Por Edição MMA Brasil | 23/10/2020 10:25

O dia, enfim, se aproxima. Neste sábado, o UFC 254 chega em um horário bem mais cedo do que o comum, mas traz um confronto bem fora da curva diretamente da Ilha da Luta em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos.

Na luta principal do evento, o campeão peso leve Khabib Nurmagomedov retorna ao octógono do UFC e enfrenta o americano Justin Gaethje, campeão interino da mesma divisão. O confronto tão esperado será válido por cinco rounds.

Já na luta coprincipal do evento, o ex-campeão dos médios Robert Whittaker retorna ao octógono e enfrenta o ascendente Jared Cannonier pela divisão de até 84kg. Inclusive, o vencedor pode ser o escolhido para ser o próximo desafiante do campeão Israel Adesanya.

Outros combates notórios do evento serão entre Alexander Volkov e Walt Harris pela categoria dos pesados e o encontro entre Ion Cutelaba e Magomed Ankalaev pela divisão de até 93kg.

O UFC 254 começa às 12:00h com seu card preliminar, enquanto a porção principal das lutas deve começar às 15:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília. O evento terá transmissão exclusiva do Canal Combate no Brasil, e as duas primeiras lutas serão transmitidas pelo SporTV.

Cinturão Peso Leve: (C) Khabib Nurmagomedov (RUS) vs. #1 Justin Gaethje (EUA)

Por Alexandre Matos

Rastro de destruição. Esta é a melhor explicação do caminho de Khabib Nurmagomedov (28-0 no MMA, 12-0 no UFC) no MMA, em geral, e no UFC, em particular. Invicto na divisão mais forte do mundo, com um cartel extenso para quem está há quase nove anos no maior palco mundial do esporte, o russo não só vence, como o faz de modo enfático, correndo poucos riscos e infligindo danos profundos aos oponentes. A lista de gente que ficou pelo caminho possui nomes pesados como Conor McGregor, Rafael dos Anjos e Dustin Poirier, apenas para ficar entre os que já detiveram cinturão em suas casas.

Quem olha de longe não imagina que Khabib possa ter tamanho retrospecto com seu arsenal técnico. Ele não é o striker mais vistoso ou preciso, embora seja cada vez mais funcional nesta área. A questão é que o campeão junta duas características que o tornam um lutador raro: ele é fisicamente forte como um búfalo, ainda que não tenha um naipe musculoso, e domina a adaptação do wrestling para o MMA como raros fizeram na história do esporte. Sua capacidade de entrar em movimento de queda e conseguir diversificar os ataques sem precisar repor a postura é coisa de elite da elite. Ou seja, ainda que o oponente defenda a primeira tentativa, ele terá que lidar com a segunda, terceira, quarta consecutivamente, sem espaço para respirar. Invariavelmente todos acabam com as costas plantadas no solo ou grudadas na grade. Para piorar, Nurmagomedov tem uma mentalidade altamente agressiva e ofensiva, sem medo de levar na cara, como se nada pudesse parar o trem de carga que vai descarrilado para cima do pobre incauto que divide a jaula com ele.

Rastro de diversão. Esta é a melhor explicação do caminho de Justin Gaethje (22-2 no MMA, 5-2 no UFC) no MMA, em geral, e no UFC, em particular. O indivíduo tem mais bônus que lutas no octógono mais famoso do mundo e é o único lutador da história do UFC que conquistou a premiação nas primeiras sete lutas na organização. O mais legal é que, para ele, não faz diferença se o oponente é um morto de fome do Ring of Fire ou se é Tony Ferguson, um dos maiores de todos os tempos: Gaethje sai na mão como se não houvesse amanhã. É um deleite para o esporte quando um favorito dos fãs desse nível chega a uma disputa de cinturão em condições reais de desbancar o rei.

Wrestler com condecoração de All-American na Divisão I da NCAA em 2010, Gaethje em algum momento remoto de sua carreira usou a modalidade como carro-chefe. Quem só o conheceu no UFC, ou mesmo no WSOF, nem imagina que ele foi um wrestler de gabarito. Ele é daqueles casos que se apaixonou pelo nocaute e pela sensação de meter a mão na cara de outrem. Não só a mão na cara, mas a canela nas pernas também de modo robusto. Justin usava o wrestling para se manter em pé e trocar soco até alguém desistir. Porém, após o par de derrotas sofrido em 2018, ele passou a adotar um perfil estratégico, menos exposto, mas igualmente destrutivo. Como resultado, disparou como um foguete rumo ao cinturão interino, quando aplicou uma surra em Ferguson no melhor estilo do próprio Ferguson, mas com bem menos riscos. O antigo Gaethje era incrivelmente divertido e instável. O novo segue igualmente legal e virou uma máquina de guerra.

Justin Gaethje vs Khabib Nurmagomedov odds - BestFightOdds
 

Há pouco mais de um ano, escrevi uma matéria sobre como parar Khabib Nurmagomedov. Gaethje aparecia na lista não só pela minha vontade imensa de ver este combate materializado, mas por ser alguém com técnica e força suficientes para sustentar uma disputa no corpo a corpo sem ceder a queda. Ele não aparecia no combo “movimentação lateral, evasão, volume de golpes e gás interminável”. Contra ele ainda havia a “loucura”, algo que poderia impedir o nível extremo de concentração necessário para enfrentar Khabib e o nenhum cuidado com a manutenção da condição cardiorrespiratória.

O que aconteceu desde então? Gaethje segue com os mesmos predicados acima e agora também pode ser considerado apto a desempenhar o que eu não acreditava ser possível. Hoje, Justin consegue ser evasivo, pode imprimir movimentação lateral, joga um volume de golpes desagradável e melhorou demais no gás. Isso faz dele, atualmente, o maior desafio que o campeão já enfrentou.

Pela primeira vez na carreira, Nurmagomedov terá que pensar duas vezes antes de abalroar o adversário – é tudo o que Gaethje quer. Isso pode deixar o russo na incômoda e inédita situação de não ditar os rumos das ações. E caso o americano se sinta à vontade para controlar o ritmo da luta, poderá levar Khabib a nadar em águas profundas. Já imaginou se Justin obrigar Khabib a lutar recuando? Posso ver a saliva escorrendo aí no canto da sua boca.

Para Nurmagomedov, será primordial executar as transições o mais rápido que puder. O quão menos ele evitar trocar pau em pé, melhor para levar o cinturão de volta para o Daguestão. Permitir que Gaethje se aproxime, mas ser rápido para não precisar recuar. Khabib é plenamente capaz de fazer isso, mas talvez tenha chegado a sua hora.

Este combate é uma desgraça de apostar – considero que as odds deveriam estar bem mais parelhas –, mas Nurmagomedov é um homem em uma missão. Ele recentemente perdeu o pai, maior incentivador e seu treinador principal. Seu Abdulmanap queria ver o filho chegar a 30-0. Não está mais aqui para presenciar, mas acho que essa força irá conduzir Khabib para mais perto do número mágico. A aposta é Nurmagomedov por decisão depois de 25 minutos dos mais dramáticos.

Peso Médio: #1 Robert Whittaker (NZL) vs. #2 Jared Cannonier (EUA)

Por Gabriel Carvalho

Robert Whittaker (21-5 no MMA, 12-3 no UFC) começou muito bem a jornada pós-perda de cinturão para Israel Adesanya em outubro passado. O querido ‘Bobby Knuckles’ arrancou uma vitória por decisão unânime na batalha contra Darren Till na mesma Fight Island que luta neste sábado, porém, um ponto é mais positivo ainda: conseguiu se esquivar das lesões que diminuíram muito o seu tempo de luta enquanto campeão.

Carateca de origem, Whittaker se desenvolveu no peso médio como um dos strikers mais perigosos dos últimos tempos. Tem fortes armas tanto nos pés quanto nas mãos, é capaz sempre de criar ótimos ângulos, especialmente em curta distância, além da velocidade de sempre.

Muito louco imaginar que Jared Cannonier (13-4 no MMA, 6-4 no UFC) estreou como um pesado gordo que foi presa fácil para Shawn Jordan. Ao realizar mudanças corporais, passou a ser mais competitivo, e definitivamente se encontrou no peso médio, com as recentes vitórias sobre David Branch, Anderson Silva e Jack Hermansson.

Aos 36 anos de idade, Cannonier parece melhor do que nunca, especialmente por seguir demonstrando bastante potência nos golpes, especialmente os socos. Tecnicamente, ainda está abaixo de Whittaker, mas as ferramentas de Jared são suficientemente boas para se manter como um nome forte na categoria de difícil renovação.

Jared Cannonier vs Robert Whittaker odds - BestFightOdds

Whittaker, em tese, deveria ser favorito em diversas circunstâncias aqui. Afinal, é mais lutador, mais novo, com mais tempo competindo no alto nível e tem capacidade suficiente para se esquivar das investidas de Cannonier, que vai ter de encarar o raio de ação ao australiano em algum momento se quiser despejar potência. O palpite mais seguro é uma vitória de Robert, buscando cansar o oponente a todo instante, lá pelo terceiro assalto, mas não podemos descartar Jared aqui.

Peso Pesado: #7 Alexander Volkov (RUS) vs. #10 Walt Harris (EUA)

Por Idonaldo Filho

Ex-campeão do Bellator, Alexander Volkov (31-8 no MMA, 4-2 no UFC) praticamente se consolidou no top 10 dos pesados dentro do UFC, o que não e uma tarefa difícil. Mesmo vindo de uma derrota clara contra Curtis Blaydes, seus bons desempenhos, incluindo uma importante vitória sobre Fabricio Werdum pré-suspensão, colocam Volkov como um dos membros da renovação da categoria, possuindo apenas 31 anos. O russo atuará pela segunda vez no ano quando pisar no octógono montado na Yas Island.

“Drago” tem total preferência pela luta em pé. Volkov é alto, com boa envergadura e pernas longas, que facilitam o uso do kickboxing na longa distância, utilizando golpes retos e chutes no corpo. O poder de nocaute não é impressionante, mas aplica bom volume de golpes sem mostrar um cansaço excessivo. Os problemas de Alexander no MMA são claramente defensivos. Volkov deixa brechas para ser acertado constantemente e, não tem uma defesa de quedas confiável, ainda que saiba se virar no chão.

Walt Harris (13-8,1 NC no MMA, 6-7, 1 NC no UFC) não se firmou no UFC de imediato, mas agora já com seus 37 anos está em uma situação muito mais tranquila. O “Big Ticket” conseguiu vencer Sergey Spivak e Aleksei Oleinik, assegurando uma vaguinha no top 10. Após ficar parado um tempo devido a um drama pessoal com a morte de sua enteada, Harris teve a maior oportunidade de sua carreira, sendo superado por Alistair Overeem.

Walt Harris é uma carreta desenfreada. Campeão do Golden Gloves, Harris nem de longe é técnico, mas é muito perigoso em pé. Atlético, Walt também tem muita potência nos punhos e todas suas vitórias são por nocaute. Basicamente é isso que podemos falar de positivo. Como é forte, até resiste um pouco mas é ruim defendendo quedas. No jiu-jítsu, sua faixa transparente é mais que nítida. O condicionamento e o QI de luta são reprováveis. Se conseguir resistir aos 2 primeiros minutos, já é meio caminho andado para a vitória.

Alexander Volkov vs Walt Harris odds - BestFightOdds

Volkov é bem mais técnico em pé, mas não é nada confiável defensivamente. Pode até ser que a mão de Harris entre e ele nocauteie, mas o resultado esperado é uma vitória de Volkov na decisão, aplicando volume de golpes e alguma vez ou outra a luta parando na grade.

Peso Meio-Pesado: #11 Magomed Ankalaev (RUS) vs. Ion Cutelaba (MDA)

Por Israel Silveira

“A quarta vez a gente nunca esquece”. Na luta mais “zicada” da história recente do UFC, Magomed Ankalaev fará a revanche contra Ion Cutelaba após as estranhas circunstâncias que circundaram o primeiro confronto que foi em fevereiro. Ankalaev vinha conectando alguns golpes em Cutelaba, que aparentemente fingiu estar atordoado. O árbitro, porém, pensando que o moldavo estava nocauteado em pé, interrompeu o confronto, claramente muito antes da hora.

A primeira tentativa de revanche foi em abril, porém o card acabou adiado por conta da pandemia. A segunda tentativa foi no UFC 252 em 15 agosto, porém Cutelaba testou positivo para o COVID-19. A terceira tentativa foi em 29 de agosto, duas semanas depois, mas Cutelaba testou positivo novamente para o novo coronavírus. O embate no UFC 254 representa a quarta vez que a promoção tenta realizar a revanche.

Magomed Ankalaev (13-1 no MMA, 4-1 no UFC), é mais um lutador oriundo do Daguestão e traz características peculiares de alguns lutadores de lá: wrestling eficiente e bom kickboxing. O especialista em combat sambo vem sendo irrepreensível em sua passagem pelo UFC, exceto por 10 segundos contra Paul Craig que o finalizou no estouro do cronômetro em uma luta que Ankalaev havia dominado. O atleta é um bom contragolpeador e muito paciente em seus ataques. A paciência de Magomed foi justamente o que motivou Cutelaba a fingir estar grogue, pois este entendeu que não seria capaz de derrotar o russo em uma luta em ritmo devagar sendo contragolpeado a cada investida.

Ion “Hulk” Cutelaba (15-5 1NC no MMA, 4-4 no UFC) é especialista em luta greco-romana e possui bastante potência nos punhos. Sua carreira no UFC vem sendo uma montanha russa, já que apesar de ter boas performances contra Khalil Rountree e Gadzhimurad Antigulov, graves falhas em seu jogo ficaram evidentes contra Glover Teixeira e Misha Cirkunov. Cutelaba tende a ser agressivo demais em pé, o que o deixa exposto para contragolpes e quedas, além de um jiu-jítsu suspeito. Além disso ele tende a se cansar por conta do grande volume em pé o que representa problemas caso a luta se estenda.

Ion Cutelaba vs Magomed Ankalaev odds - BestFightOdds

Os 38 segundos do primeiro combate já são suficientes para nos dar o panorama para esta revanche. No primeiro combate Ankalaev conseguiu conectar bons chutes e alguns golpes curtos nas brechas deixas pelos swings de Cutelaba. Ankalaev é simplesmente superior em pé. As melhores chances de Ion são na curta distância e no clinch, onde Ankalaev ainda não se provou no UFC. A questão é se Cutelaba conseguirá chegar no pocket sem ser recebido pelos diretos e chutes do russo. Tudo indica que não. Aposta: Magomed Ankalaev por decisão unânime.