Por Edição MMA Brasil | 22/01/2021 17:01

Fechando a sequência de três eventos em uma semana em Abu Dhabi, o UFC fecha a conta com chave de ouro. O UFC 257 será realizado neste sábado com um card bem especial, principalmente por sua luta principal.

A cereja do bolo do evento marca a aguardada revanche entre Dustin PoirierConor McGregor. Pouco menos de sete anos depois do nocaute estonteante do irlandês em Dublin, os lutadores, em momentos totalmente distintos, se reencontram para resolver a dúvida que ronda pela evolução entre os dois.

Na luta coprincipal do evento, Dan Hooker fará a festa de boas-vindas ao americano Michael Chandler, ex-campeão dos leves do Bellator e um dos principais atletas da história da organização rival. Agora, em nova fase na carreira, ele busca provar que pode brigar entre os grandes na maior organização do mundo.

Outros grandes combates do evento são entre Joanne Calderwood e Jessica Eye pela categoria dos moscas, enquanto as brasileiras Marina Rodriguez e Amanda Ribas se encaram pela categoria dos palhas.

O UFC 257 será transmitido com exclusividade pelo Canal Combate no Brasil. A transmissão está programada para começar às 20:30h, pelo horário oficial de Brasília.

Peso Leve: #2 Dustin Poirier (EUA) vs. #4 Conor McGregor (IRL)

Por Rodrigo Rojas

Dustin Poirier tem uma das carreiras mais bonitas do MMA. O americano superou uma infância difícil e uma trajetória cheia de altos e baixos para se tornar um dos melhores lutadores do mundo. Seu cartel é dos mais impressionantes da história, com vitórias sobre Max Holloway, Carlos Diego Ferreira, Eddie Alvarez, Anthony Pettis, Justin Gaethje e Dan Hooker. Em 2019, o Diamante conquistou a coroação de sua carreira, faturando o cinturão interino dos leves ao superar Holloway em uma revanche.

Apesar da origem no jiu-jítsu e do bom wrestling desenvolvido na ATT, Poirier brilha na trocação. Seu boxe está entre os mais efetivos do esporte, recheado de longas combinações de socos potentes e imprevisíveis, complementado por golpes de toda sorte e em todos os níveis, não discriminando entre carimbar o rosto e o corpo dos oponentes, que acabam soterrados pelo volume e potência do Diamante. O jogo completo ainda permite que Dustin lute estrategicamente quando julga necessário, ainda que não seja essa sua primeira opção.

Poirier é um lutador favorito dos fãs e não à toa. O residente de Lafayette tem tendência a entrar em batalhas sanguinárias e tem capacidade mental e física de aguentar adversidade, com o condicionamento físico como destaque. Essa tendência, no entanto, pode deixá-lo em maus lençóis – principalmente contra adversários como o do próximo sábado.

O “Notório” Conor McGregor dispensa apresentações. Primeiro campeão de duas categorias simultaneamente, maior vendedor da história do esporte, o único a convencer Dana White a fazer “cross promoting” e, por isso, o único lutador de MMA a se aventurar no boxe no mais alto nível. Não à toa, o irlandês é a maior estrela da história do esporte.

O que muitos esquecem, no entanto, é que McGregor acompanha o sucesso midiático com atuações brilhantes dentro do octógono. A base de karate abre espaço para um boxe impressionante, com precisão e timing excelentes e, acima de tudo, a mão esquerda mais pesada da categoria. A movimentação é excelente, principalmente quando marcha para frente, forçando seus oponentes a golpeá-lo para acertar o contragolpe, além de ser utilizada para cortar ângulos e encurralar os adversários. Adequando-se a quem está do outro lado do cage, Conor também usa chutes em todos os níveis e dos mais variados, mas sempre com a intenção de acertar seu direto de esquerda mortífero.

O grappling de McGregor é pouco respeitado, mas tem bom nível tanto ofensiva quando defensivamente, ainda que seja seu ponto fraco na parte técnica. O maior calcanhar de Aquiles do irlandês, no entanto, é o condicionamento cardiorrespiratório, já que sua capacidade aeróbica costuma arrefecer conforme a luta transcorre.

Conor McGregor vs Dustin Poirier odds - BestFightOdds

Muita coisa mudou desde o primeiro encontro entre McGregor e Poirier em 2014. Desde o UFC 178, os dois subiram de categoria e conquistaram, juntos, quatro cinturões do UFC. Ainda assim, o encaixe de estilos é, em suma, o mesmo. Conor é o striker mais preciso e baseado em contragolpes. enquanto Dustin aposta em volume de jogo e trocas no pocket. Ainda que o grappling do americano seja superior, Conor tem qualidade defensiva suficiente para evitar que a luta transcorra no chão, o que forçará um combate em pé. Nesse âmbito, Dustin costuma deixar brechas para ser contragolpeado – o que não é uma boa ideia contra o Notório. A não ser que venha com uma condição física precária, o europeu é franco favorito – e ele não nos deu indícios de falhas em sua preparação. Por isso, a aposta é em Conor McGregor por nocaute na primeira metade da luta, com a ressalva de que, caso passe do segundo assalto, as chances do americano aumentam consideravelmente.

Peso Leve: #6 Dan Hooker (NZL) vs. Michael Chandler (EUA)

Por Gustavo Lima


Dan Hooker (20-9 MMA, 10-5 UFC) é o sexto colocado no ranking dos leves do UFC e também um dos últimos atletas a ter se juntado ao pelotão de frente da referida divisão. Com cartel de 7-2 desde que voltou para esta faixa de peso, o neozelandês vem de uma derrota por decisão vendida por muito caro para Dustin Poirier, atual número #2 até 70kg.

Trocador versátil e refinado, o “Hangman” vive hoje seu melhor momento da carreira. Em constante evolução, o cria da City Kickboxing escalou vários degraus na divisão deixando um rastro de destruição por onde passou. Ágil, inteligente e dono de mãos pesadas, Hooker é capaz de variar estratégias e trocar em diferentes níveis, tendo também jogo de chão bem polido a ponto de não ser considerado um unilateral. Até aqui, seu maior sufoco na luta em pé foi contra Edson Barbosa, ocasião em que teve muita dificuldade com os chutes do brasileiro e acabou sendo derrotado por nocaute técnico.

Neste sábado, Dan terá a árdua missão de fazer a aguardada recepção de Michael Chandler (21-5) no UFC. O ex-campeão do Bellator esteve cotado entre os melhores lutadores dos leves fora da maior organização de MMA do mundo ao longo da última década e após muita espera, finalmente pisará na jaula de oito lados em busca de provar seu valor para uma audiência maior.

Apesar de parecer um veteraníssimo por conta do tempo que competiu em alto nível e de algumas guerras memoráveis que travou ao longo dos últimos 10 anos, Chandler é só quatro anos mais velho que Hooker e tem menos experiência no MMA propriamente dizendo (mesmo tempo de carreira, com 3 lutas a mais da parte de Dan). Há um contraste interessante aqui, pois enquanto o neozelandês parece estar surfando o ponto mais alto de sua carreira, Chandler começa a ser escrutinado a respeito de sua atual forma e sobre sua capacidade técnica real, gasta por muito tempo contra oponentes de nível não tão alto.

O background técnico de Chandler dispensa apresentações: Ex-NCAA Division 1, dono de boxe consistente e mãos pesadas que arranjaram diversos nocautes na era dos torneios do Bellator, duas lutas antológicas contra Eddie Alvarez em que coração, queixo e físico foram testados, etc. A grande dúvida aqui é sobre o quanto sobrou daquele Michael Chandler aqui em 2021, visto que apesar do bom retrospecto nos últimos anos, um top 10 de UFC é composto por espécimes completamente diferentes.

Em suas últimas 10 lutas, Chandler vem com cartel de 8-2. Desconsiderando a derrota para Brent Primus em que lesionou o tornozelo com um low kick logo no início, o único nome na coluna de revezes é o de Patrício Pitbull, que o nocauteou logo no primeiro round em maio de 2019. Coincidentemente, Pitbull também é o único nome de ponta dentre estes dez últimos adversários de Iron Mike (com todo respeito ao Ben Henderson, mas não dá mais né?).

No topo dos aspectos técnicos, de uma coleção de lesões e de um queixo que já pode querer abrir o bico dependendo do grau de exigência, há um outro fator que pode causar problemas a Michael por aqui: ele é realmente bem pequeno para o padrão atual do peso leve. Eu não costumo considerar desvantagem de tamanho e envergadura como um grande problema per se, mas Michael vai encontrar indivíduos grandes, de muita imposição física e de movimentação intensa, o que deve dificultar a execução de seu bom wrestling e abrir muitas brechas na luta em pé. Sabe quem casa com essa descrição aqui? Dan Hooker.

É muito difícil projetar Chandler abafando Dan pela maior parte da luta quando levamos todos esses pontos em consideração. É bem possível que ele tenha muita dificuldade de entrar no raio de ação de Hooker e com certeza será bastante tocado nesse meio tempo. Ao longo de três rounds não creio que vamos chegar a um grande vão de desgaste físico entre os atletas e apesar de achar concebível que Hooker se torne mais suscetível a quedas na segunda metade da luta, não acho que esse cenário hipotético seria suficiente pra Chandler conseguir superioridade nas papeletas.

Dan Hooker vs Michael Chandler odds - BestFightOdds

Creio que Hooker vá sair com o braço levantado, com chance considerável até de um KO/TKO. Não gosto muito desse casamento e acho que Chandler pode parecer muito pior do que ele ainda tem capacidade de ser, especialmente por Hooker ser hoje um dos BONS da divisão. Michael ainda tem lenha pra queimar e eu acredito que podia estar ajudando a limpar e renovar o top 15 da categoria, mas esse pessoal da linha de frente da 155lbs está um pouco aquém do que ele consegue entregar hoje. Posso queimar muito a língua, mas fazendo uma análise de retrospecto e desempenho, sou tentado a acreditar que é por aí.

Peso Mosca: #6 Jessica Eye (EUA) vs. #7 Joanne Calderwood (SLD)

Por Idonaldo Filho

Jessica “Evil” Eye (15-8 no MMA, 5-7-1 no UFC) é uma veterana do MMA feminino, uma das pioneiras do peso mosca, categoria que costumava atuar antes de assinar com UFC, na divisão dos galos. Retornando para a divisão de origem em 2018, Eye teve sucesso instantâneo com três vitórias seguidas na categoria, a mais relevante sobre Katlyn Chookagian. Com isso, Jessica teve a oportunidade de disputar o cinturão contra a bicho papão Valentina Shevchenko. O resultado disso? Um chute limpo na fuça, em um dos nocautes mais lindos de 2019. Após isso alternou resultados, barrou a ascensão de Vivi Araújo e perdeu a luta contra Cynthia Calvillo.

Eye é uma lutadora completa, mas que costuma preferir a trocação em seus combates. Falando de striking, Jessica é uma lutadora sem muito poder de nocaute, mas que se destaca no alto volume de golpes desferidos, sempre se mantendo ativa e andando para a frente com um boxe eficiente. Essa tara por agressividade excessiva algumas vezes até a atrapalhou, expondo buracos defensivos como na defesa de quedas duvidosa e também com brechas defensiva na guarda em pé. Contra Calderwood, que é uma trocadora de qualidade, pode ser que a Eye grappler apareça.

Direto da Escócia, JoJo Calderwood (14-5 no UFC, 6-5 no UFC) também é uma das lutadoras mais veteranas no UFC atualmente. A primeira vista pode parecer estranho que ambas nunca tenham se enfrentado antes, mas lembrando que Calderwood, ao contrário de Eye que atuava como galo, fazia parte do plantel dos palhas, sofrendo em várias oportunidades com o corte de peso. Joanne esteve próxima de um title shot recentemente, depois de vencer Andrea Lee muito bem, porém, mais uma vez entregou a paçoca no chão, sendo derrotada pela brasileira Jennifer Maia.

Calderwood possuí passado no Muay Thai, podendo isto ser visto no octógono em seus avanços ofensivos. Boa atuando na longa distância, a escocesa possuí joelhadas perigosas e é eficiente no clinch. A técnica de Joanne impressiona também pela variedade técnica, podendo desferir praticamente todos os tipos de golpes principais de forma acima da média, como sequências de jabs e chutes. O problema é mais do que conhecido: Calderwood é horrível no chão. A peso mosca não tem nenhum cacoete na luta agarrada, principalmente defensivamente. Todos já cansaram de ver ela tomando aperto nessa área do jogo durante muito tempo.

Jessica Eye vs Joanne Calderwood odds - BestFightOdds

É um duelo bem equilibrado e que espero que seja animado. São duas atletas conhecidas pelo bom volume de golpes e por se manterem ativas em pé. Acredito que Eye vá tentar ir para o chão em algumas oportunidades e, se for bem sucedida, tem condições de terminar a luta. Entretanto, não acho que será esse o desfecho. Minha aposta é que Calderwood seja mais ativa e contundente no combate, levando a peleja na decisão dos juízes.

Peso Palha: #8 Marina Rodriguez (BRA) vs. #10 Amanda Ribas (BRA)

Por Gustavo Lima


Marina Rodriguez (12-1-2 no MMA, 2-1-2 no UFC) tem mostrado serviço desde que chegou ao UFC, sempre dando ênfase em seu bom muay thai. Apesar de vir de sua primeira derrota na carreira (em decisão dividida bem apertada para a duríssima Carla Esparza), a gaúcha ainda é a oitava colocada no ranking do peso palha, tendo crédito pela boa sequência invicta contra oponentes duras.

Apesar de muito forte no jogo em pé, especialmente no clinch, Marina ainda tem cacoetes muito aparentes de uma striker “pura”. Além que confiar demais num gameplan ortodoxo de muay thai, tem sido recorrente a dificuldade de Marina contra grapplers. Basicamente todos os rounds perdidos e momentos de sufoco ao longo da jornada da brasileira no UFC foram contra lutadoras capazes de botar pra baixo, controlar e golpear no chão. Contra Randa Markos e Cynthia Calvillo deu pra segurar e sair com um empate, mas no último duelo, a coluna vermelha do cartel de Rodriguez foi inaugurada.

Na outra ponta do cage estará Amanda Ribas (10-1 MMA, 4-0 UFC), uma das atletas que fez maior barulho no UFC nos últimos meses. Com quatro vitórias consecutivas, sendo duas finalizações e duas vitórias por decisão contra grapplers de bom nível, a judoca mineira está num caminho onde maiores desafios começam a se fazer necessários.

As demonstrações de luta agarrada de Ribas foram irretocáveis até então, com alguma indicação de que o striking careça de polimento, mas nada gritante que não possa ser lapidado. Contra Mackenzie Dern, uma das vitórias mais enfáticas de Amanda, a superioridade sobre a oponente foi vista em pé e no chão com um mix-up muito eficiente e oportuno.

À primeira vista, dá pra levantar a ideia de que Rodriguez pode ser uma adversária pra testar o striking de Ribas, mas esse casamento se torna bem ineficiente para esta proposta justamente pelo fato de que Amanda não deverá terá suas habilidades de trocação tão acionadas assim. Marina não é uma atleta que gosta de controlar a distância e tem como ponto forte justamente seu in-fight. Buscar a aproximação contra uma adversária como essa é virar alvo fácil para todo tipo de queda: Ribas tem um arsenal bem efetivo que vai da boa adaptação de seu background de judô a uma incorporação eficiente de técnicas de wrestling.

Pela perspectiva de Marina temos mais um teste para o seu jogo de luta agarrada, partindo da defesa de quedas até sua capacidade de trabalhar com as costas no chão. Meses atrás, eu escrevi a prévia de sua luta contra Esparza e acredito que muito pouco mudou desde então, ao menos da perspectiva estratégica. Apesar da diferença entra a oponente anterior e a próxima (especialmente pelo característico estilo “wrestler carrapato” de Carla), a dinâmica aqui é muito similar: Rodriguez precisa se adaptar, evoluir em aspectos defensivos e encontrar maneiras de maximizar suas principais valências.

Eu particularmente adoro atletas que encaram desafios que abrem oportunidade para enriquecer alguns de seus pontos fracos e acredito que se este processo for feito de maneira correta, é grande catalizador para a evolução de qualquer lutador de MMA. Marina tem resiliência, tempo de carreira e um skillset com muitos aspectos positivos, logo, é pertinente que os duelos contra grapplers continuem. Porém, pela diferença de habilidade, pouco tempo desde os últimos resultados contra atletas de características similares e pela dinâmica do bom grappler vs. bom striker, o favoritismo aponta para o outro lado.

Amanda Ribas vs Marina Rodriguez odds - BestFightOdds

Amanda usa muito o volume no striking como veículo de aproximação e é bem provável que Marina tente procurar a trocação na curta distância, o que eventualmente terminará em queda. Apesar de conseguir se fechar bem e não ser suscetível a ceder posições e chances de finalização, geralmente Rodriguez não obtém sucesso revertendo as situações de desvantagem com as costas na lona. Aposto em uma vitória de Ribas, que a credenciaria a entrar na parte da divisão em que as atletas começam a ficar mais completas e polidas.