Por Edição MMA Brasil | 13/03/2020 15:04

Em meio a uma pandemia de coronavírus que vem aterrorizando o mundo, o UFC optou por ignorar os clamores e prosseguir com a realização do UFC Brasília, que terá portões fechados para evitar aglomerações – por ordem do governador do Distrito Federal. Mas tirando os problemas externos que afetam o planeta, o evento traz lutas bem interessantes, e isso não foge do card preliminar.

Perto de uma oportunidade para disputar o cinturão dos moscas, o brasileiro Jussier Formiga tenta se recuperar na divisão contra o promissor Brandon Moreno, que evolui cada vez mais e pode oferecer riscos ao jogo do experiente atleta da casa. Já pela categoria feminina dos moscas, a brasileira Amanda Ribas retorna para encarar a experiente Randa Markos em um duelo bem equilibrado.

Outros combates de destaque na porção preliminar da noite são entre Elizeu CapoeiraAlexey Kunchenko pela categoria dos meios-médios, o interminável Rani Yahya contra Enrique Barzola pela divisão dos galos e, por fim, Bruno Silva contra Sergey Dvorak nos moscas.

Peso Mosca: #3 Jussier Formiga (BRA) vs. #5 Brandon Moreno (MEX)

Por Gustavo Lima

Vindo de derrota, Jussier Formiga (23-6 no MMA, 9-5 no UFC) luta pra se manter na ponta de uma categoria que luta pra se manter viva. Se em algum ponto dos últimos 12 meses pudemos sugerir que o peso mosca estivesse nos trilhos para voltar a ser o que era, também tivemos que levantar a hipótese de que o momento de Formiga podia ter chegado. Hoje, a percepção pode ser bem diferente.

Em março do ano passado, o potiguar vinha de uma sequência de três vitórias que o elevaram ao ponto mais alto em que já esteve ao longo de sua duradoura carreira. Ben Nguyen, Sergio Pettis e (o hoje “rei sem coroa”) Deiveson Figueiredo foram enfileirados para que Jussier ganhasse uma nova chance contra Joseph Benavidez, que até então era, por consenso, o melhor atleta desta categoria a não se chamar Henry Cejudo. Após oferecer um duelo acirrado no primeiro assalto, Formiga acabara sendo derrotado por nocaute técnico próximo ao término do segundo.

O retorno do ótimo Brandon Moreno (16-5-1 no MMA, 4-3 no UFC) foi, inclusive, uma das atitudes do UFC que nos permitiram sugerir que a categoria dos moscas estava sendo reconstruída. Com uma única luta feita pelo LFA após ser liberado de seu contrato, o mexicano voltou ao octógono no último mês de setembro, em combate que terminou em empate dividido contra Askar Askarov em um dos duelos mais divertidos vistos na organização em 2019.

Em sua última aparição, Moreno derrotou o então embalado Kai-Kara France no UFC 245, em mais uma demonstração de que gradualmente tem se tornado um atleta mais completo, calmo e inteligente dentro da jaula. O atleta passou a postular uma cadeira na alta-cúpula da faixa de peso, que dependendo da ótica, hoje pode parecer um castelo de cartas prestes a receber uma ventania.

Apesar de nunca ter sido excepcional como um todo ou chamado a atenção por alguma característica capaz de complicar qualquer oponente nos moscas, Formiga tornou-se a passos de formiga (risos) um dos atletas mais respeitados da divisão justamente por saber amplificar suas chances ao explorar o melhor de cada uma das áreas de seu jogo contra diferentes tipos de oponentes. Dono de muita força física e resistência, o jiu-jiteiro não precisa confiar unicamente em sua luta agarrada, mostrando trocação justa e suficiente para fazer frente a alguns nomes que possuem o striking como especialidade.

Se em um corner teremos um atleta experiente que faz o básico muito bem e leva perigo por isso, temos do outro lado um atleta mais jovem que faz o básico com uma intensidade absurda. Ver Moreno lutar é quase sempre um presente para quem gosta de MMA, pois o mexicano deixar no cage tudo o que pode para sair com as mãos levantadas. Pouco a pouco, a imprudência vem dando lugar a um oportunismo mais racional, com Brandon se expondo menos a riscos desnecessários sem deixar de lado sua veia mais ofensiva.

Ambos tem fundamentação no grappling e possuem jiu-jitsu técnico e encardido, nunca negando um scramble quando necessário. É difícil cantar vantagem para qualquer um dos lados aqui, já que há uma equivalência enorme. Na carreira profissional, por exemplo, são dez finalizações para cada lado. O brasileiro costuma ter uma abordagem mais conservadora no chão do que Moreno, mas acho arriscado levar isso como base para apontar uma superioridade hipotética.

Já em pé, creio que um leve desequilíbrio passa a tomar forma. Brandon é um trocador infinitamente mais rápido, envolvente e volumoso que Formiga, que costuma se manter muito estacionário, favorecendo contragolpes precisos e esparsos. Se o mexicano pode se sentir um pouco acuado a princípio, a dificuldade que Jussier tem em manter a capacidade física ao longo da luta tende a aumentar os espaços e chances que Moreno tem para capitalizar sobre o oponente.

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De maneira muito pragmática, minha aposta é numa vitória de Brandon Moreno por decisão, um atleta que é capaz de fazer tudo o que Formiga faz num work-rate maior e provavelmente se tornará um dos cascudos dessa divisão se a mesma se mantiver firme e forte.

Peso Palha: Amanda Ribas (BRA) vs. Randa Markos (CAN)

Por Matheus Costa

Amanda Ribas (8-1 no MMA, 2-0 no UFC) chega para a maior luta de sua carreira e pronta para responder algumas perguntas sobre o seu verdadeiro potencial. Desde que chegou ao UFC, a brasileira somou vitórias convincentes sobre as limitadas Emily Whitmire e Mackenzie Dern, mostrando que pode chegar longe na divisão.

Atleta da American Top Team, a lutadora de 26 anos trocou a agressividade ao golpear sem pensar no dia de amanhã pela paciência e técnica. Em pé, a atleta se movimenta bem e tem facilidade para criar ângulos, usando boas combinações que costumam ser precisas e efetivas, tanto na cabeça como na linha de cintura. A especialidade da casa é a luta agarrada, já que possui faixa-preta tanto no judô como no jiu-jítsu.

Vai, não vai. Hoje sim, hoje não. Basicamente, essa rasa analogia define a carreira de Randa Markos (10-7-1 no MMA, 6-5-1 no UFC) na maior organização de MMA do planeta. Toda vez que a veterana parece que vai emplacar contra uma adversária de nível superior, suas capacidades chegam ao limite e a atleta toma um choque de realidade na categoria dos palhas.

Embora possa ser considerada uma porteira do top 10 da divisão, Markos vem evoluindo tecnicamente e mostra uma disciplina estratégica cada vez maior. Sua especialidade é o wrestling, onde se destaca no clinch e pelo controle posicional no chão, já que sempre busca trabalhar por cima para garantir os rounds. Ela não é agressiva, não é promissora e tampouco empolgante, mas se torna uma lutadora cada vez mais eficiente dentro de sua capacidade técnica.

Este é um confronto importante para a categoria dos palhas do UFC. Afinal, Randa Markos quer provar que não é uma porteira, enquanto Amanda Ribas pode mostrar que realmente pertence a outro patamar na divertida divisão reinada por Weili Zhang.

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É um confronto interessante que pode se desenhar de diversas formas. Um dos pontos mais importantes da luta será a paciência da brasileira, que por muitas vezes se afoba ao tentar finalizar rápido demais e acaba pagando o preço. Creio que suas qualidades na luta agarrada sejam o suficiente para neutralizar o wrestling da americana, portanto, fica a aposta para uma vitória por decisão unânime da brasileira, que deve levar vantagem em pé.

Peso Meio-Médio: Elizeu Capoeira (BRA) vs. Alexey Kunchenko (RUS)

Por Matheus Costa

Depois de somar seis vitórias consecutivas na ótima categoria dos meios-médios, o brasileiro Elizeu Capoeira (21-6 no MMA, 6-2 no UFC) tomou um banho de água fria e um choque de realidade ao ser nocauteado pelo bruto Li Jingliang no UFC Shenzhen. Mas isso, muito provavelmente, não foi uma coisa ruim. Afinal, se fosse pra perder, era melhor perder agora.

Um dos melhores atletas da nova geração de brasileiros, o pupilo do mestre Cristiano Marcello consegue unir um estilo empolgante com boa técnica em praticamente todas as áreas. Especialista em muay thai, Zaleski é muito agressivo e técnico na luta em pé, sempre mostrando facilidade para criar ângulos e golpear, como para se adaptar em diferentes situações.

Os problemas defensivos sempre acabando aparecendo, mesmo quando são compensados pelo ímpeto e a boa absorção de golpes. Mas nem sempre dá certo, como mostrou sua última contra o chinês, que o nocauteou com 9 segundos para o fim do confronto. A luta de chão do atleta vem evoluindo, e mesmo quase nunca sendo testada, se mostrou efetivo quando precisou utilizar a arte suave.

Ex-campeão dos meios-médios do M-1 Global, o russo Alexey Kunchenko (20-1 no MMA, 2-1 no UFC) conheceu sua primeira vitória no MMA pelas mãos do brasileiro Gilbert Durinho, que surpreendeu e dominou as ações do confronto na luta em pé no UFC Montevidéu. Assim como Elizeu, Kunchenko tomou um choque de realidade do nível da maior organização do planeta. E provavelmente veio no momento certo.

O russo é um tanto quanto burocrático na luta em pé, muitas vezes adotando uma postura mais conservadora em busca de um descuido de seus adversários. Sem muito volume de golpes, a preferência do russo é pela curta distância, golpeando com suas fortes mãos e usando seu ótimo atleticismo para explorar o clinch.

A especialidade da casa é o wrestling, que é aditivado pela ótima condição de força física do experiente atleta, que o ajuda principalmente no controle posicional, um dos destaques do atleta. A defesa de quedas não é das melhores, mas acho improvável que ela seja testada neste confronto contra o brasileiro.

Este foi um ótimo combate marcado pelo UFC, já que é um ótimo teste para ambos – principalmente Elizeu. Kunchenko tem qualidades para expor alguns problemas de Elizeu, como a má defesa de golpes. Já Capoeira pode controlar a luta na longa distância com seu ótimo volume, mostrando que consegue implementar estratégias ao lado de seu treinador.

Aleksei Kunchenko vs Elizeu Zaleski Dos Santos odds - BestFightOdds
 

A tendência é que o confronto se desenrole na luta em pé, onde temos dois cenários possíveis que foram citados acima. Na minha ideia, o mais provável de acontecer é favorável ao russo, que deve levar por decisão unânime em uma grande luta.

Peso Galo: Rani Yahya (BRA) vs. Enrique Barzola (PER)

Por Idonaldo Filho

Atleta de Brasília, o jiujiteiro Rani Yahya (26-10, 1NC, 11-4, 1NC no UFC) no MMA, é um grande veterano do MMA e da categoria dos galos. Aos 35 anos anos o brasileiro está no UFC desde 2011, quando veio ao líder do mercado devido a fusão do WEC com o UFC. Conhecido como porteiro do ranking, Yahya foi batido em sua última aparição ao ser derrotado por Ricky Simon, quebrando uma sequência de três vitórias seguidas, contra Joe Soto, Russel Doane e Luke Sanders.

Yahya é um dos melhores faixas pretas do evento e consequentemente da categoria. Muito perigoso no chão, o jiu-jítsu do brasileiro foca em estrangulamentos, mostrando muita habilidade com o katagatame principalmente, mas tendo um vasto repertório de outras finalizações também. O wrestling dele é competente e consegue ser funcional contra adversários mais limitados, sendo barrado contra lutadores melhores. A trocação é um pouco desengonçada e a defesa não inspira muita confiança. O cardio também não costuma ser muito bom, mas o brasileiro é um definidor de combates nato com 20 finalizações no cartel.

Enrique Barzola (16-5-1 no MMA, 6-3 no UFC) veio do TUF América Latina 2, e sem dúvidas, é um dos melhores atletas que surgiram dessa versão do reality show. Muito aguerrido, Barzola fez carreira na categoria dos penas e por lá chegou a vencer quatro consecutivas, entre o fim de 2016 e 2018. Atualmente, depois do nível subir, a fase ficou mais irregular. Ele perdeu para Kevin Aguilar, venceu Bobby Moffett, e por último, foi derrotado pelo prospecto Movsar Evloev. Ele, que fez o TUF pelo peso leve, pela primeira vez disputará um combate pelos galos.

O peruano é um ser incansável. Um touro, Barzola é conhecido pelo seu jogo de pressão e muita força. A trocação é apenas básica e consiste muito em jabs e chutes baixos, mas o que Barzola faz bem é utilizar seu wrestling. Não é dos mais técnicos e já foi frustrado contra adversários mais qualificados, mas Barzola é capaz de executar suplês e tem um controle posicional muito digno, mesmo que lhe falte senso de definição. O cardio de Enrique é excelente, sem falar que, se tudo der certo com o corte de peso, ele terá vantagem física nos galos. O principal problema é que Barzola não tem potência nem senso de finalização, nunca tendo finalizado ou nocauteado alguém no UFC.

Enrique Barzola vs Rani Yahya odds - BestFightOdds
 

Yahya é extremamente perigoso no chão e Barzola obviamente sabe disso. Não que trabalhar na guarda seja muito eficiente no MMA, mas Rani é muito capaz de arranjar alguma coisa por lá, ainda que Barzola seja ótimo scrambler e tenha um jogo sufocante no grappling. Eu aposto que a luta vai acontecer em pé, por escolha de Barzola, que sairá vitorioso na decisão.

Peso Mosca: Bruno Silva (BRA) vs. David Dvorak (CZE)

Por Idonaldo Filho

Participante do TUF Brasil 4, o piracicabano Bruno Silva (10-4-2 no MMA, 0-1 no UFC) só veio a assinar com o UFC mais de quatro anos após o fim do reality show, vindo de sequência de duas vitórias. Parceiro de treinos e amigo pessoal de Henry Cejudo, Bulldoguinho estreou no líder do mercado no peso galo contra o alemão Khalid Taha e teve bons momentos na luta, mas acabou cansando e sendo finalizado no terceiro assalto. Agora ele retorna para sua categoria de origem, que é o peso mosca.

Bulldoguinho tem origem na capoeira e no jiu-jítsu, onde é faixa preta. Sua trocação é muito focada em chutes, principalmente baixos e no corpo – muitas vezes rodados. Agressivo, Bruno circula bastante no cage e muitas vezes solta sequências explosivas, mas que carecem de poder. O wrestling do brasileiro é razoável, sendo efetivo contra a oposição que enfrentou até o momento. No chão, tem transições boas, mas sua defesa de submissões é um pouco questionável. Outros problemas no jogo de Bulldoguinho são o queixo duvidoso, a defesa de golpes esburacada e também a aparente queda de rendimento.

Uma excelente adição para a categoria dos moscas, David Dvorak (17-3 no MMA, 0-0 no UFC) não sabe o que é perder há oito anos, vencendo todas as treze últimas pelejas. Atleta nascido na Tchéquia e treinando na London Shootfighters, Dvorak fez a carreira em seu país natal, com várias lutas pelo XFN. Bastante promissor, David no início enfrentou concorrência limitada, porém, aumentou o nível de oposição e correspondeu bastante, com duelos empolgantes e vitórias por interrupção.

Em 20 duelos, Dvorak só viu as papeletas em quatro oportunidades. O tcheco é um atleta muito agressivo e que imprime um volume de golpes muito alto, sempre utilizando um jab muito apurado para medir a distância e parecendo um furacão muitas vezes, aplicando sequências rápidas e precisas de socos. Há também uma boa habilidade com contragolpes no arsenal de David, com belos nocautes executados assim. A movimentação de Dvorak é ótima também, aliada a chutes baixos efetivos. No chão, ele mostra muita qualidade pegando as costas e buscando o mata-leão. Completo, Dvorak tem tudo para habitar o top 10 dessa categoria muito em breve.

Bruno Silva vs David Dvorak odds - BestFightOdds
 

É maravilhoso que ambos estreiam nos moscas pelo UFC, o que é um bom sinal e esperamos que a categoria receba ainda mais membros em breve. Sobre a luta, Dvorak é muito mais lutador em praticamente todas as áreas que Bruno. O brasileiro é menor e sua defesa não traz confiança nenhuma. Dvorak deve manter a distância no início, mas logo se sentir mais confortável e aplicar seu jogo de pressão, conseguindo nocautear o brasileiro.