Por Edição MMA Brasil | 26/03/2021 00:23

Depois de duas semanas consecutivas de eventos de menor expressão em termos midiáticos, chegou a hora do tão esperado UFC 260 entrar em ação. Tal como a promoção do UFC durante a semana, o evento será protagonizado pela tão aguardada revanche pelo cinturão dos pesados.

Na luta principal da noite, Stipe Miocic segue sua carreira após a trilogia contra Daniel Cormier para enfrentar um velho conhecido. Depois de uma aplicar uma verdadeira surra em cinco rounds, ele concede a revanche para Francis Ngannou, que enfileirou corpos desde a última luta e provou que merecia uma nova oportunidade pelo cinturão.

Na luta coprincipal da noite, o ex-campeão dos meios-médios Tyron Woodley tenta provar que ainda consegue arrumar algo na divisão que já reinou depois de duas derrotas acachapantes. Agora, o americano terá pela frente a missão de enfrentar o brasileiro Vicente Luque, que terá a maior luta de sua carreira e mais uma oportunidade de se testar contra a elite da categoria.

Por fim, o irreverente Sean O’Malley retorna ao octógono após mais uma lesão na perna que resultou em seu revés para Marlon Vera. De volta, o americano encara o brasileiro Thomas Almeida, que terá que vencer para garantir sua continuidade na maior organização do mundo após três derrotas consecutivas e um jejum de quase quatro anos.

Cinturão peso-pesado: (EUA) Stipe Miocic (c)  vs. #1 Francis Ngannou (CAM)

Por Gustavo Lima

Stipe Miocic (20-3 MMA, 14-3 UFC) é o nome a ser batido no peso pesado em todo o mundo do MMA. Recordista de defesas do cinturão da categoria no UFC e atualmente em seu segundo reinado, o atleta de Ohio praticamente fez fila em todos os desafiantes legítimos da categoria, o que implica em voltar a repetir alguns nomes e/ou recepcionar nomes em ascensão na categoria (que sinceramente, não são muitos).

Se excluirmos Daniel Cormier, com quem lutou três vezes consecutivas, Miocic mostrou uma qualidade que destoou demais do restante da categoria ao longo dos últimos anos. Forte, rápido, grande, atlético, excelente boxer e ótimo wrestler. Tudo isso em um único pacote torna o bombeiro de Cleveland um espécime singular na faixa de peso até 120 quilos, onde atletas geralmente confiam demais em uma única valência e possuem brechas no jogo facilmente exploráveis por um combatente tão completo assim.

Na outra ponta da jaula estará o “Predador” Francis Ngannou (15-3 MMA, 10-2 UFC), recebendo uma nova chance contra Miocic após escalar a categoria pela segunda vez. Nocauteador de mãos pesadíssimas, grande e bruto são alguns dos rótulos que evidenciam o motivo do camaronês ter se tornado o grande terror dos pesados nos últimos anos, todavia, como dito no parágrafo anterior, contra Miocic o buraco é um pouco mais embaixo. No primeiro combate entre ambos, lá em janeiro de 2018, ficou evidente que Francis carecia de polimento. Não bastava só punch, força ou envergadura. Miocic se movimentava melhor, era mais inteligente, era mais rápido, possuía mais recursos e obviamente, a mão não entrou.

Após sair derrotado nas papeletas contra Miocic e protagonizar uma luta constrangedora contra Derrick Lewis em que também saiu derrotado, Ngannou admitiu que havia ficado um pouco acuado e sem foco depois de seu primeiro revés em muito tempo. Não tardou para que voltasse ao caminho das vitórias e desde então, são quatro nocautes consecutivos no primeiro round (Blaydes, Velasquez, Cigano e Jairzinho), provando que apesar de tudo, ele ainda é o nome mais perigoso em atividade nessa categoria abaixo de Stipe.

Após a primeira luta entre os dois lutadores, a sensação era de que Ngannou poderia chegar a coroa algum dia, mas precisaria melhorar um bocado em alguns aspectos. Potencial existia, tempo também. E nos últimos tempos, enquanto Miocic se ocupava com a trilogia contra DC, vimos também muito material de Ngannou treinando boxe, inclusive com o lendário Teddy Atlas. Teste mesmo, na prática, não houve, já que nenhum dos oponentes que o Predador despachou chega perto da sombra do que Stipe Miocic é.

O grande trunfou de Stipe na primeira luta foi sua movimentação inteligente, precisa e veloz. Tocando Ngannou muitas vezes na longa distância e sendo um alvo muito difícil de ser acertado, Stipe foi crescendo mais e mais na luta conforma a diferença de preparo físico acentuava ainda mais o vão técnico existente entre ambos os competidores. Do meio pro fim, Miocic ainda encontrou diversas brechas para usar seu bom wrestling e conduzir o restante da luta em banho maria.

Francis Ngannou vs Stipe Miocic odds - BestFightOdds

Acreditar em um resultado diferente nessa luta é confiar que Ngannou conseguiu passar por um processo de polimento técnico muito grande nesses últimos anos, já que eu pessoalmente não acredito que o jogo de Miocic tenha empobrecido um centavo nesses três anos que se passaram desde o último encontro entre ambas as entidades. Francis melhorou? Sim, com certeza. Mas melhorou a ponto de conseguir ser mais rápido, efetivo, preciso e se expor significativamente menos contra aquele que é discutivelmente o melhor lutador da história da categoria? Aí eu já não sei. E sinceramente, meu palpite é que não.

A meu ver, uma vitória de Ngannou ainda passa pela necessidade de o camaronês conectar um golpe forte e destruidor contra o campeão. Se tratando de um oponente como Miocic, isso é sempre muito difícil. Claro que não é impossível, mas também não é muito provável, especialmente por Stipe ser um sujeito que dificilmente se expõe muito e também não dá muita margem para que lhe induzam ao erro. Veredito: Campeão retém por decisão, mais uma vez.

Peso meio-médio: #7 Tyron Woodley (EUA) vs. #10 Vicente Luque (BRA)

Por Matheus Costa

Em um aparente declínio físico de sua carreira, o ex-campeão dos meios-médios Tyron Woodley (19-6-1 no MMA, 9-5-1 no UFC) vem dando os últimos passos de sua carreira aos 40 anos. Com um desafio completamente novo, o americano tenta apagar a má impressão deixada no atropelo sofrido para seu algoz Colby Covington em setembro.

Wrestler da primeira divisão da NCAA, Woodley chegou ao UFC como um lutador unidimensional, isto é, muito técnico no grappling e muito cru na trocação. Muito forte, explosivo e com muita potência nas suas mãos, ele acabou evoluindo no boxe e se tornou um contragolpeador de elite. Com uma postura defensiva quase que intransponível, se tornou um lutador monótono ao esperar ao invés de explodir para não cansar tão rápido. Faixa preta de jiu-jítsu, controla muito bem quando está por cima e possui ótimo ground and pound.

Com oito vitórias nas últimas nove lutas, o brasileiro Vicente Luque (19-7-1 no MMA, 12-3 no UFC) tem novamente uma grande oportunidade de se testar contra a elite da divisão dos meios-médios. Depois da falha experiência frente ao ex-desafiante Stephen “Wonderboy” Thompson, agora ele terá a missão de enfrentar o ex-campeão que venceu seu último algoz em duas oportunidades. Claro, em fases diferentes.

Se você gosta de violência e agressividade no MMA, você provavelmente ama Vicente Luque. Com pressão e potência como seus principais aliados, o brasileiro é muito eficaz na luta em pé e sempre mostra grande técnica na hora de golpear seus adversários, seja na hora de partir pra cima ou de contragolpear. Sua preferência é por jogar na curta distância, onde sempre usa joelhadas, cotoveladas e socos potentes. No grappling, embora não tenha mostado muito, Luque é um jiu-jiteiro bem decente. A grande preocupação fica para a sua defesa, que é vazada e pode ceder para um dos impediosos contragolpes de Woodley.

Dois anos atrás, esta luta não seria competitiva. Woodley atuava em grande nível e mostrava perspectivas de continuar campeão por muito tempo, enquanto Vicente ainda dava tímidos sinais de que seria o lutador que é hoje. O panorama mudou. O ex-campeão aparenta estar desmotivado e em declínio físico pela idade avançada, enquanto o brasileiro parece estar cada vez melhor, mais forte e mais pronto. Assim é o MMA: em pouco tempo, muita coisa pode mudar.

Tyron Woodley vs Vicente Luque odds - BestFightOdds

A aposta, no entanto, é conservadora por parte deste humilde analista. Woodley, embora em declínio, ainda oferece riscos muito consideráveis para serem ignorados nesta luta. Vicente é um striker muito habilidoso e feroz, mas não o vejo com capacidade de parar o wrestling do ex-campeão, que deve ser utilizado nesta luta. Portanto, aposto em uma vitória por decisão do americano.

Peso galo: (EUA) Sean O’Malley vs. Thomas Almeida (BRA)

Por Israel Silveira

Talvez um dos prospectos com maior hype sobre si, “Suga” Sean O’Malley (12-1 no MMA, 5-1 no UFC) descobriu que quando se trata do topo da divisão peso galo o buraco é mais embaixo. Um dos kickboxers mais polidos da divisão, O’Malley é uma personalidade em suas redes sociais e tem uma legião de fãs. O americano no entanto só tem quatro lutas de 2018 para cá, tanto por conta de lesões como por conta de ter sido pego no doping em duas oportunidades. Passadas suas suspensões, O’Malley vinha em boa sequência de brutais nocautes sobre José Quiñonez e Edddie Wineland até sofrer uma derrota por interrupção contra Marlon Vera que era uma grande elevação no nível de competição para o americano.

Thomas Almeida

O’Malley gosta de trocar de base e colocar iscas para seus adversários e então lançar um contragolpe com sua potente mão direita. O americano não é nenhum grande puncher, mas tem ótimo timing e sua mão direita até aqui vem resolvendo as lutas. Além disso ele tem gás para manter sua movimentação de pés por três rounds. Claramente esta luta foi planejada para que “Suga” volte ao caminho das vitórias.

Por falar em hype, Thomas Almeida (22-4 no MMA, 5-4 no UFC) é um ex-hypado tentando se reencontrar na carreira. Ao chegar no UFC muitos se impressionaram com a capacidade para violência de “Thominhas”, que traz o estilo peculiar de lutadores da chuteboxe: aguentar algum dano dos oponentes e lançar muito mais golpes em resposta. No entanto desde sua brutal derrota para Cody Garbrandt o brasileiro vem em uma complicada sequência de uma vitória e três derrotas, sendo que contra Jimmie Rivera e Rob Font “Thominhas” foi simplesmente tirado pra nada.

O brasileiro tem claras brechas em seu jogo que ficaram claras mesmo quando ele ainda vinha em sua sequência de vitórias, sendo a principal o fato de se abrir demais para receber golpes que na maioria das vezes acabam atordoando o brasileiro. Ele tentou trazer uma nova abordagem em seu jogo contra Jonathan Martinez, mas surpreendentemente perdeu onde ele deveria ser melhor: no muay thai.

Sean O'Malley vs Thomas Almeida odds - BestFightOdds

Sean O’Malley é favorito para essa luta com razão. Sua trocação fluida tem tudo para fazer Thominhas desperdiçar vários golpes e eventualmente um dos duros contragolpes do americano deve levar o brasileiro à lona. O’Malley também tem uma fraqueza: ele é muito frágil para chutes baixos e já se lesionou duas vezes em meio à lutas, uma contra André Soukhamtat na qual “Suga” perderia se Soukhamtat não tivesse cometido um grave erro estratégico e contra Chito Vera, na qual O’Malley foi nocauteado. O brasileiro especialista em muay thai deverá tentar estabelecer seus low kicks desde o início. Não obstante essa fragilidade de “Suga”, ele tem muito mais ferramentas para aplicar a quarta derrota consecutiva ao brasileiro, com grandes chances de um nocaute.