Por Edição MMA Brasil | 31/05/2019 02:29

A linda Ericsson Globe, maior construção esférica do mundo, localizada na capital da Suécia, receberá o octógono mais famoso do mundo pela quinta vez neste sábado. O UFC Estocolmo traz o principal ídolo local num card importante para a divisão dos meios-pesados.

Outrora a categoria mais forte do MMA, os meios-pesados serão representados pelas três lutas principais. Alexander Gustafsson volta ao país natal para encarar o também ex-desafiante Anthony Smith. Antes deles, em combate valendo troca de guarda, o veterano nocauteador Jimi Manuwa, outro com três derrotas seguidas, tenta frear a ascensão do austríaco Aleksandar Rakić, que venceu a trinca de combates que disputou no UFC.

A balança terá menos trabalho nos duelos que abrem o card principal. Pela categoria dos penas, o finlandês Makwan Amirkhani encara o inglês Chris Fishgold, enquanto o sueco Daniel Teymur mede forças com o sul-coreano Sung Bin Jo. No peso leve, o bósnio-dinamarquês Damir Hadžović enfrenta o americano Christos Giagos. Para a nossa prévia, essas duas lutas foram substituídas pelos duelos entre Tonya Evinger e Lina Länsberg, pelo peso galo, e o retorno do brasileiro Leo Santos contra o escocês Steve Ray, no peso leve.

O UFC Estocolmo será transmitido ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. Como se trata de um evento na Europa, atenção aos horários: a primeira luta do card preliminar está prevista para às 11:00h, enquanto a porção principal do evento está marcada para ir ao ar a partir das 14:00h, sempre pelo horário de Brasília.

Peso Meio-Pesado: #2 Alexander Gustafsson (SUE) vs. #4 Anthony Smith (EUA)

Por Alexandre Matos

Às vezes, esquecer a pressão de ter que disputar o cinturão pode ser interessante. Esta é a expectativa no atual ponto da carreira de Gustafsson (18-5 no MMA, 10-5 no UFC). O sueco teve três chances e falhou em todas. Embora tenham sido atuações muito boas, especialmente a primeira, Alex parece flutuar entre a euforia e a depressão. Vindo da segunda derrota para Jon Jones, no fim de 2018, o sueco tenta voltar a enfileirar vitórias pelo simples prazer de lutar.

Gustafsson, com prazer de lutar, é daqueles negócios que fazem o MMA ser tão bonito. O estilo do sueco é limpo, clássico, moldado no boxe de alto volume, jogo de pernas dinâmico e excelente controle de distância com os gigantescos 2,01m de envergadura. Ele é tão bom trocando socos que muitos esquecem que Alexander é capaz de derrubar – foi o primeiro no MMA a botar Jones para baixo – e manter oponentes com as costas no chão. Defensivamente, a peneira do wrestling foi transformada pelo treinador Eric del Fierro. Contra os maiores desafios que enfrentou diante de derrubadores depois de perder para Phil Davis, Gustafsson bloqueou oito de dez tentativas de queda de Cormier, quatro de cinco de Glover Teixeira e incríveis 14 de 16 de Jones. O europeu atingiu tamanha eficiência inserindo a movimentação do boxe ao wrestling defensivo.

Anthony Smith

Quem nos acompanha mais atentamente por aqui cansou de nos ouvir falar da improvável rota que levou Smith (31-14 no MMA, 7-3 no UFC) à disputa do cinturão contra o mais talentoso lutador da história. Pouco foi falado que ele chegou nocauteando dois veteranos longe de seus auges e finalizando um inexperiente depois de perder os dez minutos iniciais. Enfim, após o esperado vareio de Jon Jones, chegou a hora de Smith mostrar onde realmente está.

Ainda que se relativizem os adversários, a mudança para o meio-pesado se mostrou tão correta quanto necessária. Smith se tornou um lutador atleticamente mais confiável, mais forte, mais resistente. Deste modo, consegue fazer com que a resiliência, sua principal característica, seja realçada. O americano tem um arsenal ofensivo satisfatório: embora não seja um esplendor técnico, ele consegue fazer de tudo. Na defesa, deixou de ser horroroso no chão, embora ainda seja este um calo ósseo que dói quando pressionado.

Alexander Gustafsson vs Anthony Smith odds - BestFightOdds

Gustafsson é mais lutador que Smith em todos os aspectos que o MMA oferece. Talvez a mentalidade seja mais instável, mas ainda não sabemos como Anthony voltará após “ser posto em seu lugar” por “Bones”.

Quais seriam os caminhos para Smith conseguir uma improvável vitória? Caçar Gustafsson e encurralá-lo na grade não deve passar pela cabeça do americano, sob pena de levar dibre até a aurora boreal. Arrastar o sueco para águas profundas, em guerra fisicamente torturante, requer dominá-lo na luta agarrada ou atraí-lo para a pancadaria franca, diminuindo o gap técnico, o que não parece ser viável.

Smith pode capitalizar num momento de empolgação de Gustafsson, numa hora de “agora eu SE consagro”. É possível? Sim. Smith é um matador oportunista. Deve acontecer? Difícil Alex repetir o erro que cometeu contra “Rumble” Johnson.

Sendo assim, a expectativa é que Gustafsson imprima um ritmo forte na mais longa distância possível e execute quedas pontuais para quebrar eventuais esforços ofensivos de Smith, vencendo por decisão ou mesmo por nocaute no quinto round.

Peso Meio-Pesado: #11 Jimi Manuwa (ING) vs. Aleksandar Rakic (AUT)

Por Bruno Costa

O inglês nascido na Califórnia Jimi Manuwa (17-5 no MMA, 6-5 no UFC) já teve melhores momentos na carreira. Muito dependente da potência física para implementar com competência o jogo no qual se sente mais favorável, de colocar o adversário contra as grades e fazê-lo errar, o inglês sofre na fase final da carreira por ver diminuída sua resistência, natural para quem completou 39 anos em fevereiro.

Em que pese tenha resistido com dignidade em momentos difíceis contra Thiago Marreta em seu último compromisso, sua terceira derrota seguida, Manuwa tem apresentado declínio físico e técnico luta após luta. O gancho de esquerda continua sendo o principal golpe e toda a ação de Jimi tem a intenção de arrancar a cabeça dos rivais, mas a dificuldade em encontrar o momento correto para utilizar as limitadas explosões disponíveis ao longo do combate prejudicam o estilo imposto noutros momentos.

Austríaco de origem sérvia, Aleksandar Rakic (11-1 no MMA, 3-1 no UFC) surge como uma das poucas jovens esperanças na péssima categoria dos meios-pesados. Mesmo que não pareça ter a experiência necessária, está sendo alçado prematuramente ao top 10 da categoria por falta de outros prospectos merecedores de oportunidade antes do europeu.

Os chutes baixos e o bom ritmo para um lutador de seu tamanho são as principais armas de Rakic, que se porta bem levando os combates à longa distância. Além da boa técnica e potência nos golpes retos, o trabalho de clinch e quedas, com bom controle posicional, já foram utilizados nos combates realizados pelo UFC, mas a rápida subida no nível de oponentes será um teste para comprovar se a capacidade em variar o jogo estará sempre disponível.

Aleksandar Rakic vs Jimi Manuwa odds - BestFightOdds

Na última vez que Rakic se apresentou no octógono, teve algumas dificuldades contra Devin Clark e chegou a ser levado a knockdown, coincidentemente pelo golpe que é especialidade de Manuwa. Em se enxergando a situação com otimismo, o austríaco deve ter trabalhado muito durante o camp de treinamentos para não ser acertado em cheio pelo devastador gancho de esquerda do “Poster Boy”.

A capacidade de definir o combate de Manuwa não deve ser subestimada, mesmo que em evidente declínio na carreira. Além da reconhecida potência, a experiência de octógono é um fator a favor do inglês, que pode capitalizar caso seu adversário repita algum tipo de desleixo ao desferir chutes baixos em busca de pontuação ao longo do combate.

A luta do sábado tem alto potencial explosivo. A aposta é que Rakic seja capaz de imprimir bom ritmo, controlando a primeira metade da luta mantendo a distância e buscando trabalhar quedas, partindo para uma abordagem mais agressiva na segunda metade do combate, em busca de uma interrupção que abrirá caminho no top 15 ao jovem prospecto.

Peso Pena: Makwan Amirkhani (FIN) vs. Chris Fishgold (ING)

Por Rodrigo Rojas

Nascido no Irã, Makwan Amirkhani (14-3 no MMA; 4-1 no UFC) e sua família foram afetados pela guerra no Oriente Médio. Ainda criança, refugiou-se na Finlândia em busca de uma vida melhor. A adoção pelo novo país foi tão expressiva que o lutador –  o único de origem curda a atuar na maior organização do MMA mundial – hoje é conhecido como “Mr. Finland”.

Aos 26 anos, Amirkhani estreou no UFC gerando muito hype ao nocautear Andy Ogle com uma joelhada voadora em apenas oito segundos. Após isso, consolidou-se com mais duas vitórias, até que foi parado em uma batalha de prospectos contra Arnold Allen. No ano passado, recuperou-se ao vencer uma luta muito animada contra Jason Knight, ainda que tenha levado diversos knockdowns no processo. A baixa frequência de lutas – Makwan atuou cerca de uma vez por ano desde que entrou no UFC – prejudica a carreira no alto nível do talentoso iraniano, que ainda não atingiu tudo o que prometia na empresa.

Treinado no wrestling desde os 4 anos de idade, Amirkhani demonstra muita habilidade na luta agarrada. As quedas são muito efetivas, assim como o jogo por cima, com passagens de guarda constantes e um ground and pound ocasional, mas muito potente. Ele ainda mostra capacidade de encaixar finalizações quando o oponente abre brechas. A trocação, desenvolvida na SBG de Conor McGregor, ainda é rudimentar e conta com uma movimentação que serve basicamente para abrir espaço para as quedas, além de eventuais contragolpes com a mão direita. Nas últimas apresentações, Amirkhani mostrou diversas falhas no sistema defensivo, sendo muito atingido em pé e expondo-se para finalizações diversas vezes.

Chris Fishgold (18-2-1 no MMA; 1-1 no UFC) é mais um inglês de bom nível dentro da principal organização do MMA. O lutador veio do Cage Warriors como peso leve e baixou aos penas ao entrar no UFC. Na estréia, foi pareado com Calvin Kattar, sendo nocauteado pelo promissor americano ainda no primeiro round, apesar de ter feito uma boa luta enquanto durou. No último embate, recuperou-se ao estrangular Daniel Teymur no segundo round.

O inglês chegou ao MMA através do jiu-jítsu, área na qual mais se destaca. O jogo no chão é muito agressivo, com preferência por botes no pescoço, com guilhotinas e mata-leões. A agressividade no chão é tão expressiva que chega a ser prejudicial, fazendo com que Fishgold perca muitas posições de maneira desnecessária – ele foi revertido inclusive por Teymur, que não é conhecido pelo grappling. A trocação é muito básica, composta principalmente por potentes socos abertos sem muita técnica enquanto anda para a frente, sempre com a intenção de levar a luta para o chão de qualquer jeito, já que o wrestling não é dos mais desenvolvidos.

Chris Fishgold vs Makwan Amirkhani odds - BestFightOdds

Pelo que ambos mostraram no UFC, Fishgold parece ter a melhor trocação. Porém, Amirkhani, wrestler muito superior, deve decidir onde a luta irá transcorrer. Assim, no duelo entre dois grapplers de origem, o iraniano deve derrubar à vontade e passar a maior parte do tempo por cima, avançando posições, acertando alguns golpes potentes e rejeitando as (várias) tentativas de finalização do adversário, que será bastante agressivo, tanto em pé quanto de costas para o chão. Portanto, daremos um voto de confiança para o azarão nas casas de apostas: Makwan Amirkhani por decisão.

Peso Galo: #12 Tonya Evinger (EUA) vs. #13 Lina Lansberg (SUE)

Por Gustavo Lima

Por mais que se trate de um combate entre as número #12 e #13 do peso galo feminino, a impressão que temos ao analisar o casamento deste combate de recuperação é que a estabilidade no UFC está em jogo para as veteranas Lina Lansberg (8-4) e Tonya Evinger (19-8). As duas atletas de 37 anos não possuem retrospecto recente bom (compartilhando derrotas recentes para a mesma Aspen Ladd, inclusive) e precisam da vitória neste sábado para manter a relevância em meio a adição de alguns novos nomes e mudança de panorama pela qual a categoria passa.

Lansberg tem o irregular retrospecto de 2-3 no UFC, intercalando derrotas e vitórias desde a estreia, quando foi trucidada por Cris Cyborg no peso pena. Apesar do bom preparo físico e resiliência notável, podemos dizer que o cartel recente da sueca com estilo de luta alicerçado no muay thai reflete algumas limitações demonstradas dentro do octógono.

Se é no striking que reside a grande valência de Lina, não é comum vê-la sendo superada nessa área do jogo pela dificuldade grande que possui em lutar em média e longa distância – aparentemente uma dificuldade de adaptação muito maior do que falta de técnica por si só, dadas as condecorações no kickboxing. Com seus principais fundamentos e planos de luta pautados no clinch e na curta distância, num infighting muitas vezes imprudente, não é difícil ver Lansberg engolir muitos golpes em aproximações desesperadas e ser contragolpeada ao arriscar alguns power punches de longe.

É justamente pelo aspecto versatilidade que Tonya Evinger apresenta perigo, contando com boa trocação e jogo de chão agressivo. Mesmo que o retrospecto sob a bandeira do UFC seja um deficitário 0-2, a “Ameaça Tripla” foi por muito tempo considerada a melhor peso-galo fora da organização e possui experiência de sobra para preocupar qualquer adversária do meio do top 15 para baixo.

Evinger é mais alta e dona de maior envergadura que Lansberg, mas as duas últimas apresentações passaram a sensação de que a idade começou a pesar e tanto a resistência quanto a explosão de Tonya estão indo embora. A condição física da estadunidense é um fator crucial nesta luta, já que um cenário muito possível consiste na mesma utilizar quedas oportunas durante as aproximações da “Rainha das Cotoveladas” para botar em prática seu bom jiu-jítsu e seu ground and pound sólido e oportuno.

Durante os compromissos de imprensa do evento, Lansberg disse esperar uma “guerra” contra Evinger. A estratégia de trocar bombas (que Lina parece adorar) pode ser benéfica neste duelo, já que, mesmo com a dificuldade pontuada no segundo parágrafo, dificilmente a norte-americana aguentará três rounds de um duelo de resistência e coragem sem ter um comprometimento considerável de sua explosão e força física.

Lina Lansberg vs Tonya Evinger odds - BestFightOdds

Esses diferentes cenários e fatores trazem a garantia de um duelo competitivo e interessante, com pouca certeza de como o mesmo deverá transcorrer, dependendo um bocado de qual estratégia será adotada pelas atletas. Acredito que, pela necessidade maior da vitória, Evinger será mais pragmática que o usual e terá o braço levantado por decisão, com possibilidade de finalização.

Peso Leve: Stevie Ray (ESC) vs. Léo Santos (BRA)

Por Matheus Costa

O escocês Stevie Ray (22-8 no MMA, 6-3 no UFC) é uma das gratas surpresas que a extensa divisão dos leves proporcionou nos últimos anos. Longe de ser um prospecto ou um lutador que chegará longe na divisão, o “Coração Valente” sempre proporciona lutas animadas. Depois de chegar ao UFC sem grande badalação, somou boas vitórias no octógono sobre nomes tarimbados como Joe Lauzon e Ross Pearson.

Kickboxer de origem, Ray se destaca pelo estilo técnico e a preferência por alternar golpes na cabeça e no tronco. Outro ponto positivo do atleta é sua atuação no clinch, situação na qual se torna bastante agressivo e usa bastantes cotoveladas e joelhadas. Entretanto, Stevie possui uma péssima defesa de golpes, principalmente em contragolpes. Outro ponto negativo a ser ressaltado é grappling do atleta, embora ele possua um bom nível no jiu-jítsu defensivo.

São 32 meses desde a última vez que Léo Santos (16-3-1 no MMA, 5-0-1 no UFC) competiu no UFC. Hoje, aos 39 anos, o faixa-preta retorna ao MMA para dar sequência à sua boa fase, com a incerteza de como o seu corpo irá reagir após a enorme pausa devido a sucessivas lesões. Um dado interessante sobre o veterano é o número de lutas realizadas na organização, competindo em seis oportunidades desde sua chegada em 2013 – algo que certamente atrapalhou a progressão de sua carreira.

Campeão do TUF Brasil 2, Léo é um dos principais representantes do jiu-jítsu no MMA e possui uma técnica na luta agarrada acima da média, algo que geralmente destoa de seus adversários. Um ponto positivo do brasileiro é a sua evolução ao longo do tempo na luta em pé, deixando de ser totalmente cru. Hoje, ele se tornou um striker decente, sempre usando combinações básicas e nada além disso. Um ponto preocupante é o seu preparo físico, que já lhe deixou na mão em mais de uma oportunidade e deve vir à tona com o longo período de afastamento.

Leonardo Santos vs Stevie Ray odds - BestFightOdds

O primeiro duelo do card principal é o clássico confronto entre striker e grappler, mas que traz alguns pontos interessantes. O principal é o hiato de Santos, que certamente influenciará o rumo e o contexto do duelo de sábado. Afinal, será que o brasileiro será capaz de, após três anos, retomar o bom nível que sempre demonstrou no octógono? Complicado.

Em condições normais, minha aposta seria no homem que já finalizou Georges St. Pierre no ADCC, mas 32 meses é muito tempo, principalmente para um atleta que beira os 40 anos. Portanto, prefiro manter uma postura segura: vitória de Stevie Ray, por decisão unânime dos juízes.