Por Edição MMA Brasil | 05/06/2020 17:36

Em mais uma semana de eventos durante a pandemia do COVID-19, o UFC retorna ao UFC Apex para realizar o UFC 250, que traz um card principal de qualidade para os fãs de MMA.

Na luta principal da noite, a brasileira Amanda Nunes retorna para colocar o cinturão dos penas contra a desafiante Felicia Spencer, que terá a  oportunidade de conquistar o trono da divisão. Já na luta coprincipal do evento, o ex-campeão dos galos Cody Garbrandt tenta ressurgir na divisão contra o brasileiro Raphael Assunção, que pode chegar em uma nova corrida pelo topo da categoria em caso de vitória.

O card principal se concretiza com o duelo entre Aljamain Sterling e Cory Sandhagen pela divisão dos galos, Neil Magny e Anthony Martin pela categoria dos meio-médios e, por fim, o veterano Eddie Wineland encara Sean O’Malley pela categoria dos galos.

O UFC 250 será realizado neste sábado e terá início às 19h00 com o card preliminar, enquanto o card principal tem o início previsto para 22h00, com transmissão exclusiva do Canal Combate.

Cinturão Peso Pena: C Amanda Nunes (BRA) vs. Felicia Spencer (CAN)

Por Rodrigo Rojas

Amanda Nunes (19-4 no MMA; 12-2 no UFC) já é, indubitavelmente, a maior lutadora da história do MMA feminino. O rol de vítimas da “Leoa” inclui Miesha Tate, Ronda Rousey, Holly Holm, Cris Cyborg, Germaine de Randamie (2x) e Valentina Shevchenko (2x). Não bastasse as vitórias, todas as suas atuações foram impressionantes e dominantes, exceto nos confrontos contra a campeã dos moscas.

Faixa preta de jiu-jitsu e de judo, Amanda tem como principal arma um poder de nocaute raro entre as meninas. A baiana – única mulher campeã de duas categorias na história do UFC – desenvolveu um jogo bastante completo na American Top Team, tornando-se perigo constante em todas as áreas do jogo. Provas disso são o nocaute com chute alto sobre a kickboxer Holly Holm e o mata-leão contra a grappler Miesha Tate. Em pé, Amanda movimenta-se para encurralar a oponente, combinando golpes retos, cruzados e bons chutes – todos com muita potência por trás. As quedas também são uma arma valiosa, seguidas de um ground and pound matador e finalizações, quando as oportunidades se apresentam.

Os pontos fracos de Amanda são bastante conhecidos. Os principais são o condicionamento cardiorrespiratório e as brechas no striking – ambos efeitos colaterais do estilo poderoso e agressivo da Leoa. O wrestling, que já foi problemático, melhorou bastante, mas ainda não está entre os melhores. Amanda já limpou as duas categorias sobre as quais reina. Hoje, restam poucos desafios à brasileira, tamanho seu domínio entre as mulheres.

A história de Felicia Spencer (8-1 no MMA; 2-1 no UFC) na maior organização de MMA do mundo pode ser definida em uma palavra: “underdog”. A canadense, ex-campeã do Invicta, estreou como adversária de Megan Anderson, então única postulante ao título dos penas de Cris Cyborg. Felicia finalizou a australiana sem dificuldades, sendo alçada a um combate contra a ex-campeã, em que era enorme azarona. Surpreendentemente, entregou a luta mais dura de Cyborg no UFC até então, conquistando ainda mais respeito com a derrota. Na última luta, finalmente se viu como favorita nas casas de aposta, massacrando Zarah Fairn dos Santos no primeiro round e credenciando-se à disputa de cinturão contra Amanda.

Felicia é faixa-preta de jiu-jitsu e de tae kwon do, mas apresenta poucos trejeitos da arte marcial coreana: ela é, primordialmente, uma grappler. Grande e resistente para a categoria, Spencer tem uma boa movimentação, que usa para encurtar a distância e buscar a luta agarrada. Enquanto não consegue, ela dispara socos e chutes despretensiosos, valendo-se muito da resistência para efetuar a aproximação. Uma vez na curta distância, a canadense trabalha o clinch e, no chão, utiliza o bom ground and pound enquanto avança posições rumo à uma finalização – preferencialmente, pelas costas: seu modus operandi é o mata-leão.

Apesar da graduação no tae kwon do, Felicia sofre para desenvolver a luta em pé, além de não ser a melhor wrestler. Por isso, pode absorver muitos danos enquanto pena para levar a luta para o solo, o que deve ser um grande problema contra uma striker poderosa como a “Leoa”.

Amanda Nunes vs Felicia Spencer odds - BestFightOdds
 

Spencer é uma desafiante legítima ao título dos penas, dado que ela é uma de três lutadoras na categoria. Porém, além de ser pior lutadora, menos experiente e menos atlética que Amanda, o jogo não casa para ela. A brasileira deve ter força e defesa de quedas suficientes para manter a luta onde preferir, trabalhando fortes combinações de socos e chutes para minar a oponente. Amanda tem qualidade, inclusive, para derrubar e finalizar a luta por cima, no solo. Portanto, salvo uma zebra gigantesca, a “Leoa” deve ter uma vitória dominante, apesar de alguns bons momentos da canadense. A previsão é mais uma defesa de cinturão de Nunes, provavelmente por decisão unânime.

Peso Galo: #5 Raphael Assunção (BRA) vs. #9 Cody Garbrandt (EUA)

Por Gustavo Lima

Raphael Assunção (27-7 no MMA, 11-4 no UFC) vive a dura missão de ser um veterano interminável nesta que é discutivelmente a categoria mais difícil da organização na atualidade. Com 37 anos, o pernambucano é profissional desde 2004 e ainda figura entre o top 5 de muitos fãs e analistas de MMA da atualidade.

Apesar de continuar mostrando grande nível técnico e gozar de alto prestígio, Assunção vem de duas derrotas consecutivas, sua pior sequência em mais ou menos uma década. Com vitórias sobre nomes como TJ Dillashaw, Marlon Moraes, Aljamain Sterling e Pedro Munhoz, o brasileiro é um dos melhores nomes da história desta divisão a nunca ter desafiado um campeão pelo título.

Cody Garbrandt (11-3 na carreira, 6-3 UFC) também vem de uma muito ruim, eu diria. Após a ascensão astronômica que o levou a vitória maiúscula sobre o campeão Dominick Cruz em 2016, o “No Love” fez apenas uma luta em cada um dos anos subsequentes, perdendo por nocaute em todas elas. Apesar dos bons nomes que o derrotaram (Dilashaw 2x, Pedro Munhoz), os pouco menos de 20 minutos de luta  nestes três embates mostraram um lutador muito aquém daquele menino prodígio que bateu o maior nome da história dessa categoria.

Apesar da sequência negativa encarada por seu adversário, esta é uma luta arriscadíssima para Garbrandt. A escolha mais segura em um momento como este seria priorizar um adversário um pouco mais modesto, mas o estadunidense parece estar motivado a matar mais um desafio como este no peito tendo em vista algumas declarações recentes.

Assunção é hoje o quinto colocado no ranking da categoria, enquanto Garbrandt é nono. Abaixo de Cody, estão nomes como John Dodson, Song Yadong e Dominick Cruz, o que mostra o quão difícil é se manter no pelotão de frente do peso.
Consistência é uma palavra que define bem o trabalho mostrado por Raphael Assunção ao longo de sua trajetória no UFC. Dono de ótima trocação e jogo completo, poucas vezes o brasileiro mostrou uma distância técnica grande do estado da arte da categoria, com a derrota para Cory Sandhagen sendo a primeira em tempos a contrariar as odds nas casas de apostas.

Neste sentido, podemos acreditar que até mesmo o melhor Cody Garbrandt (que não aparece há três anos) não teria vida fácil contra Assunção. Aquele Cody rápido, agressivo, dono de mãos pesadas e que entregava pouquíssimos espaços que sumiu a quase três precisa reemerger, pois no outro corner estará um lutador que bate bem, é difícil de ser acertado e não foge da troca de golpes em qualquer seja a distância proposta.

O péssimo sistema defensivo de um Cody Garbrandt passivo e sem foco que apareceu nos últimos combates joga as chances de Raphael triunfar lá pro alto ao fazermos essa análise com as atuações mais recentes de ambos os atletas. Trabalhando com o que há de mais fresco em nossa memória, fica muito difícil não colocar em descrédito o que o estadunidense pode trazer para a mesma neste sábado.

Situação um pouco melancólica até, visto que estamos falando de uma diferença de quase 10 anos de idade e 8 de carreira profissional entre ambos os atletas. Cody provavelmente não perdeu a capacidade de fazer o que fez outrora, mas levantar inferências e projeções sobre isso necessitam de uma série de análises extra-cage que não competem ao analista que trabalha com as valências apresentadas no retrospecto recente.

Cody Garbrandt vs Raphael Assuncao odds - BestFightOdds
 

Acredito numa vitória de Raphael, num cenário em que a situação de Garbrandt pode ficar ainda mais feia. Apesar de trocar muito bem e bater forte, Raphael não é um pegador nato e dificilmente impõe volume em detrimento de precisão, apesar de não sair muito do raio de ação do oponente. Acho provável que Cody passe 15 minutos apanhando mais do que nas últimas três lutas do que, em algum dos intervalos de round, volte com a chama acesa e mude o rumo do duelo, por exemplo. Veredito: Assunção via decisão

Peso Galo: #2 Aljamain Sterling (EUA) vs. #4 Cory Sandhagen (EUA)

Por Matheus Costa

Na melhor fase de sua carreira, o americano Aljamain Sterling (18-3 no MMA, 10-3 no UFC) parece ter correspondido com as expectativas que o cercavam logo em sua chegada ao UFC. Após quatro vitórias consecutivas, um triunfo sobre Sandhagen deve lhe garantir uma disputa pelo cinturão.

Com base no wrestling, Sterling sempre foi muito técnico na luta agarrada, algo que já o deixava em condição de ser um top 10 muito bem estabelecido nos galos. Entretanto, o americano trabalhou o boxe e agora possui bons golpes em seu arsenal, sempre trabalhando na longa distância para controlar o ritmo do combate. Outra evolução notória em seu jogo é a de seu preparo físico, que agora se tornou um dos principais fatores de seu jogo.

A ascensão de Cory Sandhagen (12-1 no MMA, 5-0 no UFC) no UFC foi uma das mais impressionantes nos últimos tempos. Em apenas cinco lutas, o americano se tornou um prospecto de eventos regionais a um top 5 muito bem estabelecido, batendo nomes de respeito como John Lineker e Raphael Assunção em boas atuações.

Sandhagen é um dos atletas que possuem um dos estilos mais empolgantes na organização, sempre atuando com muito coração e muita raça. Mas seu jogo vai muito além disso. Na luta em pé, possui ótimas combinações com socos, chutes e até joelhadas voadoras somados a uma pressão constante. No chão, costuma ser sorrateiro em busca de oportunidades, onde não é especialista mas sabe contornar situações com conhecimento decente. O grande problema do seu jogo é a parte defensiva, já que Cory é um alvo fácil para ser golpeado, sem qualquer movimentação de cabeça ou esquiva.

É uma luta que pode se desenrolar tanto em pé como no chão, mas que promete ser excelente e deve coroar o próximo desafiante da categoria. Em pé, a tendência é que Sandhagen consiga ditar o ritmo caso consiga encurtar a distância, já que Sterling não costuma reagir tão bem quando é pressionado.

Aljamain Sterling vs Cory Sandhagen odds - BestFightOdds
 

Portanto, a aposta fica na vitória de Sandhagen por decisão unânime em uma luta equilibrada. Mas vale citar que, caso entre em jogo, a luta agarrada de Sterling deve ser um fator determinante.

Peso Meio-Médio: Neil Magny (EUA) vs. Anthony Martin (EUA)

Por Idonaldo Filho

O americano Neil Magny (22-7 no MMA, 15-6 no UFC) segue sendo um dos lutadores mais subestimados do UFC, mesmo com grandes vitórias na carreira e com um retrospecto bem acima da média em seu cartel pelo evento. A sua última vitória foi contra o chinês Jingliang Li, se recuperando de um nocaute sofrido contra Santiago Ponzinibbio. Dentre as principais vitórias do ex-TUF 16 estão Kelvin Gastelum, Johnny Hendricks e Carlos Condit.

Dono de uma das maiores envergaduras do evento (2,03m), Magny sabe utilizar com certa eficiência os braços longos no uso do jab, que é uma arma frequente em suas lutas. Porém, quando se aproxima do adversário o americano também mostra muita competência, com um clinch forte, bom dirty boxing e com quedas bem aplicadas. Vale destacar o ótimo condicionamento, dificilmente cansando nos combates. De outro lado, Magny também se deixa ser pressionado em alguns momentos, quando não deveria. O chão é duvidoso, mesmo que tenha perdido nesta área para dois dos melhores jiu-jitsu da divisão. Também mostra dificuldade defendendo chutes baixos. O teto de Neil é claro, uma vez que é um lutador regular que não é excepcional em uma área específica.

Atleta da American Top Team, Anthony Rocco Martin (17-5 no MMA, 9-5 no UFC) é um dos bons exemplos de como uma mudança de categoria pode ajudar no desempenho de um lutador. Peso leve irregular e pouco empolgante, Martin decidiu se mudar para os meios-médios em 2018 e desde então acumula cinco vitórias e apenas uma derrota na categoria – para Demian Maia. Na última vez que esteve dentro do cage, Martin venceu o bom russo Ramazan Emeev, na decisão unânime dos juízes.

Assim como seu adversário, Martin é um lutador que é competente em todas as áreas, mas não é gênio em nenhuma delas. Na trocação, os chutes da perna são utilizados com frequência, as vezes arriscando alguns na cabeça. O jab é utilizado, mas Anthony não imprime um volume impressionante de golpes ou aposta em sequências mais completas. O clinch é bom, mostrando habilidade em controlar os oponentes contra a grade. No chão é sempre muito ativo e busca submissões inclusive quando está em posição de desvantagem, mas não leva a mesma segurança defensivamente.

Anthony Rocco Martin vs Neil Magny odds - BestFightOdds
 

Magny é um cara difícil de se apostar, seja contra ou a favor. Se controlar a distância corretamente Neil pode evitar os chutes baixos de Martin, que certamente levariam perigo. No chão acredito que a vantagem seja de Rocco, mas não sei se ele consegue colocar a luta para baixo. Em um duelo bastante equilibrado, entre dois lutadores completos, arrisco que Magny é quem sairá com a vitória, mesclando domínio na grade, movimentação e manutenção da distância.

Peso Galo: Eddie Wineland (EUA) vs. Sean O’Malley (EUA)

Por Idonaldo Filho

Eddie Wineland

Eddie Wineland (24-13-1 no MMA, 6-7 no UFC) é ex-campeão do WEC e fez sua estreia no esporte há 17 anos, quando seu atual oponente ainda era criança. No líder do mercado, o melhor momento foi quando obteve a chance de disputar o título de Renan Barão em 2013, porém sendo nocauteado no segundo assalto. Em sua única luta no ano passado, Wineland derrotou o russo Grigory Popov, que nem faz mais parte do plantel do UFC.

A área em que o veterano se destaca é o boxe. Wineland é dono de boa técnica na nobre arte, com mãos potentes e muito precisas, com especial habilidade em contragolpes. A movimentação pouco ortodoxa também é uma característica importante, que faz o americano encontrar ângulos diferentes para soltar seus golpes. O wrestling defensivo é competente, enquanto o ofensivo quase nunca é utilizado. Mesmo com muita experiência nas costas, ainda há brechas defensivas que Wineland sempre teve. Já no fim de carreira, Eddie não mostra a mesma velocidade e não mantem um bom ritmo de lutas, fazendo geralmente apenas uma por ano.

Prospecto em ascensão na categoria dos galos, Sean O’Malley (11-0 no MMA, 3-0 no UFC) parece que enfim terá uma maior sequência de lutas no UFC. Polêmico, O’Malley virou freguês da USADA, que por mais de uma vez flagrou o atleta e não atuou em 2019, falando inclusive que ganhava mais dinheiro como streamer de jogos do que como lutador. No octógono, os desempenhos animam. São três vitórias consecutivas, a última em desempenho inapelável contra Teco Quiñonez.

Grande para categoria com 1,80m, Sean tem na trocação o principal aspecto de seu jogo. Constantemente troca de base, gosta bastante de aplicar chutes no corpo e nas pernas do adversário, tem habilidade nos contragolpes e muitas vezes abusa da plasticidade. Já que nunca pegou um grappler, o chão e wrestling foram pouco testados e, no caso específico dessa luta, também não deveremos ter essa resposta. Defensivamente, O’Malley ainda necessita de evolução. Por ter carisma, além de ter  vindo do Contender Series, Sean é um cara que o UFC quer que se consolide no futuro.

Eddie Wineland vs Sean O'Malley odds - BestFightOdds
 

Precisamos de ver O’Malley enfrentar um bom wrestler antes de considera-lo um potencial top 10. Todos os casamentos que teve no evento o beneficiavam e, esse também não foge a regra. Wineland pode ser mais experiente, porém é menor e também mais desgastado. A tendência é que “Sugar” consiga o controle de distância sem muitos problemas, evitando o pocket contra o ex-desafiante. A aposta é que O’Malley se dará melhor na trocação, conseguindo um nocaute técnico na segunda metade do duelo