UFC 270 – Prévia das Principais Lutas

Por Pedro Carneiro | 21/01/2022 15:19

O UFC inicia 2022 com um card estrondoso para aquecer os motores, com duas disputas de cinturão muito interessantes em Anaheim, California, no próximo sábado (22). 

Na luta principal, um confronto de dois ex-parceiros de treino – e dois dos pesos-pesados mais talentosos da atualidade – entre Francis Ngannou e Cyril Gané. O camaronês conquistou o título ao desbancar Stipe Miocic, e busca defendê-lo contra Gané, striker técnico e letal que capitania a renovação da categoria até 120kg.

No co-main event, Brandon Moreno e Deiveson Figueiredo fecham a trilogia pelo cinturão dos moscas, tomado pelo mexicano que finalizou o brasileiro com um mata-leão no ano passado.

O evento terá transmissão pelo Canal Combate e acontece a partir das 19h, no horário de Brasília.

Cinturão Peso Pesado: (CAM) Francis Ngannou (C) vs. (Int) Ciryl Gané ( FRA)

Por Pedro Carneiro

Francis NgannouFrancis Ngannou (16-3 no MMA, 11-2 no UFC) trilhou seu caminho no UFC empilhando corpos desacordados em um intervalo de 7 anos. O primeiro deles foi o brasileiro Leandro KLB, lá em 2015, e daí pra frente o prazer de acabar as lutas antes da última buzina se estendeu com vitórias sobre Curtis Blaydes, Bojan Mihajlović, Anthony Hamilton, Andrei Arlovski e a tentativa de homicídio contra Alistair Overeem. Veio então a primeira tentativa de disputar o título, e o camaronês recebeu uma clínica de wrestling e domínio com a assinatura de Stipe Miocic. Logo depois foi derrotado em um campeonato de encaradas contra Derrick Lewis.

O caminho foi reconstruído na base do murro na cabeça. Curtis Blaydes, Cain Velasquez, Junior Cigano e Jairzinho Rozenstruik tiveram o disjuntor desligado por Francis e uma nova chance foi oferecida contra Miocic valendo o uso do cinturão mais cobiçado do mundo.
No reencontro, Ngannou demonstrou evolução, conseguiu defender as tentativas de quedas e conseguiu impor o seu jogo para nocautear o campeão no segundo round. Mais um nocaute assombroso e a coroação da trajetória de um imigrante africano que chegou a morar nas ruas.
O estilo do atual campeão é marcante. Grande, forte, atlético, o camaronês é um nocauteador que aparenta ter o toque da morte – todos os incautos em que a sua mão encosta, simplesmente não param em pé. Francis possui boxe de boa movimentação e velocidade, boas combinações, que apesar de simples, conseguem gerar uma potência atordoante e um uppercut que é provavelmente o mais forte do plantel do UFC. A defesa de quedas melhorou, mas ainda falta polimento técnico no jogo do camaronês.

Ciryl Gané (10-0 MMA, 7-0 UFC), era um companheiro de treino de Ngannou e assim como ele apareceu como um excelente prospecto de uma categoria que tem dificuldades de renovação. Grande, forte, com boa envergadura, atlético, inteligente e disciplinado, o francês tem todas as ferramentas para ter sucesso no MMA. Diferente do campeão, o estilo de Gané é baseado em movimentação constante, combinações técnicas, controle da distância e um controle da estratégico da luta. Ciryl também usa de chutes, joelhadas e tem uma boa noção de todos os aspectos das valências do MMA. Os defeitos estão em brechas defensivas que ocorrem principalmente com a guarda negligenciada, e na saída da curta distância.

A trajetória de Gané no UFC até o momento é perfeita. Foram sete vitórias convincentes, nas quais se incluem nomes como Junior Cigano, Jairzinho Rozenstruik, Alexander Volkov e Derrick Lewis. Inclusive, esta última valeu o cinturão interino da categoria e o francês demonstrou toda a sua superioridade para vencer sem grandes problemas. Curiosamente, dentre os adversários, os que menos apresentaram dificuldades foram os mais técnicos e estratégicos, porém a luta contra Jairzinho foi um pouco mais tensa.

 

Nada melhor que uma pitada de ressentimento para elevar os níveis de empolgação para uma luta do UFC. Ex-companheiros de treinos, um falando do outro, Ngannou passando sem cumprimentar os ex-amigos nos bastidores, declarações de que um já levou a melhor que o outro nos treinos e pra incrementar os desentendimentos de Francis com o UFC. Todos esses elementos fazem essa luta ser simplesmente imperdível para os fãs de MMA.

No aspecto técnico, temos um confronto de estilos interessante. Francis Ngannou é um lutador ágil, com mãos rápidas e potentes, porém tem dificuldades contra lutadores técnicos, que controlem as ações, que saibam fazer boas entradas e saídas para golpear. Já Ciryl Gané é um lutador técnico, que gosta de controlar as ações, que sabe fazer boas entradas para golpear, mas que tem dificuldades em recompor a guarda, em sair da curta distância e teria dificuldades caso o adversário tivesse agilidade e potência para acertá-lo nessas situações.

Um tem plenas condições de vencer o outro. Em uma analise estritamente de polimento técnico, Gané levaria vantagem, mas Ngannou compensa tudo isso com uma capacidade de destruir qualquer coisa com apenas um toque. É possível que os problemas contratuais do camaronês afetem o seu desempenho, mas a rivalidade criada faz com que Francis não queira abrir nenhuma margem para ser derrotado.

Já quando a porta do octógono fechar, a previsão é de que Gané tente se movimentar bastante nos primeiros rounds, na expectativa de desgastar o campeão e diminuir o seu poder de nocaute. Já Ngannou vai tentar achar uma dessas brechas e promover o encontro de Ciryl com as trevas tão cedo quando puder. A vantagem de Ngannou está na primeira metade da luta e no caso de vitória do camaronês, é provável que ocorra por um nocaute devastador ou em uma decisão onde Gané consiga apenas sobreviver. Já Ciryl leva vantagem com o desenrolar da luta, podendo ir controlando Ngannou para uma vitória via decisão dos juízes. A aposta aqui é de que Ngannou irá conseguir o nocaute em um desses momentos de falha de Gané, mas as chances são muito parelhas e tecnicamente o favorito é o francês.

Cinturão peso mosca: Brandon Moreno (C) vs. Deiveson Figueiredo (#1)

Por Gustavo Lima

Brandon Moreno (19-5-2 MMA, 7-2-2 UFC) conquistou a base de muito sangue e suor o título de campeão dos galos, se tornando o cara de uma divisão que chegou a flertar com seu fim (e muito por conta da falta de nomes que levassem interesse ao público geral). Com Henry Cejudo aposentado, o mexicano virou indiscutivelmente o lutador a ser batido nos moscas, tendo passado por cima de praticamente todos os seus adversários que pudessem apresentar algum risco ao reinado durante a escalada ao topo após retornar ao UFC.

Hoje com 28 anos, o “Bebê Assassino” é um lutador extremamente completo e com um jogo ajustado em todos os aspectos do MMA, mas com o mesmo ímpeto e agressividade que serviram para construir aos poucos sua base fãs no esporte. A evolução gradual de Moreno foi muito divertida de se acompanhar: se antes o atleta costumava se jogar de forma insana em qualquer scramble no chão e cair no braço de maneira inconsequente com qualquer um, hoje podemos ver um atleta muito mais comedido. Não só isso: Brandon fez diversos ajustes em seu jogo, passando a se expor menos e melhorando muito a precisão de seu jogo na luta em pé.

Do outro lado, estará pela terceira vez consecutiva o cara que ajudou a revitalizar a categoria até 58kg e que entregou a coroa para Moreno. O “Deus da Guerra” Deiveson Figueiredo (20-2-1 MMA, 9-2-1 UFC) teve mais seis meses para se preparar e igualar a conta nos resultados da trilogia, retomando sua coroa e tirando o gosto ruim na boca deixado por sua última performance contra Moreno.

A primeira luta de ambos, realizada no UFC 256 em dezembro de 2020 foi um dos melhores duelos da história da categoria dos moscas no MMA. Marcado pelo fato de que o brasileiro vinha de uma sequência insana (defendeu contra Brandon após pouco mais de um mês de reter o cinturão contra Alex Perez), o combate foi muito parelho e acabou em empate, muito por conta de um ponto que acabou sendo deduzido de Figueiredo. Nessa altura, a impressão era de que Deiveson ainda era o melhor atleta e que havia perdido nos detalhes: além do ponto deduzido, seu desempenho foi minguando ao longo da luta, cujo controle começou a pender para o atual campeão.

Já no segundo confronto, o cenário foi radicalmente diferente: Brandon Moreno entregou uma performance de gala e não deu chances para Deiveson Figueiredo. Apesar de um segundo round parelho, as outras duas parcelas foram atropelos que culminaram em vitória por finalização do mexicano no terceiro assalto. Neste segundo encontro, o desempenho de Deiveson também pareceu muito inferior: com um sistema defensivo muito aberto e frágil, o brasileiro se expôs ainda mais que o costumeiro, tomando muitas decisões erradas e dando sinais de cansaço muito rapidamente.

Eu sou do time das pessoas que defende o ponto de que Deiveson é um grande lutador, mas os buracos e deficiências presentes em seu jogo de MMA são muito claros. O brasileiro confia muito no seu queixo para defender socos e muitas vezes passa a mensagem de que “a melhor defesa é o ataque”. O footwork e o movimento de cabeça muitas vezes deixam a desejar e algumas baixadas de guarda inexplicáveis costumam aparecer em momentos cruciais da luta. Esses detalhes custam muito caro, especialmente contra um motorzinho como Moreno, que além de ter todas as ferramentas para se aproveitar destas fraquezas, já conheceu na prática o caminho das pedras para sair vitorioso.

Difícil acreditar que nesses seis meses, “Figgy” tenha conseguido arrumar todos as falhas no seu jogo que podem ter custado seu antigo título ao atual rei da divisão. No topo disso, Deiveson ainda teria que bolar e executar um gameplan mais cauteloso, se movimentando bastante e evitando muito o in-fight e a exposição ao volume de Brandon, algo que não está muito acostumado a fazer. Pelo que vimos ao longo dos dois últimos encontros, os power shots do brasileiro não deverão ser suficientes pra igualar a pressão que Moreno é capaz de imprimir. Também devemos considerar o chão, lugar em que o campeão é muito propositivo, intenso e técnico, uma arma a mais em um combate com tanta coisa em jogo. Meu veredito é que Brandon Moreno sai com os braços levantados na noite de sábado. Não me arrisco a dizer como, mas creio que este é o resultado mais óbvio.

Peso meio-médio: Michel Pereira (BRA) vs. André Fialho (POR)

Por Israel Silveira

Michel Pereira | UFCUm dos lutadores mais divertidos de se assistir em todo o UFC, Michel Pereira (26-11 MMA, 4-2 UFC) vem em sua melhor fase dentro da promoção, engatando boa sequência de três vitórias seguidas na sempre embolada divisão dos meios-médios. O “Demolidor” em suas últimas lutas vem trazendo uma abordagem de menos acrobacias e mais gameplan pra sua luta, o que lhe rendeu performances sólidas contra Zelim Imadaev, Khaos Williams e Niko Price, apesar de que as firulas que o fizeram famoso ainda estarem disponíveis para o brasileiro.

Um gigante de 1.85m que corta muito peso para lutar com 77 kg, Pereira vem utilizando cada vez mais imposição física em sua abordagem para as lutas, mantendo os adversários afastados com chutes e pisões na longa distância e um clinch muito complicado de se livrar na curta distância. Quando pressionado no Wrestling ele conseguiu fazer valer bem o fato de ser muito mais forte que todos que enfrentou até aqui, trazendo para o combate 100% de defesas de quedas. Essa imposição física, no entanto, é uma faca de dois gumes, que limita bastante o gás do brasileiro, além do fato de Michel Pereira quase sempre passar por duros cortes de peso. Ele tem diversas brechas em seu boxe, especialmente no controle da distância e na movimentação de pés, que por vezes é estabanada. No entanto o nível de competição ainda não foi grande o bastante para punir os erros do brasileiro.

Andre Fialho | Welterweight | Professional Fighters League

Estreando no UFC após passagem pelo LFA, Bellator e PFL, André Fialho (14-3 no MMA, estreia no UFC) certamente não chega ao maior evento de MMA do mundo sem saber o que está fazendo. O português já enfrentou nomes decentes na carreira, tendo vitórias sobre James Vick, Stefan Sekulic e Javier Torres e também derrotas para Chris Curtis e Antonio dos Santos Jr.

Fialho baseia seu jogo em seu striking eficiente, buscando sempre levar seus adversários para trocações abertas onde o português normalmente se sai bem por conta de sua muita potência nas mãos e também a precisão para lançar seus golpes, além de dificultar seus adversários a estabelecerem seus jabs por ser ter facilidade em lutar como canhoto ou destro. Em sua carreira contra outros bons strikers, o português teve problemas contra strikers rápidos e também por vezes falta criatividade e fintas para encurtar a distância, algo que certamente será um fator contra Michel Pereira.

Pereira enfrenta um substituto de última hora tendo muitos holofotes sobre si no card principal do primeiro pay-per-view do ano. Ele tem a vantagem de envergadura e pujança física. No entanto, Fialho é um striker bastante paciente e dificilmente irá se envolver nas trocações alucinadas onde o brasileiro se dá muito bem. Fialho também terá a vantagem de gás, portanto se ele conseguir suportar a pressão inicial que Pereira impõe, é bem possível que ele consiga assumir o controle da luta. De qualquer forma, Pereira tem a faca e o queijo na mão para vencer e possivelmente entrar no top 15 dos meios-médios.

Peso médio: Rodolfo Vieira (BRA) vs. Wellington Turman (BRA)

Rodrigo Rojas

Rodolfo Vieira (8-1 no MMA; 3-1 no UFC) é um dos melhores – se não O melhor, junto a Roger Gracie e Marcus Buchecha – lutador de jiu-jitsu a migrar para as artes marciais mistas. Rodolfo foi cinco vezes campeão mundial na faixa preta, além de campeão do ADCC, do Pan Americano, da Copa Pódio, do Mundial de Abu Dhabi… 

O “Caçador de faixa preta”, como ficou conhecido, sempre foi um lutador extremamente forte, conhecido pela pressão e pela agressividade nos tatames. Na arte suave, tem um cartel registrado de 100 vitórias e apenas nove derrotas (além de um empate) em alto nível. No MMA, estreou em 2017 e, logo chegou na maior organização do mundo. No ano passado, teve um choque de realidade ao ser finalizado (!!!) pelo faixa roxa Anthony Hernandez, após ser massacrado em pé e morrer no gás. No mesmo ano, se recuperou com uma perfomance bem mais comedida, finalizando Dustin Stolzfuz no terceiro round. 

Na luta agarrada, Rodolfo dispensa comentários. Quando a luta atinge o solo, não há lutador mais habilidoso do que o carioca dentro do UFC. O wrestling, apesar de acima da média para lutadores oriundos do jiu-jitsu, ainda não é de elite. Na trocação, há pouco o que se falar, já que Rodolfo – corretamente – busca a luta agarrada incessantemente. Quando forçado a trocar na distância, Vieira tem uma defesa muito esburacada e, ofensivamente, conta apenas com a mão pesada. Ainda que seja muito resistente, a enorme quantidade de massa muscular cobra seu preço e o condicionamento cardiorrespiratório é um ponto bastante fraco para o carioca.

Wellington Turman (17-5 no MMA; 2-3 no UFC) é um dos principais nomes da renovação brasileira entre nos médios.  Ainda muito jovem, o paranaense chegou no UFC aos 22 anos e, apesar do cartel irregular e de ainda não ter se encontrado no UFC, ainda tem muito tempo para melhorar – principalmente agora que está treinando com Glover Teixeira e Alex Poatan, nos Estados Unidos. 

Turman tem sua origem no muay thai, tendo migrado para o MMA profissional assim que fez 18 anos, o que explica seu cartel de 22 lutas aos 25 anos de idade. No melhor estilo Chute Boxe, gosta de avançar lançando cruzados e chutes fortes, se sentindo confortável trocando socos no pocket. O clinch também é mortal, com boas joelhadas e excelentes quedas, principalmente do body lock. 

Apesar do background na trocação, os melhores momentos de Wellington são na luta agarrada, com transições agressivas, boas passagens de guarda e pegadas de costas, além de finalizações oportunistas.

Rodolfo deve vir vacinado após a derrota humilhante para Hernandez – do mesmo modo que veio contra Stolzfus. Assim, provavelmente jogará no contragolpe, esperando o momento certo para entrar nas pernas, botar pra baixo e finalizar. O jogo agressivo de Turman o deixa bastante exposto para as quedas e, uma vez no chão, ele não deve demorar muito a sucumbir ao jogo mortal de Vieira.