Por Edição MMA Brasil | 14/08/2020 03:49

Finalmente a maior organização de MMA do mundo monta um card liderado por um duelo à sua altura. Neste sábado, mais uma vez no centro de convenções UFC Apex, em Las Vegas, o octógono verá o último capítulo de uma trilogia impactante no combate principal do UFC 252.

O campeão dos pesados, Stipe Miocic, coloca o cinturão em jogo contra o rei deposto, Daniel Cormier, que pode fazer a última apresentação de sua luminosa carreira.

Valendo um posto entre os reais candidatos no peso galo, o candidato a estrela Sean O’Malley encara o sempre surpreendente Marlon Vera. De volta aos grandalhões, Junior Cigano tenta evitar a terceira derrota seguida. O oponente será Jairzinho Rozenstruik, que viu sua invencibilidade cair de modo violento no combate anterior.

No revezamento pesados-galos, será a vez de John Dodson, ex-desafiante dos moscas, medir forças com o ascendente Merab Dvalishvili. Alçado ao card principal, Herbert Burns encara Daniel Pineda.

Cinturão Peso Pesado: C Stipe Miocic (EUA) vs. #1 Daniel Cormier (EUA)

Por Alexandre Matos

Uma sequência de seis vitórias, cinco por nocaute, incluindo o recorde de três defesas consecutivas do cinturão, chegou ao fim de modo violento para Miocic (19-3 no MMA, 13-3 no UFC), em 2018. O UFC concedeu revanche imediata contra Cormier e o descendente de croatas mais uma vez se aproximava da derrota quando anotou uma virada épica, levando de volta para Cleveland o tão cobiçado prêmio.

Desde que surgiu, em 2011, Miocic sempre foi considerado um talento, apesar de algumas patinadas. Quando se firmou, estabeleceu-se como um dos mais talentosos lutadores da história da categoria, com o clássico estilo da escola americana de boxe mais wrestling. Stipe tem uma mobilidade muito acima da média dos grandões, é hábil nas combinações (sua versatilidade será chave neste combate), possui poder de decisão nos punhos e usa abordagens inteligentes para mudar de nível e levar os duelos ao solo. Ali, ele dá início a uma sessão de tortura para os rivais com um ground and pound violento, aproveitando excelente controle posicional.

Foram sete vitórias seguidas, se considerarmos nula a derrota que ficou sem resultado quando Jones caiu no antidoping do UFC 214, até que Cormier (22-2 no MMA, 11-2 no UFC) viu uma vitória que se desenhava tranquila virar um pesadelo na revanche com Miocic. Neste tempo, se tornou o segundo campeão de duas categorias simultaneamente, antes de abrir mão do cinturão dos meios-pesados e do corte de peso agressivo.

Com a velocidade com que aprendeu MMA, é de se imaginar que tipo de lutador Cormier teria se tornado se fizesse a transição após a semifinal olímpica de 2004, desistindo do ciclo de Pequim. Wrestler de talento gigante, DC faz o go-behind como raros no novo esporte. Especialista em pegar as costas, de aproveitamento enorme no solo, encará-lo na luta agarrada é coisa para gente de seu naipe. Porém, o cidadão ainda se tornou um kickboxer rápido, de pegadas muito duras e capacidade de atacar em vários níveis. Se Miocic é um representante clássico do MMA americano, Cormier leva no sangue o estilo que fez fama de sua equipe, a American Kickboxing Academy. Vê-lo em ação serve para diminuir a saudade de um saudável Cain Velasquez.

Daniel Cormier vs Stipe Miocic odds - BestFightOdds
 

Uma semana depois de uma luta principal lamentável, é hora de ver o que a divisão dos pesados tem de melhor para oferecer.

Em quase todos os aspectos, Cormier é um lutador melhor. Seu wrestling é fundamentalmente superior ao de Miocic. Como striker, Daniel tem a versatilidade do kickboxing para lidar com o pugilismo um pouco mais previsível do atual campeão. Embora não pareça, Cormier é pelo menos tão móvel quanto Stipe. Em um ponto eles se parecem: nos problemas defensivos. Em outro, Stipe parece ter vantagem: no condicionamento cardiorrespiratório.

A velha frase do lendário treinador Paul “Bear” Bryant deve ser o fator deste combate. Defesas trazem títulos. A dificuldade que Miocic mostra quando pressionado rendeu o nocaute de Cormier. A exposição da linha de cintura abriu caminho para a interrupção de Stipe. Quem conseguiu aprender melhor as lições? Podemos dizer que nenhum dos dois, o que faz desta trilogia muito equilibrada. Não é de hoje que exploram a protuberância abdominal de DC (Jones, Gustafsson e até Anderson Silva velho). Já Miocic estava confessando o crime no UFC 241 antes da virada, do mesmo modo que o próprio Daniel e Cigano um dia exploraram.

Por este motivo, não vou apostar em algum deles fechar suas brechas. Como a luta se dará no octógono menor, Cormier terá facilitado o trabalho de encurtar e lutar “na cara” de Miocic. Porém, mais do que nunca, deve apostar numa abordagem em diagonal, deixando o ombro do jab criando uma proteção para sua linha de cintura. E não ficar tanto tempo trocando na curta. Daniel precisa de entradas rápidas para aplicar quedas igualmente rápidas – nada de se mostrar para o público e para Miocic erguendo o rival acima de seus ombros, para não se desgastar demais. Cola no tronco depois de um jabuppercut, cintura, passa o pé por trás e cai por cima no riding position sempre tentando catar as costas para apertar o pescoço do campeão.

Os punhos de Miocic devem agir em volume elevado para atrapalhar a aproximação do desafiante. Junto a isso, jogo de pernas variando as direções, buscando os ângulos para chegar ao ponto fraco de Cormier. Variar socos retos com curvos e trabalhar a linha de cintura nas mesmas combinações de socos na cabeça é a chave para a manutenção do cinturão em Cleveland. Se a defesa de quedas estiver em dia, Miocic pode se aproveitar da aproximação de Cormier e forçá-lo a trocar por mais tempo. É arriscado, talvez Cormier não vá repetir as más decisões da última luta, mas é um caminho.

Todas essas possibilidades são bastante concretas, por isso as odds tão parelhas. Como que a gente fica? Cormier depois de uma senhora guerra.

Peso Galo: #14 Sean O’Malley (EUA) vs. Marlon Vera (ECU)

Por Rodrigo Rojas

Bordão marcante, carisma de sobra, personalidade gigantesca, poder de nocaute, aparência pitoresca muito talento e um estilo de luta pra lá de empolgante. Não é à toa que “Suga” Sean O’Malley (12-0 no MMA, 4-0 no UFC) vem se tornando uma grande estrela em tão pouco tempo. Contratado através do Contender Series, onde impressionou com um walk off KO e já deu indícios da atração que viria a se tornar. O americano está invicto no UFC e vem sendo trabalhado de forma brilhante pela organização, pegando desafios sempre na medida certa.

Na última luta, enfrentou o ex-campeão do WEC Eddie Wineland e teve sua performance mais impressionante até hoje, nocauteando com um golpe de cinema, ainda no primeiro round.

A dinamicidade é a principal característica do jogo de O’Malley. Golpes plásticos, muitas fintas e agressividade constante são os meios para atingir o objetivo: acertar os socos retos, o feijão com arroz da trocação do americano. Os chutes altos também são uma boa arma, sempre mesclados com fintas e combinações longas e rápidas. Os contragolpes e a capacidade de explorar brechas em pé também saltam aos olhos, e demonstram o enorme talento e potencial do jovem de 25 anos.

Como esperado, a agressividade abre brechas a serem exploradas por contragolpeadores mais experientes e por wrestlers, já que a defesa de quedas de Sean não é impenetrável. Ele compensa essa falha com um bom jiu-jítsu – especialmente por baixo – mas ainda não enfrentou um grappler de calibre que possa testar esse aspecto de seu jogo.

Marlon “Chito” Vera (17-6-1 no MMA, 9-5 no UFC) é outro jovem talento com um jogo vistoso e agressivo dentro do octógono. No UFC desde 2014, o equatoriano alternou vitórias e derrotas no começo da carreira, sempre entregando boas lutas. Marlon subiu de patamar ao vencer Brad Pickett e Brian Kelleher, mas amargou duas derrotas em sequência assim que enfrentou oponentes mais valorosos. Depois disso, emendou uma ótima sequência de cinco vitórias por interrupção, interrompida por uma decisão controversa contra Song Yadong, na última aparição.

Chito é um lutador de muay thai agressivo, empregando bons chutes em todos os níveis, além de combinações intermináveis de socos potentes e um jogo feroz no clinch. Por outro lado, a defesa é relativamente fraca, baseada na movimentação, mas com muitas brechas.

A capacidade de conquistar interrupções é impressionante, seja com a agressividade e o volume de golpes, seja com as belas finalizações, outro ponto forte do jogo do equatoriano e que pode causar problemas para o adversário no sábado.

Marlon Vera vs Sean O'Malley odds - BestFightOdds
 

O confronto foi casado na medida para O’Malley, mas deve ser muito divertido. Ambos tem predileção por um jogo de trocação pautado pela agressividade, mas, nesse âmbito, Sean é mais talentoso. Marlon pode encontrar sucesso ao abafar o americano com volume e minando suas pernas, além de encurtar para o clinch e, eventualmente, levar a luta para o chão, onde pode arranjar uma finalização. Porém, apostaremos numa vitória do norte-americano, se sobressaindo em meio ao caos da trocação, encontrando os melhores golpes e levando o triunfo por decisão unânime dos jurados.

Peso Pesado: #4 Júnior Cigano (BRA) vs. #6 Jairzinho Rozenstruik (SME)

Por Idonaldo Filho

Ex-campeão dos pesados, Junior Cigano (21-7 no MMA, 15-6 no UFC) não está em boa fase. O brasileiro amarga dois reveses consecutivos contra alguns dos melhores da categoria, sendo nocauteado por Francis Ngannou e Curtis Blaydes. Antes dessa sequência ruim, Cigano conseguiu três vitórias consecutivas contra lutadores de meio de tabela, mostrando que o seu papel atual na divisão é como porteiro. Aos 36 anos e bastante dano acumulado na carreira, com queda de rendimento já nítida, fica a dúvida até quando Junior se manterá no top 10.

O boxe de Cigano sempre foi acima da média, com boa técnica e poder de nocaute. Alguns chutes são utilizados também por Junior, mostrando habilidade ao atingir o corpo de seus adversários. E é isso que a gente pode resumir das atuais qualidades do catarinense, tendo em vista que o corpo não parece acompanhar mais o pensamento na hora de tentar utilizar virtudes que tinha em seu auge.

É preocupante a queda de rendimento ao decorrer dos anos, começando após as batalhas contra Cain Velasquez e se agravando com os últimos nocautes sofridos. A movimentação do brasileiro que era boa, virou piada entre os fãs de MMA, tamanha inércia adicionada a frequência que fica de costas para a grade. O queixo já mostra muito desgaste. No momento atual, Cigano deve vencer apenas lutadores de técnica bastante limitada – que existem a rodo no plantel -, mas fica a dúvida se seu oponente está nessa desgostosa prateleira.

O kickboxer profissional Jairzinho Rozenstruik (10-1 no MMA, 4-1 no UFC) teve uma rápida ascensão no líder do mercado, participando da renovação dessa combalida categoria. O “Bigi Boy” teve maior destaque fora do UFC em uma passagem pelo RIZIN, fazendo uma luta horrorosa e só ganhando na decisão dividida. Sua contratação surpresa foi vista com certa desconfiança de início, mas quatro nocautes consecutivos, o principal contra Alistair Overeem, mostraram que Jairzinho pertence sim ao nível do evento. Em uma possível eliminatória, encarou Francis Ngannou e foi mais um a ser apagado pelo toque da morte do camaronês.

Jairzinho impressiona pela velocidade dos golpes, que é rara considerando o padrão visto no peso pesado. O poder de nocaute é assustador e foi responsável por quase todas suas vitórias. A variedade de golpes existe, atingindo socos no corpo, além de chutes altos e joelhadas no clinch. Enquanto o condicionamento não empolga, é um lutador com força de vontade, visto em sua luta contra Overeem. De chão, o que vimos até hoje foi digno de faixa transparente, mas como é um lutador forte e não enfrenta um grappler isso não é preocupação no momento. Em sua totalidade, é um lutador que leva muito perigo na troca de golpes, mas com uma clara deficiência no solo podendo ser explorada.

Jairzinho Rozenstruik vs Junior Dos Santos odds - BestFightOdds
 

É nítido que Cigano não é nem sombra do que foi no passado e, mesmo sendo um striker muito perigoso e de superioridade técnica a muita gente, é Jairzinho que tem bem mais condições de garantir a vitória por nocaute nessa luta. Vemos um atleta fresco no MMA, de histórico positivo no kickboxing e MMA,  contra um que já participou de várias guerras e acabou nocauteado em cinco de suas sete derrotas. Dificilmente veremos um desfecho favorável ao brasileiro por tudo que ele vem mostrando ultimamente, o nocaute de Rozenstruik deve vir ainda no primeiro assalto.

Peso Galo: #12 John Dodson (EUA) vs. #15 Merab Dvalishvili (GEO)

Por Gustavo Lima

John Dodson (21-11 no MMA, 10-6 no UFC) é sempre um nome que desperta interesse quando sobe ao cage. O retrospecto recente pode enganar os incautos, mas o “Magician” ainda é um lutador incrível apesar do estágio avançado na carreira. Todas as derrotas do estadunidense no UFC foram para craques (DJ, Lineker, Moraes, Rivera e o atual campeão Petr Yan).

Desde que subiu ao peso galo, Dodson não obteve o mesmo sucesso de outrora na divisão de baixo. Muito disso por conta das limitações de tamanho e força que o atleta encontrou em sua nova faixa de peso. Todavia, se a idade e a longa carreira podem pesar, o “Mágico” ainda tem muito da velocidade e mobilidade responsáveis por atrair diversos fãs durante o começo da década passada. Até 62kg, Dodson vitimou bons nomes como Pedro Munhoz e Nathaniel Wood.

Do outro lado, Merab Dvalishvili (11-4 UFC, 4-2 UFC) vem numa ótima sequência de quatro vitórias e com muita vontade de mostrar serviço. Esta será a terceira luta que o atleta da Georgia protagoniza no ano de 2020, sendo o desafio mais difícil que teve na carreira até aqui em aspectos técnico.

Companheiro de treinos do possível-futuro-desafiante ao título Aljamain Sterling na Serra BJJ em Nova Iorque, Merab é o típico grappler carrapato. Técnico, forte e dono de longevidade física notável, “A Máquina” é capaz de imprimir pressão constante em cima de seus adversários, sendo uma força imparável contra oponentes menos gabaritados. Dvalishvili é o tipo de lutador que não morre – vide a luta contra Ricky Simon, onde o mesmo se recusou a bater até o último segundo do duelo e acabou perdendo por submissão em resultando controverso.

Dodson ainda é extremamente rápido, se movimenta muito bem e tem força notável nas mãos. No papel, isso é o alicerce do que se exige no jogo de alguém que deseja barrar a aproximação de Merab. John tem condições de fazer isso, mas precisa lutar em uma intensidade altíssima durante todos os quinze minutos.

Dvalishvili carece de polimento técnico na luta em pé, mas tem um mix-up bom o suficiente para conseguir diminuir a distância de maneira efetiva e fluida (ou ao menos teve contra o nível de competição encontrado até aqui). O cage menor que será usado no UFC 252 também é um detalhe importantíssimo que favorece o jogo do georgiano.

Apesar da barra estar um pouco mais alta para o europeu e este ser um teste de elite para qualquer peso galo, a impressão que temos ao analisar todas as variáveis que constituem este duelo é que tudo conspira para uma vitória de Merab. Ainda temos a diferença de tamanho e envergadura, onde Dvalishvili tem uma vantagem até razoável.

A tendência é que conforme o tempo avance, Dodson vá perdendo a capacidade de negar as quedas de Merab. Uma estratégia bem executada e que minimiza riscos deve ser o caminho das pedras para o ascendente peso-galo do caucaso. Um pragmatismo que pode ser exigido pela maturidade de saber que do outro lado da jaula está um dos atletas mais perigosos de sua geração.

John Dodson vs Merab Dvalishvili odds - BestFightOdds
 

Dodson não é carta fora do baralho, mas como mencionei anteriormente, o vento aqui parece soprar a favor de Merab Dvalishvili. Aposto numa vitória por decisão do “The Machine”. Uma decisão que Dodson deve vender caro.