Por Edição MMA Brasil | 01/11/2019 12:31

A tradicional viagem do UFC para Nova York (concrete jungle where dreams are made of. There’s nothing you can’t do…) também costuma carregar combates animados em sua porção preliminar. A principal delas no UFC 244 será o teste de fogo para o ascendente brasileiro Johnny Walker, que encara Corey Anderson no peso meio-pesado.

Além deles, Shane Burgos e Makwan Amirkhani prometem uma luta movimentada no peso pena, e o incansável Andrei Arlovski pega o surinamês Jairzinho Rozenstruik, que busca adicionar o maior nome da carreira ao seu cartel.

Peso Meio-Pesado: #7 Corey Anderson (EUA) vs. #11 Johnny Walker (BRA)

Por Diego Tintin

Quando Corey Anderson (12-4 no MMA, 9-4 no UFC) venceu com autoridade o TUF 19, parecia que o esvaziado peso meio-pesado tinha recebido um produto de boa qualidade com pretensões ambiciosas. O pupilo de Ricardo Cachorrão até faz uma escalada decente na divisão, porém ainda transparece uma certa falta de confiança em duelos mais badalados que poderiam carimbar o seu passaporte para a elite. Mesmo com motivos para reclamar dos juízes na derrota para Mauricio Shogun, não tem desculpas para suas próprias decisões ruins contra Jimi Manuwa e Ovince Saint-Preux que lhe causaram doloridas derrotas. Pelo menos vem se recuperando com sólidas vitórias sobre Ilir Latifi e Glover Teixeira.

O jogo do “Overtime” é baseado no bom e velho lay and pray, que consiste em derrubar o oponente, controlar a posição com cautela e esperar o tempo passar. Não tem muito poder de nocaute, apesar de esbanjar força física, esta se faz mais presente na luta agarrada por conta da técnica pouco refinada na luta em pé. Embora tenha sofrido três nocautes no UFC, o queixo costuma aguentar bem o tranco em situações normais e foi importante na vitória sobre Latifi. O preparo físico já foi testado e aprovado, considerando a baixa exigência deste aspecto nesta categoria de peso.

Johnny Walker (17-3 no MMA, 3-0 no UFC) passou um total de dois minutos e quarenta e oito segundos no octógono, enquanto seus três oponentes desabavam babando ao fim destes encontros. Revelado no Contender Series Brasil, o garoto de Belford Roxo teve movimentada carreira no MMA nacional até tentar a sorte em pequenos eventos ingleses e até em uma organização belga. Contrato assinado com o UFC, tratou de despachar os limitados Khalil Rountree Jr e Justin Ledet, além do perigoso – embora acessível – Misha Cirkunov.

O camarada com nome de marca de uísque é muito forte e parece ter o porte físico longilíneo moldado especialmente para lutar MMA. Possui bom domínio corporal e de movimentos, que aliados a reflexos bem apurados, formam um sistema de ataque muito perigoso para esta divisão. No lado mental, parece não sentir a pressão e ter alta confiança, demonstrando tranquilidade e naturalidade antes, durante e depois das suas lutas. Resta saber como reagirá fisicamente e mentalmente em situações adversas, uma vez que nem todas as suas lutas serão resolvidas em um minuto. Em resumo, ele já mostrou que sabe aproveitar as facilidades e resta a dúvida se poderá superar as inevitáveis dificuldades.

Corey Anderson vs Johnny Walker odds - BestFightOdds
 

O legal deste duelo é que não dá para afirmar que Walker finalmente terá um teste de verdade. Anderson é indiscutivelmente melhor que as tranqueiras que o brasileiro mandou para a vala, porém plenamente capaz de dar o mole que Johnny precisa para transformá-lo em estatística. Só que o irregular estadunidense também tem jogo para levar o prospecto da baixada fluminense para um passeio em águas profundas e testar sua resiliência e condicionamento. Mais que uma previsão, a torcida é por uma luta mais exigente, para que Johnny possa lidar com situações menos favoráveis e tirar a carteirinha do top 10 com uma vitória menos meteórica.

Peso Pena: #12 Shane Burgos (EUA) vs. Makwan Amirkhani (FIN)

Por Gustavo Lima

Shane Burgos (12-1) tem sido dentro do cage um dos nomes mais barulhentos dessa renovação pela qual o peso pena do UFC passou nos últimos quatro ou cinco anos. Dono de cinco vitórias dentro da organização e apenas uma derrota – para o igualmente promissor Calvin Kattar -, o atleta da Tiger Schullmann’s MMA vive agora a fase de transição entre promessa e realidade, batalhando para marcar território no top 15 da divisão e se provar contra a nata do MMA mundial até 66kg.

O desafio contra o finlandês Makwan Amirkhani é, no mínimo, inusitado, visto que o “Hurricane” vem de vitória consistente sobre o interminável Cub Swanson, o que já deveria o ter credenciado para um confronto com um nome mais consagrado. Burgos tem bom nível e potencial, sendo um lutador de aposta quase unânime sobre qualquer lutador de meio de tabela da divisão. Com pouco mais de uma década de carreira, período de transição no MMA amador e já criado e versado no mix-up das artes mistas.

Makwan Amirkhani (15-3 MMA, 5-1 UFC) se encontra numa posição virtualmente idêntica a de Burgos dentro da companhia, mas acaba sendo relegado a uma condição um pouco mais baixa ao fazermos uma análise qualitativa um pouco mais desenvolvida de suas respectivas qualidade e carreiras. O finlandês, que chegou ao UFC fazendo barulho com um baita nocaute sobre Andy Ogle, seguido de finalização em Masio Fullen, já não desfruta do mesmo glamour de outrora após atuações abaixo da média contra Arnold Allen (derrota) e Jason Knight (essa até vencida por decisão dividida).

Com pano de fundo calcado no wrestling mas longe de ser um lutador que alicerça sua estratégia de luta na luta agarrada, o “Mr. Finland” tem o perfil de um lutador completo e arrojado, mas chama muito mais atenção pela agressividade e força do que pelo polimento técnico. Já são dois anos da derrota para Arnold Allen, mas na ocasião, as credenciais de Makwan se mostraram insuficientes para superar o inglês – striker de origem – não só em pé como também no chão.

Burgos possui atuações melhores contra nomes melhores até aqui, fazendo jus a posição que ocupa na divisão sob a luz de uma análise criteriosa. Por mais que ainda falte muito a provar, o estadunidense tem qualidades perigosas a muitos atletas nos penas, especialmente seu striking volumoso, encurralante e inteligente. Em franco processo de maturação, Burgos mostrou evolução defensiva e tática contra Swanson – depois de despachar Kurt Holobaugh com uma chave de braço no primeiro round.

Como dito anteriormente, Shane não é o tipo de atleta que precisa fugir a todo custo da luta agarrada por ter credenciais sólidas e experiência no terreno. O novaiorquino tem cinco vitórias por finalização em seu histórico e dificilmente será aterrorizado por Amirkhani no chão, especialmente pelo fato de que o finlandês costuma perder força e volume nos estágios finais da luta. Makwan nunca foi um bicho papão no wrestling dentro do cage e precisaria chegar no mínino perto disso para colocar Burgos como presa – o americano defendeu 94% das tentativas de queda sofridas no octógono até aqui.

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Na base da movimentação e do volume, tendo ferramentas para suprimir as valências de Amirkhani, Burgos é favorito por margem considerável nesse duelo. Mesmo que Makwan tenha qualidades notáveis, seria um tanto fora da casinha colocá-lo como um perigo em potencial ao adversário deste sábado. Shane luta para chegar no topo da categoria, enquanto o “Mr. Finland” ainda precisa provar que merece bater de frente com esses caras (a chance está na mão).

Meu veredito é Shane Burgos (botaria oito fichas nele, só duas em Amirkhani), provavelmente numa decisão unânime maiúscula e tranquila.

Peso Pesado: Andrei Arlovski (BIE) vs. Jairzinho Rozentruik (SUR)

Por Tiago Paiva

Infelizmente incansável no alto de seus 40 anos, o bielorrusso Andrei Arlovski (28-18 no MMA, 17-12 no UFC) vai para o seu 31º combate no maior evento de MMA do mundo. O “Pitbull” deu fim à uma sequência de quatro derrotas consecutivas — oficialmente três, visto que a derrota por decisão dividida para Walt Harris foi revertida para sem resultado após este cair no antidoping — derrotando o também interminável Ben Rothwell em julho deste ano.

Em algum momento do passado poderíamos estar falando de um nocauteador visceral, dotado de um refinado e potente jogo em pé com vigor físico exemplar para a divisão, além de um jogo de chão justo, versado no sambô. Poderíamos. O Arlovski de 2019 não é uma baranga inapta a prática esportiva profissional como alguns nomes da categoria dos pesos-pesados, mas não é mais nem sombra do que foi em seu auge.

Para não ficarmos apenas em farpas, vale destacar que o bielorrusso conseguiu evoluir seu sistema defensivo nos últimos tempos, evitando que seu combalido queixo seja atingido. Agora, ao invés de brutais knockdowns e nocautes como os sofridos para Stipe Miocic, Alistair Overeem, Francis Ngannou e Josh Barnett, o maior cuidado defensivo fazem que o mesmo seja derrotado (ou acidentalmente vença) em decisões modorrentas.

Qual a melhor (risos) opção possível a fazer com um veterano quarentão que já foi nocauteado dez vezes na carreira? Definitivamente não é colocá-lo contra um jovem porradeiro invicto que tem quase todas suas vitórias por nocaute. Obviamente é isso que fez Mick Maynard, matchmaker da divisão dos pesados do UFC.

Em seu último combate, o surinamês Jairzinho Rozenstruik (8-0 no MMA, 2-0 no UFC) precisou de apenas quatro socos e nove segundos para liquidar a fatura. Pra ter noção do peso da mão da criança, o que abriu a porteira e levou o pobre Allen Crowder à lona foi um famigerado jab vadio.

O “Bigi Boy” tem 31 anos e é um veterano da luta em pé, já tendo feito combates profissionais de muay thai e kickboxing, inclusive já nocauteou Benjamin Adegbuyi, vice-campeão do Grand Prix de 2018 do Glory. Jairzinho é bastante explosivo, tem mãos rápidas e precisas, além de bons chutes e joelhadas. Em contrapartida, a luta agarrada é inexistente e a defesa de quedas se baseia na ignorância e na força bruta. O gás também se mostra deficiente, minguando — para surpresa de zero pessoas — quando o peso pesado não consegue a via rápida dolorosa nos minutos iniciais.

Andrei Arlovski vs Jairzinho Rozenstruik odds - BestFightOdds
 

Arlovski será o lutador mais experiente e com a melhor trocação que Rozenstruik irá enfrentar na carreira. O que isso quer dizer para nosso prognóstico? Quase nada. Embora tenha demonstrado mais desenvoltura ao se proteger e ser mais cerebral na medida do possível em seus últimos compromissos, o “Pitbull” deverá sucumbir à combinação de bom nível de kickboxing com dinamite nas mãos do surinamês, embora a possibilidade do mesmo cansar e entregar a paçoca a partir do segundo round é sempre presente. Mesmo com isso dito, vamos de Jairzinho Rozenstruik por nocaute no primeiro assalto.