Por Edição MMA Brasil | 02/10/2020 12:04

Depois de um PPV que botou emoção na sequência incansável de eventos do UFC, chegamos ao UFC Fight Island 4. Ao contrário do seu precedente (e similar há muitos outros), o card desse final de semana não traz muitas expectativas para a grande maioria dos fãs.

Com duas lutas do peso galo feminino no card, sendo uma delas a principal, o evento deste sábado trará assunto para o MMA Brasil Matchmaker. A ex-campeã dos galos e ex-desafiante Holly Holm lidera o evento com (e contra) Irene Aldana. A holandesa e também ex-campeã da categoria Germaine de Randamie enfrentará a campeã do TUF 18 Julianna Peña. Na luta coprincipal, duelo de lusófonos: Yorgan de CastroCarlos Boi. O card preliminar contará ainda com uma luta que ninguém esperava em 2020 (nem em anos anteriores também). Carlos Condit Court McGee… Nem sei mais o que falar. Confira as prévias!

Peso Galo: #2 Holly Holm (EUA) VS. #6 Irene Aldana (MEX)

Por Bruno Costa

A ex-campeã Holly Holm (13-5 no MMA, 6-5 no UFC) volta a protagonizar uma luta principal no UFC e se mantém bem posicionada mesmo diante da irregularidade apresentada após o nocaute brutal contra Ronda Rousey que lhe valeu o título do peso galo.

Uma boxeadora de altíssimo nível, muita força física e com boa capacidade de defender quedas, Holm adota uma aproximação bastante conservadora ciente de suas forças e deficiências. Além dos golpes retos utilizados com frequência para controlar a distância, Holm tem como especialidade o chute alto com o pé esquerdo, golpe que mais rendeu nocautes a Holm no MMA.

Apesar de longe de ser a especialidade da casa, o clinch por vezes é bem utilizado e baseado na grande força física. Contra Megan Anderson até mesmo o wrestling ofensivo foi utilizado para garantir uma vitória com extrema facilidade, mas contra oponentes de bom nível técnico não é algo que se deva esperar como parte do plano de jogo. Contudo, mesmo com tantas ferramentas ofensivas, Holm tem sido derrotada quando enfrenta oponentes do nível mais alto e nem mesmo consegue entregar bons desempenhos.

Irene Aldana (12-5 no MMA, 5-3 no UFC) volta ao octógono quase um ano após conquistar a maior vitória de sua carreira contra a brasileira Ketlen Vieira, à época ranqueada como número 2 da categoria. Agora, uma vitória contra Holly Holm pode valer o posto de desafiante para a mexicana.

Uma lutadora de boa envergadura e com predileção pela luta em pé, “Robles” é uma boxeadora competente, nos melhores momentos tem bom ritmo e mãos pesadas para a categoria, mas que deixa um pouco a desejar no quesito velocidade. A defesa de quedas ainda necessita de melhoras, e a falta de confiança nessa área parece afetar também a capacidade em trocar golpes com as adversárias de bom wrestling ofensivo – por vezes, mesmo sendo mais qualificada, a mexicana se preocupa excessivamente com o perigo de ser colocada de costas para o solo e se defende com menos cuidado do que o necessário. Mesmo que tenha saído vitoriosa contra Ketlen Vieira, uma judoca de alto nível que já demonstrou boa capacidade na luta agarrada, Aldana não teve o grappling testado, algo que deve repetir no duelo de sábado.

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O duelo do sábado deve ser muito equilibrado e provavelmente se arrastará por cinco rounds completos. Como Holm é melhor trocadora do que Aldana e mesmo em estágio mais avançado na carreira continua sendo mais atlética do que a adversária, leva favoritismo para sair vitoriosa numa decisão que pode muito bem ser entediante. Contudo, Aldana tem condições de vencer o duelo caso consiga imprimir um volume maior contra uma oponente que se preocupa excessivamente em neutralizar a adversária e deixa de atacar por longos períodos, além de economizar na potência dos golpes para não se expor em excesso. Com mais ação ou com golpes mais potentes, a mexicana pode sair vitoriosa e ao menos mudar o cenário da categoria que necessita de renovação.

Peso Pesado: Yorgan de Castro (CBV) VS. Carlos Boi (BRA)

Por Pedro Carneiro

Na penúltima luta da noite, o cabo-verdiano radicado em Portugal e que atualmente treina nos Estados Unidos, Yorgan De Castro (6-1 no MMA, 1-1 no UFC) tenta se recuperar da primeira derrota da carreira, quando foi superado por Greg Hardy em um combate esquecível. Yorgan recebeu uma oportunidade no UFC graças ao Contender Series, ocasião onde venceu o Alton Meeks em um combate no qual não era favorito. Afinal enfrentava um wrestler, valência que é o calcanhar de Aquiles do africano. Sua luta seguinte foi contra Justin Tafa, onde também não era favorito e conseguiu um excelente nocaute.

A especialidade da casa é a troca de golpes, onde De Castro revela um kickboxing bem básico apoiado em dois pilares: as mãos pesadas investidas de considerável poder de nocaute e chutes baixos que magoam qualquer perna que esteja no caminho. Ambas as vantagens são potencializadas pelo excesso de peso que o cabo-verdiano carrega, mas como nem tudo são flores o peso atrapalha a movimentação e o fôlego que não é muito longo. As qualidades defensivas são poucas – em situações do tipo, Yorgan se submete a troca franca e muitas vezes aleatórias de golpes. Seu jogo de chão não é prioridade seja ofensivamente ou defensivamente, De Castro é um lutador ainda limitado e que aposta as suas fichas no peso dos seus golpes, que apesar de simples, não devem ser subestimados pois já venceram oponentes mais refinados tecnicamente.

Carlos Felipe Boi (8-1 no MMA, 0-1 no UFC) volta à Ilha da Luta dois meses após a sua estreia no UFC, quando foi derrotado por Sergey Spivak. O curto intervalo entre os combates possivelmente é motivado pela vontade de lutar do brasileiro que ficou mais de dois anos sem lutar profissionalmente, em virtude de uma suspensão por doping. Na estreia contra Spivak, não era difícil perceber que “Boi” sofreu com a falta de ritmo, e boa parcela do resultado foi consequência disso, destacando-se que era um combate totalmente vencível para o baiano que foi melhor enquanto teve energia.

Passadas todas as dificuldades para estrear e recuperar o ritmo, podemos esperar de Carlos Boi um boxe de muito bom nível para a categoria peso pesado, com boas sequências complementadas por precisão e potência. Além disso, o brasileiro tem um excelente contragolpe, lapidado por uma noção de tempo e distância muito bem construídas por Edilson Teixeira. Defensivamente, Carlos se apoia no poder de encaixe, que absorve de modo seguro as pancadas de lutadores pesados e mais altos. Há a necessidade de melhorar as transições defensivas, principalmente no clinch e na defesa de quedas, problemas que ficaram evidenciados na luta contra Spivak, mas que também tem boa parte de responsabilidade do condicionamento físico. Um ponto importante é que Carlos Felipe é novo em uma categoria envelhecida e tem muito lastro para evoluir. Outro destaque é de que o baiano parece entender a importância de se promover – um diferencial importante entre os brasileiros- o que demonstra que está sendo bem orientado pela sua equipe e pelo seu empresário, Leonardo Pateira.

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Carlos Boi gosta de trocar porrada, Yorgan também. Logo, é de se esperar que os dois se encontrem dispostos a promover o encontro um do outro com a lanterninha dos juízes após aquele nada agradável desmaio. A diferença é que nesse tipo de situação, o brasileiro sabe muito melhor o que está fazendo e não buscará se submeter a uma luta franca caso não leve muita vantagem ali. Isto posto, temos dois cenários mais prováveis: no primeiro, Boi se aproveita da melhor habilidade no boxe para nocautear Yorgan, no máximo até a primeira metade do segundo round. No segundo, ninguém nocauteia ninguém e entramos em uma contagem regressiva onde quem tiver mais fôlego vai vencer a luta. A aposta aqui é de que o baiano consiga o nocaute, mas é importante não subestimar os punhos de De Castro.

Peso Galo: #1 Germaine de Randamie (HOL) VS. #4 Julianna Peña (EUA)

Por Idonaldo Filho

Ex-campeã do peso pena, Germaine de Randamie (9-4 no MMA, 6-2 no UFC) fará sua primeira luta em 2020 após perder a revanche – dessa vez como desafiante do título – contra Amanda Nunes. A veterana é conhecida pela inatividade, mas é possível dizer que já é uma força consolidada no top 5 da categoria. As melhores vitórias da holandesa no líder do mercado são Holly Holm  e Aspen Ladd, que foi nocauteada com pouco menos de 20 segundos de luta. Dependendo de quem vencer na luta principal desse card, é possível até mesmo que Randamie consiga chegar perto novamente de um title eliminator, já que é a #1 da divisão.

Com muita experiência na trocação, possuindo background extensivo no kickboxing e no muay thai, Randamie é uma das melhores strikers do peso galo com tranquilidade. A precisão de seus golpes é alta, com ótima técnica no uso de jabs e colocando pressão muitas vezes com sequências violentas de socos. Os contragolpes de Germaine também são eficientes, além da holandesa mostrar boa ofensividade no clinch, principalmente com joelhadas. Mas de Randamie tem muita deficiência na luta agarrada, com uma defesa de quedas pouco confiável, sem falar da inabilidade de realizar algo quando é colocada de costas para o chão, ainda que saiba se defender minimamente. Essa falha foi muito explorada em sua última derrota, entregando oito quedas para Amanda Nunes.

Julianna Peña (9-3 no MMA, 5-1 no UFC) foi a campeã do TUF 18, acumulando quatro vitórias consecutivas na organização após contratada. Em uma eliminatória, acabou  sendo superada pela Valentina Shevchenko em 2017, na época peso galo. No ano seguinte não atuou devido a gravidez. O retorno aconteceu no UFC on ESPN+ 13, derrotando outra campeã do TUF, Nicco Montaño, que estreava nos galos. Dentre as principais vitórias de Peña, estão nomes consolidados como Jessica Eye e Cat Zingano.

Ao contrário de Randamie, Peña é uma wrestler. A americana atua sempre pensando em colocar sua oponente na grade, buscando obter quedas e controlar por cima utilizando um bom ground and pound. É uma lutadora forte e insistente, geralmente conseguindo derrubar suas adversárias. Outro ponto positivo de Peña é a resiliência, conseguindo aguentar muita pancada e superando adversidades com frequência nos combates. Mas esse ponto positivo aparece muito por uma falta de defesa de golpes, engolindo muitos socos, principalmente devido ao boxe rudimentar que utiliza para se aproximar. A defesa de quedas também é transponível, embora não seja algo para se preocupar especificamente nesse fim de semana.

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É uma luta clássica de striker vs. grappler. Em pé, larga vantagem de Randamie. Já no chão, Peña tem muito mais recursos. Também é válido considerar que nenhuma das duas costuma se manter em atividade, portanto nesse ponto elas estão na mesma.

Randamie não tem muito volume, mas Peña não teve um desempenho inspirado contra Montaño em sua última aparição. É possível que em alguns momentos da luta Julianna derrube sua oponente, mas acredito que a maior contundência em pé fará com que Germaine consiga a vitória na decisão dos juízes.

Peso Meio-Médio: Carlos Condit (EUA) VS. Court McGee (EUA)

Por Israel Silveira

Parece que foi ontem que Carlos Condit (30-13 no MMA, 7-9 no UFC) estava lutando contra Robbie Lawler em uma das disputas de cinturão mais violentas da história do UFC e era considerado um dos lutadores mais perigosos da sempre dura divisão dos meios-médios. Porém, isso mostra o poder de quatro anos no MMA, já que hoje o “Natural Born Killer” vem em terrível sequência de cinco derrotas consecutivas. É bem verdade que dessas derrotas, três foram por finalização, algo que sempre foi o ponto fraco do jogo de Condit. Todavia sua luta contra Neil Magny mostrou uma versão no mínimo diferente de Condit: hesitante em atacar. Magny conseguiu levá-lo seis vezes para o chão com quedas, mas dominou Condit em pé também, algo impensável no auge do americano. Condit está inativo desde dezembro de 2018 por conta de sucessivas lesões. Resta saber se ele voltará a algo ao menos “próximo” do Carlos Condit que estávamos acostumados a ver.

Por falar em lutadores que estavam no seu auge entre 2012 e 2013, Court McGee (19-9 no MMA, 8-8 no UFC) também vem em complicada sequência no octógono, com apenas uma vitória nas últimas cinco lutas. “Crusher” McGee é um striker capaz de deixar as lutas feias com seu boxe e clinch, porém com 35 anos ele já não consegue se impor fisicamente nos combates, fazendo com que suas falhas defensivas e erros de fundamentos fiquem mais evidentes. Foi este o caso contra o argentino Santiago Ponzinibbio, único a conseguir nocautear McGee em toda sua carreira. Em suas recentes derrotas, McGee conseguiu ser competitivo, mas eventualmente foi superado por adversários mais técnicos em pé e que conseguiam mesclar com jogo efetivo de quedas. Condit certamente não tentará bancar o wrestler contra McGee, o que deixará o “Crusher” mais solto para implementar sua trocação.

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De todos os últimos quatro adversários de Condit, McGee é o único que não entrará com o objetivo de levá-lo a chão. Condit vem de quase dois anos de inatividade e será interessante ver como seu gás suporta o jogo de pressão de McGee, que consegue implementar seu estilo (mesmo que feio) por três rounds. Condit é bastante superior em pé, pelo menos no papel. Se essa luta fosse em 2012 seria uma luta bastante interessante, porém se tratando da versão 2020 desses lutadores a aposta é Condit via decisão em um combate morno.