Por Edição MMA Brasil | 07/02/2020 15:38

O UFC chega ao mês de fevereiro com o pé na porta. Em seu retorno a bela cidade de Houston, no Texas (EUA), a maior organização de artes marciais mistas do mundo desembarca com o UFC 247 e cheio de nomes bem conhecidos pelo grande público. Encabeçando o evento, o campeão dos meios-pesados Jon “Bones” Jones retorna ao cage para mais uma defesa de cinturão, agora contra o promissor Dominick Reyes. Já na segunda luta mais importante da noite, a dominante campeã dos moscas Valentina Shevchenko, enfim, encara a desafiante Katlyn Chookagian.

Ainda no card principal, os pesos pesados Justin Tafa e Juan Adams se enfrentam em uma batalha de afirmação na categoria de até 120kg. Nos penas, o promissor Dan Ige encara o experiente Mirsad Bektic naquela que promete ser um dos principais confrontos da noite. E por fim, mas não menos importante, o folclórico Derrick Lewis retorna para abrir a porção principal da noite contra o veterano Ilir Latifi.

O UFC 247 está previsto para ir ao ar a partir das 20:45h da noite de sábado com exibição integral e exclusiva do Canal Combate, enquanto o card principal deve começar por volta de 00:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Meio-Pesado: C Jon Jones (EUA) vs. #4 Dominick Reyes (EUA)

Por Alexandre Matos

Tido pela maioria como o maior lutador de todos os tempos, Jones (25-1 no MMA, 19-1 no UFC) vive um momento difícil que já dura uns cinco anos. Depois de longas inatividades por ter aprontado dentro e fora do octógono, o americano finalmente conseguiu uma sequência. O problema é que o nível despencou. A vitória sobre Alexander Gustafsson foi a única boa atuação desde 2015. De resto, ou foi pego no doping ou lutou muito mal – os últimos triunfos sobre Anthony Smith e Thiago Marreta preocuparam seus fãs.

Tecnicamente não há o que se discutir: Jones é capaz de fazer de tudo no octógono. Sua caixa de ferramentas ofensivas é a mais diversa já vista no MMA. Muay thai violento, com maestria no controle de distância e aplicações de joelhadas e cotoveladas. Muita força física no clinch. Quedas poderosas e ground and pound sufocante. Defensivamente, porém, mostra dificuldade com quem consegue atuar dentro de seu raio de ação, inutilizando o controle de distância, ou mesmo com quem seja capaz de golpear com velocidade por fora – este é um ponto de atenção para este sábado.

Apontado como Top 10 do Futuro no projeto do MMA Brasil há alguns anos, Reyes (12-0 no MMA, 6-0 no UFC) fez mais. Ele espancou uma pá de gente até se enrolar mais do que deveria com Volkan Oezdemir. A recuperação veio em imediato e em grande estilo, aplicando um nocaute devastador na estreia de Chris Weidman como meio-pesado.

Reyes é o cavalo do cão. Sujeito forte pra diabo, mas com habilidade de movimentação que não é muito comum em camaradas brutos como ele. A origem foi no wrestling, mas ele vem se mostrando um kickboxer brutal, com chutes mastodônticos e uma bigorna nas mãos. Seu senso de equilíbrio ajuda bastante na defesa de queda e ainda permite que ele seja ofensivo no clinch. A grande interrogação será em como ele vai se virar se Jones colocá-lo para baixo.

Dominick Reyes vs Jon Jones odds - BestFightOdds
 

Caso o campeão repita a estratégia inconsequente que mostrou contra Marreta, Reyes promoverá seu encontro com Satanás. Aceitar a troca franca no pocket será um convite ao desastre para Jones, assim como se não conseguir impedir os chutes em série de Reyes.

O caminho para Jones manter o cinturão, no entanto, é cristalino. Ele pode trazer Reyes para o clinch e dali levar a luta ao solo, onde Jonny Bones se sente em casa lascando a machadada com os cotovelos. Um round assim pode ser suficiente para minguar a coragem e o gás do desafiante.

A questão é que Reyes tem mostrado novas facetas a cada luta. A aposta (arriscada) aqui é que ele conseguirá reduzir a pressão de Jones com bicas nas pernas, misturando com socos rápidos na distância, variando intensamente as direções, numa estratégia parecida com a que rendeu a vitória de Volkanovski sobre Holloway. Reyes sairá com o cinturão após 25 minutos de batalha.

Cinturão Peso Mosca: (C) Valentina Shevchenko (KGZ) vs. #1 Katlyn Chookagian (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Recentemente condecorada como a segunda mulher no ranking peso por peso feminino do UFC, Valentina “Bullet” Shevchenko (18-3 no MMA; 7-2 no UFC) parece imbatível entre as moscas. Antes de sua categoria ser implementada na organização, Valentina fez uma bela carreira na divisão de cima. Lá, perdeu apenas para a maior de todos os tempos – Amanda Nunes – entregando as duas lutas mais difíceis da carreira da brasileira.

Descendo para os moscas, espancou Priscila Cachoeira, Joanna Jędrzejczyk e Jessica Eye, e ainda vingou a primeira derrota da carreira ao vencer Liz Carmouche com facilidade. Nos galos, a loira ainda tem vitórias sobre Holly Holm, Julianna Peña e Sarah Kaufman.

Com mais de 50 vitórias no kickboxing, invicta no boxe profissional, faixa preta de tae kwon do e duas medalhas de ouro no muay thai, a quiguiz é provavelmente a melhor striker em atividade no MMA. Seus contragolpes são no estado da arte, como mostrado na aula ministrada contra Holm. As fintas também são impressionantes, combinadas com a movimentação e as combinações mesclando socos e chutes, que criam um jogo em pé dos mais mortais. Além disso, a faixa preta de judô garante um trabalho de clinch e quedas muito acima da média. Valentina é tão boa que, mesmo sendo especialista na trocação, já mostrou que pode vencer rounds – e até lutas – no mais alto nível utilizando apenas a luta agarrada. O condicionamento físico se mostra perfeito na categoria dos moscas, assim como a capacidade de aproveitar qualquer brecha apresentada pela oponentes.

Do outro lado do octógono estará Katlyn Chookagian (13-2 no MMA; 6-2 no UFC). A loira, que tem o criativo apelido de “Blonde Fighter”, vem para a disputa pelo título embalada por duas vitórias, contra Joanne Calderwood e Jennifer Maia. A americana vem sendo bastante consistente na rasa categoria, perdendo apenas para Jessica Eye, por decisão dividida. Ainda assim, é inegável que ganhou o posto de desafiante por conta da falta de opções na divisão, já que não costuma impressionar em suas apresentações.

Pouco atlética, Katlyn tem um jogo dos mais conservadores – não à toa, só conseguiu interrupções em 2 de suas 15 lutas profissionais. Com base no caratê, Chookagian abusa da movimentação lateral enquanto desfere socos e chutes com pouca ou nenhuma potência, objetivando manter a distância e pontuar, pouco ligando para a efetividade de seu jogo. O wrestling não tem grandes qualidades, e, o jiu-jítsu, ainda que seja treinado junto a alguns dos maiores nomes da arte suave, não teve muita efetividade dentro do octógono.

Katlyn Chookagian vs Valentina Shevchenko odds - BestFightOdds
 

Não à toa, Valentina é favorita de mais de 16 para 1. A quirguiz é muito melhor em todas as áreas do jogo, especialmente na trocação, especialidade de ambas. A dúvida para o duelo é se a chatice – digo, o pragmatismo – de Chookagian vai ser suficiente para levar a luta para a decisão dos juízes. Levando em conta que Katlyn nunca foi nocauteada ou finalizada e que Valentina não mostrou muita urgência para conquistar a interrupção na última luta, apostaremos em uma vitória por decisão dominante, recheada de contragolpes, quedas pontuais e jogo de clinch, sem muita margem para vitória da desafiante.

Peso Pesado: Juan Adams (EUA) vs. Justin Tafa (NZL)

Por Idonaldo Filho

O grandalhão Juan Adams (5-2 no MMA, 1-2 no UFC) chegou ao evento com grande hype, mas acabou decepcionando em seus últimos combates . Cria do LFA, Adams nocauteou três adversários no primeiro assalto para receber a chance no Contender Series. Enfrentando Shawn Teed, o “Kraken” amassou mais um oponente e, com um estilo carismático, recebeu o contrato das mãos de Dana White. Em luta engraçada derrotou Chris de La Rocha, porém, contra Arjan Bhullar e Greg Hardy, saiu derrotado – a última de forma bizarra.

Um peso pesado enorme que corta muito peso para chegar ao limite da divisão, Adams é obviamente um atleta muito forte. Dono de bom atleticismo, Adams tem como principal aspecto de seu jogo o poderoso ground and pound que definiu boa parte de seus combates na carreira e tem ritmo aceitável. Ainda um pouco verde – tem 28 anos em uma divisão muito envelhecida –, Adams precisa evoluir ainda e tem potencial para alcançar mais no UFC, mas deve melhorar sua trocação desengonçada e as decisões tomadas durante a peleja, uma vez que Juan passou vergonha com uma queda totalmente errada em sua última aparição no octógono.

Australiano de nascimento, mas com sangue samoano, Justin Tafa (3-1 no MMA, 0-1 no UFC) é pupilo de Mark Hunt e tem background na trocação. Irmão de Junior Tafa, kickboxer do Glory, Justin chegou ao líder do mercado com apenas três lutas e muito ainda para aprender. Sua carreira toda foi realizada no evento local XFC, onde enfrentou adversários de nível baixo. Contratado para compor o UFC 243, logo no card principal, foi brutalmente nocauteado por Yorgan de Castro.

Dono de mãos pesadas, Tafa é agressivo em excesso e isso não é muito bom. Brechas defensivas são gritantes em seu jogo, seja deixando o rosto de graça quando solta golpes ou no inexistente jogo de chão demonstrado em sua estadia pelo regional australiano. Justin também não reage bem quando é atingido e sempre se retrai. Extremamente cru, Tafa não inspira muita confiança que irá evoluir no UFC, onde o nível é maior. De positivo, só a potência e a raça – e essa última custa muito caro nesse esporte.

Juan Adams vs Justin Tafa odds - BestFightOdds
 

É uma luta de recuperação para Adams. Tafa, como já dito, não tem o menor nível do UFC e é um forte candidato a um dos piores lutadores atualmente no plantel. Ruim defendendo quedas e em esconder o rosto, Justin tem uma única esperança que é acertar uma mão vadia e nocautear o americano, o que é possível já que Adams também é muito acertável. Só que as chances do Kraken vencer são bem maiores, sendo um nocaute técnico a aposta.

Peso Pena: #14 Mirsad Bektic (BIH) vs. Dan Ige (EUA)

Por Matheus Costa

Mirsad Bektic (13-2 no MMA, 6-2 no UFC) é um dos lutadores mais fortes e mais completos da excelente categoria dos penas. O pelejador bósnio é de confiança, afinal, sempre entrega grandes desempenhos no octógono e suas lutas sempre são de bom nível técnico e de entretenimento – salvo raras exceções. Na décima quarta posição do ranking na categoria de até 66kg, Bektic vem de derrota frustrante para Josh Emmett em julho, quando sofreu um knockdown por um jab e acabou sendo nocauteado no ground and pound ainda no primeiro assalto.

Bektic se destaca pela vasta capacidade técnica que implementa com uma agressividade bem acentuada. Ou seja, no português claro, ele é um homão da porra. Em pé, o lutador possui excelente base no caratê e um boxe de boa qualidade, sempre pressionando seus adversários e controlando o perímetro central do cage, geralmente ditando o ritmo de suas pelejas com bons cruzados e chutes em linha reta. No chão, se destaca pelo wrestling, especialmente pelas ótimas e agressivas quedas aplicadas pelo mesmo, além do jiu-jítsu bem ofensivo e eficaz.

Um dos prospectos em ascensão na categoria dos penas é Dan Ige (12-2 no MMA, 4-1 no UFC). Cria do Contender Series, o lutador de 28 anos, que também é empresário de atletas, estreou com derrota em uma luta apertada para o talentoso Julio Arce em 2018. Desde então, o atleta somou quatro triunfos consecutivos em quatro boas atuações, que serviram para mostrar como argumento de que, sim, Ige não veio para brincar.

Oriundo da luta agarrada, Ige evoluiu bastante no kickboxing para se tornar um lutador bom em todas as áreas. Sua especialidade, de fato, é o wrestling, mas a tendência é que ele tente manter a luta em pé. Canhoto, o americano mostrou um estilo bem violento e agressivo, com fortes chutes, principalmente na linha de cintura,  e a capacidade de criar combinações e ângulos para golpear com suas mãos pesadas. Basicamente, ele gosta de lutas sangrentas. E se ele gosta, nós também gostamos. No chão, seu controle posicional se destaca até pela sua força física, já que o atleta gosta de ficar por cima para descer o sarrafo em quem estiver por lá. Ainda não tivemos um grande teste do lutador no chão, mas não me passa a impressão de que tem qualidade o suficiente para enfrentar Bektic na arte suave.

Dan Ige vs Mirsad Bektic odds - BestFightOdds
 

É importante ressaltar que essa deve ser uma excelente luta e muito equilibrada. Em pé, Bektic já mostra sinais de que seu queixo já está pedindo a conta por suas lutas agressivas, e isso pode ser um ponto muito explorado pelo talentoso Ige. Entretanto, caso a luta se desenrole pela luta agarrada, a tendência é que o bósnio domine as ações, já que passou por cima de grapplers de gabarito. A aposta é no segundo cenário, em uma luta bem equilibrada e emocionante até, mas que Mirsad Bektic tenha seu braço levantado por decisão apertada dos juízes.

Peso Pesado: #6 Derrick Lewis (EUA) vs. #12 LHW Ilir Latifi (SUE)

Por Diego Tintin

Derrick Lewis (22-7 no MMA, 13-5 no UFC) é um lutador melhor do que parece de longe. Mas é só porque, de longe, ele parece bem ruim. Deixando de lado a galhofa, até que, olhando de perto, Lewis tem lá algumas virtudes. Ele parece bem lento, mas próximo de alguns de seus colegas da divisão, pode até parecer que não é tanto assim. É pouco habilidoso, mas perto de algumas barangas desse peso, nem parece tão grosseiro assim (mentira, isso ele sempre parece). Mas, de fato, sua qualidade maior está na força descomunal que consegue concentrar em cada uma das suas patadas violentas. Uma dessas quase arrancou a cabeça de Roy Nelson, em cena inesquecível. O “Black Beast” mandou Alexander Volkov, Marcyn Tibura e Travis Browne para a vala com algumas dessas mãozadas nada agradáveis.

A sua vitória mais importante foi naquela que certamente está entre as piores lutas da história do UFC, contra Francis Ngannou. Este triunfo, somado ao nocaute sobre Volkov, garantiu um inimaginável combate pelo título contra o astro Daniel Cormier. Em luta com uma disparidade técnica enorme, Lewis foi finalizado na metade do segundo assalto, o que pareceu demorado e se deu muito por conta da cautela que sua fama de nocauteador despertou no então campeão. A recuperação de Lewis veio em outra luta monótona contra Blagoy Ivanov.

Ilir Latifi (14-7 no MMA, 7-3 no UFC) também não é o mais versátil ou habilidoso lutador de MMA do mundo, mas, mesmo com limitações, construiu uma carreira muito digna no UFC. Foram algumas vitórias contra a turma do meio de tabela e derrotas pontuais quando poderia se aproximar do pelotão de frente da divisão dos meios-pesados.
O sueco descendente de albaneses pratica luta olímpica desde a infância. Ele foi campeão nórdico júnior no estilo greco-romano e da seletiva europeia do ADCC. O apelido de “Sledgehammer” (Marreta) vem de seus punhos pesados moldados pelo boxe, mas bem utilizados também no ground and pound.

Depois de passar alguns problemas por conta de ser um dos menores meios-pesados da organização, o jóquei de elefante resolveu que era o momento de subir de divisão. Não dá para acusá-lo de falta de coragem. Ilir não tem medo de levar soco na cara e encara o desafio de encurtar a distância para chegar ao clinch. Quando alcança o rosto adversário, no chão ou em pé, é um dos sujeitos mais destruidores e selvagens dentro do UFC. Como dá para imaginar, não é lá muito cuidadoso no aspecto defensivo e todo esse jeitão de ogro não combina com refinamento tático ou estratégico.

Derrick Lewis vs Ilir Latifi odds - BestFightOdds
 

O duelo aqui tem seu charme, além de ser interessante como um primeiro teste profundo, para ver como Latifi se vira contra um oponente tão mais pesado. O sueco até poderia tentar fazer uso da sua base no wrestling, mas isso nunca chegou a acontecer de forma sólida no UFC. Na troca de sopapos, catiripapos e cachações, que é o que deve efetivamente acontecer, a vantagem é do americano: maior, mais forte e com poder de destruição mais comprovado. Com toda aquela ressalva que é feita quando dois nocauteadores de nível mediano se enfrentam (“se a mão entrar” blá blá blá…), a aposta é em um nocaute de Lewis.