Por Edição MMA Brasil | 13/07/2020 22:58

Depois de um excelente card inaugurar o período do UFC na Ilha da Luta em julho, é a vez de um pouco usual evento em plena quarta-feira com o UFC Fight Island.

O evento será liderado pelo importante duelo entre os penas Calvin Kattar e Dan Ige, que pode deixar o vencedor próximo de uma eliminatória para disputar o título. No duelo coprincipal, os pesos moscas Tim Elliott e Ryan Benoit se digladiarão.

Uma das melhores lutas da noite foi montada de última hora e acontecerá no peso galo entre Jimmie Rivera e Cody Stamann. O brasileiro Ricardo Carcacinha tenta ampliar sua sequência de vitórias ao duelar com Lerone Murphy. Além disso, o prospecto sueco Khamzat Chimaev estreia no UFC contra John Phillips.

O UFC Fight Island será realizado nesta quarta-feira e terá início às 20h00 com o card preliminar, enquanto a porção principal tem o início previsto para 23h00, no horário de Brasília, com transmissão exclusiva do Canal Combate.

Peso pena: #6 Calvin Kattar (EUA) vs. #10 Dan Ige (EUA)

Por João Gabriel Gelli

Após chegar no UFC já com 20 lutas no currículo, Calvin Kattar (21-4 no MMA, 5-2 no UFC) mostrou seu valor ao superar Andre Fili e nocautear Shane Burgos em um excelente combate. Seu ímpeto logo foi freado por Renato Moicano, mas emendou duas vitórias em seguida sobre Chris Fishgold e Ricardo Lamas. No duelo seguinte, teve sua primeira luta principal, mas foi superado por Zabit Magomedsharipov. A recuperação veio com um bruto nocaute com uma cotovelada vândala sobre Jeremy Stephens.

Kattar tem no boxe sua principal ferramenta. Os jabs estão entre os melhores do MMA como arma para marcar a distância, lançada em todos os níveis e variedade. Ele já mostrou ótimo poder de definição e tem versatilidade para conduzir o ritmo ou atuar nos contragolpes. Seu wrestling ofensivo é razoável e pode ser uma arma ocasional e o defensivo costuma impor uma barreira considerável para os oponentes. O seu ponto fraco mais claro está na dificuldade para defender chutes nas pernas. Isto foi parte fundamental da derrota para Moicano e de alguns dos momentos de dificuldade que passou no UFC.

Do outro lado do octógono estará Dan Ige (14-2 no MMA, 6-1 no UFC), que teve passagens por Legacy FC, CFFC, Titan FC e RFA antes de receber uma chance no Contender Series em 2017. Nela, superou Luis Gomez, mas não recebeu o contrato. Todavia, foi chamado pelo UFC pouco depois. Na estreia, foi superado por Julio Arce, mas desde então emendou seis vitórias. As duas últimas vieram contra Mirsad Bektic e Edson Barboza, ambas em decisões divididas. Assim, foi alçado ao top 10 e à primeira aparição em um duelo principal no UFC.

Ele já foi um grappler que dependia do controle posicional e de algumas finalizações. No entanto, sua ascensão veio justamente quando mostrou melhorias em pé. Agora, é um contragolpeador competente, que gosta de socar com variação entre cabeça e tronco e coloca bastante potência nos movimentos. Também gosta de atacar na curta distância e parece ter alguma noção dos que faz em meio ao tiroteio. O lado defensivo ainda deixa buracos, mas Ige tem um queixo resistente e muito coração para seguir avançando mesmo quando está em desvantagem.

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Ige não é um dos maiores lutadores na categoria e não parece ter um estilo sob medida para explorar as fraquezas do adversário. Mesmo assim, acredito que Dan tentará chutar bastante suas pernas, mas não acho que será o suficiente. Dessa forma, Calvin deve mantê-lo na distância dos jabs e controlar a distância ao longo de todo o duelo. Assim, em algum momento, provavelmente na metade final da luta, conseguirá mais um nocaute.

Peso mosca: #13 Tim Elliott (EUA) vs. Ryan Benoit (EUA)

Por Gustavo Lima

Tim Elliott (15-11-1 no MMA, 4-9 no UFC) vive o pior momento de sua carreira em termos de retrospecto recente. O vencedor do The Ultimate Fighter 24 vem de três derrotas consecutivas na organização e contra adversários de nível progressivamente menor. Isto indica que a permanência do atleta na organização pode estar comprometida caso chegue à inédita marca de quatro reveses seguidos em seu cartel.

Embora ainda seja o 13º colocado no ranking dos moscas, Elliott não vence uma luta nesta categoria desde 2017 e tem ficado aquém do esperado. Em sua última aparição, Tim levou para casa o prêmio de luta da noite, mas acabou sendo finalizado pelo estreante Brandon Royval, deixando a impressão de ter faltado longevidade física e lastro técnico para encarar o promissor jovem.

Do outro lado, Ryan Benoit (10-6 MMA, 3-4 UFC) volta ao peso-mosca após quase três anos longe da divisão. Após ficar afastado um bom tempo do cage por conta de lesões, o “Baby Face” foi derrotado por Heili Alateng no último mês de dezembro pela categoria dos galos. Striker bom e agressivo, Benoit chegou a ser monitorado como um nome promissor há alguns anos, mas o jogo unilateral e alguns buracos em seu sistema defensivo trouxeram resultados muito irregularidades ao longo de sua jornada na companhia.

A fase de ambos os competidores está longe da melhor possível e os dois se encontram a alguns bons degraus de distância da elite da divisão. Mesmo assim, este casamento é interessante pela postura que os competidores costumam adotar em suas aparições no UFC. Do mesmo jeito que Ryan gosta de andar pra frente, buscando a troca de golpes para impor sua maior valência sobre o adversário, Elliott não foge das investidas no grappling e de scrambles dinâmicos e ousados. As carências em aspectos quase antônimos do jogo de cada um dos atletas garantem um contorno de confronto de estilos ao duelo.

Em um cenário mais comum envolvendo as variáveis supracitadas, eu colocaria Elliott com um certo favoritismo nesse duelo. Porém, o americano tem entregado muito pouco até mesmo no grappling, zona do seu jogo em que deveria ser muito mais confortável e perigoso. Mesmo que o ex-desafiante seja razoável na luta em pé, me parece particularmente complicado vê-lo obtendo sucesso por esta via contra um trocador mais refinado e de grande poder nas mãos.

O sucesso de Tim dependerá do quão bem ele conseguirá aproveitar seu wrestling para se manter dominante por mais tempo e, quem sabe, até descolar uma finalização. Em pé, Benoit dispara rápido, mesmo quando adota uma postura mais conservadora em termos de volume. Aliando isso a vantagem de envergadura do “Baby Face”, podemos inferir que Elliott pode ter alguma dificuldade, especialmente nos estágios mais avançados da luta, com o tanque de combustível esvaziado.

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Luta muito encardida de se cravar um vencedor, com inúmeras variáveis envolvidas e dois oponentes que possuem ferramentas para garantir vitórias via interrupção, mas com desfecho que dependerá muito de como ambos irão se portar (especialmente Elliott). Acredito que Ryan Benoit vença por decisão ou nocaute técnico.

Peso pena: #8 BW Jimmie Rivera (EUA) vs. #9 BW Cody Stamann (EUA)

Por Gustavo Lima

Jimmie Rivera (22-4 UFC, 6-3 MMA) é um dos grandes nomes da categoria dos galos, mas que não conseguiu se sacramentar como desafiante pelo cinturão. São três derrotas nas últimas cinco lutas, mas os nomes são fortíssimos: além do atual campeão Petr Yan, o provável futuro desafiante Aljamain Sterling e o ex-desafiante Marlon Moraes foram as pedras no caminho do “El Terror”.

Após cerca de um ano, entre lesões e um diagnóstico positivo para o novo coronavírus, Rivera volta ao cage contra um bom adversário de sua categoria de origem, mas sob a circunstância atípica de lutar em 66kg. O atleta da Tiger Schulmann’s MMA é um pacote completo da arte marcial mista moderna. Seu jogo não é alicerçado em um eixo único, trazendo em complemento ao seu bom kickboxing, um wrestling eficiente e que se vale muito de sua boa disposição física.

Cody Stamman (19-2-1 na carreira, 5-1-1 no MMA) caminha para fazer sua segunda luta nestes eventos em tempo de pandemia, novamente como peso-pena. Empilhando diversos bons nomes no cartel, a única derrota do lutador na companhia foi para Aljamain Sterling, no segundo semestre de 2018.

A atuação contra Brian Kelleher no último mês de junho mostrou que o peso extra não pareceu nem de longe um problema para o “Spartan”. Atleta completo e com uma mistura muito oportuna e precisa de combinações em pé com quedas de wrestling, Cody também é o tipo de competidor que, assim como Rivera, precisa daquele “algo a mais” para ser superado.

Esta é uma luta bem complicada de se prever pelo fato de que os dois lutadores são capazes de, em tese, fazer de tudo em um nível muito similar. A estratégia adotada, a adaptação da estratégia ao longo da luta e a durabilidade física deverão ocupar papel central para definir quem conseguirá sair com o braço levantado.

Neste cenário, Cody Stamann chama a atenção pelo seu estilo “motorzinho”. O “Spartan” trabalha em ritmo altíssimo, com uma bela movimentação, que o mantém bem seguro nas aproximações. Ao colocar frente a frente o jogo de ambos os atletas, é este fator que me faz acreditar numa leve vantagem para Cody.

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Essa luta tem tudo para transcorrer em uma intensidade elevada do início até o final e é um dos melhores casamentos deste evento. Minha aposta vai no atleta da Michigan Top Team, por acreditar que o mesmo conseguirá operar em um ritmo mais alto pela maior parte da luta. São três rounds e tenho a impressão de que a boa longevidade física de Rivera tenda muito mais a “maratonista” do que a “corredor”. Cody Stamann por decisão.

Peso médio: John Phillips (WAL) vs. Khamzat Chimaev (SUE)

Por João Gabriel Gelli

John Phillips (22-9 no MMA, 1-3 no UFC) está há muito tempo na estrada. Profissional desde 2005, ele já lutou contra algumas gerações de lutadores britânicos. Em 2018, chegou ao UFC, mas perdeu os três primeiros combates que fez. Mesmo assim, recebeu mais uma chance e nocauteou Alen Amedovski em apenas 14 segundos para garantir o emprego.

Outrora apelidado como “Mike Tyson branco”, o galês pode ser definido como um brigador. Ele é um boxeador bronco, de pouca técnica e muita vontade. Todos os golpes que lança são para nocautear, mas só demonstra efetividade contra as castas mais baixas. Já na luta agarrada tem um problema crônico. A defesa de quedas é péssima e é um adversário fácil de finalizar quando está com as costas no chão. Dessa forma, pode ser caracterizado como um dos piores lutadores do plantel do UFC atualmente.

Colega de treinos de Alexander Gustafsson na Allstars Training Center, Khamzat Chimaev (6-0 no MMA) iniciou a carreira profissional há pouco mais de dois anos. Desde então, deixou um rastro de destruição, conquistando interrupções em todos os combates, com apenas um que atingiu o segundo assalto. Em seus últimos quatro compromissos, atuou pelo Brave CF até se credenciar a uma disputa de cinturão nos meios-médios, que foi cancelada por conta do coronavírus. Com a oportunidade no UFC, optou voltar para a categoria na qual começou e aceitar o duelo em cima da hora.

Chimaev é checheno, mas se radicou na Suécia, onde foi campeão nacional no wrestling. Esta modalidade aparece como ponto marcante do seu jogo. Ele encurta rapidamente a distância, gruda no adversário, trava o tronco dele e força um desequilíbrio para conquistar a maior parte de suas quedas. Apesar dessas características da greco-romana, mostrou algum arsenal do folkstyle na última luta. Khamzat é muito bom por cima. Sempre busca avançar posições até a montada e nunca para de golpear com potência. Além disso, fica atento para oportunidades de finalizações que possam aparecer. Na luta em pé ainda é muito cru. Mostra poder de definição, como no assombroso nocaute sobre Ikram Aliskerov e parece estar ficando mais a vontade, mas tem um longo caminho para percorrer, sobretudo defensivamente. No entanto, isto é esperado para alguém que ainda está muito no começo da carreira no MMA.

John Phillips vs Khamzat Chimaev odds - BestFightOdds
 

Chimaev é um lutador interessante e no qual vale a pena ficar de olho no raso peso médio. Caso opte por voltar para os meios-médios, pode ter um caminho um pouco mais longo para alcançar os melhores da categoria. De qualquer forma, ele tem a habilidade atlética e um arsenal técnico promissores e que podem ser moldados em um lutador com bom futuro.

No que diz respeito a luta em si, não é muito difícil perceber qual deve ser como plano de jogo de Khamzat. Tentar levar a luta para o solo é o que fez ao longo de toda a carreira e aqui isto não deve ser diferente. Isto casa muito bem com a grave deficiência de Phillips, que dificilmente conseguirá evitar as investidas. Dessa forma, o prognóstico é bem direto. Chimaev deve derrubar rapidamente e finalizar ainda na primeira metade do assalto inicial.

Peso pena: Ricardo Carcacinha (BRA) vs. Lerone Murphy (ING)

Por Idonaldo Filho

Ricardo Carcacinha (14-2 no MMA, 5-1 no UFC) é um dos lutadores promissores que o Brasil possui no plantel do UFC. Destacado pelo site no Radar MMA Brasil e Top 10 do Futuro, Ricardo decidiu em sua última luta subir para o peso pena. Na estreia na nova divisão, derrotou o uruguaio Eduardo Garagorri rapidamente com um mata-leão. A única derrota nas seis lutas que fez no UFC foi contra o russo Said Nurmagomedov, nocauteado com um chute no corpo.

Na trocação, o brasileiro é imprevisível, dando preferência para golpes plásticos como joelhadas, cotoveladas e chutes rodados do que para sequências mais tradicionais. O wrestling mostra notável melhora e o jiu-jítsu oportunista fez sua primeira vítima na última luta. O faixa marrom na arte suave tem um jogo de chão muito competente e estrangulamentos perigosos. A defesa ainda precisa de melhorias e ainda temos que ver como vai ser a adaptação para o peso pena contra adversários de nível mais alto.

O prospecto britânico Lerone Murphy (8-0-1 no MMA, 0-0-1 no UFC) chegou ao maior evento do mundo com certa desconfiança, por nunca ter passado por uma grande organização local e por ter um nível de oponentes baixo. A estreia foi contra Zubaira Tukhugov, em luta que terminou empatada. Murphy treina na Manchester Top Team, fazendo camps ocasionais nos Estados Unidos e na Tailândia. O descendente de jamaicanos tem uma história de superação, ao sobreviver a dois tiros no rosto.

Murphy é bastante versátil. Em pé, ataca muito o corpo, mas também tem sequências interessantes de socos que terminam com um chute alto. Atlético, Lerone, por preferir lutar em pé, não busca muito o wrestling, mas já demonstrou competência ofensiva na área. A movimentação do britânico é interessante, circulando bastante. Também tira proveito da grande envergadura (1,86m) para a categoria dos penas para desferir golpes de uma distância maior. O principal problema é defensivo, já que deixa o rosto desprotegido muitas vezes e não é bom freando quedas.

Lerone Murphy vs Ricardo Ramos odds - BestFightOdds
 

Este é um excelente duelo entre dois prospectos muito habilidosos que fazem parte do ótimo peso pena. O combate deve ser muito equilibrado, possivelmente disputado na trocação. Lerone é mais forte, mas deve se preocupar com quedas já que é inferior no chão. Já Carcacinha precisa dar preferência para sequências de golpes mais efetivas, buscando contundência em vez de golpes plásticos esporádicos em busca de um nocaute perfeito. Para não ficar em cima do muro acho que o inglês vence, em luta técnica e apertada.