Por Edição MMA Brasil | 07/05/2020 18:02

Após um cancelamento em cima da hora, boatos de uma Ilha da Luta (nome digno de filme do Domingo Maior) e reunião do Dana White com o Trump, o UFC retorna às telas com o UFC 249. Sendo a primeira grande organização esportiva a voltar a ação no meio da pandemia (se você conta o futebol da Belarus como grande, aí seria a segunda) e um card cheio de bons nomes, tanto no card preliminar como no principal, o evento de sábado tende a atrair a atenção não só dos fãs do MMA, mas como também dos fãs de esportes cuja abstinência não pôde ser curada com lives sertanejas.

Sem mais piadas ruins, confira as prévias das principais lutas do card preliminar.

Peso meio-médio: #15 Anthony Pettis (EUA) vs. LW #6 Donald Cerrone (EUA)

Por Thiago Kühl

Anthony Pettis (22-10 no MMA, 9-9 no UFC) chegou a ser considerado um dos grandes pesos leves da história. Em sua caminhada, foi campeão do WEC e do UFC, teve atuações genais, mas após 2015, quando perdeu o cinturão para Rafael dos Anjos, não conseguiu emendar mais bons momentos. Tentou nova vida no peso pena, mas apenas mostrou mais desgaste e um declínio mais acentuado em seus desempenhos, estando com retrospecto de 4-8 certamente já teria sido demitido se não tivesse o nome que tem.

É difícil falar da parte técnica de Pettis sem destacar a elusividade do seu jogo. Conhecido pelos golpes mirabolantes, chutes impensáveis e momentos marcantes, acabou se prendendo na necessidade de definir uma luta com um só golpe, fazendo com que desse cada vez mais brechas aos seus adversários. O boxe é de nível razoável e o jiu-jitsu é bom. A defesa nunca acompanhou o ataque, sofre muito quando recebe pressão e o wrestling é bastante deficitária.

Donald Cerrone (36-14 no MMA, 23-11 no UFC) já fez mais do que o suficiente para ser chamado de “Mr. UFC” maior numero de lutas (34), vitórias (23), bônus recebidos (18), lutas encerradas pela via rápida (16), além de ser reconhecidamente o homem a ser chamado quando a organização precisa de um nome forte para uma luta de última hora. Teve oportunidade de disputar o cinturão dos leves em uma oportunidade e fez diversas visitas ao topo da categoria dos leves. Ainda chegou a tentar uma incursão ao peso meio-médio, que acabou não sendo muito bem sucedida. Nesta noite, enfrenta um velho conhecido. A primeira vez que encontrou Pettis, em 2013, perdeu a luta e a chance de disputar o cinturão que na época era de Ben Henderson, sete anos depois a luta não tem quase relevância alguma, nessa altura, a pretensão de Cerrone – que acumula três derrotas segundas – acaba sendo apenas entreter o publico e ganhar sua bolsa para suprir seus custos faraônicos.

O melhor Cerrone que já existiu foi um lutador com arsenal ofensivo vasto. Dono de uma ótima capacidade para encerrar lutas, seja com finalizações rápidas ou nocautes brutais, conseguia lidar

Bem com a grande maioria dos adversários. No lado defensivo sofria bastante para lidar com pressão, tendo sido um grande buraco no seu jogo por muito tempo. Hoje, fora do auge, ainda consegue manter o jogo em bom nível, se defende melhor que em outros tempos, consegue impor bom ritmo e tem capacidade física para encarar gente de fora da elite, como Anthony Pettis.

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A luta é obviamente fora do tempo. Ambos lutadores estão em um momento de declínio e não devem ter pretensões esportivas grandes no futuro. De toda forma, se for para continuarem em atividade, que seja lutando com gente do mesmo nível e tamanho, pois ambos já fizeram muito para servirem de escada para novatos enfurecidos ou contra membros da elite.

No melhor dia da carreira – como já vimos – Pettis é mais talentoso, mas hoje, descontando o declínio de cada um, Cerrone tem mais condição física. “Noves fora”, apostamos em uma vitória de Cerrone ali pela metade do segundo round, após bons momentos de trocação voluptuosa.

Peso pesado: #12 Alexey Oleinik (RUS) vs. Fabrício Werdum (BRA)

Por Matheus Costa

Para os amantes da arte suave, o russo Aleksei Oleinik (58-13-1 no MMA, 7-4 no UFC) é um nome ideal para o retorno do brasileiro ao octógono, já que também é conhecido por seu agressivo jiu-jítsu. Aos 42 anos de idade, Olenik nunca foi um atleta de alto nível e é bem improvável que isso mude agora, mas sempre entrega lutas divertidas.

O atleta da RusFighters MMA é a síntese do estado atual da categoria dos pesados: alto, grosso e fraco tecnicamente. Em pé, seu jogo é precário e se resume aos famosos overhands, enquanto na parte defensiva, possui vários buracos em sua guarda e costuma ser um alvo fácil de ser atingido. Ele se destaca pela variedade de estrangulamentos no chão, principalmente pelo estrangulamento Ezequiel, especialidade da casa. Sempre oportunista, possui bom controle posicional, mas peca bastante no preparo físico.

 

Depois de 26 meses longe do octógono por conta de uma suspensão da USADA, o ex-campeão dos pesos-pesados Fabrício Werdum (23-8-1 no MMA, 11-4 no UFC) está de volta ao UFC. Aos 42 anos de idade, o brasileiro retorna com um teste importante para mostrar em qual fase da carreira e de seu físico se encontra no momento para se readequar na divisão. Em sua última aparição, o “Vai Cavalo” acabou sendo nocauteado pelo russo Alexander Volkov na luta principal do UFC Londres.

O estilo de Fabrício Werdum é basicamente o mesmo desde seu retorno ao UFC, em 2012. De um jiu-jiteiro unidimensional, o ex-campeão desenvolveu um muay thai bem decente sob as mãos de Rafael Cordeiro na Kings MMA. Além disso, ele é versátil em pé: na curta distância, usa boas combinações e oferece o risco da luta no chão. Na longa distância, usufrui de ótimos chutes e um bom controle de distância com agressividade, fora um jogo de chão de altíssimo nível.

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De fato, é uma luta intrigante e de bom nível para o card preliminar do UFC 249. Há dois anos, seria difícil imaginar um cenário onde o brasileiro não fosse franco favorito contra o russo. Mas depois de um hiato tão longo, será importante observar como Fabrício irá se comportar e como ele se mostrará não só tecnicamente, mas fisicamente.

A aposta deste humilde analista é pela vitória de Fabrício Werdum por nocaute técnico no terceiro round. O brasileiro deve controlar a luta na longa distância e minar a péssima resistência de Oleinik, que se tornaria presa fácil para o bom muay thai do ex-campeão no último assalto.

Peso palha: #7 Carla Esparza (EUA) vs. #8 Michelle Waterson (EUA)

Por Matheus Costa

Que o jogo da primeira campeã da história da categoria da divisão dos palhas está mais do que manjado, todo mundo sabe. Mesmo longe de mostrar condições de brigar com o top 5 da categoria, Carla Esparza (15-6 no MMA, 6-4 no UFC) ainda possui condições de ser uma boa porteira do top 10 e testar o nível de aspirantes como Virna Jandiroba e Alexa Grasso, suas últimas duas vítimas.

Quando surgiu no esporte, a All-American varria o chão com suas oponentes aliando técnica e muita força física, sempre pressionando e mostrando uma boa variedade de quedas. Mas o tempo passou, a idade avançou e o físico caiu. Quando chegou a necessidade de uma maior capacidade técnica, a conta chegou para a veterana do esporte. Com uma noção muita básica e simplista da luta em pé, o manjado jogo de seu bom wrestling lhe causou muitos problemas contra adversárias de maior capacidade técnica.

 

Uma das percursoras do MMA feminino, Michelle Waterson (17-7 no MMA, 5-3 no UFC) aceitou lutar em uma categoria diferente para poder competir na maior organização de MMA do mundo. No UFC desde 2015, a atleta de 34 anos de idade vem batendo na porta do alto nível da categoria, mas acaba pagando o preço pela diferença física em relação a suas oponentes.

Especialista no caratê, Waterson é bem fluída em pé, com mãos rápidas, boas combinações e um bom preparo físico, sempre minando suas adversárias com bons chutes e boas entradas na curta distância. Em suas últimas lutas, a americana vem mostrando que também possui um bom nível na luta agarrada, com destaque para um senso de oportunismo na hora de aplicar quedas, fora o bom controle posicional e a noção apurada na hora de realizar transições com eficiência.

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Se de um lado temos uma ex-campeã com um jogo unidimensional, porém, eficaz, do outro temos uma atleta mais versátil que perde no porte físico. É um confronto até interessante de estilos entre duas boas lutadoras do top 10 da categoria dos palhas.

A tendência é que o combate se desenvolva em dois cenários: Esparza usa sua força física para controlar Waterson no chão, ou Waterson usa seu jogo de luta em pé superior para dominar as ações do confronto. A aposta é no segundo cenário, onde a ex-campeã do Invicta FC deve usar sua boa movimentação e controle de distância para vencer por decisão unânime dos juízes.

Peso médio: #10 Uriah Hall (EUA) vs. #14 Ronaldo Jacaré (BRA)

Por Idonaldo Filho

O que era para ser uma grande revelação após o TUF 17 se mostrou um dos lutadores mais inconsistentes a pisar no octógono. O jamaicano Uriah Hall (15-9 no MMA, 8-7 no UFC) ficou conhecido como “homem ambulância” por derrotar os oponentes de forma violenta, porém chegando na final do reality show acabou derrotado por Kelvin Gastelum – esse sim uma grande revelação. A trajetória no UFC foi sendo estranha, com algumas vitórias inesperadas como contra Gegard Mousasi, mas também emendando uma sequência de três derrotas seguidas. A fase atual é boa, vindo de dois triunfos, o último contra o bom grappler Antonio Cara de Sapato.

Hall conta com significativa experiência na trocação, tendo background no caratê, além de se especializar também no taekwondo. Bastante inventivo, Hall é um lutador que não tem volume e não costuma lutar para ganhar rounds, com preferência por um jogo mais cauteloso em busca de um golpe só que defina a luta, seja um soco ou um chute rodado. Explosivo e com muito poder nos golpes, Hall não iguala o poder ofensivo na defesa, que é frágil e suscetível a pressão adversária. O grappling ofensivo é nulo e o defensivo é insuficiente. Mesmo mostrando evolução, ainda precisa melhorar a defesa de quedas. O camp foi feito em tempo integral na Fortis MMA, no Texas, onde passou até a morar na academia.

Ex-campeão do Strikerforce, Ronaldo Jacaré (26-8 no MMA, 9-5 no UFC) nunca chegou a disputar o título do UFC, muitas vezes perdendo na considerada “luta eliminatória”. O ano de 2019 não foi bom esportivamente para o brasileiro, que foi derrotado nos dois combates que fez durante o período. A primeira derrota foi em uma passagem de bastão para o ascendente Jack Hermansson, enquanto a segunda foi uma tentativa frustrada de subir aos meios-pesados, em um combate horrível que não merece lembranças, contra Jan Blachowicz. Para a sua primeira aparição em 2020, Jacaré decidiu retornar a sua categoria de origem, o peso médio.

Jacaré é um dos principais lutadores de jiu-jítsu que passaram pelo MMA, campeão de inúmeros campeonatos na arte suave e com mais de 16 anos dedicados as artes marciais mistas. Atualmente com 40 anos, é seguro falar que o brasileiro já está no final de sua carreira e em decadência física. É impossível negar o quão habilidoso Jacaré é no grappling, com boas quedas do judô e grande variedade de submissões, mas ele sempre mostrou além disso, contando com força e bom jogo de pressão no clinch. A trocação é de pouco volume, utilizando socos poderosos mas lentos e que deixam a defesa totalmente desguarnecida e alguns chutes altos. É na defesa que temos o pior problema de seu jogo atualmente, uma vez que Jacaré é bastante acertável e contra o oponente de sábado isso é um perigo.

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Essa seria uma luta fácil demais para o Jacaré de alguns anos atrás, que cansou de vencer facilmente adversários como Chris Camozzi e Tim Boetsch, que assim como Hall são nulidades na luta agarrada. O problema agora é que o brasileiro não tem a absorção de outrora e não mostra segurança defensiva em pé para depositarmos a confiança total em sua vitória. Para Jacaré, o ideal é não se deixar levar pela trocação e tentar focar na luta agarrada o mais rápido o possível.

Acredito que o brasileiro buscará a luta de solo, onde é infinitamente superior. Não é muito difícil derrubar Hall e uma vez no solo as chances do jamaicano sair ileso são poucas. Jacaré finaliza no primeiro round.

Peso meio-médio: #13 Vicente Luque (EUA) vs. Niko Price (EUA)

Por Gustavo Lima

Vicente Luque (17-7-1) é um dos funcionários do UFC que aparentemente se encontra bem disposto a se arriscar nestes tempos de loucura causados pela pandemia do Covid-19. O “Assassino Silencioso” teve duas lutas remarcadas graças aos incontáveis adiamentos e cancelamentos ocorridos nas últimas semanas e agora – dessa vez parece que não tem volta – deve enfrentar mais uma vez Niko Price em luta que figura na parcela preliminar do interessante UFC 249.

Apesar da derrota para Stephen Thompson no último mês de novembro, a atuação do brasileiro no duelo deixou boa impressão, mostrando resistência, força e técnica, aliadas a uma melhora ligeira na capacidade física, algo que sempre pareceu uma das grandes pedras no sapato do brasileiro em sua jornada rumo a um posto mais alto na divisão dos meios-médios.

No outro corner, o divertido Niko Price (14-3) busca vingar a derrota sofrida para o brasileiro no final de 2017, quando acabou finalizado com um estrangulamento D’arce no segundo round. Desde então, o “Híbrido” acumulou boas atuações, incluindo dois nocautes memoráveis estando em posições desfavoráveis no chão, mas não conseguiu esboçar uma subida nos degraus na categoria pois acabou nocauteado nos dois desafios ligeiramente maiores que teve em Abdul Alhassan e Geoff Neal.

Seu mais recente triunfo, todavia, foi sobre o nome mais interessante na ala das vitórias em seu cartel. O decente James Vick (em vias de uma decadência um tanto quanto precoce) foi a vítima da pedalada certeira que conseguiu permitir a Niko retomar a trilha das vitórias. Apesar disso, pouco pode se dizer sobre uma evolução técnica considerável nos últimos anos.

No último encontro entre ambos os atletas, Luque já era mais lutador, sendo melhor em pé e mais completo. Desde então, muito pouco mudou ao compararmos frente a frente ambos os protagonistas dessa revanche. O brasileiro vem numa sequência 5-1 e tem mostrado, mesmo que pouco, alguma melhora nos aspectos que o impedem de adentrar a elite da categoria. Além da questão física já levantada no início do texto, Vicente costuma cometer esporadicamente erros defensivos bobos que destoam de sua qualidade técnica geral e que o colocam em situações desnecessárias de risco contra oponentes teoricamente inferiores.

Price se tornou mais maduro e melhorou seu striking, sem perder o rótulo de lutador agressivo, todavia, não houve nenhum salto considerável de qualidade técnica para acreditar que o mesmo possa ser capaz de superar a trocação consistente e o poder nas mãos que Vicente sempre demonstrou em suas aparições dentro do octógono. Na luta agarrada, é mais provável que o brasileiro seja o mais capaz de levar perigo ao oponente, muito oportunista ao procurar seu bom estrangulamento D’Arce quando os adversários se colocam em vulnerabilidade durante momentos de pressão.

As maiores cartas que Price possui na manga para surpreender Vicente são pressão e agressividade utilizadas no momento certo para forçar o brasileiro a se expor a riscos desnecessários. Derrick Krantz, lutador de nível técnico infinitamente mais baixo, conseguiu causar algum dano ao brasiliense fazendo isso logo no começo da luta. Outra brecha seria aproveitar o decréscimo no gás de Luque no último terço do duelo.

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Feitas essas ressalvas, Luque é franco favorito neste combate e provavelmente terá a superioridade técnica caso a luta transcorra por 15 minutos. Sua postura mais estacionária aliada a bons fundamentos de boxe também vem acompanhada de grande oportunismo; um erro de Price e o brasileiro também possui força e explosão para lhe arrasar com uma barragem de golpes como as que já causaram a ruína de alguns outros meios-médios. Minhas fichas vão no brasileiro, com possibilidade razoável de vitória via interrupção.

E você leitor? O que espera desse card preliminar? Conte para nós aí nos comentários!