Por Edição MMA Brasil | 17/01/2020 10:38

Chegamos ao primeiro evento do UFC no ano de 2020. Trata-se do UFC 246, que chega ao front protagonizando o retorno do irlandês Conor McGregor na luta principal contra Donald Cerrone.

Todavia, o card preliminar do evento chega recheado de lutas interessantes. A luta principal da porção traz um encontro de gerações entre Roxanne Modafferi contra Maycee Barber, pela categoria feminina dos moscas. Outro confronto que chama a atenção é o duelo entre Andre Fili e Sodiq Yusuff, pela categoria dos penas.

Por fim, dois grandes confrontos prometem entregar lutas de ótima qualidade para o fã de MMA. Nos moscas, o ex-desafiante Tim Eliott retorna para enfrentar o talentoso Askar Askarov, enquanto Drew Dober encara Nasrat Haqparast em duelo válido pela categoria dos leves.

Peso Mosca: #7 Roxanne Modafferi (EUA) vs. #9 Maycee Barber (EUA)

Por Idonaldo Filho

Muito querida pelos fãs, Roxanne Modafferi (23-16 no MMA, 2-4 no UFC) é uma das principais pioneiras no MMA feminino e luta profissionalmente desde 2003. Ex-desafiante do Strikeforce, Roxanne também passou pelo Invicta FC e MMA japonês, além de participar duas vezes do TUF. A primeira vez foi no TUF 18, onde chegou a atuar no TUF Finale mas perdeu e foi cortada. No TUF 26, era uma das favoritas e chegou a final após Sijara Eubanks falhar no corte de peso, mas acabou sendo derrotada pela campeã inaugural dos moscas, Nicco Montano. Desde então, seu desempenho é irregular no líder do mercado, com duas vitórias e mesmo número de derrotas.

Modafferi é uma lutadora nada atlética e sem nenhum talento natural para a trocação, onde mostra poder nos punhos mas sem traquejo algum para utilizá-los de forma adequada, muitas vezes atacando de forma pouco ortodoxa ou até mesmo errada e se colocando em situações ruins no combate deixando brechas. Já no grappling Roxanne se destaca bastante, evoluindo no aspecto do wrestling e possuindo um controle posicional e transições efetivas. É uma boa jiujiteira e leva muito perigo no ground and pound. Muito dura, Modafferi também tem na resistência um aspecto positivo.

Muito promissora desde o LFA, Maycee Barber (8-0 no MMA, 3-0 no UFC) é uma monstrinha em um excelente momento. Em ascensão constante, a atleta de apenas 21 anos almeja ser a campeã mais jovem da história do UFC. Sua carreira no evento aconteceu após passar pela peneira do Contender Series com um nocaute técnico. Uma vez dentro da promoção, assegurou três interrupções nas lutas que fez, a primeira na categoria dos palhas. Sua última vitória foi contra a boa Gillian Robertson, encerrando a peleja ainda no primeiro assalto.

Barber conta com um excelente nível atlético e impressionante voracidade nos combates, sempre querendo encerrar o mais rápido possível. A americana conta com punhos poderosos e excelente potencial de interrupção, principalmente atuando no pocket e contando com um trabalho eficiente no clinch, de cotoveladas e joelhadas. O ground and pound é muito perigoso também. O que pode complicar Barber é que como é pouco experiente, é muito propensa a erros, sem falar que o estilo de luta destemido pode até ser eficiente no nível fora dos rankings do evento, mas se torna complicado ao galgar alguns degraus e encarar atletas com mais experiência e noção para explorar as brechas defensivas nítidas na atleta.

Maycee Barber vs Roxanne Modafferi odds - BestFightOdds
 

Eu diria que é uma luta de opostos. Da mesma forma que o nível de experiência é discrepante, o de atleticismo também é. Roxanne mostrou uma evolução gigantesca entre suas passagens no UFC, não sendo nada errado falar que mesmo com 37 anos, ela esteja talvez na melhor forma da carreira. Porém, Barber está em uma fase simplesmente irretocável, contando com uma aura de invencibilidade e aparentando ser realmente parte do futuro da categoria. Um confronto de gerações, a tendência é que tenhamos uma passagem de bastão de forma brutal. Barber deve conseguir o nocaute logo nos primeiros minutos.

Peso Pena: Andre Fili (EUA) vs. Sodiq Yusuff (NIG)

Por Gabriel Fareli

Esperava-se mais de Andre Fili (20-6 no MMA, 8-5 no UFC) quando ele surgiu no UFC. O então prospecto da Team Alpha Male nunca conseguiu ser consistente: vencia os adversários menos habilidosos e, quando enfrentava os oponentes mais promissores ou talentosos da categoria, era derrotado.  Além disso, nunca conseguiu emendar mais do que duas vitórias consecutivas no evento, tabu que Fili vai tentar quebrar na noite de sábado. Mesmo sem conseguir ser regular com as vitórias, Andre Fili sempre proporciona bons e animados combates.

O californiano vem de duas lutas e 100% de aproveitamento no ano de 2019. Venceu Myles Jury mesmo sofrendo alguns sustos e nocauteou Sheymon Moraes no primeiro round. “Touchy” agora tenta emendar a trinca de vitórias para quem sabe conseguir uma vaga no ranking do UFC. O atleta de 29 anos tem um bom e alinhado boxe, usa muito os diretos (que causaram estragos em Myles Jury), usa pouco os chutes baixos e tem a defesa um pouco esburacada. Não à toa, quase entregou a paçoca no final dos dois primeiros rounds contra Jury, justamente por deixar espaços na guarda.

Sodiq Yusuff (10-1 no MMA,  4×0 no UFC) é mais um bom talento oriundo do Contender Series. O atleta de 26 anos já tem quatro lutas e o mesmo número de vitórias no octógono. Lutador explosivo, forte e com mãos rápidas e pesadas, Yusuff é perigoso demais, com golpes pesados que podem acabar com a luta num piscar de olhos como foi na luta com Gabriel Benítez. Usa sua pujança física para encurtar a distância e golpear os adversários e deixa-los de costas para a grade.

Sodiq tem apenas três anos como profissional e terá em Fili, seu primeiro adversário de alto nível no UFC, quiçá ate na carreira. O sarrafo subiu para o nigeriano, e ele precisa mostrar que pode continuar com as vitórias e as boas exibições também contra a parte talentosa que vai começar a se aproximar se ele almeja chegar entre os tops da categoria até 66kg.

Andre Fili vs Sodiq Yusuff odds - BestFightOdds
 

A luta promete ser uma bela pancadaria, com boas e animadas trocas de sopapos. Fili geralmente tropeça quando encontra concorrência de alto nível. Sodic nunca enfrentou alguém do nível de Fili. A aposta aqui é que o lutador nascido em Lagos vá encontrar uma brecha na guarda super vazada do atleta da Alpha Male e nocauteie por volta da metade do segundo round.

Peso Mosca: #7 Tim Elliott (EUA) vs. #12 Askar Askarov (RUS)

Por Gustavo Lima

Aos 33 anos de idade e em sua segunda passagem pelo UFC, a carreira de Tim Elliott (15-9-1 no MMA, 4-7 UFC) se encontra num momento pouco favorável, vindo de lesões, irregularidade e ensaiando uma entrada na fase onde o desempenho dos atletas de MMA costuma embicar pra baixo. Desde que venceu o TUF: Tournament of Champions, o estadunidense não sabe o que é emendar duas vitórias consecutivas. Com 2-3 na atual fase dentro do UFC, o momento mais interessante de Elliott nestes últimos quatro anos pode ter sido o calor que deu em Demetrious Johnson no primeiro round de luta que perdeu por decisão unânime.

Com pouco mais de uma década de rodagem como profissional e um cartel com requintes de journeyman, Elliott é competente o suficiente pra não ser considerado um “qualquer coisa”, mas sempre esteve muito aquém de ser considerado um top de linha – tanto nos moscas como nos galos. Após derrota pra Deiveson Figueiredo, Tim opta por seguir na categoria até 58kg e corre o risco de entrar no facão mais uma vez caso não leve a vitória pra casa: 2-4 é o cartel que o rendeu a dispensa na sua primeira passagem dentro do UFC.

Do outro lado da jaula, estará o empolgante Askar Askarov (10-0-1), que fará sua segunda luta dentro da companhia após debutar com um empate suspeito (e muito divertido) contra Brandon Moreno no último mês de setembro. O russo de 27 anos – ex-campeão do ACB – ainda é cotado pra se tornar um importante nome no peso-mosca do UFC, apesar de seu sistema defensivo carecer de uma sintonia fina, como demonstrado no seu último combate.

Grappler ofensivo por natureza e com jogo que muitas vezes visa explorar posições e caçar finalizações ao invés de optar pela segurança do controle posicional, foi também na luta agarrada que Askarov deu brechas na última luta, situação onde acabou derrubado e controlado por Moreno em momentos decisivos.

A intensidade aplicada por Askarov é uma pedra no sapato de seus adversários, que dificilmente não sucumbem inicialmente ao seu grappling. Todavia, isso aparenta custar algum desempenho tardiamente nos duelos, especialmente quando o russo se vê obrigado a trabalhar na trocação.

A parte interessante desse duelo reside justamente no fato de Elliott ter seu carro-chefe na luta agarrada e contar com um arsenal de finalizações interessante no BJJ. Menos intenso que o oponente, o americano dificilmente não estará por baixo em ao menos um momento dessa luta, mas possui – em tese – ferramentas para reverter situações de adversidade e risco.

Para não ser neutralizado e encaixotado pelo russo, a solução de Elliott pode ser combater fogo com fogo. A luta contra Brandon Moreno mostrou que talvez seja mais fácil adotar uma postura ofensiva e derrubar o próprio Askarov em momentos oportunos do que tentar negar repetidamente as quedas do medalhista de ouro nas Olimpíadas para Surdos de 2017.

Askar é um lutador que gera muitas expectativas e precisa mostrar que, se é um one-trick pony, é um dos bons. Bom a ponto de, mesmo que o que ele faça seja extremamente previsível, seja feito com qualidade e precisão suficientes para que evitá-lo seja tarefa árdua. Tim Elliott tem a experiência ao seu lado, um preparo físico decente e um livro de técnicas que permitem explorar aberturas no jogo de Askarov, porém, há uma dependência muito circunstancial aqui em como isso será aplicado e como a postura de ambos os atletas afetará a dinâmica do confronto.

Brandon Moreno possui agressividade e polimento na luta em pé, por exemplo, que passam longe de Tim Elliott. Embora o americano não seja nenhum bobo, Askarov possui uma pedra a menos no sapato para se preocupar caso tenha uma queda vertiginosa em seu desempenho físico como ocorreu no último combate.

Askar Askarov vs Tim Elliott odds - BestFightOdds
 

Meu veredito é que Askar Askarov possui favoritismo leve por conta da postura que costuma adotar aliada a qualidade do que faz. No caso do gongo soar ao final do terceiro assalto, é o russo que tem mais chances estatísticas de sair com o braço levantado. Elliott luta com o peso de um risco de demissão nas costas, numa divisão onde o corte de peso é um pouco mais complicado que o convencional e sabendo que precisará aliar uma tática perfeita a um desempenho físico sólido para vencer. O “Bullet”, inclusive, está muito mais perto do nível dos atletas que bateram Tim, que dos que foram derrotados por ele – fato que vale a pena ser pontuado neste caso pois há uma distinção muito clara entre o nível dos atletas nas colunas das vitórias e derrotas do estadunidense. Ele possui um teto bem delimitado e claramente Askarov está acima disso.

O russo só não é mais favorito pois se expõe mais do que o necessário, mas deve levar a peleja na decisão dos juízes laterais.

Peso Leve: Drew Dober (EUA) vs. Nasrat Haqparast (ALE)

Por Bruno Costa

Drew Dober (21-9, 1 NC no MMA, 7-5, 1 NC no UFC) chegou ao UFC como striker unidimensional com condicionamento físico discutível, e melhorou a ponto de conseguir ter uma carreira estável e duradoura na categoria mais dura do MMA. Após engrenar uma sequencia excelente de três vitórias consecutivas, chegou perto de vencer uma peleja contra o ex-integrante do ranking Beneil Dariush, mas sucumbiu ao grapping de elite do rival. Voltou a demonstrar bom arsenal ofensivo nocauteado rapidamente Polo Reyes em pouco mais de um minuto de ação.

Um competente kickboxer quando iniciou sua trajetória no UFC, Dober teve sua troca de golpes refinada e melhorou a capacidade de pressionar os adversários, com potentes chutes baixos e boas combinações curtas, levando perigo aos oponentes principalmente na curta distância. O wrestling ofensivo, quase inexistente no início da carreira, melhorou e passou a ser arma constantemente explorada em suas lutas, com boas quedas trabalhadas inclusive partindo do clinch. Contudo, defensivamente Dober ainda demonstra falhas na luta agarrada, que acabaram por lhe custar finalizações nas últimas derrotas sofridas no UFC, mesmo em seu último combate, quando parecia perto de conquistar a maior vitória da carreira contra Beneil Darisuh e acabou sofrendo uma virada após um excelente primeiro round.

Nasrat Haqparast (11-2 no MMA, 3-1 no UFC) estreou no octógono ainda muito cru, recebendo com pouco tempo de preparação a oportunidade de enfrentar um experiente Marcin Held, acabando derrotado. Sem muito carinho por parte dos matchmakers, recebeu logo após a missão de encarar Marc Diakiese e aplicou uma aula de boxe com perfeito controle de distância para sair vencedor e iniciar a atual sequência de três vitórias – que incluem um triunfo sem sustos contra Thibault Gouti e um lindo nocaute contra o agressivo e resistente porradeiro Neto BJJ.

Haqparast é um dos melhores prospectos da divisão mais encardida do MMA e tem impressionado demonstrando domínio de todas as áreas do esporte. Com ótimo controle de distância ajudado pelo footwork em nível acima da média e mãos muito velozes, o alemão alia a essas qualidades condicionamento físico de elite para suportar o ritmo acelerado em que gosta de levar seus combates. Além da ótima trocação, demonstrou ter boas qualidades no wrestling ofensivo para utilizar potente ground and pound se necessário. Defensivamente, Haqparast também demonstra solidez acima do que se espera para lutadores de sua idade, com ótima noção de clinch e boa defesa de quedas – em especial por não se expor em excesso com golpes muito potentes lançados ao vento, lição bem aprendida após a derrota para Held.

Drew Dober vs Nasrat Haqparast odds - BestFightOdds
 

O combate entre Dober e Haqparast promete muita ação. Ambos tem predileção pela luta em pé, e embora o alemão seja tecnicamente mais completo, Dober fica bastante confortável trocando golpes na curta distância, um cenário provável para alguns momentos do combate e que garante mais um bom teste para a defesa do prospecto alemão. Além dos potentes possíveis contragolpes no pocket, não é fácil visualizar um cenário em que Dober possa ter vantagens na luta, uma vez que Haqparast é melhor trocador e faz melhor também as transições para levar o combate ao solo ou mesmo se defender de possíveis ataques do americano. A tendência aqui é que Haqparast continue demonstrando sua evolução como lutador e consiga evitar os contragolpes letais de Dober por 15 minutos, variando suas ações e utilizando-se da caixa de ferramentas mais vasta do que a de seu duro oponente, levando a vitória por decisão em um embate cheio de entretenimento.