Por Edição MMA Brasil | 16/10/2020 12:52

Mais uma semana, mais um evento do UFC. Desta vez, a organização segue em Abu Dhabi, mais especificamente na Ilha da Luta, para realizar o UFC Fight Island 6.

Na luta principal da noite, o ex-desafiante dos penas Brian Ortega retorna após longo período sabático por conta de uma grave lesão para enfrentar o temido “Zumbi Coreano” Chan Sung Jung em duelo válido por cinco rounds. O vencedor, segundo o presidente Dana White, deve ser o novo desafiante da categoria.

Já na luta coprincipal do evento, a ex-desafiante Katlyn Chookagian fica responsável pela festa de boas-vindas à brasileira Jessica Bate-Estaca, que sobe dos palhas e faz sua estreia na divisão dos moscas.

Outros dois confrontos interessantes do evento protagonizam o retorno de Thomas Almeida após quase três anos para enfrentar Jonathan Martinez nos penas, fora a estreia do ex-campeão do KSW Mateusz Gamrot contra Guram Kutateladze pela divisão dos leves.

Peso Pena: #2 Brian Ortega (EUA) vs. #4 Chan Sung Jung (KOR)

Por Bruno Costa

Brian Ortega (14-1, 1NC no MMA, 6-1, 1NC no UFC) retorna ao octógono contra o oponente que teria enfrentado em dezembro passado, caso não tivesse rompido os ligamentos do joelho. Tudo isso quase dois anos após ser surrado por Max Holloway na disputa pelo título do peso pena.

As maiores qualidades de Ortega são a resistência física e oportunismo para capitalizar em oportunidades para definir a luta tanto na troca de golpes quanto, principalmente, nas finalizações. Na luta em pé, o jogo é baseado em pressão constante contra os oponentes, que raramente conseguem manter “T-City” em distância segura. O poder de absorção de golpes e o tanque de gás de Brian são impressionantes e permitem que busque a luta a todo o tempo, mesmo com uma defesa esburacada que faz com que sofra mais do que seria necessário.

Com boa capacidade de golpear os oponentes na linha de cintura para desgastá-los, Ortega se mantém perigoso no combate a quase todo o tempo. Ele vinha demonstrando melhoras na trocação com contragolpes cada vez mais potentes antes de ser superado pela maior técnica de Holloway. O jogo de grappling com o adversário de costas para o chão é muito pouco visto por conta das dificuldades no wrestling ofensivo. Também não é um dos lutadores mais explosivos da divisão e poderia tentar utilizar mais o clinch para chegar com mais constância em posições que coloquem os oponentes em situação de perigo. Contudo, mesmo na guarda é perigosíssimo quando controla pulsos ou pescoços alheios.

Chan Sung Jung (16-5 no MMA, 6-2 no UFC) é um dos lutadores de alto nível mais selvagens do MMA e não à toa recebeu a alcunha de “Zumbi Coreano”. Não são raros os casos em que atletas com suas características precisam reajustar plano de jogo para alongar a carreira no mais alto nível, mas Jung passou longe disso.

O Zumbi é um lutador que historicamente não economiza nas ações durante os combates, não importa se na troca de golpes, no clinch ou no solo. Sempre ativo e à procura de machucar os oponentes, Jung não desiste de buscar a interrupção do combate até o último segundo da luta. Literalmente. A derrota para Yair Rodriguez no último segundo de uma batalha de cinco rounds que seria vencida caso não partisse como um maníaco para cima do oponente é prova cabal do fato.

Apesar da agressividade que já custou caro em alguns momentos da carreira, vale aqui uma ressalva: em que pese o apelido de “Zumbi” e a busca incessante por interromper seus duelos, Jung é um lutador de ótima técnica tanto na troca de golpes quanto na luta de solo, com direito a um amplo leque de finalizações, além de evoluir taticamente nos últimos anos. Os combos do coreano dificilmente são repetidos de uma luta para outra, e alguns golpes específicos tem sido preparados especialmente para os combates, como exemplo, o contragolpe preparado para um eventual jab desleixado no duelo contra Renato Moicano.

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O duelo de sábado é daqueles em que é seguro afirmar a impossibilidade de uma luta monótona. Ambos os lutadores são pura ação e não se negam a atacar não importando onde o combate é levado.

Porém, de início vale dizer que após dois anos afastado e vindo de uma cirurgia muito agressiva, a luta não parece o cenário ideal para o retorno de Ortega. O Zumbi é um contragolpeador de muito poder de nocaute, com vantagem de ritmo e velocidade, além de resistência tão sobrenatural quando à do próprio “T-City”. Mesmo diante das adversidades, não é seguro descartar as chances de Ortega encontrar um contragolpe potente ou mesmo uma oportunidade de finalizar o combate no solo, mesmo que Jung seja também um bom grappler ofensivo. A expectativa é de que o combate seja disputado em alto número de ações e violência, com a tendência de uma interrupção a favor do Zumbi Coreano na segunda metade da luta.

Peso Mosca: #1 Katlyn Chookagian (EUA) vs. #2 SW Jéssica Andrade (BRA)

Por Rodrigo Rojas

Eterna número dois entre as moscas por motivos de Valentina Shevchenko, a americana Katlyn Chookagian (14-3 no MMA, 7-3 no UFC) tem a dura missão de receber a ex-campeã da categoria de baixo à divisão no próximo sábado. Após uma derrota acachapante e esperada em sua chance pelo título, Katlyn teve uma atuação de gala ao dominar a irmã mais nova da rainha da categoria em sua última aparição, vencendo uma decisão tranquila.

A loira, que tem o criativo apelido de ”Blonde Fighter”, tem o feijão com arroz de seu jogo no kickboxing com volume e pouquíssima pressão. Chookagian prefere jogar circulando e tocando suas oponentes com combinações de socos e chutes sem nenhuma potência, buscando pontuar e evitar a aproximação. No chão, a faixa marrom da academia de Renzo Gracie, treinada pelo lendário John Danaher, tem uma guarda ativa e botes de finalizações infinitos, apoiados por suas longas pernas e sua flexilidade. O wrestling, que já foi inexistente, vem melhorando com o tempo, mas continua bastante fraco.

Uma das lutadoras mais amáveis do plantel do UFC, tanto por conta de sua personalidade e história de vida quanto pelo estilo dentro do octógono, a ex-campeã dos palhas Jéssica “Bate-Estaca” Andrade (20-8 no MMA, 11-6 no UFC) sobe aos moscas em busca de redenção. Após um par de derrotas a afastar do cinturão que um dia ostentou, conquistado com um nocaute dos mais brutais sobre Rose Namajunas, a brasileira dá início a um novo capítulo em sua carreira.

Outrora uma peso galo minúscula, Jéssica transformou seu estilo de jogo, seus treinos e seu corpo rumo ao cinturão da categoria peso palha, espancando lutadoras como Claudinha Gadelha, Tecia Torres e Karolina Kowalkiewicz no caminho. A paranaense tem o par de mãos mais pesado da categoria, além de força descomunal e capacidade de pressão incessante. Andrade busca caminhar sempre para cima das oponentes, encurralando-as para acertar golpes brutais ou quedas igualmente assustadoras. Por cima, a faixa preta tem um ground and pound potente e finalizações oportunistas.

Jessica Andrade vs Katlyn Chookagian odds - BestFightOdds

Chookagian e Andrade não poderiam ser mais opostas. Enquanto Katlyn tentará manter-se afastada e pontuando, Jéssica deve buscar a curta distância rumo ao nocaute e às quedas. E não acho que a “Blonde Fighter” tenha a habilidade necessária para mantê-la afastada. Caso adapte-se bem à nova categoria de peso, “Bate-Estaca” tem as armas para encontrar o queixo da resistente americana, causando dano suficiente para conquistar a vitória por nocaute ou decisão.

Peso Pena: Thomas Almeida (BRA) vs. Jonathan Martinez (EUA)

Por Israel Silveira

Fazendo sua primeira luta desde janeiro de 2018, Thomas Almeida (22-3 no MMA, 5-3 no UFC) vem tentando espantar a pior fase da carreira, que acumula três derrotas nas últimas quatro lutas. “Thominhas” chegou a ser um dos prospectos mais empolgante dos galos, acumulando cartel de invicto de 20 vitórias até encontrar com Cody Garbrandt e sofrer um verdadeiro atropelo. O brasileiro também somou derrotas para Jimmie Rivera, na qual esteve muito próximo de ser nocauteado e mais um nocaute para Rob Font. Ele ainda ensaiou um retorno em 2019, mas teve uma estranha lesão no olho que o obrigou a passar por cirurgia e o deixou de molho por um bom tempo.

Thomas Almeida traz o peculiar estilo da Chute Boxe para as lutas: sofrer danos, aguentar o dano e retribuir o dano. Por mais que a derrota para Garbrandt tenha sido surpresa para alguns, era uma tragédia anunciada, já que Thominhas entrava para as lutas com estratégia suspeita e sempre sofrendo certo atraso, em especial contra Birchak e Pickett, com ambos dando trabalho para o brasileiro. Almeida tem mãos extremamente rápidas e é capaz de variar entre golpes no corpo, low kicks e joelhadas. O punch não é de elite, mas ele certamente compensa isso com alto volume ofensivo. A defesa do brasileiro, todavia, o vem deixando na mão e por vezes ele investe em combinações longas demais e acaba deixando o queixo exposto. Seu queixo não é “horrível”, mas o lutador simplesmente sofre muitos golpes limpos.

Jonathan “Dragon” Martinez (12-3 no MMA, 3-2 no UFC) vem em sequência melhor que Thominhas, tendo vencido três das últimas quatro lutas, sendo que sua derrota nessa sequência foi uma decisão muito questionável contra Andre Ewell. O “Dragão” também é especialista em muay thai e é capaz de lançar devastadores chutes e joelhadas, além de ser um striker muito mais paciente que Thomas Almeida.

Martinez, todavia, não é um striker muito móvel e costuma avançar para frente com a guarda alta para conseguir implementar sua trocação. Normalmente isso o coloca em situações difíceis, algo que ficou provado contra Andre Soukhamthath, que esteve bem próximo de nocautear o americano. O jogo de clinch do americano é bastante sólido e ele pode causar muitos problemas para o brasileiro se conseguir chegar no pocket sem ser atingido pelos duros golpes do brasileiro. Jonathan já competiu pelo peso mosca e geralmente sofre em desvantagem de tamanho, porém, se sente confortável na longa distância, principalmente lançando chutes altos de perna esquerda.

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Thomas Almeida certamente tem o melhor background de muay thai, apesar dos dois trazerem estilos diferentes da disciplina: Martinez se sente bastante confortável no clinch; Thominhas gosta de combinar golpes na cabeça, no corpo e finalizar com um low kick. É bastante arriscado apostar no brasileiro vindo de quase três anos parado, porém entre dois lutadores que buscarão se destruir em pé, o atleta da Chute Boxe terá a vantagem. A luta tem tudo para ser bastante emocionante e minha aposta vai para o brasileiro em uma apertada decisão.

Peso Leve: Mateusz Gamrot (POL) vs. Guram Kutateladze (GEO)

Por Idonaldo Filho

Quando um estreante chega ao líder do mercado invicto em muitas lutas, geralmente se espera algo bom. O polonês Mateusz Gamrot (17-0 no MMA) não foge ao exemplo. Durante anos, Gamrot foi um dos melhores pesos leve da Europa, sendo campeão do KSW desde 2016, defendendo o cinturão da categoria até 70kg em quatro oportunidades. Ele também foi campeão do peso pena no KSW, título conquistado em 2018. O seu cartel é recheado de nomes importantes locais, derrotando Norman Parke duas vezes, além de Mansar Barnaoui, Kleber Koike, Marif Piraev e Andre Winner, ex-atleta do UFC.

Gamrot veio do wrestling, mas deteve títulos amadores de MMA antes de se profissionalizar no esporte. Posteriormente, venceu alguns títulos locais de jiu-jítsu e esteve no ADCC em 2019, sendo finalizado pelo ótimo Garry Tonon. Quando atua, mostra um boxe simples mas eficiente, que melhorou bastante nos últimos anos. Em alguns momentos, o “Gamer” aposta em chutes frontais altos, mas quase nunca saí alguma contundência desses golpes. O principal aspecto de seu estilo é o jogo de quedas, baseado muito em fintas e em contraposição de movimentos adversários.

Muitas vezes, Gamrot derruba o adversário na insistência, de maneiras incomuns e quase sempre indo buscar a queda muito em baixo, praticamente no chão. O sprawl é bom, já é acostumado também a lutar em cinco assaltos e ameaça com chaves de perna e um ground and pound, porém costuma preferir o controle no chão do que definir a peleja. Há algumas dúvidas ainda, sobre como o polonês se desempenhará contra outros tipos de oponente, tendo em vista a pouca variedade que enfrentou no KSW. No UFC, Mateusz vai encarar grapplers fortes, lutadores de elite na trocação e atletas tão bom no jiu-jítsu como ele. Outro ponto é a fama de sujo, por aplicar muitas vezes dedo no olho, golpes baixo e por, inclusive, ter mordido o dedo de um oponente.

É da Geórgia que vem Guram Kutateladze (11-2 no MMA). Tendo feito a carreira na Escandinávia, atuando principalmente pelo Superior Challenge, o lutador que treina na Allstars Gym é nocauteador. Contratado do Brave CF, Guram chamou a atenção dos fãs de MMA com um nocaute fulminante aplicado em Felipe Silva, veterano do UFC. São oito vitórias em sequência para o georgiano, que também estreará no líder do mercado neste fim de semana.

Parceiro de treinos e corner de Khamzat Chimaev, Kutateladze é dono de larga experiência nas mais diversas artes marciais. Começou com quatro anos e, com apenas 11 já estava no MMA, com seu primeiro combate catalogada acontecendo em 2010, quando tinha 18 anos logo no M-1 Global. Com background no Irigumi-go (um estilo de luta de contato), Kutateladze também fez parte da seleção russa de muay thai, além de disputar campeonatos de kickboxing estilo K1, sambo e karate.

Kutateladze é um lutador muito preciso, que prefere ficar na longa distância. Não costuma aplicar muito volume, mas suas sequências de golpes são bem executadas, com um chute alto perigoso quase sempre no término. Guram mostra muita destreza nos socos em contragolpe, que são potentes e já foram fator determinante para algumas vitórias em sua carreira. Como é um atleta de alta qualidade na luta em pé, seus concorrentes geralmente tentam levar o duelo para baixo, o que costuma funcionar. O europeu muitas vezes não oferece resistência para ser levado até a grade, contando com uma defesa de queda fraca. No chão é faixa preta de jiu-jitsu japonês, conseguindo se virar.

Guram Kutateladze vs Mateusz Gamrot odds - BestFightOdds

Temos uma luta excelente entre dois bons estreantes, credenciados nas organizações que faziam parte. É lamentável que esteja colocada na parcela preliminar do evento.

Gamrot é muito favorito nas casas de aposta, mas é uma luta perigosa. Em pé, Guram é mais experiente e tem um arsenal muito mais vasto que o polonês, podendo acertar contragolpes nos constantes avanços do ex-campeão do KSW em busca de quedas. Mas o aspecto que devemos levar em conta é a defesa de quedas ruim do georgiano, que não deve ser suficiente para frear os avanços de Mateusz. A aposta é na vitória de Mateusz Gamrot na decisão dos juízes, mas não se assustem com uma possível zebra.