Por Edição MMA Brasil | 09/07/2020 16:21

Chegou a hora do tão aguardado UFC 251, evento que inaugura a famigerada Ilha da Luta, também conhecida como jogada de marketing do UFC para promover eventos em Abu Dhabi durante a pandemia do COVID-19. Embora o evento tenha três ótimas disputas de cinturões em sua porção principal, o card preliminar possui grandes lutas que não podem ser deixadas de lado.

O ex-desafiante dos meios-pesados Volkan Oezdemir retorna ao octógono para encarar o ex-campeão do RIZIN Jiri Prochazka, um duelo que promete ser bastante movimentado e agressivo. Nos meios-médios, o brasileiro Elizeu Capoeira encara o duro russo Muslim Salikhov, em duelo de strikers técnicos e agressivos.

Nos penas, Makwan Amirkhani encara Danny Henry tentando voltar ao caminho das vitórias. Por fim, o veterano Leonardo Santos retorna ao octógono do UFC para enfrentar o recém-contratado Roman Bogatov na divisão dos leves, enquanto Raulian Paiva enfrenta o estreante Zhalgas Zhumagulov em um dos melhores duelos da noite, válido pela categoria dos moscas.

Peso Meio-Pesado: #7 Volkan Oezdemir (SWI) vs. Jiri Prochazka (CZE)

Por João Gabriel Gelli

Volkan Oezdemir (17-4 no MMA, 5-3 no UFC) teve rápida ascensão no UFC. Foram três vitórias em 2017 que o colocaram como desafiante de Daniel Cormier no começo do ano seguinte. Ele não teve muitas chances contra o então campeão meio-pesado e depois emendou mais duas derrotas. A segunda metade de 2019 trouxe uma reabilitação, com um nocaute sobre Ilir Latifi e uma vitória em decisão dividida e controversa diante de Aleksandar Rakic.

Em oito compromissos no UFC, Oezdemir sempre enfrentou concorrência de bom nível para a categoria, sendo todos ranqueados no momento do confronto. O suíço tem como abordagem principal o kickboxing. Com ele, costuma pressionar adversários e atua com socos singulares ou combinações menores. Sabe trabalhar como contragolpeador e também mostra a capacidade de distribuir chutes violentos contra as pernas dos oponentes. Ele gera potência com facilidade, inclusive em golpes curtos, tendo 12 nocautes em 17 vitórias na carreira. Na luta agarrada deixa a desejar, embora tenha mostrado melhora no wrestling defensivo nos últimos duelos. Além disso, outro ponto em que evoluiu foi o condicionamento físico.

Com uma enorme carreira até aqui, Jiri Prochazka (26-3-1 no MMA) chega ao UFC como um dos principais nomes da categoria que ainda não estavam na organização. Em 30 lutas, conquistou o cinturão do RIZIN e enfrentou nomes promissores e veteranos conhecidos. Sua lista de vítimas inclui os ex-UFC CB Dollaway, Fábio Maldonado e Darko Stosic. Também abateu atletas com passagem pelo Bellator, como King Mo – seu último algoz -, o muito bom Vadim Nemkov, Karl Albrektsson, Brandon Halsey e Satoshi Ishii. Já as outras derrotas vieram ainda no começo da carreira para adversários competentes em Abdul-Kerim Edilov e Bojan Velickovic.

Assim como Oezdemir, Jiri tem como forte a luta em pé. Ele trabalha com um ritmo muito intenso e crescente ao longo do combate. Ele é muito atlético e rápido, com capacidade de invadir o raio de ação do adversário, conectar um ou dois socos potentes e sair. Conforme vai aquecendo e fica mais confortável, dispara mais socos e acelera o fluxo. Por outro lado, praticamente toda a sua defesa se baseia nessa movimentação linear, o que lhe torna um alvo muito fácil. Felizmente para ele, o queixo foi resistente ao longo de boa parte da carreira. Outro ponto relevante é que sua defesa de quedas foi furada por quase todos que tentaram de forma mais insistente. Quando é derrubado, mostra uma guarda ativa e um trabalho razoável para tentar levantar. No entanto, isso não promete ser tão relevante nesse sábado.

Jiri Prochazka vs Volkan Oezdemir odds - BestFightOdds
 

Embora Prochazka tenha apenas 27 anos, sua carreira já está no oitavo e com uma quantidade de lutas muito elevada. Além disso, seu cartel tem muitos nomes conhecidos, mas quase todos estavam ou em decadência ou ainda muito jovens. Estes são pontos de atenção sobre o checo, que é uma contratação de potencial por parte do UFC, mas que já tem muitos camps nas costas e algum dano acumulado ao longo de trinta combates.

Apesar da desvantagem de experiência em termos de quantidade de lutas, Oezdemir tem mais tempo de combate contra concorrência qualificada. Ele já enfrentou o nível mais alto que a categoria pode oferecer e vai para o nono combate no UFC.

No fim das contas, Prochazka é o lutador mais atlético e rápido, mas Volkan tem um bom queixo e a capacidade de capitalizar nas inúmeras brechas que irá encontrar. Dessa forma, o palpite é vitória por nocaute de Oezdemir ainda na primeira metade do duelo, antes que o estreante consiga aumentar a intensidade. Caso Jiri sobreviva, tem boas chances de dominar os momentos finais e talvez conseguir uma interrupção.

Peso Meio-Médio: Elizeu Capoeira (BRA) vs. Muslim Salikhov (RUS)

Por Matheus Costa

Em um dos combates mais técnicos e excitantes do card preliminar, o brasileiro Elizeu Zaleski (22-6 no MMA, 8-2 no UFC) terá uma de suas lutas mais equilibradas da carreira. No interminável tanque de tubarões chamado de peso meio-médio do UFC, “Capoeira” encontra mais um.

Pupilo do ex-lutador Cristiano Marcello na equipe CM System, Elizeu não só traz um estilo bastante empolgante e que quase sempre entrega ótimas lutas, mas também trabalha para se tornar cada vez mais equilibrado. Forjado no muay thai, Capoeira se destaca pela agressividade, volume e criatividade na hora de golpear, sempre encontrando bons momentos e ângulos para tocar seus adversários.

A luta agarrada não é de alto nível, mas o jiu-jítsu de Elizeu vem evoluindo. A parte defensiva de Zaleski é a que mais preocupa, já que ele não possui muita movimentação de cabeça, sua guarda é vazada e acaba se expondo muito quando golpeia.

Um dos maiores lutadores da história do Wushu Sanda, o russo Muslim Salikhov (16-2 no MMA, 3-1 no UFC) é um striker bastante técnico, preciso e eficiente. Afinal, o homem não recebeu a alcunha de “Rei do Kung Fu” por qualquer motivo. Aos 36 anos de idade, é difícil imaginar que o atleta consiga alcançar voos maiores na divisão, mas terá um teste bastante digno no próximo sábado.

Como dito acima, Salikhov sabe alinhar sua precisão, técnica e o poder de nocaute na hora de golpear seus oponentes, tendo grande arsenal ofensivo de golpes de socos e chutes. Seu preparo físico é decente e, embora não seja muito ágil, compensa na hora de criar ângulos e usar golpes giratórios. A parte da luta agarrada não é muito boa, tampouco seu jogo de quedas, o que pode ser um problema para o russo frente ao brasileiro.

Esse é um bom teste para Elizeu, que pode somar mais uma vitória e esquecer de vez o revés para o chinês Li Jingliang. A ideia é que o confronto se desenrole na luta em pé, com a expectativa de uma porradaria desenfreada por grande parte dos rounds. Vale observar como Elizeu irá lidar com os golpes precisos do russo, que podem ser duros demais para seus problemas defensivos. A ideia é que, caso seja preciso, Elizeu consiga levar a luta para o chão, onde é consideravelmente superior e possa controlar as ações, como fez quando enfrentou Curtis Millender.

Elizeu Zaleski Dos Santos vs Muslim Salikhov odds - BestFightOdds
 

De qualquer forma, acho difícil que aconteça um duelo chato e conservador. A expectativa fica pela vitória do brasileiro em uma luta apertada e equilibrada, que deve sair por decisão unânime dos juízes.

Peso Pena: Makwan Amirkhani (FIN) vs. Danny Henry (SLD)

Por Matheus Costa

Makwan Amirkhani (15-4 no MMA, 5-2 no UFC) é um lutador talentoso e tem potencial para alcançar um bom patamar na ótima categoria dos penas. Entretanto, quando parece que a coisa vai andar, desanda. Depois de somar cinco vitórias em suas últimas seis, o “Mr Finlândia” acabou sendo nocauteado por Shane Burgos e perdeu seu momento na divisão. Agora, é hora de recuperá-lo.

Agressivo e com bastante força, Amirkhani é forjado no wrestling. Ele se destaca como um grappler agressivo, que tenta levar os duelos para o solo e finalizar rapidamente. Embora não muito técnico em pé, a tenacidade dos golpes e o bom volume fazem com que Makwan seja um ótimo finalizador de lutas.

A melhor descrição possível para o escocês Danny Henry (12-3 no MMA, 2-1 no UFC) é um lutador básico. Sim, básico. Sem muita técnica, o atleta vem de sua primeira derrota no UFC para o competente Dan Ige, que o finalizou em menos de 90 segundos. Depois de mais de um ano de molho, o atleta volta para tentar retomar as vitórias na carreira.

Trata-se de um atleta cru e que não tem muita continuidade no octógono, já que fará apenas sua quarta luta em três anos de UFC. Em pé, Henry possui bons ataques e gosta de misturar golpes na linha de cintura e na cabeça de seus oponentes, com mais força do que técnica. Embora seja raçudo e mostre coração quando a situação aperta, Henry é um atleta lento e uma defesa de golpes bem ruim, o que deve lhe prejudicar contra Amirkhani.

Danny Henry vs Makwan Amirkhani odds - BestFightOdds
 

Basicamente, é uma luta tranquila para Amirkhani retomar o momento e voltar as vitórias. Acredito que, salvo algum imprevisto, o “Mr Finlândia” deve vencer numa decisão unânime bem tranquila.

Peso Leve: Leonardo Santos (BRA) vs. Roman Bogatov (KAZ)

Por Idonaldo Filho

A inatividade de Leonardo Santos (17-3-1 no MMA, 6-0-1 no UFC) é tão grande que muitas vezes esquecemos que o brasileiro nunca perdeu no evento. O atleta da Nova União está com 40 anos, vindo de um nocaute impressionante contra o bom Stevie Ray no ano passado. Entre suas vitórias, a que ficou melhor com o tempo foi sobre o ex-desafiante Kevin Lee, quando o americano ainda era muito jovem, mas mostrava o potencial que hoje já foi confirmado. Mesmo já com idade avançada e não atuando com frequência, causa curiosidade o casamento contra um estreante por parte do UFC.

Faixa preta de jiu-jítsu com alguns torneios vencidos na arte suave – ainda no começo dos anos 2000 -, Léo foi também campeão do TUF Brasil 2. Mesmo sendo um excelente grappler, em seus últimos combates a preferência do brasileiro foi atuar na trocação. Utiliza muitos chutes no corpo e movimentação enquanto busca pontuar, mas sem grande potência. No entanto, também tem poder de definição com os punhos, principalmente em contragolpes poderosos de técnica rudimentar. O fato de nunca manter um cronograma regular de lutas, seja por lesões ou por não receber contratos, faz com que não se saiba muito o que esperar do desempenho dele.

Lutador de Orenburgo e ex-campeão dos leves no M-1 Global, o russo Roman Bogatov (10-0 no MMA) é um atleta com pouco mais de quatro anos de carreira. Ele entrou no MMA diretamente sem vir de uma luta em específico, mas mostra preferência pela luta de solo. Bogatov obteve o cinturão do M-1 em 2018 e o defendeu duas vezes. Na primeira contra Michel Sassarito e a segunda diante do ex-lutador do UFC, Mickael Lebout. Roman já fez camps na Tailândia, mas para essa luta se preparou sozinho nos estepes de sua província natal, com treinos “nível Rússia”, como levantamento de rochas e corrida na floresta.

A trocação de Bogatov é básica e ele a utiliza apenas com um intuito, que é o de se aproximar do adversário. Muito insistente, Bogatov aplica pressão e faz um jogo de carrapato extremamente difícil de se desvincular, derrubando de qualquer jeito. Mantém o controle posicional a qualquer custo e vez ou outra busca transições. No chão, os estrangulamentos prezam mais pela brutalidade que pela técnica, ainda que não seja uma arma efetiva para essa peleja em específico. Um atleta incansável que tem histórico atlético na natação, Bogatov mantém sempre um ritmo muito intenso e não demonstra queda de rendimento. É uma adição interessante para a categoria, ainda que muitos possam questionar o grau de entretenimento que adiciona aos combates.

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Não importa o nível de jiu-jítsu de Leo Santos, não tenho muitas dúvidas que Bogatov vai querer derrubar o brasileiro. O russo já mostrou muita habilidade escapando de submissões e situações complicadas no solo, sem falar que sua habilidade de manter um ritmo muito grande na luta a todo instante. Isto pode trazer complicações para o brasileiro, que no passado mostrou alguns problemas com o gás e vem de longo período inativo. Há sempre a possibilidade de Leo acertar mais um mata-cobra, mas a tendência é que Roman garanta a luta na decisão unânime.

Peso Mosca: #14 Raulian Paiva (BRA) vs. Zhalgas Zhumagulov (KAZ)

Por Idonaldo Filho

O amapaense Raulian Paiva (19-3 no MMA, 1-2 no UFC) foi uma das principais revelações do Contender Series Brasil. Nele, Raulian derrotou o ex-RIZIN Allan Puro Osso para conquistar o contrato com o líder do mercado. Uma vez dentro do octógono não teve muita sorte, perdendo uma luta muito equilibrada contra o bom Kai Kara-France, além de um corte profundo no rosto acabar ocasionando a interrupção em seu duelo com Rogério Bontorin. A vitória que tanto precisava chegou com um belo nocaute sobre Mark de La Rosa, em fevereiro.

Um peso mosca muito grande e que já chegou a lutar de pena, Raulian aproveita o tamanho, mas também conta com bastante talento. O uso de jabs é constante inicialmente. Mostra velocidade, precisão e evolui para o uso de diretos ao longo do combate. O grappling é eficiente, com bom nível de quedas e controle no solo, ameaçando com ground and pound e tentativas de submissões. Alguns aspectos que precisam de mais desenvolvimento são a defesa de golpes e a movimentação. Esses dois problemas fazem com que Raulian receba muitos golpes que poderiam ser facilmente bloqueados. Como é novo (24 anos), tem potencial de crescimento em uma categoria que está atualmente em processo de renovação de elenco.

Com um evento recheado de campeões russos como Yan (ACB), Grishin (WFCA) e Bogatov (M-1), o representante do Fight Nights Global vem do Cazaquistão. Zhalgas Zhumagulov (13-3 no MMA) se consolidou como um dos melhores pesos moscas fora do UFC derrotando oposição de peso, como o ex-desafiante Ali Bagautinov, Tyson Nam e outros duros adversários. Além disso, o “Zhako” é um lutador com vasta experiência em combates de cinco assaltos.

O cazaque aplica muitos golpes a todo instante, com um volume impressionante, mesmo que isso prejudique a precisão. Há uma variação de zona atingida pelas combinações de socos, que muitas vezes focam o corpo do oponente, além do rosto. Zhumagulov também aplica bons contragolpes, mas no geral sua trocação não é conhecida pelo poder de nocaute, o que torna suas lutas maçantes. Zhalgas sempre anda para a frente e conta com condicionamento ímpar e como esteve muitas vezes em disputas de 25 minutos esse é um ponto muito positivo. Ocasionalmente, leva a luta ao solo, mas não é sua preferência.

Raulian Paiva vs Zhalgas Zhumagulov odds - BestFightOdds
 

A diferença de tamanho é algo que é muito favorável para Raulian, principalmente pelo estilo de Zhumagulov se basear em constantes ataques explosivos na curta distância. O duelo deve acontecer na trocação, uma vez que é como os dois lutadores preferem atuar. Controlando o duelo com jabs, a tendência é de que o brasileiro mantenha o oponente na distância e conquiste a vitória na decisão dos juízes.