para um esporte que exige tanto do corpo como o MMA, Hunt já demonstrou queda no desempenho físico, cansando mais e também começando a dar sinais de desgaste do seu queixo.

Fazendo sua sexagésima nona luta de MMA na carreira, um dos lutadores mais intrigantes a já pisar no UFC, o feiticeiro Alexey Oleinik (56-11-1 no MMA, 5-2 no UFC) nunca deve ter feito uma luta normal nos seus 41 anos de vida. Mestre da grosseria, o russo tem como objetivo principal distribuir pombos sem asa e finalizações absurdas, sendo capaz de encaixar estrangulamentos ezequiel na mesma frequência em que respira. Em sua última luta, pegou Junior Albini no ezequiel enquanto estava por baixo do brasileiro, o que para ele é aparentemente normal. Já na penúltima, foi derrotado por Blaydes após o médico interromper o combate, deixando margem para muitos comentários maldosos.

Oleinik tem uma envergadura boa de 2,03m, e seus braços longos ajudam no seu ganha pão, já que os seus estrangulamentos são extremamente poderosos e raros. Uma vez dentro de qualquer tipo de estrangulamento estranho que Alexey tem no seu arsenal, você está ferrado e dificilmente irá conseguir sair, isso se você percebeu que está sendo finalizado. Entretanto, o jogo em pé de Oleinik é muito ruim, o russo se defende muito mal e ofensivamente ele tem uma única arma que é um overhand extremamente engraçado e previsível, que já vitimou alguns adversários de nível intelectual duvidoso, como no sensacional nocaute contra Jared Rosholt e aplicando um belo knockdown em Travis Browne. Outros aspectos deficitários de Oleinik são o jogo de quedas que não é muito competente, e o preparo físico muito fraco, que foi praticamente o principal vilão de suas duas derrotas no UFC.

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Este é um duelo de estilos muito claro. Talvez aqui temos o striker e o grappler mais perigosos da categoria, mas que nas outras áreas do MMA, possuem muita dificuldade. Para Mark Hunt, o ideal é enquadrar o russo na grade e se mostrar o mais apático possível negando todos os abraços fatais que Oleinik buscar dar nele. Para o russo, resta que Hunt escorregue em uma poça de sangue e vá ao chão, e lá ele estará feito, pois dificilmente ele conseguirá derrubar o neozelandês, que tem um baixo ponto de gravidade.

O meu coração é todo russo nesse confronto, mas aqui devemos analisar o combate seriamente, e Hunt é anos luz superior no departamento do striking. Se tomar os cuidados básicos e tiver estudado os perigos de seu oponente, deve nocautear ainda na primeira etapa, adicionando mais um belo walkoff para os seus highlights.

Peso Meio-Pesado: #4 Jan Blachowicz (POL) vs. Nikita Krylov (UKR)

Por Bruno Costa

Jan Blachowicz (21-7 no MMA, 5-4 no UFC) tenta emendar sua quarta vitória seguida após um início muito instável no UFC. O polonês, ex-campeão do KSW, dava a impressão de que decepcionaria por completo em sua passagem pelo octógono, mas está a caminho de alterar essa impressão inicial.

Blachowicz é bom na troca de golpes em pé, e embora tenha ótimo poder de nocaute, tem optado por abordagens mais técnicas e conservadoras nos últimos combates, diminuindo ritmo das ações e trabalhando com excelência o jab buscando controlar a distância. Esse é um aspecto essencial a Jan, porque sua defesa de quedas é péssima, e quando se deixa ser pressionado, tende a apresentar problemas também com o fôlego.

Na boa fase pela qual vem passando, Blachowicz ainda não enfrentou adversários com capacidade de variar as ações ofensivas e colocá-lo numa posição de desconforto para testar se a evolução apresentada é o suficiente para sustentar uma posição de destaque no ranking, mesmo tendo chegado em idade avançada, ou uma eventualidade pontual pela troca de nomes de destaque da categoria.

Nikita Krylov (25-5 no MMA, 6-3 no UFC) está de volta ao UFC após assassinar a concorrência no leste europeu em seus quatro últimos combates. Os desgastados veteranos Fábio Maldonado e Emanuel Newton foram as últimas vítimas do jovem ucraniano, que faria muita falta à combalida divisão dos meio-pesados.

Krylov é um atleta muito agressivo, com ótimo poder de nocaute e oportunista para finalizar seus combates no solo. Em algumas ocasiões, parecia menos atento do que o necessário para um atleta que vive de trocar agressões físicas para sobreviver, o que pode ter evoluído com a experiência adquirida ao longo da carreira.

O grande dilema é que, em função do nível de competição abaixo do que vinha enfrentando, não há como saber se Krylov evoluiu no período em que esteve fora do UFC ou continua pecando pela superexposição por vezes apresentada decorrente da sua agressividade.

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A luta é de difícil prognóstico e tende a correr com equilíbrio nas ações. Krylov é o atleta com habilidades mais diversificadas e tem condições de, se utilizando da vantagem atlética, trabalhar os chutes na longa distância para evitar sofrer com os jabs de Jan e eventualmente explodir em busca de uma queda para trabalhar na área que leva mais vantagem em relação ao adversário. Caso não opte por tentar trabalhar o jogo de solo, a tendência é que o ucraniano encontre muitas dificuldades para vencer dois rounds contra um Blachowicz durável e experiente na troca de golpes em pé.

Peso Pesado: #12 Andrei Arlovski (BIE) vs. Shamil Abdurakhimov (RUS)

Por Bruno Costa

Andrei Arlovski (27-16 no MMA, 16-9 no UFC), um senhor que ostenta a bela marca de 10 nocautes sofridos e uma carreira de quase 20 anos no MMA, volta ao octógono três meses após seu último desafio, quando saiu derrotado contra o jovem em ascensão Tai Tuivasa.

Em que pese ainda passe muito longe do seu auge, quanto ostentava atleticismo muito incomum para a divisão dos pesados e bons fundamentos técnicos tanto na trocação quanto no grappling (o queixo sempre foi discutível), o Pitbull é um veterano que se mantém com boas habilidades na luta em pé, velocidade aceitável, e experiência para tentar se defender com mais eficiência.

Arlovski inclusive aparentou estado físico menos corroído em suas últimas três lutas, em termos de velocidade, resistência e encaixe dos golpes adversários. Têm partido cada vez menos para definição do combate pela via rápida, ciente de sua superioridade técnica e de experiência contra a maioria dos oponentes enfrentados, além da incomum capacidade, para um peso pesado, de aguentar em ritmo decente três rounds sem exaustão.

Shamil Abdurakhimov (18-4 no MMA, 3-2 no UFC) ingressou rapidamente no ranking da categoria após um par de vitórias em suas primeiras lutas no octógono. O russo é um wrestler que gosta de lutar em ritmo baixo, preferencialmente se utilizando de potentes contragolpes como forma de ter atenção do seu oponente, e a partir disso tentar surpreender utilizando seu jogo de quedas. Além de ser conservador no número de ações durante o combate, Shamil não costuma movimentar mais do que o necessário para atingir seu fim, que é colocar o adversário de costas para o chão e desgastá-lo a partir dali.

Defensivamente, se vira como pode ficando longe do raio de ação dos seus oponentes, e movimenta muito pouco a cabeça. O gás já o deixou na mão quando precisou, mesmo mantendo suas lutas em baixo ritmo, e o queixo não é exatamente o que se chama de uma fortaleza.

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O confronto de sábado seria de previsão muito mais fácil tempos atrás, no auge da carreira de Arlovski. Embora Abdurakhimov esteja mais saudável e tenha vantagem física pelo menor número de milhas na carreira, o Pitbull é melhor tecnicamente em mais áreas, e é capaz de evitar as tentativas de quedas e trabalho no clinch do adversário, para controlar as ações com bom trabalho de movimentação e jabs, evitando a todo o custo a curta distância, para levar uma decisão parelha e evitar uma nova sequência de derrotas iniciando na organização. Contudo, jamais duvidemos da possibilidade de um golpe repentino acabando por deitar o já combalido bielorrusso.

Peso Meio-Médio: Alexey Kunchenko (RUS) vs. Thiago Pitbull (BRA)

Por João Gabriel Gelli

Dentro da leva de lutadores que poderiam ser trazidos pelo UFC por meio do acordo com o M-1 Challenge, Alexey Kunchenko (18-0 no MMA) certamente era o que gerava mais expectativa. Um veterano no MMA, ele já tem carreira consolidada, com quatro defesas do cinturão dos meios-médios da organização russa e vitórias sobre nomes relevantes na região. Assim, chega ao UFC com o potencial para chegar ao top 15.

Um lutador de grande poder de nocaute, bem representado nas 13 vitórias pelo método, Kunchenko usa um muay thai de baixo volume e muito fechado como principal arma. Explosivo, consegue acertar os adversários com combinações potentes. Além disso, usa a força física de forma eficiente para travar oponentes no clinch. Quando está com dificuldades de pé, é capaz de utilizar o wrestling com técnica sólida e o atleticismo necessário para levar o combate ao solo. Quando está no chão, pesa o quadril e dificilmente trabalha em busca da definição do duelo, seja por meio do ground and pound ou de finalizações, optando por controlar a posição. Defensivamente, bloqueia bem quedas e levanta rápido quando é derrubado.

Ex-desafiante, Thiago Alves (22-12 no MMA, 14-9 no UFC) não vive a melhor fase de sua carreira. Após uma série de lesões, perdeu seu auge atlético e parece estar no caminho da aposentadoria. Isso é perceptível nos resultados mais recentes, com a desastrosa tentativa de descer para os leves, que terminou em peso não batido e derrota para Jim Miller, e o nocaute sofrido contra Curtis Millender. Sua única vitória nos últimos anos veio sobre um já decrépito Patrick Côté.

Há cerca de dez anos, Pitbull era um nocauteador implacável, dono de um muay thai agressivo e de muita potência. No entanto, conforme o tempo passou, perdeu a volúpia ofensiva e defensivamente deixa a desejar. Dessa forma, seu queixo está cada vez mais exposto e aguenta menos dano. Ele ainda mostra a capacidade de alternar planos de jogo com algumas quedas pontuais. No entanto, não faz isso com a consistência necessária e também pode ser derrubado sem grande resistência.

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Se esse duelo acontecesse há cinco anos, provavelmente teríamos uma guerra. Contudo, apesar dos dois terem a mesma idade, Kunchenko ainda está no auge e Alves se encontra na descendente. Caso o brasileiro ainda consiga extrair um desempenho de alto nível, o que é possível dado o seu arsenal técnico ofensivo, poderá surpreender. Entretanto, esse não é o cenário aguardado. O russo estreante deve dominar fisicamente e aproveitar alguma brecha para conseguir o nocaute na primeira metade do combate.

Peso Leve: Rustam Khabilov (RUS) vs. Kajan Johnson (CAN)

Por Matheus Costa

O combate entre Kajan Johnson e Rustam Khabilov é um confronto importante em um conflito de interesses. O canadense precisa vencer para provar que pode chegar em algum lugar na melhor divisão do UFC, então o russo, se vencer, irá provar que está pronto para lutar novamente com atletas do top 15 da categoria.

Dono de um ótimo condicionamento físico, Kajan Johnson é um lutador muito fluído. Ele se movimenta bastante, adora jogar no 1-2 do boxe e nunca fica cansado. No chão, Kajan é faixa-preta de jiu-jítsu e possui 11 finalizações em sua carreira, mas defensivamente não tem muita resistência, principalmente quando lhe colocam de costas para o chão. Entretanto, o atleta da Tristar Gym possui duas lacunas significantes em seu jogo. O primeiro é que ele confia demais em sua esquiva e acaba se expondo aos golpes adversários, já que seu boxe defensivo não é tão bom assim. Além disso, ele é o tipo de lutador que não sabe reagir muito bem quando é pressionado, e seu último confronto com Islam Makhachev evidenciou isso.

O russo Rustam Khabilov também é dono de boas habilidades no octógono. Na melhor fase de sua vida com cinco vitórias consecutivas, o “Tigre” é especialista de sambô e faz questão de evidenciar isso em todas as suas lutas, usando e abusando de seu ótimo jogo de quedas e controle posicional. Em pé, Khabilov é dono de uma mão pesada e gosta de adotar uma postura de contragolpes, mas geralmente não se expõe muito e apela à sua especialidade quando as coisas complicam para o seu lado.

O confronto entre Khabilov e Johnson pode se desenhar de algumas maneiras. Johnson pode ter aprendido o erro de sua luta com Makhachev e ter melhorado sua defesa de quedas, algo que será fundamental nessa luta com Rustam, já que precisará de muita movimentação lateral para escapar do imponente sambô do atleta. Em pé, o canadense leva vantagem, já que possui um arsenal mais dotado de golpes e sua movimentação pode ser um diferencial.

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Entretanto, é difícil não pensar que esse confronto não será muito parecido com o último combate de Johnson. Khabilov irá pressionar desde o início e conseguirá colocar Johnson no chão com tranquilidade, de onde o canadense deve ter dificuldades para sair. Aposto na vitória do russo por decisão unânime.

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