Por Alexandre Matos | 15/06/2009 13:31

O UFC 99 teve algumas lutas movimentadas, muito equilíbrio, mas não mostrou muito do que possa ser apontado como “o futuro está ali”. Quem mais se destacou neste sentido foi Cain Velasquez, que mostrou um queixo de aço, uma intensidade monstruosa por quinze minutos, foi muito voluntarioso no jogo de quedas da luta olímpica, mas apresentou nível de luta de chão beirando a indigência. Na luta principal, Wanderlei Silva mostrou alguma evolução, apresentou melhora pelo treino com Rafael Cordeiro, mas foi insuficiente para recolocá-lo na trilha da glória, cansou rapidamente e acabou derrotado em uma luta bastante parelha.

    Rich Franklin venceu Wanderlei Silva por decisão unânime (resultados oficiais não foram divulgados)


A luta foi iniciada com um demonstrando respeito pelo outro e com Wand na guarda de Muay Thai, com braços levantados, protegendo o rosto. Franklin media a distância usando jabs de direita quando Wanderlei ameaçou uma combinação rápida de jab e direto. Rich, melhor boxeador, flutuava no octógono e circulava o brasileiro, que fincou pé no centro. No meio do round Wand tentou um chute alto, algo que não era visto em seu repertório há muito tempo. Rich então tentou um chute no tronco, mas foi segurado por Wand, que conseguiu uma queda, caindo na guarda do americano. Franklin tentou a todo custo reduzir a distância para que Wand não aplicasse o ground and pound. Rich conseguiu se livrar e apertou Wand na grade, que tentou puxar o americano para a guarda com uma tentativa malsucedida de guilhotina. Franklin se safou facilmente e ainda conseguiu bons socos no ground and pound, que deixaram o olho direito do brasileiro sangrando e venceu o round por 10-9, na nossa contagem.

No intervalo, claramente mais inteiro, Rich disse ao seu técnico: “acho que quebrei o nariz dele”. Na volta, menos estudo e mais movimento, com um chute de Wand no tronco respondido por um direto de Rich. O americano seguia se movimentando mais e melhor, enquanto o brasileiro parecia cansado e travado. Uma direita de Wand fez Rich se desequilibrar. Quando balançou as pernas para preparar um chute, Wand foi surpreendido por um jab que o mandou para a lona, mas se levantou rapidamente. Os 90 segundos finais foram dominados por Wanderlei, que aplicou bons socos e encurralou o adversário na grade. Mas neste momento faltou Wand entrar no thai clinch com joelhadas, grande deficiência defensiva de Rich, como Anderson Silva deixou claro para o mundo. O round acabou com os dois exaustos e foi vencido por Wand por 10-9.

O terceiro começou movimentado e Franklin aparentava ter se recuperado melhor. Conseguiu um chute no corpo e um gancho que fizeram o brasileiro recuar. A luta ficou mais franca e novamente Wand teve oportunidade de aplicar joelhadas no thai clinch, mas desperdiçou mais uma vez. O ritmo de Wanderlei diminuiu, enquanto Rich continuava com bom jogo de pernas. Wand balançou os braços pedindo apoio da torcida e saiu à caça de Rich, que sentiu o perigo e quedou o adversário no desespero. Ambos se levantaram, Franklin pegou as costas de Wanderlei e socou seu rosto, recebendo cotoveladas como resposta. O equilibrado round merecia um empate ou com leve vantagem para o brasileiro.

Wand mostrou muito coração, mas pouco preparo físico e aparentava estar com mais massa muscular para o peso do que devia. Não sei se foi excesso de treino, talvez corte de peso feito de modo equivocado (o comentarista americano cogitou esta hipótese). Na nossa contagem final Wanderlei teria vencido por 29-28. O scorecard oficial não foi divulgado, apenas que Rich Franklin venceu de modo unânime. Acredito que o melhor condicionamento físico do americano tenham impressionado os juizes.

    Cain Velasquez venceu Cheick Kongo por decisão unânime (resultados oficiais não foram divulgados)


A luta começou com o novato invicto caçando o experiente francês. Kongo mantinha Velasquez longe com jabs velozes quando acertou um violentíssimo direto no rosto do americano. Cain dobrou as pernas e encostou um joelho no chão, praticamente nocauteado, mas deu a primeira mostra do seu queixo de aço e conseguiu um double-leg e uma bela queda, a primeira de muitas que viriam. Aproveitando a ineficiência do jogo de chão de Kongo, Velasquez respirou um pouco e passou a marretar no ground and pound. Cheick tentou se levantar, mas a perfeita base de wrestling de Cain trouxe o francês de volta para o chão, desta vez ajoelhado de costas. Mais socos e Velasquez virou Kongo de costas para o chão. Apesar de mostrar o espírito guerreiro dos lutadores mexicanos, neste momento Cain deu a primeira mostra de muitas que precisa evoluir muito no jiu-jitsu: mesmo com o francês dando diversas oportunidades para sair para o braço ou guilhotina, Cain não conseguiu fazer nada de diferente para finalizar logo. O round continuou deste modo, com Kongo tentando se levantar, Cain derrubando de volta e martelando no g’n’p, sem conseguir finalizar. O round foi dominado por Velasquez, que venceu por 10-9 na nossa contagem.

O segundo round foi uma reprise do primeiro. Novamente Kongo conseguiu uma bomba no rosto de Velasquez, que tombou sobre os joelhos. Inexplicavelmente Kongo não deu sequência para chegar ao nocaute e tentou um single-leg. E dando outra mostra de resistência incomum, Cain novamente se recuperou, quedou o kickboxer e pegou suas costas, fazendo a ação transcorrer como um duelo de luta olímpica, deixando Kongo desconfortável. Depois de se esgrimarem no clinch, Cain aplicou outro takedown e voltou para o trabalho de ground and pound. O round seguiu até o final com o trabalho de queda e g’n’p com socos na cabeça e joelhadas no corpo (incapaz de finalizar, apesar dos convites dados por Kongo) de Velasquez, que mais uma vez marcou 10-9 no nosso placar.

Cain Velasquez continuou em ritmo intenso no último round. E pela terceira vez foi alvo de diretos de Kongo, novamente perdendo equilíbrio e mostrando que tem queixo de titânio. O francês repetiu o erro do round anterior e não aproveitou o momento, novamente tentando um inexplicável single-leg. E o que aconteceu então? A aula de luta olímpica continuou e Kongo foi castigado até a campainha soar, marcando o final do martírio. Velasquez venceu o terceiro por 10-8 e a luta por 30-26, na nossa marcação.

Apesar de ter mostrado muita disposição, repertório vasto de quedas, muita força e um queixo fenomenal, Cain precisa melhorar muito no chão se não quiser ser presa fácil para lutadores como Rodrigo Minotauro ou Frank Mir. Se evoluir neste sentido, podemos estar diante de um sério candidato a campeão dos pesados.

    Mirko Filipovi? venceu Mostapha Al-Turk por nocaute técnico (3:06, R1)


No artigo de apresentação do evento havíamos dito que apenas uma zebra daria a vitória para o libanês naturalizado britânico. Como o equídeo listrado não apareceu na Alemanha, o croata consumou mais um nocaute em seu cartel.

Mas Al-Turk até começou tentando provar o contrário e com alguns segundos de luta largou um poderoso cruzado de direita no rosto de Mirko Cro Cop, que mostrou ainda ser capaz de encaixar um golpe duro de um peso pesado. O croata passou a circular como se preparasse seu temido chute alto, enquanto o inglês tentava despejar golpes desajeitados e tentava sair do alvo da perna esquerda do oponente. No meio do round, Cro Cop acertou um cruzado violento de esquerda no rosto e partiu para o nocaute, trabalhando com diretos e cruzados que lançaram Al-Turk na lona. Ao não conseguir consumar o ground and pound, Mirko se afastou e pediu que o adversário se levantasse. Al-Turk levantou e avançou, mas levou uma dedada no olho não intencional, numa tentativa de bloqueio de Cro Cop. Vendo que o árbitro Dan Miragliotta não viu, Cro Cop partiu então para socar o adversário, que havia lhe dado as costas. Miragliotta então interrompeu o combate.

Depois da luta o croata surpreendeu a todos quando informou a Dana White que não mais lutaria no UFC, pois havia assinado um contrato de três lutas com o DREAM.

    Mike Swick venceu Ben Saunders por nocaute técnico (3:47, R2)


O combate começou em ritmo acelerado, com Swick conseguindo uma queda e caindo na guarda do oponente. Saunders agarrava Mike para diminuir o espaço para o ground and pound ou uma tentativa de finalização. Enquanto isso “Quick” Swick marretava o corpo do Killa B. Swick protagonizou um momento engraçado, quando as câmeras pegaram-no falando “Você vai ficar me segurando a noite inteira?” junto à grade. Não entendi muito bem a resposta de Ben, que foi algo do tipo “Eu quero ficar em pé de novo, bitch!”. Depois de um tempo o árbitro Leon Roberts mandou os lutadores se levantarem. O minuto final foi disputado no clinch, onde Swick também levou vantagem. O público vaiou o fim do round, que foi vencido por Swick por 10-9.

O round seguinte começou com troca de joelhadas no clinch, até que Swick conseguiu um ouchi-gari e caiu montado, com Saunders repetindo a tática do round anterior, até que o árbitro novamente mandasse ambos levantarem. Saunders tentou um chute alto, Swick respondeu com joelhadas no clinch. Depois de cercar o oponente, Swick despejou uma saraivada de socos velozes, que derrubaram Saunders. Quick continuou batendo até o árbitro interromper o combate, marcando a primeira derrota da carreira do Killa B.

Outras lutas do card principal:

  • Spencer Fisher venceu Caol Uno por decisão unânime (resultados oficiais não foram divulgados)
  • Dan Hardy venceu Marcus Davis por decisão dividida (29-28, 28-29, 29-28)

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.