Por Edição MMA Brasil | 13/03/2020 21:00

Os eventos esportivos ao redor do mundo decidiram adiar ou cancelar suas agendas, mas o UFC decidiu ignorar os riscos e realizar o UFC Brasília. Neste sábado, a Arena BSB não receberá público para assistir um card bem competente no card brasileiro.

Na luta principal da noite, o americano Kevin Lee enfrentará o brasileiro Charles do Bronx em duelo de peso casado. A luta estava programada para ser válida pela divisão dos leves, mas Lee não conseguiu bater o peso em uma luta interessante na margem do top 10 do ranking.

Já na luta coprincipal da noite, um duelo bem intrigante entre dois brasileiros especialistas na luta agarrada. Na divisão dos meios-médios, o veterano Demian Maia, que já dá os últimos passos de sua carreira, encara Gilbert Durinho, que vive uma ascensão interessante na carreira.

Os outros dois combates interessantes do card principal é a estreia de Renato Moicano na categoria dos leves contra Damir Hadzovic, enquanto Johnny Walker tenta se recuperar de sua primeira derrota na organização contra o duro Nikita Krylov.

O UFC Brasilia será realizado neste sábado e tem o início previsto para 16:00h com seu card preliminar, enquanto a porção principal deve ser transmitida a partir de 19:00h pelo horário oficial de Brasília com transmissão exclusiva do Canal Combate.

Peso Leve: #8 Kevin Lee (EUA) vs. #13 Charles do Bronx (BRA)

Por Rodrigo Rojas

Após uma breve e falhada corrida entre os meios-médios, Kevin Lee (18-5 no MMA, 11-5 no UFC) luta novamente para chegar perto do top 5 da categoria dos leves. O americano chegou a disputar o cinturão interino contra Tony Ferguson, e ainda destruiu Edson Barboza em 2018, até que um par de derrotas para Al Iaquinta e Rafael dos Anjos atrasou sua caminhada. Porém, reinventou seu jogo e, na última luta, entregou a melhor atuação da sua carreira com um candidato a nocaute do ano sobre o super prospecto Gregor Gillespie.

Talentoso wrestler colegial, esporte em que chegou a acumular 37 vitórias sem nenhuma derrota, Lee vem complementando seu jogo, mas sem esquecer do forte background. Recentemente, vem treinando com o lendário Firas Zahabi – treinador de Georges St. Pierre – adicionando ao seu jogo um kickboxing cada vez mais técnico e alinhado. As combinações de socos e chutes são complementadas por um bom trabalho de fintas e movimentação, além da sempre presente ameaça da queda. Os atributos físicos também concedem uma boa vantagem, já que o americano é muito forte para a categoria e tem a envergadura absurda de 196cm.

O extensivo corte de peso, o porte físico e a grande potência aplicada em quase todos os golpes acabam cobrando o preço através do gás. O condicionamento físico de Lee traiu-o mais de uma vez, custando as derrotas para Ferguson e dos Anjos. Além disso, pode ter problemas com adversários que neutralizam a ameaça da queda e trabalham o jogo de contragolpes, caso recorrente na maioria de suas derrotas.

Charles do Bronx (28-8 no MMA, 16-8 no UFC) vive, discutivelmente, a melhor fase de sua trajetória dentro do UFC. A bem estabelecida tônica de sua carreira é a de vencer com facilidade a parte de baixo da categoria e falhar ao tentar subir de nível. Desde 2018, Charlinho acomodou-se em pegar oponentes de nível mais baixo, ganhando dinheiro e construindo uma bela sequência de seis vitórias na categoria mais populosa da organização, mas mostrando pouca evolução em seu jogo.

Faixa preta de bom nível no jiu-jítsu, o brasileiro faz parte do rol de lutadores excelentes no âmbito ofensivo e com pouca qualidade nos aspectos defensivos. Não à toa, conta com oito derrotas na carreira, apenas uma delas através das mãos dos jurados laterais. Charles tem um grappling ofensivo brilhante, com finalizações de todos os tipos e de todas as posições, detendo o recorde de submissões no UFC. Por outro lado, foi finalizado por Ricardo Lamas, Anthony Pettis e Jim Miller, sem falar nos nocautes para Donald Cerrone, Paul Felder e Cub Swanson. Ao longo do tempo, desenvolveu um bom jogo de muay thai ofensivo, mas conta com avenidas defensivas no jogo em pé, que podem ser exploradas pela maior parte dos trocadores com alguma qualidade. Charles marcha pra frente incessantemente, com pouca ou nenhuma preocupação com movimento de cabeça, evasões laterais e contando com uma guarda muito vazada. A parca habilidade defensiva é encontrada também na luta agarrada, sofrendo com o ground and pound quando o oponente está por cima e expondo-se muito para finalizações alheias.

Os aspectos físicos também podem ser preocupantes. Charles já mostrou cansaço quando não consegue a interrupção e é relativamente frágil, com pouca força física para a difícil categoria.

Charles Oliveira vs Kevin Lee odds - BestFightOdds
 

O casamento de estilos é bastante favorável para Kevin Lee. O americano é melhor que o adversário em pé e não será derrubado nunca pelo brasileiro, já que tem base sólida no wrestling e muita vantagem na força física. Lee deve minar Oliveira com contragolpes e combinações em pé, eventualmente ameaçando com quedas e ground and pound para conquistar a interrupção na primeira metade da luta. No entanto, Charlinho é sempre perigoso em pé e, principalmente, com finalizações, podendo aproveitar um deslize de Kevin para finalizá-lo.

Peso Meio-Médio: #5 Demian Maia (BRA) vs. #12 Gilbert Durinho (BRA)

Por Rodrigo Rojas

Aos 42 anos, Demian Maia (28-9 no MMA, 22-9 no UFC) já pode ser considerado uma lenda do esporte. Bastião de uma era em que os lutadores focavam em sua arte marcial de origem para vencer as outras, Demian levou um jogo considerado unidimensional e ultrapassado com sucesso ao mais alto nível do esporte, tamanha sua maestria na arte em questão. A ilustre carreira do brasileiro conta com vitórias sobre gente como Ben Askren, Jorge Masvidal, Carlos Condit, Matt Brown, Gunnar Nelson, Jon Fitch e Neil Magny. Desde 2014, perdeu apenas para os wrestlers e campeões mundiais Tyron Woodley, Colby Covington e Kamaru Usman.

Ainda que esteja inegavelmente na fase final de sua carreira, Maia trabalha um jogo voltado para a longevidade, minimizando o dano físico recebido. Desde a trinca de derrotas, tem enfrentado casamentos favoráveis, como strikers com pouca habilidade na luta agarrada ou grapplers que não investiriam na trocação. Assim, carrega uma sequência de três boas vitórias para a luta de sábado.

Faixa preta de Fábio Gurgel, Demian foi campeão do ADCC – maior competição de luta agarrada do mundo – em 2007 e medalhista de prata em 2005. Além disso, venceu a Copa do Mundo de jiu-jítsu em três ocasiões diferentes e ainda foi campeão mundial pela IBJJF em 2000. No MMA, Maia desenvolveu um jogo de carrapato, em que busca grudar no oponente à todo custo, atacando uma sequência de single legs, ouchi garis, de ashi barais e pegadas de costas em pé. No chão, as passagens de guarda e o controle posicional são no estado da arte, buscando avançar rumo às costas do oponente, posição em que encontra seu mata-leão, golpe que já vitimou oito oponentes dentro do UFC. De costas para o tablado, Demian utiliza sua raspagem de meia-guarda que virou marca registrada e funciona muito bem para evitar o ground and pound dos adversários.

A trocação é quase nula e serve apenas para encurtar a distância, mas Demian faz um bom trabalho de evitar os danos dos oponentes em pé. O condicionamento pode ser problemático, já que o jogo repleto de isometria cobra bastante, especialmente para um homem de 42 anos.

Se tem um homem na categoria até 77kg que não fica tão atrás de Demian no jiu-jitsu, ele se chama Gilbert Burns (17-3 no MMA, 10-3 no UFC). Durinho foi campeão mundial da IBJJF com e sem quimono, campeão do Abu Dhabi Pro e campeão brasileiro. Ao contrário do adversário de sábado, Gilbert vive seu auge físico e da carreira, com quatro vitórias seguidas , sendo a última com uma ótima perfomance sobre Gunnar Nelson.

No MMA, Durinho assumiu um caminho oposto ao de Demian. Ele busca trabalhar um jogo completo de artes marciais, contando com um jogo em pé cada vez melhor, mãos pesadas e um clinch agressivo, acompanhado de um atleticismo acima da média e boas joelhadas, além de chutes potentes em todos os níveis. O bom jogo em pé permite uma abordagem mais oportunista e explosiva às quedas e ao grappling. Burns trabalha com sprints explosivos, seja tentando acertar golpes fortes, passar a guarda ou atacar finalizações de maneira agressiva. Seus melhores momentos são quando chega às costas do oponente, de onde procura estrangulamentos e chaves de braço.

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O confronto brasileiro é um prato cheio para os fãs do jiu-jitsu, confrontando dois dos maiores nomes da arte suave no MMA. Os dois vivem momentos opostos na carreira e têm abordagens opostas ao esporte. Durinho é o lutador mais completo e mais explosivo, enquanto Demian busca incessantemente seu jogo mais conservador e progressivo na luta agarrada. O panorama da luta deve envolver Maia grudando sempre que possível, tentando derrubar e trabalhar as posições por cima no chão, enquanto Durinho aproveita as brechas em pé para acertar golpes potentes.

É difícil cravar qual estratégia será sustentada por mais tempo, especialmente se considerarmos que Durinho está na ascendente enquanto Demian já mostra sinais de decadência. A dúvida é se Maia conseguirá controlar por tempo suficiente ou se Burns fará danos o suficiente para conquistar a decisão dos jurados. Para não ficar em cima do muro, apostaremos no maior vigor de Gilbert Durinho, conquistando uma apertada decisão ao final dos três rounds, mas sem muita certeza.

Peso Leve: #7 FW Renato Moicano (BRA) vs. Damir Hadzovic (BIH)

Por Matheus Costa

Depois de duas derrotas traumáticas quando chegou a sentir o gosto do topo da categoria dos penas, o brasileiro Renato Moicano (13-3 no MMA, 5-3 no UFC) resolveu mudar os ares e migrou para a categoria dos leves. Na maior luta de sua carreira, depois de um bom início, acabou sendo nocauteado pelo ex-campeão José Aldo. Depois, buscando se recuperar, acabou sendo nocauteado brutalmente em menos de um minuto pelas mãos do Zumbi Coreano. O atleta da American Top Team já havia mencionado a dificuldade de atingir o peso pena, então a mudança para a divisão de cima pode ser realmente benéfica.

Moicano é um especialista em muay thai e possui valores bem consideráveis na luta em pé. Destaca-se em seu jogo o ótimo controle de distância e sabe se virar tanto na longa distância como na curta, sempre com eficiência e precisão em seus golpes. O jogo de chão do lutador também tem seu valor, e o atleta é talentoso com um senso oportunistas na luta de solo. Treinando na American Top Team, um fator que pode ser considerado neste duelo é o wrestling, um dos carros-chefe de uma das melhores academias do mundo. Entretanto, a facilidade com que Moicano é acertado, principalmente por sua falta de movimentação lateral e movimentação de cabeça, acabam lhe colocando em um risco totalmente desnecessário. E quando a gente fala da melhor da categoria de peso do UFC, é preciso evitar qualquer risco que possa lhe render uma derrota.

Um dos melhores lutadores bósnios do UFC, o peso leve Damir Hadzovic (13-5 no MMA, 3-3 no UFC) é um lutador que pode entregar uma luta bastante animada ao brasileiro, principalmente se a luta se manter em pé. Depois de somar duas vitórias consecutivas, o atleta acabou sendo dominado por Christos Giagos em sua última aparição na maior organização do mundo.

Forjado no muay thai assim como seu adversário, Hadzovic é bastante agressivo e se destaca por sua luta em pé. Ou seja, deve dar trabalho para o brasileiro no striking. Suas combinações geralmente consistem em socos em linha reta com ângulos ortodoxos e chutes bem agressivos. A luta agarrada do bósnio não é um ponto a ser destacado e pode muito bem ser explorado pelo brasileiro, que é claramente superior na área em relação com seu adversário. Outro ponto a ser destacado, mas de forma negativa, é a parte defensiva do lutador, que é praticamente inexistente – tanto em pé como no chão.

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É uma luta interessante para testar o desempenho de Renato Moicano na categoria de cima. De fato, caso dê certo, o brasileiro agregará demais ao fluxo da divisão dos leves, que é a melhor do UFC e uma das melhores da história do MMA em si. A expectativa é que Moicano explore os erros defensivos do bósnio e deve obter o nocaute no terceiro assalto do confronto.

Peso Meio-Pesado: #10 Johnny Walker (BRA) vs. #12 Nikita Krylov (UKR)

Por Gabriel Fareli

Depois de passar um pouco menos de três minutos dentro do octógono na sua primeira trinca de lutas, Johnny Walker (17-4 no MMA, 3-1 no UFC) teve um choque de realidade brutal com o primeiro lutador de nível decente que enfrentou. Foi nocauteado por Corey Anderson antes mesmo do relógio marcar o mesmo tempo que ele somou nas suas primeiras lutas no UFC. O atleta revelado no Contender Series Brasil chegou praticamente desconhecido ao evento, mas ao vencer Khalil Rountree, Justin Ledet e Misha Cirkunov (todos pela via rápida), chegou ao ranking dos meio-pesados e ganhou uma pequena fama, mas ser derrotado de forma tão fácil, deixou uma interrogação sobre o quão bom ele realmente é ou até onde ele realmente pode chegar nessa categoria.

O cria da Baixada Fluminense é excelente na luta em pé, é forte e tem uma confiança mental absurda, ataca seus adversários sem medo, com boas esquivas e movimentação constante. É rápido para aproveitar as brechas que seus adversários dão para finalizar a luta. É um lutador de grande potencial mas ainda precisa de maiores ou novos testes já que foi reprovado no último. Seu Wrestling principalmente ainda não foi testado de fato, o que também não deve acontecer nessa luta.

Nikita Krylov (25-7 no MMA, 7-5 no UFC) está em sua segunda passagem no UFC e está bem próximo da sua segunda demissão também. Após ser campeão do Fight Nights Global, foi convidado a voltar para o maior evento de MMA do mundo e não vem correspondendo. Na sua luta de retorno, foi finalizado por Jan Blachowicz, surpreendeu a todos quando venceu Ovince St Preux e depois foi derrotado por Glover Teixeira por decisão. Em caso de derrota para Johnny, o ucraniano provavelmente irá conversar novamente com um representante do setor de recursos humanos.

Krylov é um atleta oriundo do caratê que tem forte poder de nocaute, usa bastante a agressividade como arma para uma intensa troca de golpes. Seu jogo de chão é bem razoável, tem boas transições ofensivas como fez na luta contra Glover, mas tem dificuldades quando é pra se defender e usa seus chutes altos como uma boa arma para surpreender o adversário. Deixa muito espaço para ser golpeado no rosto, o que pode ser um perigo quando se enfrenta um nocauteador como Johnny.

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Vai ser interessante observar como Johnny Walker vai se apresentar nessa batalha após sua primeira derrota no octógono. Sua confiança e seu jogo mental são importantíssimos no seu plano de luta e se isso foi quebrado, poderemos ver um atleta diferente, mais receoso, mais melindrado e isso pode ajudar seu adversário. O garoto de Belford Roxo pode querer soltar seu jogo com mais calma também, por ordem dos seus treinadores, para mostrar que ele pode lutar bem por 15 minutos como ele tanto falou nas entrevistas antes da sua última luta.

Por um outro lado, Nikita está com as costas na parede, então deve mais do nunca partir para o tiroteio, apostando no seu punch para nocautear. “The Miner” não deve dar espaços para o brasileiro, tentando chegar o mais próximo da pressão que Corey exerceu para vencê-lo. A aposta aqui é que o brasileiro não virá apressado e mostrará uma nova faceta, de um lutador que não tem pressa e usa bem e com calma a sua boa trocação. Johnny Walker vence por decisão pela segunda vez na sua carreira.