Por Edição MMA Brasil | 24/07/2020 03:57

Chegou a hora do terceiro evento do UFC na Ilha da Luta, localizada em Yas Island, Abu Dhabi, Emirados Árabes.

O UFC Fight Island 3 traz um card bastante interessante com lutas que prometem um bom nível para os fãs de luta. No combate principal da noite, o ex-campeão dos médios Robert Whittaker encara o ex-desafiante dos meio-médios Darren Till.

Na luta coprincipal da noite, a trilogia brasileira chega para colocar um ponto final na carreira de um dos nomes mais conhecidos do esporte. Rogério Minotouro entra pela última vez no octógono para encarar Maurício Shogun em um terceiro embate entre os dois.

Outros destaques do evento ficam para o ex-campeão dos pesados Fabricio Werdum, que fará a última luta de seu contrato com a organização para enfrentar o ex-desafiante dos meio-pesados Alexander Gustafsson. Por fim, a ex-campeã dos palhas Carla Esparza enfrenta a brasileira Marina Rodriguez.

Peso Médio: #1 Robert Whittaker (AUS) vs. #5 Darren Till (ING)

Por Rodrigo Rojas

Outrora um meio-médio medíocre, Robert Whittaker (20-5 no MMA, 11-3 no UFC) subiu para os médios para se tornar um campeão. Após a dança das cadeiras causada por Michael Bisping na categoria, o australiano afirmou-se como campeão legítimo da categoria ao vencer duas batalhas incríveis contra o monstruoso Yoel Romero – isso depois de nocautear Ronaldo Jacaré.

Com base no caratê, “Bobby Knuckles” é um trocador de mão cheia. Seu kickboxing é belíssimo, com ótimas combinações de socos e chutes de todos os ângulos, grande capacidade de explorar as brechas deixadas pelos oponentes e uma habilidade exímia de golpear andando para trás. Whittaker é rápido para a categoria e brilha em longas combinações de golpes na curta distância, além de saber usar as fintas para abrir brechas por onde possa golpear. A movimentação para entrar batendo e sair sem ser atingido também salta aos olhos, assim como a brilhante defesa de quedas. Atenção para o mortal cruzado de esquerda do australiano, que gera muita potência na curta distância e pode causar problemas para Till.

Darren Till (18-2-1 no MMA, 6-2-1 no UFC) teve uma ascensão meteórica dentro do UFC. O britânico, que construiu boa parte de sua carreira treinando e vivendo no Brasil, teve sua maior vitória até então ao nocautear o veteraníssimo Donald Cerrone em uma atuação brilhante. Então, foi alçado a uma luta principal contra o ex-desafiante Stephen Thompson, vencendo em mais uma bela exibição. A vitória credenciou o jovem de 25 anos a uma disputa de título, em que foi dominado por Tyron Woodley. Na luta seguinte, um nocaute brutal para Jorge Masvidal fez com que Till subisse para a categoria dos médios, onde venceu o desafiante Kelvin Gastelum, em sua última luta.

Apelidado de “Gorilla”, o carismático britânico é enorme e forte para a categoria, o que favorece seu jogo de pressão. Till tem uma movimentação sólida que usa para encurralar os oponentes, tentando-os a agredi-lo para que possa contragolpear. Na curta distância, ele usa combinações violentas envolvendo socos, joelhadas e cotoveladas – todos com muita potência. Afastado, Darren consegue manter a distância com bons chutes baixos e socos mais alongados. Suas principais armas são o chute alto de esquerda, o direto com a mão de trás e uma cotovelada enquanto fecha a distância. Além disso, os tempos treinando com Marcelo Brigadeiro providenciaram uma boa base na luta livre, e o inglês conta com muita força no clinch, boas quedas, quando necessário e um ground and pound muito potente.

Sua fraqueza está principalmente em se expor muito ao golpear, justamente por aplicar muita força nos golpes, o que pode ser um enorme problema para a luta de sábado.

Darren Till vs Robert Whittaker odds - BestFightOdds
 

O evento principal de sábado é um prato cheio para fãs de trocação, já que confronta dois dos lutadores mais talentosos e técnicos na luta em pé no UFC. É um deleite poder ver ambos na mesma categoria e ainda no seu auge lutando por cinco rounds. O resultado é difícil de prever, mas podemos esperar belíssimas trocas de golpes no centro do octógono e ambos tendo bons momentos. No fim, acredito que o estilo de ambos favoreça Whittaker, com sua capacidade de contragolpear andando para trás e de achar brechas no meio do caos. Por isso, apostamos em uma vitória do australiano por nocaute técnico tardio ou decisão em um confronto muito animado.

Peso Meio-Pesado: #15 Maurício Shogun (BRA) vs. Rogério Minotouro (BRA)

Por Diego Tintin

Lenda do MMA brasileiro e mundial, Maurício Shogun (26-11-1 no MMA, 10-9-1 no UFC) merece respeito por toda a sua história nos ringues, cages e octógonos do mundo inteiro. Porém, em 2020, não dá para negar que virou uma agonia vê-lo em ação e o máximo que podemos esperar é que saia de suas lutas sem problemas graves de saúde.

Maurício conquistou o GP mais estrelado da era de ouro do PRIDE e desvendou o mistério Lyoto Machida para conquistar a coroa do UFC. O tempo passou e o antigo garoto prodígio da Chute Boxe enfrentou dificuldades para se manter em forma ao longo da segunda metade da carreira. Ainda apresenta poder de nocaute, precisão nos golpes e capacidade de improvisação, mas a resistência física a esta altura já encontra-se em estado terminal. A velocidade também está longe dos tempos áureos e a quantidade de danos acumulados acabou com um queixo que por muito tempo esteve entre os melhores da organização.

Rogério "Minotouro" Nogueira

Lenda do MMA brasileiro e mundial, Rogério Minotouro (23-9 no MMA, 6-6 no UFC) merece respeito por toda a sua história nos ringues, cages e octógonos do mundo inteiro. Porém, em 2020, não dá para negar que virou uma agonia vê-lo em ação e o máximo que podemos esperar é que saia de suas lutas sem problemas graves de saúde.

Derrotado por Shogun no supracitado GP peso médio do PRIDE, Rogério por muito tempo se manteve entre os melhores na divisão e esteve perto de conseguir uma disputa pelo cinturão do UFC. Só que em lutas fundamentais, o maior problema de seu jogo acabava pesando demais e o impedindo de lutar pelo ouro. Este ponto nevrálgico que atravessou a sua carreira inteira é a frágil defesa de quedas, que já foi explorada inclusive pelo rival desta trilogia que se completa no sábado.

As virtudes do “Little Nog” se concentram em um boxe muito bem alinhado, que lhe rendeu até uma honrosa medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. E também no jiu-jítsu de boa evolução de posições, embora com pouco poder de definição. Assim como Shogun, a decadência física é visível, e ainda mais justificada pela quantidade de batalhas já travadas e os 44 anos de praia. O poder de nocaute não é espetacular, mas o suficiente para imprimir certo respeito.

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Se a revanche entre ambos, no UFC 190 foi uma grata surpresa, proporcionando aos fãs da dupla veterana um espetáculo de boa qualidade, é otimismo demais esperar neste duelo – em plena pandemia de treinos problemáticos – algo muito parecido. Já se vão cinco anos e muitos danos acumulados desde aquela noite carioca encerrada com o nocaute da então rainha Ronda Rousey sobre Bethe Correia.

Imagino que, pela velha rivalidade, os dois idolatrados artistas marciais ofereçam tudo que têm e o que não têm logo no início do combate. Nesse cenário, existe a possibilidade de um final rápido, o que seria consagrador ao vencedor, ou a luta se arrasta por três longos e desnecessários rounds. A aposta da casa é um nocaute do paranaense irmão mais novo de Murilo Ninja, que fecha a trinca sobre o bravo baiano gêmeo de Rodrigo Minotauro.

Peso Pesado: #14 Fabricio Werdum (BRA) vs. LHW #7 Alexander Gustafsson (SUE)

Por Gabriel Fareli

Fabrício Werdum (23-9-1  no MMA, 11-6 no UFC) está na reta final de sua grandiosa carreira, mas suas últimas atuações não tem lembrado nem de longe o atleta que já foi campeão da categoria até 120 kg. Desde a perda do cinturão no UFC 198 para Stipe Miocic, Werdum não teve boas atuações nem mesmo quando venceu. Soma-se isso a uma suspensão de pouco mais de dois anos por doping e um retorno com derrota para Alexey Oleinik onde Fabrício esteve pesado, lento e muito longe de uma forma física e técnica sequer decente.

Quando começou no MMA, Werdum era apenas um jiu-jiteiro sem nenhuma valência em pé, mas com Rafael Cordeiro, teve seu muay thai lapidado e se tornou num bom striker. O “Vai Cavalo” se tornou um atleta muito perigoso na trocação, a evolução foi tanta que alguns adversário até esqueceram que a origem dele é no jiu-jítsu e acabavam tomando péssimas decisões durante as lutas (né, Velasquez?). Com 42 anos recém completados, no próximo sábado pode ser a última vez que veremos Fabrício Werdum em ação.

A noite de 21 de setembro de 2013 foi inesquecível para Alexander Gustafsson (18-6 no MMA, 10-6, no UFC), mesmo com a derrota para Jon Jones, o sueco então com 26 anos parecia mostrar que seria um lutador ativo e perigoso para a categoria até 93 kg, porém, problemas pessoais como depressão e algumas lesões fizeram o atleta europeu não conseguir emendar uma sequência de lutas e mesmo com mais duas disputas de títulos após isso, deram a impressão de que “The Mauler” chegou lá mais pelo fato da categoria estar bem desprovida de talentos do que por merecimento de fato.

Os problemas que Alex teve nos últimos anos, só fizeram os fãs lamentarem mais por não poderem ver ele em ação por mais vezes. Gus é um lutador muito talentoso, tem um boxe limpo, de volume e intensidade, um jogo de pernas que dá uma velocidade atípica para alguém que tem 1,96cm. O Wrestling é de muito bom nível, tendo um jogo de quedas defensivo e ofensivo de muita eficiência, vale lembrar que o europeu foi o primeiro atleta a colocar Jon Jones pra baixo.

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O duelo é de dois ótimos atletas que não estão em boas fases nas suas carreiras, não se sabe como Gustafsson estreará na categoria de cima e como irá lidar com mais peso do que está acostumado na hora de lutar. Talvez esse duelo fosse mais equilibrado se acontecesse a alguns anos atrás, mas hoje, o palpite é numa vitória do sueco por pontos após uma luta disputada no começo e arrastada na reta final.

Peso Palha: #7 Carla Esparza (EUA) vs. #9 Marina Rodriguez (BRA)

Por Gustavo Lima

Carla Esparza (16-6 MMA, 7-4 UFC) é sempre um nome interessante de se acompanhar no peso palha. Apesar de sempre ser brecada pelos nomes mais gabaritados da divisão, a campeã inaugural da categoria sempre oferece duelos duríssimos para a metade inferior do top quinze. Dona de bom wrestling e trocação razoavelmente boa, a “Cookie Monster” tem recursos para se impor contra boa parte da divisão, mesmo com desvantagem de força e tamanho em diversos confrontos.

A wrestler da Team Oyama vem de três vitórias consecutivas, discutivelmente sua melhor fase no UFC desde a derrota para Joanna Jedrzejczyk. Apesar de atuações um pouco murchas e resultados extremamente apertados (decisão dividida contra Michelle Waterson e majoritária contra Alexa Grasso), as vitórias recentes contra oponentes de certa relevância mantém Esparza em evidência no UFC.

Do outro lado, Marina Rodriguez (12-0-2 na carreira, 2-0-2 no UFC) vem sedenta para provar seu valor e sedimentar um lugar entre os grandes nomes da divisão. Apesar de um ano mais velha que a adversária de sábado, a gaúcha deu início a sua carreira profissional bem depois que Esparza, sendo parte de uma safra mais recente de atletas e facilmente associável a uma renovação nos nome que figuram no ranking da faixa de peso.

Fundamentada no muay thai, Marina tem mostrado uma curva evolutiva ascendente em suas últimas aparições, mas ainda mostra uma deficiência muito clara contra grapplers, tendo passado algum sufoco nas lutas não vencidas. Nestes dois empates que a atleta acrescentou a seu cartel desde a chegada ao UFC (Randa Markos e Cynthia Calvillo), o resultado poderia ter sido facilmente caso houvessem recursos mais polidos para evitar quedas e trabalhar com as costas no chão.

Maior, mais esguia e capaz de imprimir volume notável na luta em pé, Marina seria uma aposta muito segura contra Esparza caso não tivesse demonstrado essas dificuldades supracitadas. Carla é uma wrestler muito melhor e com um mix muito mais envolvente e astuto que Markos ou Calvillo. Se tratando puramente de capacidade de derrubar, pressionar e controlar, a descendente de equatorianos ainda é um dos nomes mais encardidos da divisão.

Acostumada a pressionar e flanquear sistemas defensivos mais sólidos, Esparza tem em suas mãos 15 minutos para anotar mais parciais em seu favor nas papeletas dos juízes laterais. Apesar da dificuldade que Carla terá para se aproximar, o cenário de um domínio no chão em pelo menos em um dos assaltos é bem provável.

Rodriguez precisa moldar cautelosamente sua estratégia em torno disso para evitar ao máximo se expor ao wrestling da adversária. Isso pode abarcar também uma preferência por ser um pouco mais pragmática em pé, se movimentando mais e não caindo na tentação de trocar na curta distância, preferência que em outras ocasiões valorizaria seu ótimo muay thai.

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Consigo ver a brasileira tendo sucesso na estratégia em algum nível, mas cedendo cada vez mais conforme a luta progride ao longo dos quinze minutos. Apesar da superioridade técnica em pé e do retrospecto recentes contra grandes nomes como Tecia Torres e Jessica Aguilar, é muito difícil acreditar que Marina será capaz de evitar o que aconteceu outrora, desta vez contra uma oponente muito mais propícia a capitalizar sobre essas dificuldades. Meu palpite é Esparza via decisão (quem sabe até dividida, pra não perder o costume).