Por Idonaldo Filho | 20/12/2019 16:17

Para fechar o ano de 2019 o UFC chega à Coréia do Sul com o UFC Busan. Com um card recheado de lutadores locais, o evento é mais um daqueles montados para agradar o público presente na arena, entretanto boas lutas se apresentam, incluindo a principal, envolvendo dois dos maiores favoritos dos fãs. Encabeçando o evento Frankie Edgar deverá fazer sua última luta no peso pena contra o principal sul-coreano do UFC, Chan Sung Jung, o Zumbi Coreano. Antes deles, o segundo sul-coreano mais famoso do plantel, Doo Ho Choi recebe o canadense Charles Jourdain, também pela categoria até 66 kgs. Entre ambas lutas de peso pena, no evento coprincipal, os pesos meios-pesados Volkan Oezdemir e Aleksandar Rakic competem para se firmar dentro do top 10 da categoria.

Ainda no card principal teremos Jung da Un contra Mike Rodriguez no peso meio-pesado, Park Jun-yong enfrentando Mark Andre-Barriault na categoria até 77kgs e, abrindo a parcial, o peso galo Kang Kyung-Ho busca manter sua boa sequencia contra Pingyuan Liu.

O UFC Bosan vai ao ar nesta madrugada de sexta para sábado, com exibição integral pelo Canal Combate, o card preliminar tem horário previsto de início às 04:00h e a porção principal do evento, às 07:00h, sempre no horário oficial de Brasília.

Peso pena: #4 Frankie Edgar (EUA) vs. #6 Chan Sung Jung (COR)

Por: Thiago Kühl

Frankie EdgarDepois de mais uma fracassada tentativa de buscar o cinturão da categoria até 66 kgs o ex-campeão dos leves Frankie Edgar (23-7-1 no MMA; 17-7-1 no UFC), indicou que faria uma decida de peso e chegou a ter luta marcada nos galos contra Cory Sandhagen, porém com a lesão de Brian Ortega aceitou o chamado da organização e, ao menos por mais uma luta, continuará na categoria que habita desde 2013. O americano já dá sinais há algum tempo que o final da carreira se aproxima, porém segue enfrentando competição de alto nível, inclusive tendo sua última luta sido pelo cinturão da categoria, contra o agora ex-campeão Max Holloway. Naquela oportunidade, não chegou a passar vergonha, mas não conseguiu em momento algum fazer frente ao havaiano, o que sinaliza que, dentro da elite dos penas, Edgar dificilmente encontrará lugar novamente.

Sua origem vem do Wrestling, mas foi no volume e na velocidade, com um boxe afiado pelas mãos do treinador Mark Henry que Edgar fez fama no MMA. Com uma movimentação muito acima da média e uma capacidade enorme de fazer o entra-e-sai sem ser atingido, era muito difícil de encontrar o baixinho, mesmo tendo lutado a carreira inteira contra gente maior. Para complementar o striking, utiliza seu background de quedas para mesclar e o jogo, tendo bastante fluidez nas transições entre o jogo em pé e o jogo de chão. Uma vez no solo possui eficiente ground and pound e jiu-jitsu de alto nível, treinado por Ricardo Cachorrão e Renzo Gracie.

Todo esse ritmo intenso, aliado a uma capacidade cardiorespiratória e um coração do tamanho do mundo, transformaram Frankie num favorito dos fãs, mesmo não tendo tido uma carreira das mais estelares. Entretanto a idade já pesa e o dano acumulado parece estar começando a cobrar seu preço, tornando cada vez mais árduo a aplicação de um jogo tão dependente de uma capacidade física no estado da arte.

Chan Sung Jung (15-5 no MMA, 5-2 no UFC) tal qual seu adversário, é um favorito dos fãs que chegou a frequentar a elite da divisão do peso pena, tendo inclusive uma chance pelo cinturão em 2013, na época entregou boa luta contra José Aldo, mas uma lesão no pé somada à dificuldade de lidar com um gênio do tamanho do brasileiro, impediram o Zumbi Coreano de integrar o enxuto rol de campões até 66 kgs. Após a disputa, por obrigações militares e algumas lesões, Jung ficou longe do octógono por quartro anos, desde seu retorno duas vitórias, ambas por nocaute, na reestreia contra Dennis Bermudez e em sua última luta contra Renato Moicano, entre elas viu a vitória escapar literalmente no último segundo por causa da genial cotovelada de Yair Rodriguez.

A fama que precede o Zumbi vem desde seus tempos de WEC, personagem de várias guerras antológicas do MMA, com jogo baseado em uma mistura de varias artes de trocação, um coração gigante, nenhum medo de tomar soco na cara e faro de finalizações, o coreano não demorou para ter destaque entre aqueles que acompanham o esporte mais atentamente. Com o passar do tempo, foi se tornando mais preciso e estratégico, deixou um pouco de lado a postura alucinado e conquistou o direito de disputar o cinturão. Após o retorno, mesmo com alguma ferrugem, continuou mostrando ser um lutador muito perigoso e que se mantém num nível próximo daquele que teve no passado.

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À parte de qualquer desgaste de ambos, se a luta ocorresse em 2013, minha aposta seria bem tranquila em Edgar, com um jogo de grappling bem melhor, certamente conseguiria derrubar o coreano e controlar a luta, fora que a resistência de “The Answer” sempre foi acima da média, de forma que Jung teria que cortar um dobrado para levar a melhor na luta.

Porém, no tempo que Chan Sung Jung esteve afastado do MMA, Edgar fez um total de dez lutas no UFC, incluindo a segunda contenda contra Aldo e mais um punhado de lutas de cinco rounds, a última das dez, inclusive, foi o brutal nocaute sofrido contra Brian Ortega. O desgaste do americano é evidente e, mesmo que tenha tido atuações de bom nível, nada se compara ao lutador de ritmo insano do passado. Para o Zumbi, o tempo não parece ter sido tão cruel, sem lutar profissionalmente o coreano parece continuar de onde parou, este, imagino eu que será o ponto de desequilíbrio da luta, de forma que Edgar deve sofrer uma nova derrota na carreira, seja por interrupção ou mesmo decisão, se prevalecer o coração gigante do baixinho de New Jersey.

Peso meio-pesado: #8 Volkan Oezdemir (SUI) vs. #10 Aleksandar Rakic (AUS)

Por: Idonaldo Filho

As três vitórias seguidas de Volkan Oezdemir (16-4 no MMA, 4-3 no UFC) e o grande impacto inicial gerou um certo hype no suiço, mas logo ele foi derrotado impiedosamente por Daniel Cormier e entrou em péssima fase, emendando três derrotas seguidas – as outras duas contra Anthony Smith e Dominick Reyes. Em agosto encarou Ilir Latifi e voltou a coluna das vitórias com uma sequência sobre o já combalido adversário na grade. Para essa peleja em específico o “No Time” fará o trabalho de porteiro, por ser mais ranqueado e enfrentar um oponente em alta.

Membro da Combat Club e treinado por Henri Hooft, Oezdemir é um bom kickboxer e bastante preciso em seus golpes. Como se trata de um ex-peso pesado, já é de se esperar que Volkan bata muito forte, possuindo uma eficiência assustadora com golpes curtos que já produziram nocautes memoráveis em sua passagem no UFC, mesmo sendo consideravelmente lento. Volkan é um lutador competente também no clinch, porém nem tanto no chão. O jiu-jítsu é de baixo nível, o wrestling defensivo também não inspira muita confiança ainda que tenha evoluído. O seu grande ponto fraco é o condicionamento físico, totalmente deplorável e que já o deixou na mão diversas vezes, sem falar em algumas escolhas erradas em combate.

Aleksander Rakic (12-1 no MMA, 4-0 no UFC) chegou no líder do mercado como um atleta pouco conhecido e com lutas em eventos regionais de seu país. Sua estreia contra Francimar Bodão não foi lá a melhor das lutas, mas contra Justin Ledet vimos uma surra totalmente unilateral e aí sim Rakic se mostrou um atleta promissor. O status de prospecto de elite foi confirmado nos duelos posteriores, dois nocautes no primeiro assalto contra Devin Clark e Jimi Manuwa – o último um dos mais belos do ano.

Versado no Muay Thai, Rakic é bastante atlético e tem boa estatura para a categoria. O austríaco tem preferência por golpes mais pesados como diretos e uppercuts, colocando sequências curtas porém poderosas, ainda que previsíveis. O destaque do jogo de Rakic são os excelentes chutes, que constantemente são aplicados na perna do oponente e causam um estrago significativo no decorrer da luta. Aleksander é bem forte e já tentou algumas quedas na base da grosseria, contando com um ground and pound muito perigoso. Uma máquina ofensivamente, Rakic deixa muito a desejar na parte defensiva, deixando muitas vezes o rosto sem guarda e várias brechas por muitas vezes preferir golpes mais abertos e não repondo a defesa na velocidade ideal.

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Em uma luta totalmente aleatória para ser feita na Coréia, de início impressão é que será um passeio de Rakic e a consolidação dele no top 10 – onde já está colocado. Não é bem assim. Há uma certa diferença de velocidade entre os atletas, com Aleksander levando vantagem, só que Volkan é muiito duro e já mostrou que precisa de apenas um golpe para levar a luta. Como não confio nem um pouco na defesa de Rakic, a aposta é que Oezdemir consiga mais um nocaute freando o crescimento do prospecto.

Peso pena: Doo Ho Choi (COR) vs. Charles Jourdain (CAN)

Por: Gabriel Carvalho

Doo Ho Choi

Doo Ho Choi (14-3 no MMA, 3-2 no UFC) está de volta após quase dois anos de hiato. Após a gigantesca batalha com Cub Swanson em 2016, ficou um longo tempo afastado até sofrer um nocaute brutal contra Jeremy Stephens no começo de 2018.

Choi sempre conviveu com lesões em sua passagem pelo UFC. Quando costumava lutar com frequência, era um sujeito bem perigoso com boxe alinhado e potente. Punhos capazes de causar bastante estrago na curta distância. O que ficou escancarado nas derrotas recentes foi a exposição do queixo. Não sabemos como voltará após um grande período afastado.

Destaque do MMA canadense, Charles Jourdain (9-2 no MMA, 0-1 no UFC) topou o desafio de enfrentar Desmond Green na categoria de cima, e acabou derrotado, mas chamou atenção para uma segunda chance.

Jourdain é o tipo de lutador que foca bastante no jogo ofensivo. Parte para cima como se não houvesse amanhã, e traz bastante perigo com sua técnica. O wrestling defensivo acaba sendo um problema, mas o casamento contra Choi permite algo mais empolgante.

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Atacar é algo que faz parte da natureza de Choi e de Jourdain. Portanto, a esperança de uma luta chata é bem pequena por aqui. O sul-coreano larga com favoritismo, mas não é uma luta lá muito fácil e ele corre alguns riscos. De qualquer maneira, o palpite será Choi por nocaute ainda na primeira parcial de luta.

Peso Pesado: Ciryl Gane (FRA) vs. Tanner Boser (CAN)

Por: Idonaldo Filho

Um dos nomes mais promissores da pobre categoria dos pesados, Cyril Gane (5-0 no MMA, 2-0 no UFC) vem como novidade e promete chegar ao topo da divisão muito em breve. Destacado pelo MMA Brasil antes de assinar pelo evento, Gane chegou como campeão do TKO MMA e com pompa de striker de elite. Uma vez no UFC surpreendeu todos com duas finalizações, incluindo uma chave de calcanhar em seu último duelo contra Dontale Mayes. Com pouca experiência, porém talento de sobra, é interessante ver que o UFC trata o francês com cautela e deixa ele se desenvolver melhor antes de ser alçado aos nomes mais relevantes da divisão.

Um espécime de raridade em uma categoria povoada por lutadores que fazem muita pessoa comum se sentir atleta, Gane se movimenta bem, possui condicionamento acima da média e tem uma envergadura gigante (2,11m), utilizando ela com eficácia. Campeão regional de muay thai e cobiçado pelo Glory, Gane não tem tanta potência como seu parceiro de treinos Francis Ngannou, mas é muito melhor tecnicamente e tem uma variedade superior. Cyril ataca com sequências eficientes e atuando muito bem tanto na longa distância, quanto também na curta, sendo uma ameaça no clinch com poderosas joelhadas. Onde teoricamente seria seu ponto fraco, o grappling, Gane mostrou evolução e finalizou os dois adversários com muita facilidade no UFC, impressionando os fãs que conheciam sua trajetória no cenário regional e sua preferência pela trocação.

Tanner Boser (17-5-1 no MMA, 1-0 no UFC) é jovem para a categoria com somente 28 anos, mas tem experiência de sobra e enfrentou diversos lutadores de bom nível pelo mundo. Como rodou bastante e mesmo com mais de vinte lutas não havia chamado a atenção de grandes organizações, sua contratação foi pega de surpresa. O canadense tem passagens pelo ACB, Akhmat, KOTC e só entrou no UFC após conquistar o cinturão do Unified MMA, evento de seu país natal. Boser fez sua estreia contra o fraco Daniel Spitz e não teve muitos problemas, vencendo na decisão dos juízes.

Conhecido como um dos lutadores mais chatos existentes – até mesmo para o padrão da categoria -, Boser é um pesado que preza mais pela movimentação do que pela contundência. “The Bulldozer” muito frequentemente faz as lutas virarem competição de encarada e nas poucas vezes que golpeia não mostra nada de potência, utilizando mais frequentemente chutes baixos fracos e vez ou outra tenta uma estranha cotovelada frontal que nunca dá certo. Pouco atlético, o condicionamento de Boser é curiosamente decente, muito por atuar em ritmo baixíssimo e não ter muito com o que gastar. No clinch costuma estar sempre em desvantagem, mas consegue travar bem o combate quando preciso. Ao menos se trata de um cara bastante duro e que aguenta pancadas.

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A diferença de atleticismo é simplesmente abissal. Temos um casamento covarde em termos de diferença técnica, Boser simplesmente é muito pior do que Gane em tudo o que é possível de se fazer em uma luta de MMA. Tanner pode oferecer resistência com a boa movimentação e resiliência, mas Gane deve conseguir um nocaute técnico na metade final do combate em uma candidata a surra do ano.