Por Edição MMA Brasil | 17/01/2019 13:10

Abrindo seu calendário em 2019, o UFC montará o octógono no Barclays Center para realizar o UFC Brooklyn, retornando mais uma vez para Nova York, nos Estados Unidos. Porém, antes de Henry Cejudo e TJ Dillashaw fazerem um confronto de campeões na luta principal da noite, algumas lutas interessantes acontecerão no card preliminar – que havia sido muito bem recheado pela organização.

Muitos estranhariam a presença do bom confronto entre os pesos leves Alexander Hernandez e Donald Cerrone como principal da porção inicial do evento, entretanto, ela está ali com um objetivo muito bem definido. Iniciando sua parceria com a ESPN, quatro combates do preliminar do evento serão transmitidos no canal principal da rede, buscando puxar assinantes para a ESPN + – seu serviço de streaming – onde serão mostradas as seis lutas mais importantes da noite.

Com a intenção de trazer boas lutas para conquistar um novo público, também foi posicionado aqui um duelo entre as pesos mosca Joanne Calderwood e Ariane Lipski, que promete diversos momentos de violência. Além disso, o americano Alonzo Menifield fará um confronto de estreantes contra o brasileiro Vinicius Mamute na categoria dos meios-pesados, com ambos tendo sido contratados via Contender Series.

Pulando algumas lutas menos interessantes, pescamos para ser analisado o combate entre Te Edwards e Dennis Bermudez, que sobre do peso pena para o leve buscando botar fim na má sequência que tem vivido.

Peso Leve: #11 Alexander Hernandez (EUA) vs. Donald Cerrone (EUA)

Por Thiago Kühl

Alexander Hernandez (10-1 no MMA, 2-0 no UFC) chegou no UFC com um compromisso dos mais difíceis para um estreante: enfrentar o duro Beneil Dariush com muito pouco tempo de aviso. Ainda que estivesse fazendo um camp para lutar no Fury FC, a missão parecia quase impossível. Para a surpresa de muitos, o texano conseguiu um belo nocaute com menos de um minuto. Quatro meses depois, ele atravessou a fronteira e conseguiu uma ótima vitória sobre Olivier Aubin-Mercier. Assim, as duas vitórias contra ex-integrantes do ranking já jogaram o prospecto para a 11º posição na categoria mais complicada do UFC.

Alexander treina todas as modalidades desde muito novo. Wrestler desde os 12 anos, faixa preta de jiu-jítsu, com uma trocação precisa e potente, além de um preparo físico invejável, o americano de 26 anos é o tipo de lutador que deve dominar o MMA daqui para frente: sem ser especialista em uma área do jogo, mas com bom nível em todas elas. Com isso, ele possui a capacidade de encaixar bem os estilos de acordo com seus adversários. A expectativa que se formou em torno de “The Great” durante 2018 não é para pouco, o prospecto parece ser material para integrar a parte alta do top 10 da divisão.

Maior número de vitórias, maior número de interrupções, segundo maior número de lutas. Donald Cerrone (34-11 no MMA, 21-8 no UFC) é definitivamente um dos grandes da história do maior evento do mundo, mesmo sem nunca ter vencido uma disputa de cinturão. O retrospecto recente, entretanto, não faz jus a sua carreira. Após uma boa série de quatro vitórias em 2016, ele acumula um 2-4 nas suas últimas seis lutas, todas no peso meio-médio. Após bater Mike Perry com uma bela finalização em novembro, o Cowboy decidiu voltar à categoria em que teve mais sucesso durante a carreira.

Um dos motivos pelo qual Cerrone luta tanto – além do fato de ser pródigo – é a atratividade do seu jogo no lado ofensivo. Sua trocação é excelente, plástica, com combinações precisas e potentes, ótimo controle de distância e com arsenal de chutes perigosos. No chão, ele tem um jiu-jitsu muito justo, responsável por 17 finalizações durante a carreira, seja pegando as costas ou da guarda, Donald é muito perigoso contra aqueles que vacilam no chão – Mike Perry é prova viva disso. Para ajudar a aumentar o nível do entretenimento que entrega, a parte defensiva de seu jogo nunca foi páreo para o arsenal de ataque. Buracos explorados por seus adversários já lhe renderam alguns nocautes duros e algumas surras épicas – como na fenomenal luta contra Nate Diaz. A defesa de quedas até melhorou ao longo dos anos, mas não tem calibre para parar wrestlers acima da média.

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As duas lutas de Hernandez no UFC mostram um lutador com características que já dificultaram bastante a vida de Cerrone. Enfrentando Dariush, ele encontrou brechas para deixar o adversário babando ainda no primeiro round e, contra Aubin-Mercier, mostrou um jogo de quedas muito inteligente contra um grappler de elite, o que já justifica a boa vantagem que o novato possui contra o veterano nas casas de apostas.

Se isso já não bastasse, a fase medíocre de Cerrone serve como um agravante da situação. É verdade que o jogo ofensivo do Cowboy pode até aparecer tanto no chão quanto em pé, ele tem talento para isso. Porém, sem que Alexander tome alguma decisão idiota durante o combate, deveremos ver mais uma passagem de bastão acontecendo nesta luta, seja com uma vitória por decisão ou até mesmo com um nocaute.

Peso Mosca: #10 Joanne Calderwood (ESC) vs. Ariane Lipski (BRA)

Por Bruno Costa

Joanne Calderwood (12-3 no MMA, 4-3 no UFC) chegou à organização com um cartel perfeito e como cabeça de chave número 2 no TUF que introduziu o peso palha ao UFC. Sua participação no torneio foi interrompida em seu segundo combate e acabou por não lhe render uma disputa pelo cinturão da categoria. Ainda, apresentou inconsistência no octógono quando enfrentou oponentes de alto nível, como Jéssica Andrade e Cynthia Calvillo, além de ter sido surpreendida por Maryna Moroz. Mesmo em suas vitórias no peso palha, JoJo não teve atuações cheias de segurança.

Talentosa striker, a escocesa demonstrou falta de velocidade e dificuldades em imprimir bom volume de golpes como peso palha, talvez influenciada pelo brusco corte de peso para atingir o limite da categoria. Na divisão das moscas, teve duas boas atuações (contra Valérie Létorneau a categoria sequer havia sido oficializada no UFC), mas parece não ter evoluído suficientemente a vazada defesa de quedas.

 

Ariane Lipski (11-3 no MMA) estreia no UFC cercada de grandes expectativas pelas empolgantes performances e estilo de luta atraente ao fã de MMA que gosta de ver a chinela cantar. A ex-campeã do KSW era dos talentos mais importantes na faixa de peso fora da organização e uma importante aquisição para a continuidade da categoria.

Primariamente uma striker de muita potência, a brasileira desenvolveu ao longo da carreira consciência tática para dosar seu fôlego e melhorar o jogo de pernas, com o fim de exercer pressão em suas adversárias com paciência e competência. Quando sente o momento de explodir, apresenta arsenal ofensivo acima da média, com mãos pesadas e atleticismo o suficiente para variar as ações e colocar as adversárias de costas para o solo, trabalhando o ground and pound, se necessário. A agressividade no solo por vezes compromete a parte defensiva, algo a se observar no sábado quando Lipski enfrentar uma oponente oportunista.

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As dificuldades demonstradas por Calderwood quando colocada de frente com lutadoras de grande capacidade atlética apontam para um confronto desfavorável no próximo sábado, em que pese Lipski não alie à vantagem física o grappling que serve como receita para complicar a escocesa.

O combate promete entregar muitas ações na luta em pé. Calderwood precisa trabalhar com pouca margem de erro e sem desleixo seus chutes e joelhadas na longa distância, aliando ao trabalho no clinch, uma das especialidades da casa. O problema é a potência de sua adversária, que gosta da ideia de trabalhar na curta distância. A aposta para a luta é que a brasileira consiga evitar as especialidades de JoJo, encurralar a adversária contra a grade, acertando os golpes mais contundentes e garantindo uma vitória por decisão em sua estreia no octógono.

Peso Meio-Pesado: Alonzo Menifield (EUA) vs. Vinicius Mamute (BRA)

Por Idonaldo Filho

Mais um dos lutadores da Fortis MMA que o UFC contratou por meio do Contender Series, Alonzo Menifield (7-0 no MMA, 0-0 no UFC) é um atleta que, se bem trabalhado, pode ser promissor. Essa expectativa pode ser percebida por suas vitórias, quase todas rápidas e por nocaute. No LFA, ele venceu três combates, dois por nocaute e um por finalização. Em sua primeira passagem pelo programa de Dana White que busca revelar talentos Menifield enfrentou Daniel Jolly mas, ao vencer após uma lesão no olho do oponente, não recebeu o contrato. Em sua segunda chance, fez o chefe sorrir ao nocautear seu adversário em apenas 8 segundos, derrubando Dashawn Boatwright no primeiro soco e terminando no ground and pound.

Alonzo é do tipo de lutador com estilo de jogo que entretém. Ataca sem muita preocupação, seja soltando golpes potentes isolados ou emendando sequências andando pra frente, sem nunca fugir do combate. Atlético e forte, já mostrou conseguir quedas contra adversários de menor nível e chegou a obter uma finalização em seu último compromisso no LFA. A parte defensiva, por sua vez, tem que ser melhor trabalhada. Ele foi quedado múltiplas vezes por Daniel Jolly, que está em um nível bastante baixo se comparado com a concorrência no UFC. De toda forma, Menifield tem vaga no top 15 da combalida categoria dos meios-pesados apenas por seus atributos físicos, mas ele necessita de mais refino técnico, o que ainda é possível na sua idade. Com 31 anos, o americano tem uma longa estrada até chegar no seu melhor.

Com pouco mais de três anos como profissional, Vinicius “Mamute” Alves (9-1 no MMA, 0-0 no UFC), assim como seu oponente, é um lutador de carreira ainda curta no MMA. Entretanto, ainda não mostrou tanto potencial quanto o americano. O brasileiro chegou a conseguir quatro vitórias no circuito nacional, até ser nocauteado por Rafael Celestino em seu quinto combate. Após a derrota, decidiu partir pra Índia, entrando no exótico SFL, evento em que os lutadores são divididos em times e a oposição é da pior qualidade possível. Lá, ele finalizou quatro oponentes e recebeu a chance no Contender Series Brasil, palco onde surpreendeu John Allan com um triângulo e assegurou o contrato.

Por mais que seja compreensível a contratação de Vinícius pelo UFC após a ótima virada em sua luta no Contender Series, é difícil crer que o mesmo aconteceria considerando apenas as suas demais lutas. O nível de Mamute na luta em pé é péssimo. A lentidão em sua movimentação, reação e golpes torna ele um lutador unidimensional, que busca sempre levar a luta para o solo, seja para aplicar um potente, porém lento, ground and pound, ou buscar finalizações. Nesse quesito, o brasileiro mostrou boas chaves de braço e triângulos, mas tem dificuldades de aplicar quedas, muitas vezes caindo por baixo dos seus oponentes. Sua defesa de golpes é nula, já que em vez de fazer guarda, se abre quando recebe golpes. Para sua sorte, possui uma absorção de golpes que o permitiu ir um pouco mais longe na carreira.

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A defesa de quedas de Menifield é bastante rudimentar, porém, considerando que a técnica do brasileiro para derrubar seus adversários também é bem ruim – valendo-se quase que exclusivamente se seu grande porte – a tendência é que o combate transcorra em pé, onde a vantagem é toda do americano. Mais rápido e com maior poder de nocaute, caso Alonzo não faça nenhum movimento digno de barangão, Vinicius estará em apuros com seus socos em câmera lenta. Um nocaute fácil para o americano no primeiro assalto é a aposta.

Peso Leve: Dennis Bermudez (EUA) vs. Te Edwards (EUA)

Por Idonaldo Filho

Um dos poucos que pode dizer que venceu o campeão Max Holloway, Dennis Bermudez (16-9 no MMA, 9-7 no UFC) está por um fio na organização. Finalista do TUF 14, ele acabou derrotado por Diego Brandão em 2011 na disputa pelo contrato de seis dígitos. Após essa derrota, Bermudez venceu sete lutas consecutivamente, terminando a sequência com uma finalização sobre Clay Guida. Quando chegou ao topo da categoria, foi barrado pela elite da divisão e sofreu derrotas nos duelos contra Ricardo Lamas e Jeremy Stephens. Conquistou mais duas vitórias seguidas e, quando parecia se firmar dentro do top 10 dos penas, apagou para um upper do Zumbi Coreano. Desde então, perdeu três lutas para decisões divididas muito contestáveis.

Lutador de muita força física, mas notória falta de sorte e pouca massa encefálica, Bermudez decidiu subir para a divisão dos leves para tentar salvar o seu emprego, já que estava com a imagem manchada entre os penas e sofria com o corte de peso. O lado ruim dessa decisão é que passará a enfrentar oponentes maiores, que podem resistir melhor ao seu jogo. Bermudez sempre atua fazendo muita pressão, com disputas de força na grade e, quando possível, imprime boas quedas. No chão, até mostra um bom domínio da luta, porém não é muito confiável na defesa de finalizações. Na trocação, é adepto da estratégia de socar para todos os lados. Por não ter nenhuma preocupação com a defesa, acaba sofrendo knockdowns com certa frequência.

Wrestler da primeira divisão da NCAA e treinando na MMA Lab, Te Edwards (6-2 no MMA, 0-1 no UFC) tem boas credenciais, mas deveria ser trabalhado mais com calma pela organização, tendo em vista sua curta carreira até agora. Edwards rodou bastante pelo cenário regional até ser notado e obter a vaga para o Contender Series, quando conseguiu seu contrato com um rápido nocaute em apenas 28 segundos sobre Austin Tweedy. Em sua estreia no UFC foi derrotado pelo parceiro de treinos de Cris Cyborg, Don Madge, que usou de seu bom striking para dominar o combate e conseguir o nocaute com um belo chute alto no início da segunda etapa.

Embora Te’Jovan tenha seu background na luta olímpica, ele só a utilizou em sua carreira em momentos de emergência, por exemplo quando foi bambeado por Don Madge no primeiro assalto de seu combate. O que vemos é um lutador que quer o nocaute a qualquer custo e, como a oposição que enfrentou no cenário regional era de baixo nível, a estratégia costumava sempre dava certo. Para conseguir seus nocautes, ele sempre se utiliza de um overhand como forma de se aproximar de seus adversários, para então soltar combinações abertas na curta distância, quase sempre bastante previsíveis, denotando muita falta de técnica, em que pese a grande potência nas mãos. Trata-se de um caso claro de lutador que não está totalmente preparado para a forte competição do UFC, e que ainda poderia buscar maior experiência no cenário regional contra oponentes mais rodados, de nível condizente com a sua experiência.

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É difícil ver Bermudez se criando no peso leve pela disparidade física que irá encontrar, principalmente na envergadura. Por mais que possa melhorar a absorção e talvez o gás – ou piorar devido a maior quantidade de massa corporal – uma das suas maiores vantagens no peso pena era justamente a diferença de força física diante de seus oponentes. Por outro lado, é importante ter em mente que Edwards não deveria estar no UFC, e que seu lugar neste momento da carreira poderia ser o LFA, o CES, ou qualquer outra organização menor, em que pudesse se desenvolver com calma e ter mais tempo para ajustar as brechas já citadas.

Não seria estranho ver Edwards conseguir alguns knockdowns com a sua trocação desengonçada entretanto, Dennis é um lutador muito mais experiente que já teve boas atuações contra concorrência de nível. Considerando que irá defender seu emprego fazendo uma luta de muito clinch e amarração na grade, podemos esperar uma vitória de Bermudez na decisão dos juízes, acabando com a maré de azar na marcação dos juízes laterais.