Por Edição MMA Brasil | 04/10/2019 02:12

O MMA nunca foi tão grande na Oceania. Neste sábado, o menor continente do mundo verá dois de seus representantes disputando o maior título do mundo do MMA. O Marvel Stadium, situado em Melbourne, no sudoeste da Austrália, será palco do UFC 243, evento capitaneado pela unificação do cinturão do peso médio da organização.

Em sua primeira defesa oficial, o campeão Robert Whittaker, nascido da Nova Zelândia e naturalizado australiano, encara o detentor do cinturão interino, Israel Adesanya, que nasceu na Nigéria e se naturalizou neozelandês.

Um combate importante no desenvolvimento do ranking do peso leve vai envolver o local Dan Hooker, 15º colocado, contra o americano Al Iaquinta, número seis da lista. Entre os pesados, o australiano Tai Tuivasa, 14º do ranking, encara Sergey Spivak, que luta para desfazer a má impressão da estreia.

O UFC 243 terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O primeiro combate preliminar acontece às 20:00h, enquanto o card principal vai ao ar a partir das 23:00, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Médio: C Robert Whittaker (AUS) vs. CI Israel Adesanya (NIG/NZL)

Por Alexandre Matos

Da conquista do TUF Smashes até hoje, Whittaker (20-4 no MMA, 11-2 no UFC) viveu momentos de altos e baixos. Como meio-médio, no começo da carreira, venceu três e perdeu duas. Então decidiu voltar ao peso médio e, a despeito das dúvidas a respeito de seu tamanho, enfileirou corpos e se tornou um dos melhores e mais empolgantes lutadores do mundo em qualquer peso. No caminho, conquistou o cinturão em duas disputas épicas contra Yoel Romero, especialmente a última, que deve ter lhe custado alguns anos de vida sadia.

Do começo, restou a agressividade, que antes era patológica, mas agora é cuidadosamente mantida para liberar o inferno em momentos oportunos. “Bobby Knuckles” é um boxeador muito rápido, com combinações duras, especialmente na curta distância. Ali no pocket, ele tem a consciência de raciocinar sob tiroteio, o que faz dele um terror para os adversários. Seja movimentando a cabeça ou com o shoulder roll que desenvolveu, Whittaker consegue ser pouco atingido enquanto enche a concorrência de porrada. Mesmo quando sua defesa é vazada, o queixo de titânio e o coração do tamanho do mundo seguram a onda. Bobby é capaz de executar chutes rápidos dentro das sequências e tem um sólido wrestling, tanto ofensivo quanto principalmente defensivo, que ainda é subestimado por muitos.

A ascensão de Adesanya (17-0 no MMA, 6-0 no UFC) no UFC foi meteórica. Ele está há apenas um ano e meio na organização e já ostenta o título interino desde abril. Encarou lutador ranqueado na terceira aparição no octógono e só fez subir. Passou por Brad Tavares, nocauteou um amedrontado Derek Brunson, mostrou respeito pelo veterano Anderson Silva e triunfou na melhor luta do ano até aqui diante de Kelvin Gastelum, que valeu a coroa interina.

Dono de um respeitável retrospecto no kickboxing profissional, Adesanya importou a plasticidade de seu estilo para o MMA. No novo esporte, o africano se tornou um mestre do controle de distância e da precisão dos golpes matadores. Israel não é daqueles lutadores de alto volume, mas se aproveita do gigantesco alcance para manter os oponentes onde quer. Defensivamente, conta com a movimentação e o jogo de pernas tanto para evitar ser agarrado e derrubado quanto para desviar os golpes dos rivais. Porém, se complicou um tanto com a velocidade de Gastelum, o que é um alerta enorme para o duelo deste sábado.

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O velho (na verdade, o jovem) Whittaker seria uma presa fácil para Adesanya, como foi para Stephen Thompson. Afobado, o australiano eventualmente cometeria um erro de movimentação e seria traçado pelo nigeriano-neozelandês. No entanto, os tempos mudaram.

Whittaker hoje tem queixo, coragem, velocidade e talento para penetrar no raio de ação de Adesanya e fazê-lo sofrer. Quanto mais próximos eles estiverem, menos o kickboxing de Adesanya será funcional e mais o inside boxing de Whittaker trará frutos. Os ganchos e uppercuts serão preciosos para o campeão, que deve contar com saídas em pêndulo para as laterais do desafiante. Dali, Whittaker pode ser o primeiro a realmente ameaçar Adesanya com quedas providenciais.

A pergunta que fica é: o quanto da saúde atlética do campeão linear Romero tirou? Se estiver com a capacidade de encaixe combalida, Whittaker pode ser nocauteado por um dos movimentos quase mágicos de Adesanya. Se não for este o caso, Adesanya terá que aumentar o fluxo de golpes e ser o mais elusivo possível na movimentação para impedir que Whittaker se aproxime.

Neste jogo de xadrez entre o striking tradicional e o striking voltado para o MMA, fico com a segunda opção, com Whittaker unificando os cinturões em mais uma batalha para as eras.

Peso Leve: #6 Al Iaquinta (EUA) vs. #15 Dan Hooker (NZL)

Por Thiago Kuhl

Al Iaquinta (14-5-1 no MMA, 9-4 no UFC) está em um momento de carreira muito mais “agitado” do que no passado. Desde que voltou do longo hiato de dois anos sem lutar, por lesões e brigas com seu empregador, Raging Al venceu Diego Sanchez e entregou alguma dificuldade – ao menos aparente – para o campeão Khabib, ao cair de paraquedas em uma luta pelo título. Depois , se firmou ao vencer pela segunda vez o ascendente Kevin Lee e, em sua última aparição no octógono, sofreu nas mãos do interminável Cowboy Cerrone, em uma das melhores lutas do ano de 2019. O atual momento pode não ser o mais positivo, mas Al parece finalmente estar entre os integrantes do topo do peso, como sempre se esperou do pupilo da Serra-Longo MMA.

O nova-iorquino surgiu para os olhos do grande público como o grande favorito do TUF: Live por um motivo: o seu jogo completo e moldado ao MMA. Criado no sistema de Pat Miletich e afiado por Ray Longo e Matt Serra, Al consegue jogar bem em todas as vertentes do MMA. Seja em pé, com um kickboxing interessante, consegue impor pressão e volume sobre seus adversários, tem capacidade de fazer entradas e saídas rápidas. Além disso, apresenta potência e varia bem as combinações. No grappling, tem boas entradas de queda e consegue fazer um controle posicional até que decente. O problema do seu jogo reside mais no lado defensivo. Em pé, por vezes, inclusive em sua última luta, acaba sofrendo muito com chutes e por parar no “mata-burro” ao decidir fazer combinações muito longas. No chão, não aprimorou tão bem a defesa de finalizações, o que dificilmente deve atrapalha-lo no sábado.

Dan Hooker (18-8 no MMA, 8-4 no UFC) confirmou a boa fase ao nocautear brutalmente James Vick no primeiro round no último mês de julho. O neozelandês vem de cinco vitórias em seis lutas, todas feitas nos últimos 30 meses, o que fez com que escalasse rapidamente o ranking do encardido peso leve, inclusive chegando à flertar com a elite quando enfrentou o brasileiro Edson Barboza, que foi responsável pela sua única derrota no período. Antes da derrota para o friburguense, dois nocautes no primeiro assalto, um contra Durinho e outro sobre Jim Miller o deixaram dentro do ranking da categoria.

Violência define o estilo do striking de Daniel. Ele faz um jogo de trocação muito eficiente e oportunista. Tem a tendencia de colocar seus adversários numa panela de pressão ao encontrar brechas para colocar seus potentes golpes, que lhe renderam 10 nocautes na carreira. Se no passado não apresentava bom volume ou variação de golpes, o que dificultou um pouco sua caminhada, hoje já consegue impor o seu jogo sobre grande parte dos adversários. Para ajudar, a luta contra Edson apresentou outra faceta de Hooker: o queixo de titânio. Basicamente, ele consegue ligar o modo “zumbi” e continuar andando para frente seja lá com quem for a batalha.

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Não me parece muito difícil de prever o caminho que Iaquinta tem que tomar para deixar a luta mais ao seu feitio. Buscar o clinch e o solo contra Hooker parece o mais inteligente, considerando que Dan não é dos grapplers mais geniais da divisão. O problema aqui é que o neozelandês é oportunista e pode achar uma finalização se Al der brechas. Em pé, as vantagens físicas de Hooker podem trazer as mesmas dificuldades para Iaquinta que Cerrone conseguiu impor, porém há muito talento do lado do americano.

Mesmo com dificuldade de apostar nessa luta, irei com Hooker, pensando que eventualmente as brechas defensivas de Al vão cobrar seu preço.

Peso Pesado: #14 Tai Tuivasa (AUS) vs. Sergey Spivak (UCR)

Por Idonaldo Filho

Jovem peso pesado australiano, Tai Tuivasa (10-2 no MMA, 3-2 no UFC) vem em péssima sequência de duas derrotas e recebe um adversário não ranqueado na tentativa de recuperação. Aos 26 anos, o gordinho conhecido por tomar cerveja em sapatos alheios foi nocauteado por Junior Cigano e amarrado pelo duro Blagoy Ivanov. Devido ao estado da categoria nos dias de hoje, Tuivasa é um prospecto decente e que tem seu valor no mercado local.

Tuivasa teve início nos esportes no rugby union, mas o vício em apostas acabou o afastando do tradicional jogo inglês. Ele então veio para o MMA. Muito bruto, Tuivasa aproveita a jovialidade e certo ímpeto inicial para perseguir os adversários e conseguir o nocaute. Tai é resiliente, possui poder significativo nos punhos e também já ameaçou com joelhadas voadoras. No chão, mostrou total inaptidão por baixo. Defensivamente ainda é verde, o que é normal para alguém tão novo numa divisão bastante envelhecida.

Sergey Spivak (9-1 no MMA, 0-1 no UFC) foi apontado como um dos principais prospectos do cenário regional pelo MMA Brasil na série de textos De Olho no Futuro não por pouco. O ucraniano dominou todos os adversários que teve no bom evento WWFC – no qual foi campeão –, incluindo atletas muito mais experientes como os folclóricos Tony Lopez e Travis Fulton, que vem a ser o sujeito com mais lutas disputadas na história do esporte (321 combates).

A estreia de Spivak no UFC foi horrível e nada condizente com o que mostrou fora do octógono, aparentando até mesmo um pouco assustado na luta contra Walt Harris. Spivak foi nocauteado rapidamente depois de entrar no combate de última hora. Seu principal talento é na disputa no clinch, mostrando habilidade no dirty boxing. O grappling em geral é bom e o jogo de quedas ainda pode ter algumas melhorias. Decente em pé, Spivak sempre foi agressivo e potente, mas mostrou timidez em sua última luta. A pouca idade (somente 24 anos), defesa ainda em construção e a decepcionante estreia preocupam um pouco.

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Acredito que o UFC esteja colocando Sergey como boi de piranha neste combate, mas isso pode dar bem errado.

O ucraniano é talentoso, apesar de não inspirar muita confiança. O casamento também é ruim já que Tuivasa é bem grande e intimidador, assim como Walt Harris. A aposta é que veremos uma luta arrastada e que Tuivasa leve na decisão, tendo em vista sua maior experiência no alto nível do esporte e a vantagem física.